Paulo da Silva Neto Sobrinho

>   A Reencarnação é um dogma dos espíritas?

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Paulo da Silva Neto Sobrinho
>   A Reencarnação é um dogma dos espíritas?


Aí está um erro que prova, uma vez mais, o perigo dos julgamentos apressados e sem exame. (KARDEC).

Julga-se sempre mal uma religião, tomando-se por ponto de partida exclusivo suas crenças pessoais. Porque então é difícil de se defender de um sentimento de parcialidade na apreciação dos princípios.
(KARDEC).

[...] queríamos fazer do Espiritismo uma ciência de raciocínio e não de credulidade.
(KARDEC).

Não se perseguiram senão as idéias as quais via-se um futuro; as que julgavam sem consequência, se as deixaram que morressem de morte natural.
(KARDEC)

A perseguição contra as idéias falsas, errôneas, é inútil, porque estas se desacreditam e caem por si mesmas; […]
(KARDEC)


É muito comum, entre os fundamentalistas, especialmente os que se tornaram ferrenhos detratores do Espiritismo, a tentativa de nos igualarem a eles, na questão de viver em meio a dogmas, como resposta ao fato de sempre os estarmos denominando de dogmáticos. Diante disso, eles se esforçam, e muito, em demonstrar que também temos dogmas; para isso, apresentam como “prova incontestável” o fato de Kardec ter, expressamente, dito: “dogma da reencarnação”. Um bom exemplo disso, vamos encontrar em René Guénon (1886-1951), filósofo, metafísico e crítico social francês, foi um antiespírita de carteirinha, que na sua obra O erro Espírita, diz:

Na França mesmo, alguns dos primeiros espíritas, como Piérart e Anatole Barthe, separaram-se de Allan Kardec sobre este ponto; mas, hoje em dia, pode-se dizer que o espiritismo francês todo inteiro tem feito da reencarnação um verdadeiro “dogma”; Allan Kardec mesmo, aliás, não tinha vacilado em chamá-la com este nome. […] (GUÉNON, 2010, p. 197-198) (grifo nosso).


Geralmente as pessoas que agem assim, querendo nos imputar dogmas (o que não temos), não têm argumentos lógicos para nos combater, apelam para qualquer coisa; acham, ingenuamente, que, com essa atitude de taxar a reencarnação de dogma, conseguirão “acabar de vez” com ela e, consequentemente, com o Espiritismo. Aliás, há um modo mais fácil de acabar com o ele, basta destruir a sua base fundamental que é, primeiro, Deus e depois a existência da alma
(KARDEC, 1993d, p. 224). É bem provável que Pascal esteja certo nesta fala: “É uma doença natural ao homem crer que possui a verdade diretamente; e daí vem que está sempre disposto a negar o que lhe é incompreensível" (KARDEC, 1993e, p. 36). Ademais, deviam ter lido, pelo menos, estes três pensamentos de Kardec:

[…] sempre temos dito aos adversários do Espiritismo: o único meio de matá-lo, é dar alguma coisa melhor, de mais consolador, que explique mais e que satisfaça mais. E é o que ninguém ainda fez. (KARDEC, 1993e, p. 7);

Quando se declara discípulo da ciência e campeão da livre consciência, é irracional, em nossa opinião, colocar em seguida como um dogma uma crença qualquer, impossível de provar cientificamente.
(KARDEC, 1999, p. 34); e

Jamais tivemos a pretensão de coordenar a liberdade de ninguém, nem de impor nossas idéias a quem quer que seja, não as considerando como devendo fazer lei.
(KARDEC, 1999, p. 79).

E, uma vez que mencionamos isso, vejamos a lógica com que Kardec tratou aqueles que entendem que essa idéia é contrária aos dogmas, nos quais acreditam:

Algumas pessoas objetam à doutrina da reencarnação que ela é contrária aos dogmas da Igreja, e disso concluem que não deve existir; que se pode responder-lhes?

A resposta é muito simples. A reencarnação não é um sistema que dependa dos homens adotar ou rejeitar, como se faz com um sistema político, econômico ou social. Se ela existe, é que está na Natureza; é uma lei inerente à Humanidade, como beber, comer e dormir; uma alternativa da vida da alma, como a vigília e o sono são alternativas da vida do corpo.

Se é uma lei da Natureza, não é uma opinião que pode fazê-la prevalecer, nem uma opinião contrária que pode impedi-la de ser. A Terra não gira ao redor do Sol porque se crê que ela gira, mas porque obedece a uma lei e os anátemas que se lançaram contra essa lei não impediram a Terra de girar. Ocorre assim com a reencarnação; não é a opinião de alguns homens que os impedirá de renascer, se devem fazê-lo. Estando, pois, admitido que a reencarnação não pode ser senão uma lei da Natureza, suponhamos que ela não possa concordar com um dogma, trata-se de saber quem tem razão, o dogma ou a Lei. Ora, quem é o autor de uma lei da Natureza, se não for Deus? Direi, neste caso, que não é a lei que é contrária ao dogma, mas o dogma que é contrário à lei, tendo em vista que uma lei da Natureza qualquer é anterior ao dogma, e que os homens renasciam antes que o dogma fosse estabelecido. Se havia incompatibilidade absoluta entre um dogma e uma lei da Natureza, isso seria a prova de que o dogma é obra dos homens que não conhecem a lei, porque Deus não pode se contradizer, desfazendo de um lado o que faz de outro; sustentar essa incompatibilidade é, pois, condenar o dogma. Segue-se que o dogma seja falso? Não, mas simplesmente que pode ser suscetível de uma interpretação, como se interpretou a Gênese quando foi reconhecido que os seis dias da criação não podiam concordar com a lei da formação do globo. A religião nisso ganhará, tendo em vista que achará menos incrédulos.

A questão é saber se a lei da reencarnação existe ou não existe. Para os Espíritas há mil provas por uma que é inútil repetir aqui; direi somente que o Espiritismo demonstra que a pluralidade das existências é não só possível, mas necessária, indispensável, e dela encontra a prova, sem falar da revelação dos Espíritos, numa multidão inumerável de fenômenos de ordem moral, psicológica e antropológica; esses fenômenos são efeitos que têm uma causa, procurando essa causa, não se a encontra senão na reencarnação tornada evidente pela observação desses fenômenos, como a presença do Sol, embora oculto pelas nuvens, torna-se evidente pela luz do dia. Para provar que há erro, e que essa lei não existe, seria preciso exprimir melhor do que se o faz, e por outros meios, TUDO o que ele explica, e é o que ninguém fez ainda.
(KARDEC, 1993b, p. 375-376) (grifo nosso).


Sendo os dogmas “obra dos homens”, então não temos nenhuma obrigação moral de acreditar neles; e, nos dias atuais, nem também precisamos ter medo de falar assim, pois, certamente, já não mais iremos parar numa fogueira, para sermos “consumidos” junto com nossa crença.

Voltando a Kardec:

Assim foi a lógica, a força do raciocínio, que os conduziu a essa doutrina, e porque nela encontraram a única chave que podia resolver os problemas até então insolúveis. No entanto, nosso honroso correspondente se engana sobre um fato importante, nos atribuindo a iniciativa desta doutrina, que chama a filha de nosso pensamento. É uma honra que não nos ocorre: a reencarnação foi ensinada pelos Espíritos a outros senão a nós, antes da publicação de O Livro dos Espíritos; além disso, o princípio foi claramente colocado em várias obras anteriores, não somente as nossas, mas ao aparecimento das mesas girantes, entre outras, em Céu e Terra, de Jean Raynaud, e num encantador livrinho de Louis Jourdan, intitulado Preces de Ludowic, publicado em 1849, sem contar que esse dogma era professado pelos Druidas, aos quais, certamente, não ensinamos. Quando nos foi revelado, ficamos surpresos, e o acolhemos com hesitação, com desconfiança: nós o combatemos durante algum tempo, até que a evidência nos foi demonstrada. Assim, esse dogma, nós o ACEITAMOS e não INVENTAMOS, o que é muito diferente.
(
KARDEC, 1993b, p. 51).


É puramente pela lógica que não é preciso tomar a reencarnação como dogma, a qual é vista por nós, os espíritas, como um dos princípios fundamentais, ou seja, um dos pontos principais que formam a base da Doutrina. Aliás, dentre todos os quinze princípios fundamentais do Espiritismo, somente em relação a esse, o da reencarnação, é que Kardec utiliza a palavra dogma; pouquíssimas vezes, por sinal, o que, de antemão, prova que não vivemos, como, às vezes, os nossos detratores querem fazer crer, no meio de dogmas instituídos a torto e a direito. Inclusive, ele considera a reencarnação como o princípio mais importante da Doutrina Espírita: “Um dos princípios mais importantes do Espiritismo, sem contradita, é o da pluralidade das existências corpóreas; quer dizer, da reencarnação, que os céticos confundem, voluntariamente ou por ignorância, com o dogma da metempsicose”. KARDEC, 2000b, p. 295-296). E, aqui, como na transcrição acima, achamos que Kardec usa a palavra “princípio” como sinônimo de dogma. Essa outra acepção, que difere da que geralmente se usa, é, como veremos um pouco mais à frente, uma das definições da palavra dogma constantes nos léxicos.

Por outro lado, se não estivermos de todo enganados, na primeira fala Kardec entende como dogma aquilo que os outros aceitavam como sendo uma verdade imposta por aqueles que eram considerados como sendo os de maior conhecimento, pelos demais do grupo, enquanto que, para o próprio Kardec, a reencarnação, por integrar os fundamentos da Doutrina Espírita, é a condição sine qua non desta, o que o levou a adotá-la como princípio, o seja, repetindo, fazendo parte dos fundamentos doutrinários do Espiritismo, e não como uma coisa imposta de cima para baixo, que é a característica de um dogma no sentido usual.

Veja o leitor o que diz Kardec sobre a reencarnação:

Também a linha que ela segue traz seus frutos; os princípios que professa, baseados sobre observações conscienciosas, servem hoje de regra à imensa maioria dos Espíritas. Vistes sucessivamente cair, diante da experiência, a maioria dos sistemas desabrochados no início, e é com dificuldade se alguns conservam ainda raros partidários; isto é incontestável. Quais são, pois, as idéias que crescem, e quais são as que declinam? É uma questão de fato. A doutrina da reencarnação é o princípio que foi mais controvertido, e seus adversários nada pouparam para atacá-la vivamente, nem mesmo as injúrias e as grosserias, este argumento supremo daqueles esgotados de boas razões; por isso não caminhou menos porque se apóia por uma lógica inflexível; que sem essa alavanca choca-se contra dificuldades intransponíveis, e porque, enfim, nada se encontrou de mais racional para colocar no lugar.
(
KARDEC, 1993b, p. 163). (grifo nosso).


Interessante é que dentre os princípios da Doutrina o da reencarnação é o que mais se combate, embora ninguém ainda tenha conseguido derrubá-lo, depois de século e meio de doutrina.

O motivo pelo qual achamos que Kardec assim pensava é que, para ele, a reencarnação era um fato, e não propriamente uma crença; a diferença entre os dois é que o primeiro – o fato - é uma realidade, que se pode constatar, sendo, portanto, uma verdade; já a segunda – a crença é imposta de cima para baixo pelos líderes religiosos como uma “verdade” a ser aceita pelos fiéis, sem qualquer preocupação em se a cotejar com os fatos. E é isso o que concluímos de vários argumentos de Kardec, incluindo este:

Quanto à reencarnação, de duas coisas uma: ou ela existe, ou ela não existe: não há meio termo. Se ela existe, é que está nas leis da Natureza. Se um dogma diz outra coisa, trata-se de saber quem tem a razão, o dogma ou a Natureza, que é obra de Deus. A reencarnação não é, pois, uma opinião, um sistema, como uma opinião política ou social, que se pode adotar ou recusar; é um fato ou não o é; se é um fato, é inútil não ser do gosto de todo o mundo, tudo o que se disser não o impedirá de ser um fato. (KARDEC, 1993b, p. 266).


E Kardec explica, novamente, as razões por ter aceito o princípio da reencarnação, para que tudo fique bem definido, não deixando margem às dúvidas:

Há igualmente aí um erro capital. O Espiritismo foi conduzido às suas teorias pela observação dos fatos, e não por um sistema preconcebido. O raciocínio do qual fala o autor é racional, sem dúvida, mas não foi assim que as coisas se passaram. Os Espíritas concluíram a existência dos Espíritos, porque os Espíritos se manifestaram espontaneamente; indicaram a lei que rege as relações do mundo visível e do mundo invisível, porque observaram essas relações; admitiram a hierarquia progressiva dos Espíritos, porque os Espíritos se mostraram a eles em todos os graus de adiantamento; adotaram o princípio da pluralidade das existências não só porque os Espíritos lhes ensinaram, mas porque esse princípio resulta, como lei da Natureza, da observação dos fatos que temos sob os olhos. Em resumo, o Espiritismo não admitiu nada a título de hipótese preliminar; tudo na doutrina é um resultado da experiência. Eis tudo o que temos muitas vezes repetido em nossas obras.
(
KARDEC, 1993c, p. 64) (grifo nosso).


Fica, portanto, claro que nada foi imposto a ele, razão pela qual, também por coerência, Kardec não a impôs aos adeptos do Espiritismo ou a qualquer outra pessoa, é bom frisar. Inclusive, é o que ele argumenta:

O Espiritismo não se impõe, aceita-se; ele dá suas razões e não acha mau que as combata, uma vez que isso seja com armas leais, e remete-se ao bom senso público para pronunciar-se. Se ele repousa sobre a verdade, triunfará apesar de tudo; se seus argumentos são falsos, a violência não os tornará melhores. O Espiritismo não quer ser acreditado sob palavra; ele quer o livre exame; sua propaganda se faz dizendo: Vede o pró e o contra; julgai o que satisfaça melhor vosso julgamento, o que responda melhor às vossas esperanças e às vossas aspirações, o que toque mais vosso coração, e decidi-vos em conhecimento de causa.
(
KARDEC, 1993c, p. 84).

Por outro lado, o Espiritismo não dobra as inteligências sobre seu jugo; não manda uma crença cega; ele quer que a fé se apoie sobre a compreensão; […] Ele deixa, pois, a cada um uma inteira liberdade de exame, em virtude deste princípio, de que a verdade sendo una, deve, cedo ou tarde, se impor sobre o que é falso, e que um princípio fundado sobre o erro cai pela força das coisas. […]
(
KARDEC, 2000c, p. 306). (grifo nosso).


Assim, vê-se que a liberdade de questionamento existe, o que é capital para concluir que a Doutrina não tem nenhum dogma, uma vez que uma coisa é incompatível com a outra.

Léon Denis (1846-1927), filósofo espírita, contemporâneo de Kardec, que, depois de sua morte, foi um dos principais continuadores do Espiritismo, com vários livros publicados entre os quais O problema do ser, do destino e da dor, publicado em 1905), o qual, sem meias palavras, disse: “[…] no Espiritismo, nunca é demais dizê-lo, não há dogmas e cada um dos seus princípios pode e deve ser discutido, julgado, submetido ao exame da razão”.
(
DENIS, 1989, p. 50).

Dogma, no entendimento popular, é algo imposto, por quem o institui, o que não ocorre com a reencarnação, conforme acabamos de ver; e é o que ainda se percebe dessas falas de Kardec, inclusive, onde se observa que ele não teve a menor preocupação em fazer os outros acreditarem nela, reencarnação:

[...]. Repetiremos, pois, o que dissemos a esse respeito, saber que, quando a doutrina da reencarnação nos foi ensinada pelos Espíritos, ela estava tão longe do nosso pensamento, que tínhamos feito, sobre os antecedentes da alma um sistema diferente, de resto, partilhado por muitas pessoas. A doutrina dos Espíritos, sob esse assunto, portanto, nos surpreendeu; diremos mais, contrariou, porque derrubou as nossas próprias idéias; ela estava longe, como se vê, de ser-lhe o reflexo. Isso não é tudo; não cedemos ao primeiro choque; combatemos, defendemos a nossa opinião, levantamos objeções, e não nos rendemos senão à evidência, e quando vimos a insuficiência do nosso sistema para resolver todas as questões que esse assunto levanta.
(KARDEC, 2001a, p. 295-296) (grifo nosso).

Raciocinamos, como dissemos, abstração feita de todo ensino espírita que, para certas pessoas não é uma autoridade. Se nós, e tantos outros, adotamos a opinião da pluralidade das existências, não foi somente porque ela nos veio dos Espíritos, mas porque nos pareceu a mais lógica, e que só ela resolve as questões até agora insolúveis. Se viesse de um simples mortal e a adotaríamos do mesmo modo, e não hesitaríamos antes em renunciar às nossas próprias idéias; do momento em que um erro é demonstrado, o amor-próprio tem mais a perder do que a ganhar obstinando-se numa idéia falsa. Do mesmo modo, teríamos repelido, embora vinda dos Espíritos, se ela nos parecesse contrária à razão, como as repelimos muitas outras, porque sabemos, por experiência, que não é preciso aceitar cegamente tudo o que vem de sua parte, não mais do que vem da parte dos homens.
(KARDEC, 2001a, p. 301-302) (grifo nosso).


Vejamos, agora, a opinião do jornalista, filósofo, educador e escritor J. Herculano Pires (1914-1979), “o melhor metro que mediu Kardec”, sobre dogmas de fé:

Os dogmas de fé, que formam a estrutura conceptual das igrejas, são as pedras de tropeço do seu caminho evolutivo. Partindo do princípio de que a Revelação Divina é a própria palavra de Deus dirigida aos homens, as igrejas se anquilosaram em seus dogmas intocáveis, pois a exegese humana não poderia alterar as ordenações ao próprio Deus. Na verdade, a alteração se verificou em vários casos, apesar disso, mas decisões conciliares puseram a última pá de cimento nos erros cometidos. As estruturas eclesiásticas tornaram-se rígidas e as igrejas confirmaram, no seu espírito, a ossatura de pedra de suas catedrais. Vangloriam-se ainda hoje da sua imutabilidade, num mundo em que tudo evolui sem cessar. Os resultados dessa atitude ilusória e pretensiosa só poderiam ser nefastos, como vemos atualmente no lento e doloroso processo de agonia das religiões. Incidiram assim no pecado do apego, contra o qual os Evangelhos advertiram os homens. Apegaram-se de tal maneira à própria vida, que perderam a vida em abundância que Jesus prometeu aos que se desapegassem. As liberalidades atuais chegaram demasiado tarde.

A palavra dogma é grega e seu sentido original é opinião. Adquiriu em filosofia e religião o sentido de princípio doutrinário. Nas Escrituras religiosas aparece algumas vezes com o sentido de édito ou decreto de autoridades judaicas ou romanas. Entre o dogma religioso e o filosófico há uma diferença fundamental. O dogma religioso é de fé, princípio de fé que não pode ser contraditado, pois provém da Revelação de Deus. O dogma filosófico é racional, dogma de razão, ou seja, princípio de uma doutrina racionalmente estruturada. O sentido religioso superou os demais por motivo das consequências muitas vezes desastrosas da sua rigidez e imutabilidade. Se falarmos, por exemplo, em dogmática, esse termo é geralmente entendido como designando a estrutura dos dogmas fundamentais de uma religião. Por isso, a adjetivação de dogmática, que implica também o masculino, como nas expressões: pessoa dogmática, posição dogmática ou homem dogmático, significa intransigência de opiniões. O mesmo acontece com o substantivo dogmatismo, que designa um sistema de opiniões intransigentes.

Estas influências religiosas na semântica revelam a intensidade da rigidez a que as igrejas se entregaram, através dos séculos e dos milênios, na defesa da suposta eternidade de seus princípios básicos. Temos, portanto, no dogma de fé, um dos motivos fundamentais da crise das religiões em nossos dias. No Espiritismo, como em todas as doutrinas filosóficas, existem dogmas de razão, como o da existência de Deus, o da reencarnação, o da comunicabilidade dos espíritos após a morte. Muitos adeptos estranham a presença dessa palavra nos textos de uma doutrina que se afirma antidogmática, aberta ao livre exame de todos, os seus princípios. São pessoas ainda apegadas ao sentido religioso da palavra. Não há nenhuma razão para essa estranheza, como já vimos, do ponto de vista cultural.

O problema da religião no Espiritismo tem provocado discussões e controvérsias infindáveis, porque essa doutrina não se apresenta como religião no sentido comum do termo. Allan Kardec, discípulo de Pestalozzi, adotava a posição de seu mestre no tocante à classificação das religiões. Pestalozzi admitia a existência de três tipos de religião: a animal ou primitiva, a social e a espiritual. Mas recusava-se a chamar esta última de religião, dando-lhe a designação de moralidade. Isso porque a religião superior ou espiritual, segundo ele, só era professada individualmente pela criatura que superava o ser social e desenvolvia em si o ser moral. Kardec recusou-se a falar em Religião Espírita, sustentando que o Espiritismo é doutrina científica e filosófica, de consequências morais. Mas deu a essas consequências enorme importância ao considerar o Espiritismo como desenvolvimento histórico do Cristianismo, destinado a restabelecer a verdade dos princípios cristãos, deformados pelo processo natural de sincretismo-religioso que originou as igrejas cristãs.

Essa posição espírita manteve a doutrina e o movimento doutrinário em posição marginal no campo religioso. Para os espíritas, entretanto, a posição da doutrina não é marginal, mas superior, pois o Espiritismo representaria o cumprimento da profecia evangélica da Religião em espírito e verdade, que se desenvolveria sob a égide do próprio Cristo. A religião espírita não se organizou em forma de igreja, não admite sacramentos nem admitiu nenhuma forma de autoridade religiosa de tipo sacerdotal. Não há batismo, nem casamento religioso no Espiritismo, nem confissões ou indulgências. Todos esses formalismos são considerados como de origem pagã e judaica. Entende-se o batismo como rito de iniciação, que Jesus substituiu pelo batismo do espírito, sendo este considerado .como a iniciação no conhecimento doutrinário, feita naturalmente pelo estudo da doutrina, sem nenhum ato ritual. Admite-se também que o batismo do espírito, segundo o texto do Livro de Atos dos Apóstolos sobre a visita de Pedro à casa do centurião Cornélius, no porto de Jope, pode completar-se, nos médiuns, quando se verifica espontaneamente, com o desenvolvimento da mediunidade.

Essa posição espírita no campo religioso causou numerosas dificuldades aos espíritas no tocante às relações de instituições doutrinárias com os poderes oficiais, particularmente para a declaração de religião em documentos oficiais, para o resguardo dos direitos escolares em face do ensino religioso, para a declaração de religião nos recenseamentos da população, até que medidas oficiais reconheceram esses direitos.

Em compensação, o Espiritismo ficou livre das consequências da crise religiosa, que não o atingiram. Demonstrarei nos capítulos seguintes a posição da Religião Espírita em face dessa crise, que é evidentemente uma posição de vanguarda. Sua contribuição para a racionalização dos princípios religiosos, para a reintegração da Religião no plano cultural, particularmente no tocante aos problemas científicos da atualidade, é realmente substancial. No campo filosófico a posição espírita é também vanguardeira, pois desde o século passado sua filosofia se apresenta como livre dos prejuízos do espírito de sistema, conservando-se aberta a todas as renovações que decorrem de descobertas cientificamente comprovadas. Livre da dogmática religiosa e da sistemática filosófica, apoiada inteiramente na pesquisa científica, a doutrina está de fato a cavaleiro nas crises da atualidade.
(PIRES, 2000, p. 26-30). (grifo nosso).


Não fugindo dos fatos, podemos confirmar que, realmente, em O Livro dos Espíritos, sua primeira obra, se expressou Kardec, dizendo “dogma da reencarnação”; porém, para não perder o costume, cabe-nos questionar: o sentido que ali ele empregou, para a palavra dogma, é o mesmo usado por aqueles que querem que o que eles dizem seja aceito como uma verdade.

Oportuno colocarmos, antes das definições dos dicionários, como Júlio Abreu Filho (1893-1971), tradutor do francês para o português da "Revue Spirite", publicada por Allan Kardec durante doze anos consecutivos, explica a palavra dogma.

Dogma – do grego e latim dogma: opinião, crença, ponto de vista. Antes da Era Cristã, o dogma era considerado como o conhecimento das tradições ocultas, secretas, da Igreja, as quais só podiam ser compreendidas misticamente por meio de símbolos ou aqueles que derivassem de seitas secretas, como os discípulos de Sócrates, Platão e Aristóteles, também condenado à morte, mas graças a Deus conseguiu fugir antes de dar a cidade de Atenas a chance de pecar novamente contra a filosofia, como acontecera a Sócrates. Após os primeiros Concílios o dogma ficou sendo considerado os pontos ou princípios expostos e definidos pela Igreja, ou qualquer sistema ou doutrina que seja, ou queira ser e ter a verdade absoluta do que prega ou ensina. O dogma passou a ser utilizado pela Igreja para congelar as teorias existentes que divergiam de seus ensinamentos. “O mundo muda, os acontecimentos se sucedem e o homem dogmático permanece petrificado nos conhecimentos dados de uma vez por todas”
(Aranha, M. L. A. e Martins, M. H. P. Filosofando - Introdução a Filosofia, cap. 5 item 8).

Dogma Versão Eclesiástica - Na linguagem eclesiástica, o termo se aplica às doutrinas ou princípios ensinados em nome de Deus. As fontes dos dogmas das Igrejas são as Escrituras - Bíblia - e a Tradição. A Tradição compreende: a) os decretos infalíveis e irrevogáveis dos Concílios gerais e dos Papas, que falam ex-cathedra; b) os símbolos da fé – sinal da cruz, batismos, exorcismo, etc... c) escritos dos pais e doutores da Igreja - Cipriano, Eusébio, Agostinho, Jerônimo, Tertuliano, Tomas de Aquino, Cirilo de Alexandria e etc... d) a liturgia que consiste na ordem das cerimônias e preces de que se compõe o serviço divino. Para a maioria das Religiões, os dogmas são revelações diretas de Deus, são imutáveis e inquestionáveis. Segundo a “lógica” da teologia das Igrejas cristãs, as revelações cessaram após a morte do último apóstolo, ficando as Igrejas impedidas de fazerem novas revelações e criar novos dogmas.

Dogma Versão Grega - Dogmatikós, que se funda em princípios ou é relativo a uma doutrina. Derivado de igual voz grega, dogma significa opinião dada como certa e intangível, ou seja, um Axioma. Por exemplo: a Terra gira em torno do Sol, independente das pessoas aceitarem ou não, ela não deixará de girar. É nessa acepção que Kardec deixou que alguns Espíritos empregassem o termo dogma da reencarnação. “Como quer que seja, não existem dogmas – na linguagem eclesiástica - na Doutrina dos Espíritos, onde tudo é demonstrado ou demonstrável e onde não se admite manifestações direto de Deus”.
(Kardec, A. Revista Espírita - 1862, março, p. 86 (notas de rodapé do tradutor)


Portanto, aqui já temos o que o termo dogma, foi utilizado por Kardec no sentido de “opinião dada como certa e intangível, ou seja, um Axioma, tomando do sentido grego, pelo qual ele é entendido como algo “que se funda em princípios ou é relativo a uma doutrina”.

A definição usual é a que encontramos nos dicionários:

Aurélio:
[Do lat. dogma, atis < gr. dógma, atos, 'decisão'.] S. m. 1. Ponto fundamental e indiscutível duma doutrina religiosa, e, p. ext., de qualquer doutrina ou sistema. 2. Rel. Na Igreja Católica Apostólica Romana, ponto de doutrina já por ela definido como expressão legítima e necessária de sua fé.

Houaiss:
s.m. (a1710) 1 teol ponto fundamental de uma doutrina religiosa, apresentado como certo e indiscutível <d. da santíssima trindade> 2 p.ext. qualquer doutrina (filosófica, política etc.) de caráter indiscutível 3 p.ext. princípio estabelecido; opinião firmada; preceito, máxima. etim gr. dógma,atos 'o que nos parece bom', donde 'opinião, decisão, decreto', adp. ao lat. dogma,àtis 'opinião, preceito, dogma' col dogmática.

Michaelis:
dog.ma s. m. 1. Ponto ou princípio de fé definido pela Igreja. 2. Fundamento de qualquer sistema ou doutrina. 3. O conjunto das doutrinas fundamentais do cristianismo.


É certo, portanto, que, usualmente, ela é empregada para designar algo indiscutível relativo a uma doutrina religiosa; porém, há um outro sentido que é o “fundamento de qualquer sistema ou doutrina” (Michaelis) ou “princípio estabelecido; opinião firmada; preceito, máxima” (Houaiss), o que não pode ser desprezado.

Russell Norman Champlim é quem vai nos explicar para que servem os dogmas:

[…] os dogmas são criados essencialmente para simplificarem as coisas e conferirem-nos algum conforto mental. Pois, se já conhecemos tudo quanto é essencial que seja conhecido, então podemos descansar e olvidar qualquer inquirição que procure por maiores luzes. O dogma pertence à essência mesma da letra que mata. O seu propósito é impor organização e ordem a um sistema de ideias, a fim de que esse sistema possa ser mais facilmente apreendido e aplicado. Porém, torna-se algo muito prejudicial quando começa a erguer muralhas que aprisionam a mente e o espírito. E torna-se ainda pior quando persegue aqueles que tentam escapar de seus estreitos limites. Literalmente falando, os dogmas têm sido a causa de morte de muitos corpos humanos. Têm sido a fonte de inúmeras perseguições religiosas. Têm servido para embotar muitas mentes. Os dogmas têm criado inimizades. São os principais aliados dos preconceitos.
(CHAMPLIN, 1981(?), p. 159)


De forma bem resumida, mas bem interessante, Carl Gustav Jung também deu sua definição: “um dogma, isto é, uma profissão de fé indiscutível surge apenas quando se pretende esmagar uma dúvida, de uma por todas”. (JUNG, 1975, p. 136) (grifo nosso)

Entretanto, para entender em qual sentido Kardec a usou, devemos nos basear na sua maneira de expressar-se; para isso vamos transcrever os textos, nos quais ele utilizou essa palavra.

Em sua primeira obra, O Livro dos Espíritos (1857), podemos encontrar:

171. Em que se funda o dogma da reencarnação?
“Na justiça de Deus e na revelação, pois incessantemente repetimos: o bom pai deixa sempre aberta a seus filhos uma porta para o arrependimento. Não te diz a razão que seria injusto privar para sempre da felicidade eterna todos aqueles de quem não dependeu o melhorarem-se? Não são filhos de Deus todos os homens? Só entre os egoístas se encontram a iniquidade, o ódio implacável e os castigos sem remissão.”
(KARDEC, 1995a, p. 121).

Kardec coloca, em complemento a essa resposta, a seguinte explicação:

Todos os Espíritos tendem para a perfeição e Deus lhes faculta os meios de alcançá-la, proporcionando-lhes as provações da vida corporal. Sua justiça, porém, lhes concede realizar, em novas existências, o que não puderam fazer ou concluir numa primeira prova.

Não obraria Deus com equidade, nem de acordo com a Sua bondade, se condenasse para sempre os que talvez hajam encontrado, oriundos do próprio meio onde foram colocados e alheios à vontade que os animava, obstáculos ao seu melhoramento. Se a sorte do homem se fixasse irrevogavelmente depois da morte, não seria uma única a balança em que Deus pesa as ações de todas as criaturas e não haveria imparcialidade no tratamento que a todas dispensa.

A doutrina da reencarnação, isto é, a que consiste em admitir para o Espírito muitas existências sucessivas, é a única que corresponde à idéia que formamos da justiça de Deus para com os homens que se acham em condição moral inferior; a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças, pois que nos oferece os meios de resgatarmos os nossos erros por novas provações. A razão no-la indica e os Espíritos a ensinam.

O homem, que tem consciência da sua inferioridade, haure consoladora esperança na doutrina da reencarnação. Se crê na justiça de Deus, não pode contar que venha a achar-se, para sempre, em pé de igualdade com os que mais fizeram do que ele. Sustém-no, porém, e lhe reanima a coragem a idéia de que aquela inferioridade não o deserda eternamente do supremo bem e que, mediante novos esforços, dado lhe será conquistá-lo. Quem é que, ao cabo da sua carreira, não deplora haver tão tarde ganho uma experiência de que já não mais pode tirar proveito? Entretanto, essa experiência tardia não fica perdida; o Espírito a utilizará em nova existência.
(KARDEC, 1995a, p. 121-122)


Como se vê da pergunta, Kardec utiliza o termo dogma como uma forma de dar o mesmo sentido que alguns seguimentos religiosos atribuem aos princípios doutrinários que servem de base à sua religião. E, nesse caso, o termo reencarnação não poderia ter outro tratamento que não o de “dogma”, para demonstrar que a reencarnação integra os princípios básicos da Doutrina Espírita. Veja que, na visão de um codificador, como Kardec foi do Espiritismo, ele já faz uso da palavra “doutrina”, dizendo incisivamente: “Ele [Espiritismo] repousa, por conseguinte, em princípios independentes das questões dogmáticas”
(KARDEC, 2001b, p. 130). Ou seja, ele parte do princípio de que a reencarnação é imanente à Doutrina Espírita, isto é, ambas estão intrinsecamente ligadas, mas com uma característica: a Doutrina Espírita não existe sem a reencarnação, enquanto a reencarnação independe da existência de qualquer doutrina, ou religião. Já o dogma, pelo que consta dos dicionários, tem o conceito de que é algo imposto de “cima para baixo”, ou seja, decorre de imposição, partindo de quem o institui.

Não podemos deixar de citar, por oportuno, a nota do editor, relacionada à pergunta acima, constante da edição Petit dessa mesma obra:

1 - Dogma: essa palavra adquiriu de forma genérica o significado de um princípio, um ponto de doutrina infalível e indiscutível. Porém, o seu verdadeiro sentido não é esse. A Doutrina Espírita não é dogmática no sentido que se conhece em alguns credos religiosos que adotam o princípio de filosofia em que a fé se sobrepõe à razão (fideísmo) para acomodar e justificar suas posições de crença.

A palavra dogma está aqui com o seu significado, isto é, a união de um fundamento, um princípio divino, com a experiência humana. Allan Kardec a emprega aqui e nas demais obras da Codificação Espírita com esse sentido, e igualmente os Espíritos se referiram ao dogma da reencarnação com essa significação, como se vê na resposta e à frente, na Parte Segunda, cap. 5, desta obra (N. E.).
(KARDEC, s/d, p. 96) (grifo nosso).


Explicações que, certamente, ajudarão no entendimento do real significado que a palavra dogma, empregada por Kardec, deve ter para nós, os espíritas.

205. A algumas pessoas a doutrina da reencarnação se afigura destruidora dos laços de família, com o fazê-los anteriores à existência atual.
“Ela os distende; não os destrói. Fundando-se o parentesco em afeições anteriores, menos precários são os laços existentes entre os membros de uma mesma família. Essa doutrina amplia os deveres da fraternidade, porquanto, no vosso vizinho, ou no vosso servo, pode achar-se um Espírito a quem tenhais estado presos pelos laços da consanguinidade.
(KARDEC, 1995a, 135-136).

222. Não é novo, dizem alguns, o dogma da reencarnação; ressuscitaram-no da doutrina de Pitágoras. Nunca dissemos ser de invenção moderna a Doutrina Espírita. Constituindo uma lei da Natureza, o Espiritismo há de ter existido desde a origem dos tempos e sempre nos esforçamos por demonstrar que dele se descobrem sinais na antiguidade mais remota. Pitágoras, como se sabe, não foi o autor do sistema da metempsicose; ele o colheu dos filósofos indianos e dos egípcios, que o tinham desde tempos imemoriais. A idéia da transmigração das almas formava, pois, uma crença vulgar, aceita pelos homens mais eminentes. De que modo a adquiriram? Por uma revelação, ou por intuição? Ignoramo-lo. Seja, porém, como for, o que não padece dúvida é que uma idéia não atravessa séculos e séculos, nem consegue impor-se a inteligências de escol, se não contiver algo de sério. Assim, a ancianidade desta doutrina, em vez de ser uma objeção, seria prova a seu favor. Contudo, entre a metempsicose dos antigos e a moderna doutrina da reencarnação, há, como também se sabe, profunda diferença, assinalada pelo fato de os Espíritos rejeitarem, de maneira absoluta, a transmigração da alma do homem para os animais e reciprocamente.

Portanto, ensinando o dogma da pluralidade das existências corporais, os Espíritos renovam uma doutrina que teve origem nas primeiras idades do mundo e que se conservou no íntimo de muitas pessoas, até aos nossos dias. Simplesmente, eles a apresentam de um ponto de vista mais racional, mais acorde com as leis progressivas da Natureza e mais de conformidade com a sabedoria do Criador, despindo-a de todos os acessórios da superstição. Circunstância digna de nota é que não só neste livro os Espíritos a ensinaram no decurso dos últimos tempos: já antes da sua publicação, numerosas comunicações da mesma natureza se obtiveram em vários países, multiplicando-se depois, consideravelmente. Talvez fosse aqui o caso de examinarmos por que os Espíritos não parecem todos de acordo sobre esta questão. Mais tarde, porém, voltaremos a este assunto.

[...]

Essas questões facilmente se multiplicariam ao infinito, porquanto inúmeros são os problemas psicológicos e morais que só na pluralidade das existências encontram solução. Limitamo-nos a formular as de ordem mais geral. Como quer que seja, alegar-se-á talvez que a Igreja não admite a doutrina da reencarnação; que ela subverteria a religião. Não temos o intuito de tratar dessa questão neste momento. Basta-nos o havermos demonstrado que aquela doutrina é eminentemente moral e racional. Ora, o que é moral e racional não pode estar em oposição a uma religião que proclama ser Deus a bondade e a razão por excelência. Que teria sido da religião, se, contra a opinião universal e o testemunho da ciência, se houvesse obstinadamente recusado a render-se à evidência e expulsado de seu seio todos os que não acreditassem no movimento do Sol ou nos seis dias da criação? Que crédito houvera merecido e que autoridade teria tido, entre povos cultos, uma religião fundada em erros manifestos e que os impusesse como artigos de fé? Logo que a evidência se patenteou, a Igreja, criteriosamente, se colocou do lado da evidência. Uma vez provado que certas coisas existentes seriam impossíveis sem a reencarnação, que, a não ser por esse meio, não se consegue explicar alguns pontos do dogma, cumpre admiti-lo e reconhecer meramente aparente o antagonismo entre esta doutrina e a dogmática. Mais adiante mostraremos que talvez seja muito menor do que se pensa a distância que, da doutrina das vidas sucessivas, separa a religião e que a esta não faria aquela doutrina maior mal do que lhe fizeram as descobertas do movimento da Terra e dos períodos geológicos, as quais, à primeira vista, pareceram desmentir os textos sagrados. Demais, o princípio da reencarnação ressalta de muitas passagens das Escrituras, achando-se especialmente formulado, de modo explícito, no Evangelho:

“Quando desciam da montanha (depois da transfiguração), Jesus lhes fez esta recomendação: Não faleis a ninguém do que acabastes de ver, até que o Filho do homem tenha ressuscitado, dentre os mortos. Perguntaram-lhe então seus discípulos: Por que dizem os escribas ser preciso que primeiro venha Elias? Respondeu-lhes Jesus: É certo que Elias há de vir e que restabelecerá todas as coisas. Mas, eu vos declaro que Elias já veio, e eles não o conheceram e o fizeram sofrer como entenderam. Do mesmo modo darão a morte ao Filho do homem. Compreenderam então seus discípulos que era de João Batista que ele lhes falava.” (São Mateus, cap. XVII.)

Pois que João Batista fora Elias, houve reencarnação do Espírito ou da alma de Elias no corpo de João Batista.

Em suma, como quer que opinemos acerca da reencarnação, quer a aceitemos, quer não, isso não constituirá motivo para que deixemos de sofrê-la, desde que ela exista, mau grado a todas as crenças em contrário. O essencial está em que o ensino dos Espíritos é eminentemente cristão; apoia-se na imortalidade da alma, nas penas e recompensas futuras, na justiça de Deus, no livre-arbítrio do homem, na moral do Cristo. Logo, não é antirreligioso (KARDEC, 1995a, p. 143-152).

613. Embora de todo errônea, a idéia ligada à metempsicose não terá resultado do sentimento intuitivo que o homem possui de suas diferentes existências?
“Nessa, como em muitas outras crenças, se depara esse sentimento intuitivo. O homem, porém, o desnaturou, como costuma fazer com a maioria de suas idéias intuitivas.”

Seria verdadeira a metempsicose, se indicasse a progressão da alma, passando de um estado a outro superior, onde adquirisse desenvolvimentos que lhe transformassem a natureza. É, porém, falsa no sentido de transmigração direta da alma do animal para o homem e reciprocamente, o que implicaria a idéia de uma retrogradação, ou de fusão. Ora, o fato de não poder semelhante fusão operar-se, entre os seres corporais das duas espécies, mostra que estas são de graus inassimiláveis, devendo dar-se o mesmo com relação aos Espíritos que as animam. Se um mesmo Espírito as pudesse animar alternativamente, haveria, como consequência, uma identidade de natureza, traduzindo-se pela possibilidade da reprodução material.

A reencarnação, como os Espíritos a ensinam, se funda, ao contrário, na marcha ascendente da Natureza e na progressão do homem, dentro da sua própria espécie, o que em nada lhe diminui a dignidade. O que o rebaixa é o mau uso que ele faz das faculdades que Deus lhe outorgou para que progrida. Seja como for, a ancianidade e a universalidade da doutrina da metempsicose e, bem assim, a circunstância de a terem professado homens eminentes provam que o princípio da reencarnação se radica na própria Natureza.
(
KARDEC, 1995a, p. 302).

1010a - Assim, pelo dogma da ressurreição da carne, a própria Igreja ensina a doutrina da reencarnação?
“É evidente. Demais essa doutrina decorre de muitas coisas que têm passado despercebidas e que dentro em pouco se compreenderão neste sentido. Reconhecer-se-á em breve que o Espiritismo ressalta a cada passo do texto mesmo das Escrituras sagradas. Os Espíritos, portanto, não vêm subverter a religião, como alguns o pretendem. Vêm, ao contrário, confirmá-la, sancioná-la por provas irrecusáveis. Como, porém, são chegados os tempos de não mais empregarem linguagem figurada, eles se exprimem sem alegorias e dão às coisas sentido claro e preciso, que não possa estar sujeito a qualquer interpretação falsa. Eis por que, daqui a algum tempo, muito maior será do que é hoje o número de pessoas sinceramente religiosas e crentes.”
(KARDEC, 1995a, p. 471).


Vê-se que Kardec nessa obra [O Livro dos Espíritos] emprega as palavras dogma, doutrina e princípio para falar da reencarnação; por conseguinte, deve-se ter que as duas últimas - doutrina e princípio - só podem significar o que ele entende por dogma, que é totalmente fora do conceito usual. É quase que somente nesse livro, ressaltamos, que Kardec usa a palavra dogma; e, assim mesmo, somente por três vezes; nas outras ocasiões ele emprega os outros dois termos citados.

Pode-se ver que também na obra O Evangelho segundo o Espiritismo (1864) é esse o termo que encontramos:

Não somente o princípio da reencarnação se acha aí claramente expresso, mas também o estado das almas que se mantêm sob o jugo da matéria é descrito qual o mostra o Espiritismo nas evocações. Mais ainda: no tópico acima se diz que a reencarnação num corpo material é consequência da impureza da alma, enquanto as almas purificadas se encontram isentas de reencarnar. Outra coisa não diz o Espiritismo, acrescentando apenas que a alma? que boas resoluções tomou na erraticidade e que possui conhecimentos adquiridos, traz, ao renascer, menos defeitos, mais virtudes e idéias intuitivas do que tinha na sua existência precedente. Assim, cada existência lhe marca um progresso intelectual e moral. (O Céu e o Inferno, 2.ª Parte: Exemplos.)
(KARDEC, 1996, p. 46)

11. Se o princípio da reencarnação, conforme se acha expresso em S. João, podia, a rigor, ser interpretado em sentido puramente místico, o mesmo já não acontece com esta passagem de S. Mateus, que não permite equívoco: ELE MESMO é o Elias que há de vir. Não há aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva. -"Desde o tempo de João Batista até o presente o reino dos céus é tomado pela violência."
(KARDEC, 1996, p. 87)

16. Não há, pois, duvidar de que, sob o nome de ressurreição, o princípio da reencarnação era ponto de uma das crenças fundamentais dos judeus, ponto que Jesus e os profetas confirmaram de modo formal; donde se segue que negar a reencarnação é negar as palavras do Cristo. Um dia, porém, suas palavras, quando forem meditadas sem idéias preconcebidas, reconhecer-se-ão autorizadas quanto a esse ponto, bem como em relação a muitos outros.
(KARDEC, 1996, p. 89)


E para se ver que Kardec não tinha a menor preocupação de fazer com que as pessoas pensassem igual a ele (o que isso seria um contrassenso se ele utilizasse dogmas para sustentar suas idéias), transcrevemos da Introdução dessa obra, que acabamos de citar:”

Essa a base em que nos apoiamos, quando formulamos um principio da doutrina. Não é porque esteja de acordo com as nossas idéias que o temos por verdadeiro. Não nos arvoramos, absolutamente, em árbitro supremo da verdade e a ninguém dizemos: "Crede em tal coisa, porque somos nós que vo-lo dizemos." A nossa opinião não passa, aos nossos próprios olhos, de uma opinião pessoal, que pode ser verdadeira ou falsa, visto não nos considerarmos mais infalível do que qualquer outro. Também não é porque um princípio nos foi ensinado que, para nós, ele exprime a verdade, mas porque recebeu a sanção da concordância.
(KARDEC, 1996, p. 32) (grifo nosso).


Em A Gênese (1868), última obra publicada, enquanto Kardec se encontrava no plano físico, vemos que ele mantém a mesma linguagem:

14. - Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, aplicando o método experimental. Fatos novos se apresentam, que não podem ser explicados pelas leis conhecidas; ele os observa, compara, analisa e, remontando dos efeitos às causas, chega à lei que os rege; depois, deduz-lhes as consequências e busca as aplicações úteis. Não estabeleceu nenhuma teoria preconcebida; assim, não apresentou como hipóteses a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem qualquer dos princípios da doutrina; concluiu pela existência dos Espíritos, quando essa existência ressaltou evidente da observação dos fatos, procedendo de igual maneira quanto aos outros princípios. Não foram os fatos que vieram a posteriori confirmar a teoria: a teoria é que veio subsequentemente explicar e resumir os fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação. As ciências só fizeram progressos importantes depois que seus estudos se basearam sobre o método experimental; até então, acreditou-se que esse método também só era aplicável à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas.
(KARDEC, 1995b, p. 20)

34. - A pluralidade das existências, cujo princípio o Cristo estabeleceu no Evangelho, sem todavia defini-lo como a muitos outros, é uma das mais importantes leis reveladas pelo Espiritismo, pois que lhe demonstra a realidade e a necessidade para o progresso. Com esta lei, o homem explica todas as aparentes anomalias da vida humana; as diferenças de posição social; as mortes prematuras que, sem a reencarnação, tornariam inúteis à alma as existências breves; a desigualdade de aptidões intelectuais e morais, pela ancianidade do Espírito que mais ou menos aprendeu e progrediu, e traz, nascendo, o que adquiriu em suas existências anteriores (nº. 5) (KARDEC, 1995b, p. 30).

33. - O princípio da reencarnação é uma consequência necessária da lei de progresso. Sem a reencarnação, como se explicaria a diferença que existe entre o presente estado social e o dos tempos de barbárie? Se as almas são criadas ao mesmo tempo que os corpos, as que nascem hoje são tão novas, tão primitivas, quanto as que viviam há mil anos; acrescentemos que nenhuma conexão haveria entre elas, nenhuma relação necessária; seriam de todo estranhas umas às outras. Por que, então, as de hoje haviam de ser melhor dotadas por Deus, do que as que as precederam? Por que têm aquelas melhor compreensão? Por que possuem instintos mais apurados, costumes mais brandos? Por que têm a intuição de certas coisas, sem as haverem aprendido? Duvidamos de que alguém saia desses dilemas, a menos admita que Deus cria almas de diversas qualidades, de acordo com os tempos e lugares, proposição inconciliável com a idéia de uma justiça soberana.
(Cap. II, nº. 10.) (KARDEC, 1995b, p. 222).


Na Revista Espírita 1864, falando sobre a Escola Espírita Americana, Kardec argumenta:

De todos os princípios da Doutrina, aquele que encontrou mais oposição na América, e pela América é preciso entender exclusivamente os Estados Unidos, foi o da reencarnação; pode-se mesmo dizer que é a única divergência capital, as outras prendendo-se antes à forma do que ao fundo, e isso, porque os Espíritos não o ensinaram ali; disso explicamos os motivos. Os Espíritos procedem por toda a parte com sabedoria e prudência; para fazer-se aceitar, evitam chocar muito bruscamente as idéias recebidas; não irão dizer inconsideradamente a um muçulmano que Maomé é um impostor. Nos Estados Unidos, o dogma da reencarnação viria se chocar contra os preconceitos de cor, tão profundamente enraizados nesse país; o essencial era fazer aceitar o princípio fundamental da comunicação do mundo visível e do mundo invisível; as questões de detalhe deveriam vir em outro tempo. Ora, não é duvidoso que esse obstáculo acabará por desaparecer, e que um dos resultados da guerra atual será o enfraquecimento gradual dos preconceitos que são uma anomalia numa nação tão liberal.
(KARDEC, 1993c, p. 148-149).


Kardec continua usando os termos doutrina e princípio para qualificar a reencarnação. Será até interessante fazermos aqui uma quantificação em relação a todos os trechos em que aparecem esses termos em suas obras – O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno, A Gênese e Revista Espírita –, que sejam dele próprio:

Termo Quantidade Percentual
Dogma 03 8,1%
Doutrina 19 51,4%
Princípio 15 40,5%
Total 37 100%


Assim, vê-se que em 91,9% das vezes Kardec utiliza os termos doutrina ou princípio, o que prova, indiscutivelmente, que, para ele, a reencarnação não era um dogma no sentido que as teologias tradicionais dão a esse termo, porquanto a considerava como um dos princípios fundamentais da Doutrina Espírita, razão pela qual utilizou, na esmagadora maioria das vezes, esses dois termos. A primeira vez que aparece a palavra dogma é na pergunta 171 de O Livro dos Espíritos; porém, é importante ressaltar que os comentários que Kardec faz à resposta dada pelos espíritos, ele usa somente o termo doutrina.

E para ficar bem claro que não é mesmo dogma, uma vez que esse é sempre imposto e não se pode questionar, vejamos algumas de suas colocações constantes da Revista Espírita (1858-1869).

Vós estáveis, sem dúvida, dizem também alguns contraditores, imbuídos dessas idéias, e eis porque os Espíritos se aterraram à vossa maneira de ver. Aí está um erro que prova, uma vez mais, o perigo dos julgamentos apressados e sem exame. Se essas pessoas tivessem se dado ao trabalho de lerem o que escrevemos sobre o Espiritismo, teriam se poupado apenas de uma objeção feita muito levianamente. Repetiremos, pois, o que dissemos a esse respeito, saber que, quando a doutrina da reencarnação nos foi ensinada pelos Espíritos, ela estava tão longe do nosso pensamento, que tínhamos feito, sobre os antecedentes da alma um sistema diferente, de resto, partilhado por muitas pessoas. A doutrina dos Espíritos, sob esse assunto, portanto, nos surpreendeu; diremos mais, contrariou, porque derrubou as nossas próprias idéias; ela estava longe, como se vê, de ser-lhe o reflexo. Isso não é tudo; não cedemos ao primeiro choque; combatemos, defendemos a nossa opinião, levantamos objeções, e não nos rendemos senão à evidência, e quando vimos a insuficiência do nosso sistema para resolver todas as questões que esse assunto levanta (KARDEC, 2001a, p. 295) (grifo nosso).

Temos, pois, como se vê, muitos motivos para não aceitarmos, levianamente, todas as teorias dadas pelos Espíritos. Quando uma nos surge, nos limitamos ao papel de observador; fazemos abstração de sua origem espírita, sem nos deslumbrarmos pela imponência de nomes pomposos; nós a examinamos como se ela emanasse de um simples mortal, e vemos se é racional, se dá conta de tudo, se resolve todas as dificuldades. Foi assim que procedemos com a doutrina da reencarnação que não adotamos, embora vinda dos Espíritos, senão depois de reconhecer que só ela, mas só ela, podia resolver o que nenhuma filosofia ainda não resolvera, e isso abstração feita das provas materiais que dela são dadas, cada dia, a nós e a muitos outros. Pouco nos importa, pois, os contraditores, fossem eles mesmo Espíritos; desde que ela é lógica, conforme a justiça de Deus; que eles não podem substituí-la por algo mais satisfatório, não nos inquietamos mais com eles do que com aqueles que afirmam que a Terra não gira ao redor do Sol. - porque há Espíritos dessa força e que se dão por sábios - ou que pretendem que o homem tenha vindo inteiramente formado de um outro mundo, carregado nas costas de um elefante alado.
(KARDEC, 2000a, p. 108-109) (grifo nosso).

O próprio princípio da reencarnação que tinha, no primeiro momento, encontrado mais contraditores, porque não era compreendido, hoje é aceito pela força da evidência, e porque todo homem que pensa nele reconhece a única solução possível dos maiores problemas da filosofia moral e religiosa. Sem a reencarnação, para-se a cada passo, tudo é caos e confusão; com a reencarnação tudo se esclarece, tudo se explica da maneira mais racional; se ela encontra ainda alguns adversários, mais sistemáticos do que lógicos, o número deles é muito restrito; ora, quem a inventou? Não foi, seguramente, nem vós e nem eu; ela nos foi ensinada, nós a aceitamos, eis tudo o que fizemos. De todos os sistemas que surgiram no princípio, bem poucos sobrevivem hoje, e pode-se dizer que os seus raros partidários estão, sobretudo, entre as pessoas que julgam sob um primeiro aspecto, e, frequentemente, segundo idéias preconcebidas ou preconceitos; mas é evidente agora que, quem se dá ao trabalho de aprofundar todas as questões e julga friamente, sem prevenção, sem hostilidade sistemática, sobretudo, é invencivelmente conduzido, pelo raciocínio quanto pelos fatos, à teoria fundamental que prevalece hoje, pode-se dizer, em todos os países do mundo.
(KARDEC, 1993a, p. 135-136) (grifo nosso).


Especialmente, pelo que consta na Revista Espírita, em relação ao que aconteceu com o próprio Kardec, que teve plena liberdade de aceitar o princípio da reencarnação, é que não a vemos como um dogma, que, implicitamente, traz a idéia de algo imposto, tipo: “aceita ou morre”. E dentro desse conceito não cabe aplicá-lo a qualquer um dos princípios da Doutrina Espírita, porquanto não nos apoiamos na fé cega, mas na razão como base para uma fé raciocinada; daí dizer: “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade”. (KARDEC, 1996, p. 303), que coloca como epígrafe na obra O Evangelho Segundo o Espiritismo. Sobre a fé cega, tinha este pensamento:

O erro da maioria das religiões é de haver erigido em dogma absoluto o princípio da fé cega, e de haver, em favor desse princípio, que anula a ação da inteligência, feito aceitar, durante um tempo, as crenças que os progressos ulteriores da ciência vieram contradizer. (KARDEC, 1999, p. 42)


Kardec, inclusive, faz uma ligação de fé raciocinada com livre pensamento, que entendia como “liberdade absoluta de escolha das crenças”
(KARDEC, 1999, p. 38), argumenta:

O livre pensamento, na sua acepção mais ampla, significa: livre exame, liberdade de consciência, fé raciocinada; ele simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física; ele não quer mais escravos do pensamento do que escravos do corpo, porque o que caracteriza o livre pensador é que ele pensa por si mesmo e não pelos outros, em outras palavras, que sua opinião lhe pertence particularmente. Pode, pois, haver livres pensadores em todas as opiniões e em todas as crenças. Neste sentido, o livre pensamento eleva a dignidade do homem; dele faz um ser ativo, inteligente, em lugar de uma máquina de crer.
(KARDEC, 1999, p. 39). (grifo nosso).

Para Kardec “os Espíritas são também livres pensadores” (KARDEC, 1999, p. 6), expressão que assim definiu:

Os livres pensadores, nova denominação pela qual se designam aqueles que não se sujeitam à opinião de ninguém em matéria de religião e de espiritualidade, que não se crêem ligados pelo culto onde o nascimento os coloca sem seu consentimento, nem obrigados à observação de quaisquer práticas religiosas.
(KARDEC, 1999, p. 6) (grifo nosso).

Por outro lado, não sendo a reencarnação uma questão religiosa, pois trata-se, antes de tudo, de uma lei natural, nós, como espíritas, não fazemos questão alguma de abrigá-la sob o manto de uma visão teológica, em atendimento ao que Kardec disse:

Desde que o Espiritismo não se declara nem estacionário nem imutável, ele assimilará todas as verdades que forem demonstradas, de qualquer parte que venham, fosse da de seus antagonistas, e não permanecerá jamais atrás do progresso real. Ele assimilará essas verdades, dizemos nós, mas somente quando forem claramente demonstradas, e não porque agradaria de dar por elas, ou seus desejos pessoais ou os produtos da imaginação.
(KARDEC, 1993e, p. 9) (grifo nosso)

O Espiritismo, pois, não estabelece como princípio absoluto senão o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação. Entendendo com todos os ramos da economia social, aos quais dá o apoio das suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam, desde que hajam assumido o estado de verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que ele se suicidaria. Deixando de ser o que é, mentiria à sua origem e ao seu fim providencial. Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.
(KARDEC, 1995b, p. 44-45) (grifo nosso).


Dessa forma, Kardec busca apoiar-se na Ciência, que só revela leis criadas por Deus, e não na teologia, pois desta resultam interpretações ao sabor de cada teólogo que, na maioria das vezes, são tão divergentes que nos causam estranheza quando ouvimos atribuí-las como de fossem provenientes da própria divindade. Mil teólogos, milhares de interpretações!!!

Talvez alguns dos que são contrários ao nosso entendimento não saibam que, no início, Kardec fez de tudo para não vincular o Espiritismo como uma religião. Sobre isso, vejamos o que Herculano Pires, disse:

Kardec sabia o que fazia, quando evitava a confusão do Espiritismo com as religiões dogmáticas e formalistas, sem entretanto negar ao Espiritismo o seu aspecto religioso. Teve mesmo o cuidado de não cortar em excesso as ligações da doutrina com a tradição religiosa, pois sabia que a evolução não pode sofrer, sem graves perigos de solução de continuidade. O princípio espírita do encadeamento de todas as coisas no Universo estava presente em sua mente. Poucas obras revelam uma compreensão tão clara e profunda da natureza orgânica do Universo, como a Codificação. É por isso, e não por sectarismo ou fanatismo, que não podemos fazer concessões ao passado no campo das atividades doutrinárias. Avançamos para um novo mundo que só o Espiritismo pode modelar, pois só ele revela condições para isso em sua estrutura doutrinária. Mas se não procurarmos compreendê-lo em toda a sua grandeza, é certo que o reduziremos a uma seita fanática de crentes obscurantistas. Evitemos essa queda no passado, para nós mesmos e para o mundo. Tenhamos a coragem de avançar sem muletas e sem temor para a Civilização do Espírito. (PIRES, 2000, p. 113)

Geralmente o fanatismo religioso só prospera em meio a dogmas, pela simples razão de que “Os crentes dispensam em regra as provas. Contentam-se com a presunção de boa-fé”(Canuto Abreu).

Esperamos ter conseguido demonstrar que, de fato, no Espiritismo não existe nenhum tipo de dogma, porquanto nada é imposto e nem a pessoa tem que acreditar naquilo que contrarie a lógica e a razão, pelo simples motivo de que o que se impõe, impõe-se justamente por não ter nenhuma base lógica e nem tampouco apoio na razão.

Vale a pena vermos algumas considerações que Kardec tece quando do diálogo com o Padre, constante da obra O que é o Espiritismo:

Tal é, senhor abade, a linha de conduta que tenho seguido com os ministros dos diversos cultos que a mim se hão dirigido. Quando eles me interpelaram sobre alguns pontos da Doutrina, dei-lhes as explicações necessárias, abstendo-me de discutir certos dogmas de que o Espiritismo não se quer ocupar, por serem todos os homens livres em suas apreciações; nunca, porém, fui procurá-los no propósito de lhes abalar a fé por meio de qualquer pressão (KARDEC, 2001b, p. 123). (grifo nosso).

Padre. — Não podeis, entretanto, contestar que o Espiritismo não está, em todos os pontos, de acordo com a religião.
A. K. — Ora, senhor abade, todas as religiões dirão a mesma coisa: os protestantes, os judeus, os muçulmanos, tanto quanto os católicos.

Se o Espiritismo negasse a existência de Deus, da alma, da sua individualidade e imortalidade, das penas e recompensas futuras, do livre-arbítrio do homem; se ele ensinasse que cada um só deve viver para si, não pensar senão em si, não só seria contrário à religião católica, como a todas as religiões do mundo; ele seria ainda a negação de todas as leis morais, base das sociedades humanas.

Longe disso: os Espíritos proclamam um Deus único, soberanamente justo e bom; eles dizem que o homem é livre e responsável por seus atos, recompensado ou punido pelo bem ou pelo mal que houver feito; colocam acima de todas as virtudes a caridade evangélica e a seguinte regra sublime ensinada pelo Cristo: fazer aos outros como queremos que nos seja feito.

Não são estes os fundamentos da religião?

Essa certeza do futuro, de se ir encontrar aqueles a quem se amou, não será uma consolação?
Essa grandiosidade da vida espiritual, que é a nossa essência, comparada às mesquinhas preocupações da vida terrena, não será própria a elevar a nossa alma e a fortalecermos na prática do bem?

Padre. — Concordo que, nas questões gerais, o Espiritismo é conforme às grandes verdades do Cristianismo; dar-se-á, porém, o mesmo em relação aos dogmas? Não contradiz ele alguns princípios que a Igreja nos ensina?
A. K. — O Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência, não cogita de questões dogmáticas. Esta ciência tem consequências morais como todas as ciências filosóficas; essas consequências são boas ou más?

Pode-se julgá-las pelos princípios gerais que acabo de expor.

Algumas pessoas se iludem sobre o verdadeiro caráter do Espiritismo. A questão é de grande importância e merece alguns desenvolvimentos. Façamos primeiro um termo de comparação: a eletricidade, estando na Natureza, existiu em todo tempo e produziu sempre os efeitos que hoje observamos e muitos outros que ainda não conhecemos. Na ignorância da sua verdadeira causa, os homens explicavam esses efeitos de um modo mais ou menos extravagante. A descoberta da eletricidade e de suas propriedades veio lançar por terra um punhado de teorias absurdas, espargindo a luz por sobre mais de um mistério da Natureza. O que fizeram a eletricidade e as ciências físicas para certos fenômenos, o Espiritismo o fez para outros de ordem diferente.

O Espiritismo funda-se na existência de um mundo invisível, formado pelos seres incorpóreos que povoam o espaço e que não são mais que as almas daqueles que viveram na Terra, ou em outros globos, nos quais deixaram seus invólucros materiais. São os seres a que chamamos Espíritos, seres que nos cercam e incessantemente exercem sobre os homens, sem que estes o percebam, uma grande influência, e desempenham papel muito ativo no mundo moral, e mesmo, até certo ponto, no físico.

O Espiritismo está, pois, em a Natureza e podemos dizer que, numa certa ordem de idéias, é ele uma potência, como a eletricidade o é sob outro ponto de vista, e como ainda a gravitação é uma outra. Os fenômenos, de que o mundo invisível é a fonte, produziram-se em todos os tempos; eis aí por que a história de todos os povos faz deles menção. Somente, em sua ignorância, como se deu com a eletricidade, os homens os atribuíam a causas mais ou menos racionais, e deram, nesse ponto de vista, livre curso à sua imaginação.

Mais bem observado depois que se vulgarizou, o Espiritismo vem derramar luz sobre grande número de questões, até hoje insolúveis ou mal compreendidas. Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência e não de uma religião; e a prova disso é que ele conta entre os seus aderentes homens de todas as crenças, que por esse fato não renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos que não deixam de praticar todos os deveres do seu culto, quando a Igreja os não repele; protestantes de todas as seitas, israelitas, muçulmanos e mesmo budistas e bramanistas.

Ele repousa, por conseguinte, em princípios independentes das questões dogmáticas. Suas consequências morais são todas no sentido do Cristianismo, porque de todas as doutrinas é esta a mais esclarecida e pura; razão pela qual, de todas as seitas religiosas do mundo, os cristãos são os mais aptos para compreendê-lo em sua verdadeira essência.

Podemos exprobrá-lo por isso?

Cada um pode formar de suas opiniões uma religião e interpretar à vontade as religiões conhecidas; mas daí a constituir nova Igreja, a distância é grande.
(KARDEC, 2001b, p. 128-130) (grifo nosso).

Padre. — Dissestes que o Espiritismo não discute os dogmas, e, entretanto, ele admite certos pontos combatidos pela Igreja, tais como, por exemplo, a reencarnação, a aparição do homem na Terra, antes de Adão; nega a eternidade das penas, a existência dos demônios, o purgatório e o fogo do inferno.
A. K. — Já de há muito que esses pontos estão sendo discutidos; não foi o Espiritismo quem os pôs em litígio; são pontos sobre alguns dos quais há controvérsia, mesmo entre os teólogos, e que só o futuro julgará. Um grande princípio domina a todos: a prática do bem, que é a lei superior, a condição sine qua non do nosso futuro, como no-lo prova o estado dos Espíritos que conosco se comunicam.

Enquanto a luz não se faz para vós sobre essas questões, crede, se o quiserdes, nas chamas e torturas materiais, se julgais que isso impede que pratiqueis o mal; essa crença, porém, não as tornará mais reais se elas não existirem.

Acreditais que não temos mais de uma existência corporal, mas isto não impede de renascerdes aqui ou em outra parte, se assim tiver de ser, apesar de o não quererdes; credes que o mundo todo foi criado em seis vezes vinte e quatro horas, mas, apesar disso, a Terra nos apresenta a prova do contrário, escrita em suas camadas geológicas; estais convencido de haver Josué feito parar o Sol, o que não dá lugar a que deixe de ser a Terra que gira; dizeis que a data da vinda do homem à Terra não vai além de 6.000 anos: isto, porém, não priva que os fatos vos contradigam. E que direis se um dia a Geologia demonstrar, por traços patentes, a anterioridade do homem, como já tem demonstrado tantas outras coisas?

Crede, pois, em tudo que vos aprouver, mesmo na existência do diabo, se tal crença vos puder tornar bom, humano e caridoso para com os vossos semelhantes. O Espiritismo, como doutrina moral, só impõe uma coisa: a necessidade de fazer o bem e evitar o mal. É uma ciência de observação que, repito, tem consequências morais, que são a confirmação e a prova dos grandes princípios da religião; quanto às questões secundárias, ele as abandona à consciência de cada um.

Notai bem, reverendo, que alguns dos pontos divergentes de que acabastes de falar, não são, em princípio, contestados pelo Espiritismo. Se tivésseis lido tudo quanto tenho escrito a respeito, teríeis visto que ele se limita a dar-lhes uma interpretação mais lógica e racional do que a que vulgarmente se lhes dá.

É assim, por exemplo, que ele não nega o purgatório; antes, pelo contrário, demonstra sua necessidade e justiça; vai mesmo além: ele o define. O inferno foi descrito como imensa fornalha, mas ele será assim também compreendido pela alta teologia? Evidentemente, não; ela diz muito bem que isto é uma simples figura; que o fogo que ali se consome é um fogo moral, símbolo das maiores dores. Quanto à eternidade das penas, se fosse possível pôr-se a votos tal questão, para se conhecer a opinião íntima de todos os homens que raciocinam e se acham no caso de compreendê-la, mesmo entre os mais religiosos se veria para que lado penderia a maioria, porque a idéia de uma eternidade de suplícios é a negação da infinita misericórdia de Deus.

Eis, demais, o que avança a Doutrina Espírita a tal respeito:

A duração do castigo é subordinada ao melhoramento do Espírito culpado. Nenhuma condenação por tempo determinado é pronunciada contra ele. O que Deus exige, para pôr um termo aos sofrimentos, é o arrependimento, a expiação e a reparação; em uma palavra, um melhoramento sério e efetivo, uma volta sincera ao bem. O Espírito é assim o árbitro de sua própria sorte; sua pertinácia no mal prolonga-lhe os sofrimentos; seus esforços para fazer o bem os minoram ou abreviam. Sendo a duração da pena subordinada ao arrependimento, o Espírito culpado, que não se arrependesse e nunca se melhorasse, sofreria sempre, e para ele então a pena seria eterna. Essa eternidade de penas deve ser entendida no sentido relativo e não no absoluto. Uma condição inerente à inferioridade do Espírito é não ver o termo da sua situação e crer que há de sofrer sempre — o que é para ele um castigo.

Desde que, porém, sua alma se abra ao arrependimento, Deus lhe faz entrever um raio de esperança.

Esta doutrina é, por certo, mais conforme à justiça de Deus, que pune, enquanto o culpado persiste no mal, e concede-lhe graça desde que ele volte ao bom caminho. Quem imaginou essa teoria? Seríamos nós?

Não; são os Espíritos que a ensinam e provam, pelos exemplos que diariamente nos fornecem. Os Espíritos não negam, pois, as penas futuras, pois que são eles mesmos que nos vêm descrever seus próprios sofrimentos; e este quadro nos toca mais que o das chamas perpétuas, porque tudo nele é perfeitamente lógico. Compreende-se que isto é possível, que assim deve ser, que essa situação é uma consequência natural das coisas; o pensador filósofo pode aceitá-lo, porque nele nada repugna à razão. Eis por que as crenças espíritas têm conduzido ao bem muita gente, mesmo entre os materialistas, aos quais não fazia mossa o medo do inferno, como lhes era pintado. (KARDEC, 2001b, p. 133-136) (grifo nosso).

Padre. — Deixemos a questão dos demônios; bem sei que ela é diversamente interpretada pelos teólogos; porém o sistema da reencarnação parece-me mais difícil de conciliar com os dogmas, pois que ele não é mais que a renovação da metempsicose de Pitágoras.
A. K. — Não é esta a ocasião própria de discutir uma questão que exige tão longos desenvolvimentos: vós a encontrareis tratada em O Livro dos Espíritos e no Evangelho segundo o Espiritismo (vede O Livro dos Espíritos, n.° 166 e seg., 222 e seg. e 1.010; O Evangelho, caps. IV e V); não acrescentarei senão duas palavras.

A metempsicose dos antigos consistia na transmigração da alma do homem nos animais, o que implica uma degradação. Demais, essa doutrina não era o que vulgarmente se crê. A transmigração pelos corpos dos animais não era considerada como condição inerente à natureza da alma humana, mas como punição temporária; é assim que se admitia que as almas dos assassinos iam habitar os corpos dos animais ferozes, para neles receberem castigos; as dos impudicos, os porcos e javalis; as dos inconstantes e estouvados, os das aves; as dos preguiçosos e ignorantes, os dos animais aquáticos. Depois de alguns milhares de anos, mais ou menos, conforme a culpabilidade, a alma, saindo dessa espécie de prisão, voltava à humanidade. A encarnação animal não era, pois, uma condição absoluta; ela, como se vê, aliava-se à encarnação humana, e a prova é que a punição dos homens tímidos consistia em passar a corpos de mulheres, expostas ao desprezo e às injúrias. (Vede Pluralidade das existências da alma, por Pezzani.) Era uma espécie de espantalho para os simples, antes que um artigo de fé para os filósofos. Assim como dizemos às crianças: “Se fordes más, o lobo vos comerá”, os antigos diziam aos criminosos: “Vós vos tornareis em lobos”, e hoje se diz: “O diabo vos agarrará e levará para o inferno.”

A pluralidade das existências, segundo o Espiritismo, difere essencialmente da metempsicose, em não admitir aquele a encarnação da alma humana nos corpos de animais, mesmo como castigo. Os Espíritos ensinam que a alma não retrograda, mas progride sempre. Suas diferentes existências corpóreas se cumprem na humanidade, sendo cada uma um passo que a alma dá na senda do progresso intelectual e moral; o que é coisa muito diversa da metempsicose.

Não podendo adquirir um desenvolvimento completo em uma só existência, muitas vezes abreviada por causas acidentais, Deus lhe permite continuar, em nova encarnação, o que ela não pôde acabar em outra, ou recomeçar o que fez errado. A expiação na vida corporal consiste nas tribulações que nela sofremos.

Quanto à questão de saber se a pluralidade das existências da alma é ou não contrária a certos dogmas da Igreja, limito-me a dizer o seguinte:

Ou a reencarnação existe, ou não; se existe, é uma lei da Natureza. Para provar que ela não existe, seria necessário demonstrar que vai de encontro, não aos dogmas, mas a essas leis, e que há outra mais clara e logicamente melhor que ela, explicando as questões que só ela pode resolver. Além disso, é fácil demonstrar que certos dogmas encontram nela sanção racional, hoje aceitos por aqueles que os repeliam outrora, por falta de compreensão. Não se trata, pois, de destruir, mas de interpretar; é o que pela força das coisas será feito mais tarde.

Aqueles que não queiram aceitar a interpretação ficam perfeitamente livres, como ainda hoje o são, de crer que é o Sol que gira ao redor da Terra. A idéia da pluralidade das existências se vulgariza com pasmosa rapidez, em razão de sua extrema lógica e conformidade com a justiça de Deus. Quando ela for reconhecida como verdade natural e aceita por todos, que fará a Igreja?

Em resumo: a reencarnação não é um sistema imaginado para satisfação das necessidades de um ideal, nem uma opinião pessoal; é ou não um fato. Se está demonstrado que certos efeitos existentes são materialmente impossíveis sem a reencarnação, é preciso admitirmos que eles são a consequência desta; logo, se está em a Natureza, não pode ser anulada por uma opinião contrária. (KARDEC, 2001b, p. 141-143) (grifo nosso).

Kardec, em várias ocasiões, assim se expressou, quanto à liberdade de se crer ou não em alguma coisa, incluindo aí a reencarnação e no próprio Espiritismo:

Em resumo, senhor, todos têm completa liberdade de aprovar ou censurar os princípios do Espiritismo, de deduzir deles as consequências boas ou más que lhes aprouver, porém a consciência impõe ao crítico a obrigação de não dizer o contrário do que ele sabe que é; ora, para isso, a primeira condição é não falar do que não conhece. (KARDEC, 2001b, p. 59-60) (grifo nosso).

A liberdade de consciência é consequência da liberdade de pensar, que é um dos atributos do homem; e o Espiritismo, se não a respeitasse, estaria em contradição com os seus princípios de liberdade e tolerância.
(KARDEC, 2001b, p. 123) (grifo nosso).

O Espiritismo não se impõe, porque, como vo-lo disse — respeita a liberdade de consciência; ele sabe também que toda crença imposta é superficial e não desperta senão as aparências da fé; nunca, porém, a fé sincera. Ele expõe seus princípios aos olhos de todos, de modo a cada um poder formar opinião segura.

Os que lhe aceitam os princípios, sacerdotes ou leigos, o fazem livremente e pelos achar racionais; mas nós não ficamos querendo mal aos que se afastam da nossa opinião.
(KARDEC, 2001b, p. 124) (grifo nosso).

O Espiritismo, como doutrina moral, só impõe uma coisa: a necessidade de fazer o bem e evitar o mal. (KARDEC, 2001b, p. 134) (grifo nosso).

O Espiritismo é uma filosofia como outra que se aceita livremente se ela convém, e que se rejeita se não convém; que repousa sobre uma fé inalterável em Deus e no futuro, e que não obriga moralmente seus adeptos senão a uma coisa: considerar todos os homens como irmãos, sem exceção de crença, e fazer o bem, mesmo àqueles que nos fazem mal.
(KARDEC, 1993e, p. 77) (grifo nosso).

[…] o Espiritismo, proclamando a liberdade absoluta de consciência, não admite nenhum constrangimento em matéria de crença, e que jamais contestou a ninguém, o direito de crer à sua maneira em matéria de Espiritismo como em toda outra coisa.
(KARDEC, 1993e, p. 111-112) (grifo nosso).

[...] a lealdade quer se se coloque em frente os argumentos pró e contra, a fim de que o público julgue de seu valor recíproco; [...]"
(KARDEC, 1993c, p. 154).

O Espiritismo se dirige aos que não crêem ou que duvidam, e não aos que têm fé e a quem essa fé é suficiente; ele não diz a ninguém que renuncie às suas crenças para adotar as nossas, e nisto é consequente com os princípios de tolerância e de liberdade de consciência que professa. (KARDEC, 2001b, p. 36) (grifo nosso).

O Espiritismo não se impõe, aceita-se; ele dá suas razões e não acha mau que as combata, uma vez que isso seja com armas leais, e remete-se ao bom senso público para pronunciar-se.
(KARDEC, 1993c, p. 84) (grifo nosso).

O Espiritismo não quer ser acreditado sob palavra; ele quer o livre exame; sua propaganda se faz dizendo: Vede o pró e o contra; julgai o que satisfaça melhor vosso julgamento, o que responda melhor às vossas esperanças e às vossas aspirações, o que toque mais vosso coração, e decidi-vos em conhecimento de causa".
(KARDEC, 1993c, p. 84) (grifo nosso).

Se o Espiritismo ainda não disse tudo, ele é, no entanto, uma certa soma de verdades adquiridas pela observação e que constituem a opinião da maioria dos adeptos; e se essas verdades passaram hoje ao estado de artigos de fé, para nos servir de uma expressão empregada ironicamente por alguns, isto não é nem por nós, nem por ninguém, nem mesmo por nossos Espíritos instrutores e elas foram assim colocadas e ainda menos impostas, mas pela adesão de todo mundo, cada um estando em condições de constatá-las.
(KARDEC, 1993e, p. 9) (grifo nosso).

Cada um é livre para encarar as coisas à sua maneira, e nós, que reclamamos essa liberdade para nós, não podemos recusá-la aos outros.
(KARDEC, 1993e, p. 5) (grifo nosso)

O Espiritismo, que censura aos outros por se imporem, não deve incorrer numa mesma censura; ele não se impõe jamais: espera que se venha a ele.
(KARDEC, 1993e, p. 13)

Ele não diz: Fora do Espiritismo não há salvação, mas com o Cristo: Fora da caridade não há salvação, princípio de união, de tolerância, que unirá os homens num comum sentimento de fraternidade, em lugar de dividi-los em seitas inimigas. Por este outro princípio: Não há fé inabalável senão aquela que pode olhara razão face a face em todas as épocas da Humanidade, destrói o império da fé cega que anula a razão, da obediência passiva que embrutece; ele emancipa a inteligência do homem e levanta seu moral.

Consequentemente, com ele não se impõe; ele diz o que é, o que quer, o que dá, e espera que se venha a ele livremente, voluntariamente; quer ser aceito pela razão e não pela força. Ele respeita todas as crenças sinceras, e não combate senão a incredulidade, o egoísmo, o orgulho e a hipocrisia, que são as chagas da sociedade, e os mais sérios obstáculos ao progresso moral; mas não lança anátema a ninguém, nem mesmo aos seus inimigos, porque está convencido de que o caminho do bem está aberto aos mais imperfeitos, e que, cedo ou tarde, nele entrarão.
(KARDEC, 1993e, p. 299) (grifo nosso)

E que fez para conduzi-los a ele [o Espiritismo]? Foi à força de reclames? Foi indo pregara Doutrina nas praças públicas? Foi violentando as consciência? De nenhum modo, porque esses meios são os da fraqueza, e, se os tivesse usado, teria mostrado que duvidava de sua força moral. Ele tem por regra invariável, conforme à lei de caridade ensinada pelo Cristo, de não constranger ninguém, de respeitar todas as convicções; ele contentou-se em anunciar os seus princípios, de desenvolverem seus escritos as bases sobre as quais estão assentadas as suas crenças, e deixou vir a ele aqueles que quisessem; se vieram muitos, é que convenceu a muitos, e que muitos encontraram nele o que não tinham encontrado em outra parte. [...]
(KARDEC, 1993d, p. 11) (grifo nosso)

Em virtude de seus princípios, ele não é agressivo; não se impõe; não subjuga; não pede para si senão a liberdade de pensar à sua maneira.
(KARDEC, 1993d, p. 242) (grifo nosso)


Somos adeptos do livre-arbítrio, que permite a cada um exercer o seu direito de ter plena liberdade de acreditar ou não em qualquer coisa.

Aos detratores sistemáticos o aviso de Kardec:

[Todo mundo] Certamente, é livre para agir como o entende; mas se quer a liberdade para si, deve querê-la para os outros; uma vez que defende suas idéias e critica a dos outros, se for consequente consigo mesmo, não deverá achar mau que os outros defendam as deles e critiquem as suas. (KARDEC, 1993e, p. 112) (grifo nosso).


Levando-se em conta a maneira com a qual Kardec foi estudando os princípios do Espiritismo, isso fez com que ele tivesse uma convicção forte, conforme daqui se depreende:

O que faz a principal autoridade da Doutrina é que não há um único de seus princípios que seja o produto de uma idéia preconcebida ou de uma opinião pessoal; todos, sem exceção, são o resultado da observação dos fatos; foi unicamente pelos fatos que o Espiritismo chegou a conhecer a situação e as atribuições dos Espíritos, assim como as leis, ou melhor uma parte das leis que regem suas relações com o mundo invisível; este é um ponto capital.
(KARDEC, 1993e, p. 8) (grifo nosso).


Seu pensamento era de que “Os fatos são argumentos sem réplicas, dos quais é preciso cedo ou tarde aceitar as consequências quando são constatados”. (KARDEC, 2000c, p. 276), portanto, tudo para ele era verdade, por fazer parte das leis naturais, que, como sabemos, emanam de Deus, embora, como demonstrado, não tenha se preocupado em impô-la a quem quer que seja.

Oportuno também colocarmos o que Kardec disse na obra Catálogo racional: obras para se fundar uma biblioteca espírita, no capítulo dedicado a “Obras contra o Espiritismo”:

Proibir um livro é sinal de que o teme. O Espiritismo, longe de temer a divulgação dos escritos publicados contra si e proibir-lhes a leitura a seus adeptos, chama a atenção destes e do público para tais obras, a fim de que possam julgar por comparação. […]
(KARDEC, 2004, p. 85).


Desconhecemos uma só das religiões tradicionais que dá esse tipo de recomendação a seus adeptos, porquanto, todas elas temem os pensamentos divergentes e que lhes são contrários. E dentro dessa visão, podemos, mais uma vez argumentar que Kardec nunca foi partidário do “crê ou morre”, fundamento de todas as crenças dogmáticas.

Para encerrar, voltaremos a mais uma opinião de Herculano Pires:

A Ciência Espírita apresenta-se hoje como a pedra enjeitada da parábola evangélica, que teve de ser colocada como a pedra angular da cultura do nosso tempo. Sua abertura generosa, jamais se fechando em dogmas e sistemas fechados, é um desafio constante ao mundo convencional da cultura que tenta desprezá-la e não consegue libertar-se dos rumos teóricos e metodológicos por ela traçados, sem outra imposição de sua realidade do que a própria realidade dos fatos em que se fundamenta. Cassirer, filósofo alemão contemporâneo, condenou os sistemas, considerando-os como leito de Procusto, em que os fatos empíricos das pesquisas têm de adaptar-se, deformados, a uma sistemática prévia. Ao elaborar a Ciência Espírita, Kardec, muito antes dessa opinião do filósofo, declarou que o Espiritismo oferecia, ao mesmo tempo, uma filosofia e uma ciência livres dos prejuízos do espírito de sistema. A palavra grega dogma equivale apenas a opinião, mas as religiões lhe deram o sentido de veredicto intocável. Kardec se refere ao dogma da reencarnação, mas não com o sentido religioso, esclarecendo que não se trata de dogma de fé, mas de razão. Todos os princípios da doutrina estão sujeitos à crítica e à reformulação, desde que uma prova científica, prova comprovada, seja reconhecida como tal pelo consenso universal dos sábios.
(PIRES, 2005, p. 37-38)


Aqui temos tudo quanto poderia ter sido dito; porém, preferimos estender a nossa pesquisa afim de provar, com dados consistentes, o que Herculano Pires conclui acima.

 

Paulo da Silva Neto Sobrinho
Fev/2011.

 

Referências bibliográficas:

ABREU FILHO, J. e PIRES, J. H. O verbo e a carne. São Paulo: Edições Caibar, 1973.
CHAMPLIN, R. N. Evidências científicas demonstram que você vive depois da morte. São Paulo: Nova Época, 1981(?).
DENIS, L. O problema do ser, do destino e da dor. Rio de Janeiro: FEB, 1989.
JUNG, C. G. Memórias, sonhos e reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.
GUÉNON, R. O erro Espírita. São Paulo: Instituto René Guénon, 2010.
KARDEC, A. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 1995b.
KARDEC, A. Catálogo racional: obras para se fundar uma biblioteca espírita. São Paulo: Madras, 2004.
KARDEC, A. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 1996.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1995a.
KARDEC, A. O que é o Espiritismo, Rio de Janeiro: FEB, 2001b.
KARDEC, A. Revista Espírita 1858. Araras, SP: IDE, 2001a.
KARDEC, A. Revista Espírita 1860. Araras, SP: IDE, 2000a.
KARDEC, A. Revista Espírita 1861. Araras, SP: IDE, 1993a.
KARDEC, A. Revista Espírita 1862. Araras, SP: IDE, 1993b.
KARDEC, A. Revista Espírita 1863. Araras, SP: IDE, 2000b.
KARDEC, A. Revista Espírita 1864. Araras, SP: IDE, 1993c.
KARDEC, A. Revista Espírita 1865. Araras, SP: IDE, 2000c.
KARDEC, A. Revista Espírita 1866. Araras, SP: IDE, 1993e.
KARDEC, A. Revista Espírita 1867. Araras, SP: IDE, 1999.
KARDEC, A. Revista Espírita 1868. Araras, SP: IDE, 1993d.

PIRES, J. H. Agonia das religiões. São Paulo: Paideia, 2000.
PIRES, J. H. A evolução espiritual do homem (na perspectiva da doutrina espírita). São Paulo: Paideia, 2005.

 

Fonte: http://www.aeradoespirito.net/ArtigosPN/A_REENCARN_EH_UM_DOGMA_DOS_ESP_PN.html


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