Espiritualidade e Sociedade



Drauzio Varella

>     Médico sem fronteiras

Artigos, teses e publicações

Compartilhar

Drauzio Varella
>     Médico sem fronteiras


entrevista para Adriana Abujamra | Para o jornal Valor


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Drauzio Varella atravessa tão de mansinho o salão lotado do Bar da Dona Onça, restaurante no centro paulistano, que, quando nos damos conta, lá está ele, em pé, ao lado da mesa. O porte esguio e a calvície precoce ele herdou do pai, assim como a crença "obstinada no trabalho duro", lição que segue à risca. Para dar conta da agenda atribulada, aboliu o almoço. "Não consigo comer em paz quando sei que tem pessoas me esperando. Fico ansioso, me atrapalho." Mas nesta segunda-feira se deu ao "luxo", já que as filmagens de uma nova série no "Fantástico" ainda não começaram.

Drauzio passou esta manhã na Penitenciária Feminina, onde há oito anos faz trabalho voluntário. Sua sala é uma cela. Tem cadeiras, uma mesa e uma maca. Puxa para si o bloco de notas e a caneta da repórter, desenha pavilhões, galerias e alas do lugar. Esse universo marginal o fascina desde criança, quando assistia a filmes de prisão e acompanhava os planos de fugas mirabolantes dos encarcerados. Sua primeira incursão em um presídio foi no extinto Carandiru, em São Paulo, experiência que transformou em livro premiado que depois virou filme nas mãos do diretor Hector Babenco.

"Numa cadeia ninguém conhece a moradia da verdade", prega o ditado da malandragem. Mas depois de 25 anos convivendo com detentos o doutor é capaz de farejar seus males e manhas. "Homem mente, mas mulher mente muuuito mais", diz, esticando a vogal para dar a medida da astúcia feminina.

Recosta-se na cadeira e passa a contar alguns casos, que estarão em seu próximo livro, "As Prisioneiras", a ser publicado pela Companhia das Letras. Outro dia, conta, uma mulher de 60 anos nem bem entrou em sua sala e já foi narrando seu fardo: estava no shopping quando uma moça se aproximou e pediu que segurasse um pacote para ela ir ao banheiro. "Ia fazer essa desfeita?" Segurou o embrulho e esperou que ela voltasse. Bem nessa hora, a polícia apareceu. "Dá cá este pacote!", ordenou o policial, já puxando e abrindo o enorme volume. "E adivinha só o que tinha dentro? Cocaína. Vejam vocês." "E a menina que foi ao banheiro? Não voltou?", provocou Drauzio. "Doutor. E não é que ela desapareceu?", respondeu a senhorinha, com feições da madre Teresa de Calcutá.


Drauzio no Dona Onça:
“Política pública em saúde só funciona se for para todo mundo. Quando é só para pobre, esquece, porque fracassa”

Em momentos como esse o médico costuma fazer cara de paisagem. "É raro uma presa que diga 'sou traficante ou matei fulano." Mas há aquelas que falam à vontade com ele. É o caso da jovem que chegou em casa e deu de cara com o marido abusando de sua filha de 8 anos. Deixou a menina aos cuidados de uma vizinha, voltou e descarregou o revólver nele. "Em um caso assim", diz levando o corpo para a frente e cruzando os braços sobre a mesa, "não dá nem para criticar. Não é verdade?"

Em seguida lembra-se da mulher que viu pela manhã. Sem alfabetização, com quatro filhos, deu à luz o caçula na prisão. Só se deu conta de que estava grávida no sétimo mês de gestação. Consumidora de crack, costumava se prostituir para conseguir a droga. "Por incrível que pareça, não pegou aids", comenta o médico, um dos pioneiros no combate à doença no Brasil. Em 1984, já com vasta experiência no setor de imunologia do Hospital do Câncer, em São Paulo, Drauzio foi fazer estágio em um hospital em Nova York, na época o epicentro da aids. "Não se sabia de nada. Nem que era um vírus. Fiquei encantado. Era uma doença que tinha depressão imunológica, um agente infeccioso e câncer, tudo de que eu mais gostava na medicina", relata, com olhos brilhando.

Drauzio, desde criança, sabia o que seria. "Ouvia as histórias da gripe espanhola e ficava imaginando pilhas de mortos nas carroças e eu, homem adulto, de óculos, capa de chuva e maleta de couro igual à do dr. Isaac examinando os doentes de casa em casa com o estetoscópio, no meio da epidemia", narra em seu livro "Nas Ruas do Brás."

De volta ao Brasil, lá estava ele como nos devaneios infantis, no meio de uma calamidade pública. Drauzio era provavelmente o único oncologista que tinha visto de perto casos de sarcoma de Kaposi, câncer que provoca manchas na pele, complicação comum na aids. "Todos os casos vieram para mim e fiquei envolvido com o problema da aids. Morria todo mundo, não escapava ninguém."

____________________

Pela minha história de vida e pela especialidade médica que escolhi, tenho longa convivência com a morte. Perdi minha mãe com 4 anos

____________________


Alertar a população era urgente. Foi nesse momento que o jornalista Fernando Vieira de Melo o convidou para fazer pequenas vinhetas em rádios e esclarecer a população sobre a doença que se alastrava. Mas havia um preconceito enorme. "Médico sério não aparecia em televisão, de jeito nenhum." O convite era um acinte.

"Fernando, você quer acabar com minha carreira? Ô loco", lembra-se. "Era essa a visão da época, imagina. A medicina era conhecimento de uma casta. Mas a função do médico é divulgar esse conhecimento o máximo possível. Foi assim que entrei nessa vida", conta ele, que se tornou um dos médicos mais conhecidos do país. A experiência de duas décadas como professor de cursinho foi de grande valia. Até hoje tem ajudado Drauzio a transpor, em linguagem acessível, os meandros dos mais variados temas de sua área.

"Cai fora da seringa, cara. Se você não consegue encarar a vida de cara limpa, fuma, cheira, faz supositório. Mas não injeta na veia", dizia em um de seus textos na rádio, sempre num tom direto, sem rodeios.

Outro que falava sem rodeios era o sonoplasta, um senhor com décadas de experiência em rádio. Drauzio achava que tinha a voz fanhosa - "ainda tenho, mas já não me incomoda tanto" - e perguntou o que poderia fazer para melhorá-la. "Nada", disse o homem. "Tem gente que nasce com voz boa, tem gente que nasce com voz ruim. A sua voz é ruim", e encerrou o assunto.

O fato é que as vinhetas deram certo, assim como as medidas inovadoras que ganharam impulso na década de 90. "Nós íamos viver uma das maiores tragédias do mundo", observa. O Brasil tinha um índice de contaminação equiparado ao da África do Sul, recordistas de casos da doença. O Ministério da Saúde, comandado por José Serra na época, conseguiu conter o avanço da aids, investindo em campanhas de prevenção e oferecendo tratamento gratuito aos doentes.

"Quando uma população com HIV positivo é tratada, você inativa a carga viral nas secreções sexuais e, com isso, reduz a transmissão. Demonstramos isso. E política pública em saúde só funciona se for para todo mundo. Quando é só para pobre, esquece, porque fracassa. O Brasil revolucionou o tratamento de aids e virou exemplo para o resto do mundo."


Drauzio recebe o Prêmio Jabuti por “Estação Carandiru”, em 2000

Mas os dados mais recentes são menos alentadores. Um relatório divulgado no mês passado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas (Unaids) aponta que as novas infecções por HIV no Brasil aumentaram 11% nos últimos oito anos. E como diz um de seus quadros na televisão: "E Agora, Doutor?"

"A gente deitou sobre os louros obtidos com o tratamento e bobeou com a prevenção. Agora estamos pagando o preço."

A nova geração não viu o impressionante impacto da doença em fase terminal. Graças à medicação existente, a aids se tornou de certa forma uma doença controlável, o que dá a falsa impressão de ser curável. Para Drauzio, seria fundamental que todos fizessem o teste, o que ajudaria a evitar novas transmissões.

"Ele poderia ser obrigatório. Qual é o preconceito? Os médicos pedem exame de sífilis e não pedem da aids? Não consigo entender uma coisa dessas."

Com o aumento de novos casos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou recentemente o uso de antirretrovirais como profilaxia pré-exposição para homens gays e outros grupos de risco. É uma decisão acertada? A medida, diz, pode reduzir consideravelmente a chance de um indivíduo ser infectado. Portanto, deveria, sim, ser adotada. Mas com ressalvas.

"Isso não basta, entende? O problema principal é a aderência. Será que as pessoas vão tomar direito o medicamento? Será que vão se sentir protegidas porque estão tomando o remédio e deixarão de usar preservativo? E não é pelo fato de o cara ser gay que faz ele correr mais risco. O que faz ele correr mais risco é o número de parceiros e sexo desprotegido. Há gays que são absolutamente monogâmicos."


Com Babenco: cineasta faz superprodução de “Estação Carandiru”


O pessoal da mesa ao lado, que chegou ao mesmo tempo que nós, já está no café, e nós só na conversa. Drauzio pega um cardápio, estica o braço bem longe do corpo e aperta os olhos, miúdos, para conseguir ler as opções do menu. Decide pelo arroz de bacalhau. Para beber? Água. Bebida alcoólica somente nos fins de semana, e olhe lá.

"O que eu gosto mesmo é de uma dose de cachaça. Pura. E com os carcereiros costumo tomar uma cerveja."

Foi com um grupo desses agentes que Drauzio passou a se reunir depois das longas jornadas de trabalho, em um botequim de frente para o Carandiru, convivência que ele narra em seu livro "Carcereiros". A casa de detenção foi extinta, mas não a camaradagem entre eles.

"Esse é o programa de que mais gosto. A gente dá tanta risada, de perder o fôlego. Eles têm uma experiência de vida que eu precisaria nascer umas três vezes para adquirir. E eles escutam. No ambiente social em que a gente vive, as pessoas não estão interessadas em ouvir as outras. Quando vou a festas, o que é raro, as pessoas falam sem parar. Não preciso dizer nada. Só presto atenção. Aliás, às vezes nem presto atenção."

O médico exemplar que bebe água à nossa frente também já tomou um grande porre na vida. Foi aos 16 anos, quando entornou uma garrafa de licor de ovos.

"Era doce, uma coisa horrível", conta, fazendo careta.

Já na faculdade seu pecado foi tomar anfetaminas, que lhe davam gás para varar noites estudando para as provas.


Pesquisa de plantas medicinais na Amazônia: por descuido, febre amarela

Maconha ele provou mais velho, já formado. Assim que o efeito bateu, viu surgir uma aura verde brilhante ao redor de um de seus amigos. Passada a alucinação, ficou enjoado e teve ataque de pânico. Aliás, a droga foi tema de várias das colunas que publicou recentemente na "Folha de S.Paulo". O médico apresentou dados científicos apontando os malefícios e os benefícios da maconha e, por fim, concluiu que o melhor seria legalizá-la.

Enquanto abre espaço na mesa para o garçom servir a comida, Drauzio explica o porquê.

"Essa política de guerra à droga é ridícula. Fala a verdade. É um fracasso retumbante. Faz o quê? Pega um moleque com baseado, prende e põe no meio da bandidagem? É um absurdo esse negócio. O que acontece nessa guerra toda? A gente conseguiu diminuir o consumo? Não para de crescer. Vai mandar todo mundo para a cadeia?"

Para ele, melhor encarar que as pessoas usam e buscar meios de tornar o uso legal.

"Legalizar não é liberar geral. Veja o caso do cigarro. Aprendemos a lidar, considerando a dependência da nicotina e impondo limites do convívio social. Olha aqui", diz, abrindo os braços e dando um olhar panorâmico no restaurante onde freguês nenhum está autorizado a fumar.


O médico ao lado da atriz Regina Braga, com quem é casado desde 1981

____________________

Essa política de guerra à droga é ridícula. É um fracasso retumbante. Faz o quê? Pega um moleque com baseado, prende e põe no meio da bandidagem?
____________________

 

Neste momento, pela janela, vemos uma moça do lado de fora do Dona Onça, na entrada do icônico Edifício Copan, tragando com vontade. Percebe que é observada e se vira de costas. O médico, que encampou uma cruzada contra o tabaco, ri. Afirma que às vezes se sente como a encarnação de "um personagem repressivo." No Hospital Sírio-Libanês, os funcionários costumam fumar na calçada da entrada. Basta ele apontar ao longe para aquele grupo de homens e mulheres se esconderem. "Tem cabimento?"

Termina de falar e só então pega os talheres e quebra, com prazer, a gema do ovo frito que vem sobre o arroz.

- Uma de suas pacientes, que teve câncer, voltou a fumar e está com receio de revelar sua recaída para o senhor. Como reage a esse tipo de notícia?

- Pela minha história de vida e pela especialidade médica que escolhi, tenho uma longa convivência com a morte. Perdi minha mãe com 4 anos. Essa é uma contradição fundamental: vida e morte. Tenho tolerância com os erros dos outros, eu também cometo muitos erros.

Para mostrar que é maleável, cita o caso um de seus pacientes da detenção que se negava a abandonar o crack. Drauzio sugeriu, então, que substituísse a droga pesada pela maconha.

"Não é bonito um médico falar uma coisa dessas, mas o que é melhor? Queria que ele não fumasse nada, mas o outro não é como você gostaria que fosse."

Resgata uma história em quadrinhos que costumava ler quando criança. O herói era um sujeito que, um dia, pescando, viu cair um raio na água e desmaiou. A partir desse momento passou a sonhar com tragédias que de fato se concretizavam. Ciente de seu poder premonitório, tentou evitar, a todo custo, que as desgraças ocorressem. Em vão. Foi tachado de louco e acabou os dias trancafiado em um hospício.

"Sabe, eu me identifico com esse personagem. Quando vejo um homem de 60 anos, com cigarro no bolso, aquela barriga que parece ter oito meses de gravidez, tenho vontade de dizer: 'Vai te acontecer uma desgraça. Você vai ter um enfarte ou derrame'. Mas não posso, senão também vou parar em um hospício."

Em seguida, ajeitando um montinho de arroz no garfo, lembra-se de seu irmão caçula, oncologista como ele, que morreu aos 45 anos de câncer no pulmão. "Ele me deixava exasperado. Falava todos os dias: 'Fernando, para de fumar'. Não adiantou nada." Interrompe o percurso da comida à boca e completa. "Sabe, hoje eu me arrependo. Acho que infernizei muito ele." E só então finaliza a garfada.

Seu celular toca algumas vezes, pede licença e atende. Assim que desliga, conta que acaba de morrer a mãe do convidado que seria entrevistado por ele à noite na Livraria Cultura.

"A morte é tão enigmática. Lidar com o fato de a vida terminar", comenta depois de avisar ao pessoal da livraria que o evento seria cancelado.


“Eles [carcereiros] têm uma experiência de vida que eu precisaria nascer três vezes para adquirir”


Drauzio aprendeu cedo que morte é a ausência definitiva. Poucos dias depois que sua mãe morreu, sentado à mesa do café da manhã, o menino perguntou à avó. "Vó, nunca mais vou ver minha mãe?" A senhora espanhola, trajando vestido preto, não conseguiu dizer nada. Permaneceu cabisbaixa na direção da leiteira. O médico tratou do tema da finitude em seu livro "Por um Fio", em que conta a sua experiência com doentes terminais e relembra a perda da mãe e do irmão.

Dispensamos a sobremesa. Drauzio não come doce há décadas, é ex-fumante - embora ainda sonhe com cigarro - e corre maratonas. Está até escrevendo um livro sobre sua experiência nesse tipo de prova. Determinado, o oncologista costuma pular da cama às 5h30 para correr pelas ruas ainda desertas da cidade. Mas até esse homem acostumado a dar conselhos médicos na televisão comete deslizes.

Em 2004, ao voltar de uma viagem à floresta amazônica - local que já visitou dezenas de vezes por causa do trabalho de pesquisa que desenvolve no rio Negro -, descuidou da dose de reforço da vacina contra febre amarela e acabou infectado. Achou que fosse morrer. A atriz Regina Braga, sua mulher desde 1981, e as filhas de seu primeiro casamento, a tradutora Mariana e a também médica Letícia, revezaram-se ao seu lado. A história toda foi narrada em seu livro "O Médico Doente".

Já tomando café, Drauzio, que está com 71 anos, diz que não adianta cuidar só do corpo.

"Quando vejo um velho solitário, fico pensando se não está só porque não é interessante. Que vive de lamúrias e lamentações, o que acaba afastando as pessoas. Pode parecer cruel dizer isso, mas é verdade na maior parte dos casos. Acho que você tem que se habituar com a idade, com a mudança de cenário e a perda de pessoas próximas. Por isso, acho importante ter contato com um grupo maior de pessoas, de idades diferentes, e ter vontade de experimentar o novo."

O garçom traz a conta. Quando saco o cartão para pagar, Drauzio interfere indignado. "Sabe, tenho a maior dificuldade de deixar uma mulher pagar minha conta." Eis uma boa chance para mudar hábitos arraigados e fazer algo novo, não?

Ele ri e guarda a carteira, meio a contragosto. São quase cinco da tarde quando saímos do restaurante sob um sol já pálido. Drauzio faz questão de caminhar com a repórter até um ponto de táxi, do outro lado da avenida. Abre a porta para que entre e só arreda pé quando o carro some pela avenida movimentada.

Há certos hábitos que um cavalheiro à moda antiga não abandona. Jamais.

 

Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/3663248/medico-sem-fronteiras

 



topo

 

Leiam outros textos de Drauzio Varella:

->  Craqueiras e craqueiros
->  Criacionismo outra vez
->  Gays e heterossexuais incuráveis
->  Éramos todos negros
->  Homossexualidade e DNA
->  A imposição sexual
->  Luto
->  Médico sem fronteiras
->  Placebos, médicos e charlatães
->  A Polêmica da Ritalina contra a inquietação na Vida Escolar
->  Por um fio
->  Solidariedade feminina
->  Solidão crônica
->  Transtorno Bipolar