Henri Tincq

>   Feministas muçulmanas reivindicam o direito de dispor livremente do seu corpo

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>   Feministas muçulmanas reivindicam o direito de dispor livremente do seu corpo


Feministas muçulmanas reivindicam o direito de dispor livremente do seu corpo.
Elas rejeitam a interpretação exclusivamente masculina do Alcorão, que serve de pretexto para as piores práticas machistas e patriarcais


Para Siham Drissi, 28 anos, uma francesa de origem marroquina, o combate feminista representa o futuro do Islã. As feministas muçulmanas não vão "descer nas ruas para queimar os seus sutiãs", diz ela, mas é mesmo o direito de dispor livremente do seu corpo que elas reivindicaram durante o congresso que reuniu em Barcelona, de 3 a 5 de novembro, 400 membros de diversas associações.

Um "feminismo islâmico"? É difícil acreditar, mas é a pura verdade. Algumas manifestações nesse sentido há muito tempo já eram ouvidas nos campi americanos - nas vozes de mulheres tais como Amina Wadud, Asma Barlas ou Riffat Hassan -, mas elas permaneciam isoladas. Diante do número crescente das associações e dos sites feministas, na Malásia, na Nigéria, no Paquistão, Abdennur Prado e Ndeye Andujar, dois espanhóis convertidos, respectivamente o presidente e a vice-presidente da principal associação islâmica da Catalunha, quiseram reuni-las num congresso de modo a dar-lhes uma "visibilidade".

Esta aposta deu certo em Barcelona, onde um movimento de liberação da mulher muçulmana acaba de nascer. Este rejeita a interpretação exclusivamente masculina do Alcorão, que serve de pretexto para as piores práticas machistas e patriarcais. "Este não constitui um problema exclusivo da sociedade islâmica", acrescenta Ndeye Andujar. "Nas minorias muçulmanas da Europa e da América, a questão das mulheres também é explosiva".

O que se viu neste congresso foi uma dolorosa romaria de militantes vindas do Senegal, do Paquistão, da Indonésia, do Irã para expressar o desespero das mulheres, cuja condição está codificada na "charia" (lei islâmica) e nos códigos locais da família: mal-tratos, casamento forçado, poligamia, discriminação em relação ao acesso ao divórcio e à herança, etc.

Uma delas, Codou Bop, explica que 12% apenas das mulheres do seu país, o Senegal (onde 95% da população são muçulmanos), praticam a contracepção:

"Essas mulheres passam por imorais, enquanto todas as outras estão convencidas de que o Islã é contra o controle dos nascimentos. Os próprios membros do corpo médico pedem a opinião do homem antes de prescreverem a pílula".

 

Acabar com os tabus

A religião, que não tolera relações sexuais fora do casamento, acrescenta a sua parte na culpabilidade que elas podem vir a sentir. Todas as batalhas em favor do direito ao aborto esbarram na resistência dos oulemas (sacerdotes) locais e dos chefes de família. Com isso, os abortos clandestinos matam todo ano na África 200.000 mulheres.

Lily Munir, que é indonésia, denuncia a poligamia que impera em grande escala no seu país. Para ela, trata-se de um crime contra o espírito do Alcorão. No contexto tribal da época do Profeta, a limitação a quatro do número das esposas representava um progresso. Hoje, a poligamia não passa de uma regressão:

"Nenhum homem é capaz de tratar quatro esposas com a justiça igual, tal como recomenda o Alcorão".

Por sua vez, a iraniana Nayereh Tohidi toma a palavra para deplorar os impasses nos quais se encontram as lutas feministas em seu país. No caso, as suas tentativas são reprimidas pelo clã clerical e pelo governo islâmico que está no poder, cuja "retórica militar e anti-ocidental" tem por efeito de confinar as mulheres na sua marginalidade.

Em contextos tão variados, o feminismo muçulmano não segue uma estratégia única. Algumas dessas mulheres são moderadas, enquanto outras se revelam mais provocadoras. Asra Nomani, uma americana de origem indiana, quer acabar com todos os tabus. Ela exige o direito à livre escolha de um parceiro sexual e de um marido, o direito a ter relações sexuais fora do casamento, o direito à homossexualidade, etc.

O traço comum a todas elas é o convite feito às mulheres a se apoderarem do Alcorão e imporem uma leitura "não sexista" dos textos. Elas lutam contra o versículo 34 da quarta sourate (capítulo) que afirma que o homem tem o direito de "bater" na sua mulher. Elas exigem o direito a promover uma interpretação reformadora dos textos.

"O Alcorão não constitui um bloco. Existem tantas leituras quanto leitores", argumenta Ndeye Andujar.

Foi agendado um outro congresso que deverá ser realizado em Nova York, sobre o tema da "liderança espiritual" das mulheres. Este próximo encontro deverá promover a atribuição de bolsas, as quais permitirão que algumas delas se formem para tornar-se "muftis" (magistradas eclesiásticas) e "poder emitir fatwas [leis religiosas]".

Essas feministas sabem que o caminho será longo. Elas são vítimas de dois discursos opostos e incompatíveis - o Islã tradicional e o islamismo - que, contra os direitos das mulheres, se revelam objetivamente aliados. Eles precisam contar também com os riscos de recuperação política da sua luta e se defenderem contra o "paternalismo" das feministas ocidentais. Mas as principais resistências virão do interior do Islã: dos homens, é claro, mas também das mulheres conformadas, depois de tantos séculos, com a dominação machista e a submissão.

Henri Tincq
enviado especial a Barcelona, Espanha

Fonte: Le Monde




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