Paulo da Silva Neto Sobrinho

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Muitas vezes a passagem de Lucas a respeito do "Bom Ladrão" é utilizada, principalmente pelos nossos detratores de plantão, para sustentar a idéia de que não existe a reencarnação. Assim, achamos por bem fazer uma análise desse episódio, para que possamos encontrar a verdade. Vamos, então, às narrativas bíblicas sobre tal acontecimento, tiradas da Bíblia Anotada, Editora Mundo Cristão:

Mateus 27, 38 e 44E foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita e outro à sua esquerda. E os mesmos impropérios lhe diziam também os ladrões que haviam sido crucificados com ele.

Marcos 15, 27 e 32 – Com ele crucificaram dois ladrões, um à sua direita, e outro à sua esquerda. Também os que com ele foram crucificados o insultavam.

Lucas 23, 39-43Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele, dizendo: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também. Respondendo-lhe, porém, o outro repreendeu-o dizendo: Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença? Nós na verdade com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino. Jesus lhes respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.

João 19, 18Onde o crucificaram, e com ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio.

 

Ressaltamos que se a Bíblia, segundo dizem, é totalmente inspirada por Deus. Se assim é, por que não narram os Evangelistas os mesmos fatos? Ora, se a fonte de inspiração é de uma mesma origem, Deus, deveriam ser tais narrativas completamente iguais, pelo menos quanto ao fundo. Poderemos até aceitar palavras diferentes, mas não com divergências quanto ao fato ocorrido, mas aqui ele é narrado de forma diferente, conforme iremos observar a seguir:

1 – Quanto ao diálogo

Mateus, Marcos e João nada relatam de qualquer diálogo entre os três crucificados.

2 – Quanto à atitude

Mateus e Marcos dizem que os ladrões estavam, isto sim, entre os que escarneciam de Jesus. Só Lucas diz que Jesus teria dito para um deles que hoje estarás comigo no Paraíso.

3 – Quanto à testemunha

João, que estava ao pé da cruz, ou seja, a testemunha ocular, nada diz sobre este diálogo de Jesus com um dos ladrões.

Por curiosidade vamos ver como essa frase aparece nas Bíblias de outras editoras:

Mundo Cristão:

"Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso"

Vozes:

"Em verdade te digo: ainda hoje estarás comigo no paraíso".

Pastoral:

"Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no paraíso".

Ave Maria:

"Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso".

Barsa:

"Em verdade te digo: que hoje serás comigo no paraíso".

Loyola:

"Eu te asseguro: hoje mesmo estarás comigo no paraíso".

Perguntaríamos, então, qual delas é a frase mais verdadeira? Enquanto algumas dizem "em verdade", outras dizem "eu garanto" e "eu te asseguro", apesar dessas Bíblias terem como origem o mesmo segmento religioso.

Por outro lado, vários outros autores confirmam o que Dr. Severino Celestino da Silva disse em seu livro "Analisando as Traduções Bíblicas":

"Sabemos que os manuscritos originais do Novo Testamento não possuíam pontuação, e em face do fato de o grego clássico (incluindo o grego koiné, no qual foi escrito o Novo Testamento) gozar de ampla liberdade no tocante à ordem das palavras, é impossível, à base do próprio texto grego, provar um lado ou outro dessas idéias contraditórias".

Assim, não fica difícil entender que nas traduções colocaram a pontuação conforme à conveniência de cada tradutor.

Analisando, especificamente essa frase, e, se admitirmos que isso realmente tenha acontecido, teremos uma contradição de Jesus, pois Ele mesmo disse: a cada um segundo suas obras (Mateus 16, 27). E, quando do episódio com Madalena, após sua ressurreição, disse Ele a Madalena: "Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus" (João 20, 17). Ora, se Jesus, três dias após sua morte, ainda não tinha subido ao Pai, como Ele poderia ter afirmado ao "Bom Ladrão", que hoje estarás comigo, ou seja, justamente no dia de sua morte na cruz.

Por outro lado, o "Bom Ladrão", ao reconhecer que "nós na verdade com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez", ele está aceitando a justiça dos homens, e por mais forte razão, aceitaria a Justiça de Deus que lhe daria uma pena merecida. Assim, podemos concluir também que ele não aceitaria uma recompensa por algo que não tivesse feito, não é mesmo?

Além disso, o dito "Bom Ladrão" (e, diga-se de passagem, é o único ladrão bom da história da humanidade) somente reconheceu que ele e o outro tinham motivos para morrerem crucificados, e que Jesus era um inocente sendo condenado, assim, já que não houve nem mesmo um simples arrependimento, por que o prêmio?.

Narra Mateus (20, 20-23) que a mãe dos filhos de Zebedeu chega a Jesus com o seguinte pedido: “Ordena que estes meus dois filhos se sentem um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu reino”. Não vemos Jesus atendendo ao pedido desta abnegada mãe, ao contrário, disse-lhe: “Mas quanto a vos sentardes à minha direita ou à minha esquerda, não me cabe concedê-lo, porque estes lugares são destinados àqueles para os quais meu Pai os reservou”. Ora, se aqui Jesus afirma que não cabe a Ele conceder um lugar no Paraíso ou reino dos céus, como, então promete um lugar ao “bom ladrão”? Será que Ele estaria contradizendo-se? Acreditamos que não, pois tanto nesse caso, quanto no outro, agiria sem conceder qualquer tipo de privilegio, ou seja, “a cada um segundo suas obras”.

Já falamos, várias vezes, mas não custa repetir. Coloquemos a frase do seguinte modo: Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso? Veja como uma simples vírgula muda completamente o sentido do texto. Desta forma, é muito mais condizente com a Justiça Divina, pois somente um indivíduo irá para o Paraíso, quando tiver realizado as obras que justifiquem merecê-lo, não importando quanto tempo levará para isso.

Não estaria também em conflito com o texto: “Ora, se invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação, ...(1 Pedro 1, 17). E, para reforçar que Deus não faz mesmo acepção de pessoas, pedimos para consultar: Deuteronômio 10, 17; 2 Coríntios 19, 7; Jó 34, 19; Atos, 10, 34; Romanos 2, 11 e Efésios 6, 9.

E, para aqueles que não aceitam a reencarnação, recomendamos-lhes verem como ela é obvia nas seguintes passagens:

Mateus 17, 12 - Mas digo-vos que Elias já veio, e não o conheceram, mas fizeram-lhe tudo o que quiseram. Assim farão eles também padecer o Filho do homem.

Mateus 11, 14-15 - E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

João 3, 3
: Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.

João 3, 7: - Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo.

Vemos que, infelizmente, muitos ainda não “têm ouvidos de ouvir”. Não compreendemos como podem conceber uma Justiça Divina sem a reencarnação. Já que, para nós, a reencarnação é o único meio de “sermos perfeitos como o Pai Celestial(Mateus 5, 48), conforme nos recomenda Jesus, a não ser que Ele nos tenha ensinado algo que não pudéssemos fazer, o que seria um absurdo.

 

Bibliografia

• Bíblia Anotada = The Ryrie Study Bible/Texto bíblico: Versão Almeida, Revista e Atualizada, com introdução, esboço, referências laterais e notas por Charles Caldwell Ryrie; Tradução de Carlos Oswaldo Cardoso Pinto. São Paulo, Mundo Cristão, 1994.
• Bíblia Sagrada, Edição Barsa, 1965.
• Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Sociedade Bíblica Católica Internacional e Paulus, 14ª Impressão 1995.
• Bíblia Sagrada, Edições Paulinas, São Paulo, 37ª Edição, 1980.
• Bíblia Sagrada, Editora Ave Maria, São Paulo, 1989, 68ª Edição.
• Bíblia Sagrada, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1989, 8ª Edição.
• Analisando as Traduções Bíblicas, Severino Celestino da Silva, Idéia Editora, João Pessoa, 3ª Edição 2001

 

Fonte: http://www.apologiaespirita.org

 


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