José Eli da Veiga

>   Evolução Darwiniana e Ciências Sociais

Artigos, teses e publicações

Compartilhar

José Eli da Veiga
>   Evolução Darwiniana e Ciências Sociais



A pertinência dos conceitos darwinianos para as ciências sociais continua a ser uma questão bem controversa. Apesar de o biólogo Ernest Mayr (1904-2005) ter alertado, desde 1964, que a estrutura conceitual do darwinismo é um sistema filosófico, foram necessárias três décadas para que se começasse a nela reconhecer uma teoria geral dos sistemas evolutivos como categoria específica dos sistemas adaptativos complexos. E, mesmo entre os que passaram a pensar tecnologia, economia, sociedade e cultura em termos evolucionários, permanece o debate sobre a pertinência parcial ou universal do trinômio variação/seleção/replicação.

A dificuldade em reconhecer a aplicação dessa teoria na análise do desenvolvimento das sociedades humanas talvez se deva a três diferenças fundamentais entre a evolução biológica e a mudança cultural. A mais óbvia está na enorme capacidade que tem a cultura — e que falta à natureza — para a rapidez exponencial. No que pode ser comparado a um piscar de olhos do ponto de vista da história geológica, a mudança cultural transformou a superfície do planeta como nenhum acontecimento da evolução natural jamais poderia ter conseguido na escala darwiniana de miríades de gerações, mesmo que se considere que o período Cambriano possa ser comparável à revolução científica iniciada em 1750.

Em segundo lugar, a evolução darwiniana é essencialmente uma história de proliferação contínua. Quando uma espécie se separa de sua linha ancestral, isso é irreversível. As espécies não se amalgamam ou se juntam com outras. Elas interagem em imensa variedade de ecossistemas, mas não podem se juntar fisicamente em uma única unidade reprodutiva. Ou seja, a evolução natural é essencialmente um processo de constante separação e distinção, ainda que a hibridação de espécies (cruzamento de indivíduos com genótipos diferentes) possa ser um mecanismo de especiação. Por outro lado, a mudança cultural pode receber poderoso reforço do amálgama de diferentes tradições ou da troca de informações entre elas. O impacto explosivamente útil (ou destrutivo) de tradições compartilhadas fornece à mudança cultural humana algo inteiramente desconhecido no lento e imprevisível mundo da evolução darwiniana

Em terceiro lugar, os organismos não calculam o que seria melhor para eles, nem desenvolvem características adaptativas durante suas vidas, que seriam transmitidas aos descendentes sob a forma de uma hereditariedade alterada. Essa foi uma das principais suposições de Lamarck. Entretanto, como logo depois demonstrou Mendel, a herança natural nada tem dessa suposição lamarckiana. Nas sociedades humanas, porém, qualquer conhecimento adquirido em uma geração pode passar diretamente para a seguinte por "mero" aprendizado. E foi exatamente por isso que se adotou a fórmula didática de dizer que a mudança cultural é "lamarckiana". A herança dá às inovações humanas um caráter direcional e cumulativo que é absolutamente estranho à teoria darwiniana da evolução. Como gostava de enfatizar o paleontólogo Stephen Jay Gould, a evolução natural não abrange nenhum princípio de progresso previsível, ou de movimento no sentido de uma maior complexidade. A mudança cultural, ao contrário, é potencialmente progressiva ou autocomplexificadora, pois permite o acúmulo de inovações favoráveis mediante transmissão direta e amálgama de tradições. Isso possibilita que qualquer cultura escolha e junte as invenções mais úteis de diversas sociedades separadas.

Pois bem, aí está um bom exemplo da controvérsia. Os economistas Geoffrey M. Hodgson e Thorbjørn Knudsen(1) contestam a pertinência dessa fórmula largamente aceita de analogia entre mudança cultural e lamarckismo. Segundo a dupla, só se poderia qualificar alguma herança como lamarckiana se caracteres adquiridos no nível fenotípico fossem codificados no genótipo que passa para a geração seguinte. Por isso, estaria errada a alusão à doutrina de Lamarck para o que chamam de "evolução socioeconômica", mesmo que alguns genótipos sociais — como hábitos e rotinas — possam se adaptar em um fenótipo qualquer, como uma organização, por exemplo. Em contraste, nenhum problema desse tipo existiria, segundo eles, para uma descrição propriamente darwiniana da "evolução socioeconômica".

Esse é um dos principais motivos de discórdia entre os que consideram pertinente o uso de conceitos darwinianos nas ciências sociais, como mostram, por exemplo, as questões básicas selecionadas para o workshop interdisciplinar "Evolutionary Concepts in Economics and Biology", organizado em dezembro de 2004 pelo Instituto Max Planck de Economia.(2) Quatro dos trabalhos ali apresentados, que estão no número de outubro de 2006 do "Journal of Evolutionary Economics", dedicam-se à questão da universalidade do darwinismo. Como diz a própria expressão, trata-se de uma pretensão de validade geral para a já mencionada trinca: variação, seleção e retenção (ou replicação). Além disso, a própria questão das "unidades de seleção" continua muito polêmica. Para Richard Dawkins, por exemplo, elas são os "memes", enquanto para Richard Nelson são as "rotinas", e para Robert Boyd, as "variantes culturais".(3)

E não se trata apenas de uma "invasão" da biologia em domínios sociais e culturais. Está em curso, na verdade, um processo bem mais amplo, como mostra a apresentação sistemática de Ricardo Waizbort(4) de duas fortes tendências: a psicologia evolutiva, herdeira da controvertida sociobiologia, e o programa de pesquisa dos memes, uma investigação ainda incipiente que pretende tratar a informação cultural e as próprias tradições como complexos de idéias que se reproduzem via cérebros humanos. Para se compreender o comportamento humano de forma mais integrada e em mais dimensões, enfatiza Waizbort, são fundamentais os estudos da interação entre constituição genética e ambiente, instinto e aprendizagem, genes e memes, natureza e cultura.

Enfim, não é necessário ir mais longe para justificar a necessidade de um esforço concentrado de esclarecimento das questões envolvidas nesses debates. Foi com esse objetivo que o Núcleo de Economia Socioambiental da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP e o IEA firmaram parceria para realizar ao longo de 2007 o Ciclo Temático Evolução Darwiniana e Ciências Sociais.

O ciclo terá debates mensais, sempre com mesas híbridas (um pesquisador das ciências naturais ao lado de outro das sociais). A intenção é que o conjunto de debates permita estabelecer uma espécie de "estado da arte" no âmbito das implicações do darwinismo para as ciências sociais (e não apenas para a economia). O primeiro evento será no dia 22 de março, às 15h, no IEA, com a participação do biólogo Ricardo Waizbort (Fiocruz) e do sociólogo Carlos Alberto Dória (Unicamp).

 

Notas

1. Geoffrey M. Hodgson & Thorbørn Knudsen, "Dismantling Lamarckism: Why Descriptions of Socio-Economic Evolution as Lamarckian Are Misleading", in Jornal of Evolutionary Economics, nº 4, vol. 16, outubro de 2006, pp. 343-66.

2. Três questões básicas orientaram esse workshop: "What precisely may be the relevant insights from evolutionary biology for evolution in the cultural sphere, particularly in the domain of economics? What role do cultural forms of adaptation play? What general, unifying insights and principles, if any, can be gained from interdisciplinary dialogue?".

3. Cf. Eric D. Beinhocker, The Origin of Wealth. Evolution, Complexity, and the Radical Remaking of Economics, Boston, Harvard Business School Press, 2006, p. 284.

4. Ricardo Waizbort, Notas para uma Aproximação entre o Neodarwinismo e as Ciências Sociais, in História, Ciência, Saúde — Manguinhos, nº 2, vol. 12, maio-agosto de 2005, pp. 293-318.

* José Eli da Veiga é professor titular do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP e coordenador do Núcleo de Economia Socioambiental (Nesa) do mesmo departamento.

 

Fonte: http://www.iea.usp.br/iea/evoluciensociais.html

 


topo