DRAUZIO VARELLA
- Craqueiras
e craqueiros -
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Não seria mais sensato construir clínicas
pelo país com pessoal treinado para lidar com dependentes?
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A CONTRAGOSTO, sou daqueles a favor da internação compulsória
dos dependentes de crack.
Peço a você, leitor apressado, que me deixe explicar, antes
de me xingar de fascista, de me acusar de defensor dos hospícios
medievais ou de se referir à minha progenitora sem o devido respeito.
A epidemia de crack partiu dos grandes centros urbanos e chegou às
cidades pequenas; difícil encontrar um lugarejo livre dessa praga.
Embora todos concordem que é preciso combatê-la, até
aqui fomos incapazes de elaborar uma estratégia nacional destinada
a recuperar os usuários para reintegrá-los à sociedade.
De acordo com a legislação atual, o dependente só
pode ser internado por iniciativa própria. Tudo bem, parece democrático
respeitar a vontade do cidadão que prefere viver na rua do que
ser levado para onde não deseja ir. No caso de quem fuma crack,
no entanto, o que parece certo talvez não o seja.
No crack, como em outras drogas inaladas, a absorção no
interior dos alvéolos pulmonares é muito rápida:
do cachimbo ao cérebro a cocaína tragada leva de seis
a dez segundos. Essa ação quase instantânea provoca
uma onda de prazer avassalador, mas de curta duração,
combinação de características que aprisiona o usuário
nas garras do traficante.
Como a repetição do uso de qualquer droga psicoativa induz
tolerância, o barato se torna cada vez menos intenso e mais fugaz.
Paradoxalmente, entretanto, os circuitos cerebrais que nos incitam a
buscar as sensações agradáveis que o corpo já
experimentou permanecem ativados, instigando o usuário a fumar
a pedra seguinte, mesmo que a recompensa seja ínfima; mesmo que
desperte a paranoia persecutória de imaginar que os inimigos
entrarão por baixo da porta.
A simples visão da droga enlouquece o dependente: o coração
dispara, as mãos congelam, os intestinos se contorcem em cólicas
e a ansiedade toma o corpo todo; podem surgir náuseas, vômitos
e diarreia.
Quebrar essa sequência perversa de eventos neuroquímicos
não é tão difícil: basta manter o usuário
longe da droga, dos locais em que ele a consumia e do contato com pessoas
sob o efeito dela. A cocaína não tem o poder de adição
que muitos supõem, não é como o cigarro cuja abstinência
leva o fumante ao desespero esteja onde estiver.
Vale a pena chegar perto de uma cracolândia para entender como
é primária a ideia de que o craqueiro pode decidir em
sã consciência o melhor caminho para a sua vida. Com o
crack ao alcance da mão, ele é um farrapo automatizado
sem outro desejo senão o de conseguir mais uma pedra.
Veja a hipocrisia: não podemos interná-lo contra a vontade,
mas devemos mandá-lo para a cadeia assim que ele roubar o primeiro
transeunte.
A facção que domina a maioria dos presídios de
São Paulo proíbe o uso de crack: prejudica os negócios.
O preso que for surpreendido fumando apanha de pau; aquele que traficar
morre. Com leis tão persuasivas, o crack foi banido: craqueiras
e craqueiros presos que se curem da dependência por conta própria.
Não seria mais sensato construirmos clínicas pelo país
inteiro com pessoal treinado para lidar com dependentes? Não
sairia mais em conta do que arcar com os custos materiais e sociais
da epidemia?
É claro que não sou ingênuo a ponto de acreditar
que, ao sair desses centros de tratamento, o ex-usuário se tornaria
cidadão exemplar; a doença é recidivante. Mas pelo
menos ele teria uma chance. E se continuasse na cracolândia?
E, se ao receber alta contasse com apoio psicológico e oferta
de um trabalho decente, desde que se mantivesse de cara limpa documentada
por exames periódicos rigorosos, não aumentaria a probabilidade
de permanecer em abstinência?
Países, como a Suíça, que permitiam o uso livre
de drogas em espaços públicos, abandonaram a prática
ao perceber que a mortalidade aumenta. Nós convivemos com cracolândias
a céu aberto sem poder internar seus habitantes para tratá-los,
mas exigimos que a polícia os prenda quando nos incomodam. Existe
estratégia mais estúpida?
Faço uma pergunta a você, leitor, que discordou de tudo
o que acabo de dizer: se fosse seu filho, você o deixaria de cobertorzinho
nas costas dormindo na sarjeta?
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1607201131.htm
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