Paulo da Silva Neto Sobrinho

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"Os fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos juízos, o argumento sem réplica.
Na ausência dos fatos, a dúvida se justifica no homem ponderado."

KARDEC

 

Em nossas leituras, às vezes, encontrávamos referências à mediunidade de incorporação, causando-nos curiosidade para saber de onde essa designação surgiu, já que, em momento algum, a vimos mencionada nas obras da Codificação Espírita, publicadas por Kardec.

Mas, afinal, do que se trata? Vejamos essa explicação dada pelos companheiros da SEF – Sociedade Espírita Fraternidade (Niterói, RJ):

Incorporação Mediúnica:

É a forma de mediunidade que se caracteriza pela transmissão falada das mensagens dos Espíritos. É, em nossos dias, a faculdade mais encontrada na prática mediúnica. Pode-se dizer que é uma das mais úteis, pois, além de oferecer a oportunidade de diálogo com os Espíritos comunicantes, ainda permite a doutrinação e consolação dos Espíritos pouco esclarecidos sobre as verdades espirituais.

[…].

A incorporação é também denominada psicofonia, sendo esta denominação preferida por alguns porque acham que incorporação poderia dar a ideia do Espírito comunicante penetrando o corpo do médium, fato que sabemos não ocorrer.
(Fonte: http://www.mkow.com.br/, grifo nosso).

Percebemos que se coloca a incorporação como sinônimo de psicofonia, quando não se considera a possibilidade de haver uma utilização do corpo do médium pelo espírito comunicante, ou seja, uma posse física temporária.

Infelizmente temos visto muitos estudiosos espíritas defenderem, e alguns até arduamente, para não dizer asperamente, que não há mesmo posse física. É certo que, em O Livro dos Espíritos (questões 473 e 474) e em O Livro dos Médiuns (Capítulo XXIII – Da Obsessão) Kardec negou peremptoriamente essa possibilidade, isso todos nós o sabemos; entretanto, o que pouquíssimos têm conhecimento é que o Codificador mudou de posição, conforme se vê na Revista Espírita 1863, mês dezembro, ao relatar "Um caso de Possessão - Senhorita Julie", sobre o qual disse:

Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar da palavra, mas subjugados; retornamos sobre esta afirmação muito absoluta, porque nos está demonstrado agora que pode ali haver possessão verdadeira, quer dizer, substituição, parcial no entanto, de um Espírito errante ao Espírito encarnado. Eis um primeiro fato que é a prova disto, e que apresenta o fenômeno em toda a sua simplicidade.
(KARDEC, 2000b, p. 373, grifo nosso).


Só que, em vez de retomar a essas duas obras e corrigi-las, conforme essa sua nova visão, de forma que nas edições seguintes delas o tema estaria de acordo com sua última posição, seguiu adiante e a registrou em A Gênese, quando, no Capítulo XIV – Os fluídos, volta a falar das obsessões. Como a grande maioria dos espíritas não lê as Revistas Espíritas e, muito menos, A Gênese, não se dá conta dessa mudança que ocorreu.

É importante registrar que os seguintes estudiosos concordam com a incorporação, que nada mais é que uma possessão física, bem no sentido literal do termo e de acordo com a nova interpretação de Kardec: Léon Denis (1846-1927), Frederic Myers (1843-1901), Gabriel Delanne (1857-1926), Gustave Geley (1868-1914), Cairbar Schutel (1868-1938) e Dr. Hernani Guimarães Andrade (1913-2003).

Tudo isso está demonstrado em nosso texto "Possessão e incorporação – espíritos possuindo fisicamente os encarnados", disponível em nosso site: www.paulosnetos.net, na Categoria "Ebook", ao qual recomendamos a leitura, algumas coisas, lá mencionadas, citaremos aqui neste estudo.

Na obra O Livro dos Médiuns, no Capítulo XIV – Os Médiuns, item 166, Kardec designa os médiuns que transmitem verbalmente as mensagens dos espíritos de médiuns falantes:

Os médiuns audientes, que apenas transmitem o que ouvem, não são propriamente médiuns falantes. Estes, na maioria das vezes, não ouvem nada. Ao servir-se deles, os Espíritos agem sobre os órgãos vocais, como agem sobre as mãos nos médiuns escreventes. O Espírito se serve para a comunicação dos órgãos mais flexíveis que encontra no médium. De um empresta as mãos, de outro, as cordas vocais e de um terceiro os ouvidos. O médium falante em geral se exprime sem ter consciência do que diz e quase sempre tratando de assuntos estranhos às suas preocupações habituais, fora de seus conhecimentos e mesmo do alcance de sua inteligência (9).

Embora esteja perfeitamente desperto e em condições normais raramente se lembra do que disse. Numa palavra, a voz do médium é apenas um instrumento de que o Espírito se serve e com o qual outra pessoa pode conversar com este, como o faz no caso de médium audiente.

Mas nem sempre a passividade do médium falante é assim completa. Há os que têm intuição do que estão dizendo, no momento em que pronunciam as palavras. Voltaremos a tratar desta variedade quando nos referirmos aos médiuns intuitivos (10).
______

(9) Além dessas provas da independência do Espírito comunicante, assinaladas por Kardec, devemos lembrar que numerosos casos da bibliografia mediúnica e das experiências contidas com a mediunidade nos mostram que o Espírito pode tratar, através do médium, de assuntos a que este se furta e muitas vezes acusando-o e chamando-lhe a atenção. (N. Do T.)

(10) Os médiuns falantes, chamados entre nós médiuns de incorporação, dividem-se assim duas classes bem conhecidas: médiuns conscientes e médiuns inconscientes. Aos conscientes é que Kardec dava, acertadamente, a designação de intuitivos. Aliás, essa divisão existe em todas as modalidades mediúnicas. (N. do T.)
(KARDEC, 2006, p. 144, grifo nosso).


Somente no Capítulo XXXII – Vocabulário Espírita é que Kardec menciona o termo psicofonia, definindo-o: "Comunicação dos Espíritos pela voz de um médium falante." (KARDEC, 2006, p. 351).

Segundo o que conseguimos levantar, a primeira pessoa a mencionar "médium de incorporação" foi Miguel Vives y Vives (1842-1906), na obra O Tesouro dos Espíritas, publicada em Barcelona, Espanha, no ano de 1872. Léon Denis (1846-1927) em No invisível (publicada em 1901) e Gabriel Delanne (1857-1926) em A Reencarnação (publicada em 1924), são dois estudiosos dos fenômenos espíritas que também mencionam.

As expressões "mediunidade de incorporação", "médium de incorporação" e isoladamente o termo "incorporação" são inúmeras vezes citados nas obras de André Luiz, via psicografia de Francisco Cândido Xavier (1910-2002): Os mensageiros, Missionários da luz, Libertação, Nos domínios da mediunidade, Mecanismos da mediunidade, Sexo e destino e Desobsessão. São também as utilizadas na Umbanda para designar a especificação mediúnica e todos os médiuns pelos quais se manifestam os espíritos.

Transcreveremos de algumas dessas obras citadas trechos visando dar uma ideia de como é explicado o fenômeno.

1) Missionários da Luz, capítulo 16, Incorporação:

Enquanto Alexandre ouvia em silêncio, o simpático colaborador prosseguiu, depois de ligeira pausa:

– Estimaríamos receber a devida autorização para trazê-lo… Poderia incorporar-se na organização mediúnica de nossa irmã Otávia e fazer-se ouvir, de algum modo, diante dos amigos e familiares…

[…].

– Ouça, porém, meu amigo! – tornou Alexandre, sereno e enérgico – é indispensável que você medite sobre o acontecimento. Lembre-se de que você vai utilizar um aparelho neuro-muscular que lhe não pertence. Nossa amiga Otávia servirá de intermediária. No entanto, você não deve desconhecer as dificuldades de um médium para satisfazer a particularidades técnicas de identificação dos comunicantes, diante das exigências de nossos irmãos encarnados. Compreende bem?

[…].

Terminada a oração e levado a efeito o equilíbrio vibratório do ambiente, com a cooperação de numerosos servidores de nosso plano, Otávia foi cuidadosamente afastada do veículo físico, em sentido parcial, aproximando-se Dionísio, que também parcialmente começou a utilizar-se das possibilidades dela. Otávia mantinha-se a reduzida distância, mas com poderes para retomar o corpo a qualquer momento num impulso próprio, guardando relativa consciência do que estava ocorrendo, enquanto que Dionísio conseguia falar, de si mesmo, mobilizando, no entanto, potências que lhe não pertenciam e que deveria usar, cuidadosamente, sob o controle direto da proprietária legítima e com a vigilância afetuosa de amigos e benfeitores, que lhe fiscalizavam a expressão com o olhar, de modo a mantê-lo em boa posição de equilíbrio emotivo. Reconheci que o processo de incorporação comum era mais ou menos idêntico ao da enxertia da árvore frutífera. A planta estranha revela suas características e oferece seus frutos particulares, mas a árvore enxertada não perde sua personalidade e prossegue operando em sua vitalidade própria. Ali também, Dionísio era um elemento que aderia às faculdades de Otávia, utilizando-as na produção de valores espirituais que lhe eram característicos, mas naturalmente subordinado à médium, sem cujo crescimento mental, fortaleza e receptividade, não poderia o comunicante revelar os caracteres de si mesmo, perante os assistentes. Por isso mesmo, logicamente, não era possível isolar, por completo, a influenciação de Otávia, vigilante. A casa física era seu templo, que urgia defender contra qualquer expressão desequilibrante, e nenhum de nós, os desencarnados presentes, tinha o direito de exigir-lhe maior afastamento, porquanto lhe competia guardar as suas potências fisiológicas e preservá-las contra o mal, perto de nós outros, ou à distância de nossa assistência afetiva.
(XAVIER, 1986, p. 260-277 – passim, grifo nosso).

Daí a minutos, providenciava-se a incorporação de Marinho, que tomou a intermediária sob forte excitação. Otávia, provisoriamente desligada dos veículos físicos, mantinha-se agora algo confusa, em vista de encontrar-se envolvida em fluidos desequilibrados, não mostrando a mesma lucidez que lhe observáramos anteriormente; todavia, a assistência que recebia dos amigos de nosso plano era muito maior.
(XAVIER, 1986, p. 291, grifo nosso).


2) Nos domínios da mediunidade, vários capítulos:

Quando empresta o veículo a entidades dementes ou sofredoras, reclama-nos cautela, porquanto quase sempre deixa o corpo à mercê dos comunicantes, quando lhe compete o dever de ajudar-nos na contenção deles, a fim de que o nosso tentame de fraternidade não lhe traga prejuízo à organização física. (falando do médium Antônio Carlos).

"… Entretanto, adaptando-se ao organismo da mulher amada que passou a obsidiar, nela encontrou novo instrumento de sensação, vendo por seus olhos, ouvindo por seus ouvidos, muitas vezes falando por sua boca e vitalizando-se com os alimentos comuns por ela utilizados. Nessa simbiose vivem ambos, há quase cinco anos sucessivos, contudo, agora, a moça subnutrida e perturbada acusa desequilíbrios orgânicos de vulto".

"Notamos que Eugênia-alma afastou-se do corpo, mantendo-se junto dele, à distância de alguns centímetros, enquanto que, amparado pelos amigos que o assistiam, o visitante sentava-se rente, inclinado-se sobre o equipamento mediúnico ao qual se justapunha, à maneira de alguém a debruçar-se numa janela".

Observei que leves fios brilhantes ligavam a fronte de Eugênia, desligada do veículo físico, ao cérebro da entidade comunicante.

[…] mas Eugênia comanda, firme, as rédeas da própria vontade, agindo qual se fosse enfermeira concordando com os caprichos de um doente, no objetivo de auxiliá-lo. Esse capricho, porém, deve ser limitado, porque, consciente de todas as intenções do companheiro infortunado a quem empresta o seu carro físico, nossa amiga reserva-se o direito de corrigi-lo em qualquer inconveniência.

"[…] nesses trabalhos, o médium nunca se mantém a longa distância do corpo…"

Se preciso, a nossa amiga poderá retomar o próprio corpo num átimo. Acham-se ambos num consórcio momentâneo, em que o comunicante é a ação, mas no qual a médium personifica a vontade…

A médium desvencilhou-se do corpo físico, como alguém que se entrega a sono profundo, e conduziu a aura brilhante de que coroava.

A nobre senhora fitou o desesperado visitante com manifesta simpatia e abriu-lhe os braços, auxiliando-o a senhorear o veículo físico, então em sombra.

Qual se fora atraído por vigoroso ímã, o sofredor arrojou-se sobre a organização física da médium, colando-se a ela, instintivamente.

A mediunidade falante em Celina era diversa?

– Celina – explicou, bondoso – é sonâmbula perfeita. A psicofonia, em seu caso, se processa sem necessidade de ligação da corrente nervosa do cérebro mediúnico à mente do hóspede que o ocupa. A espontaneidade dela é tamanha na cessão de seus recursos às entidades necessitadas de socorro e carinho, que não tem qualquer dificuldade para desligar-se de maneira automática do campo sensório, perdendo provisoriamente o contacto com os centros motores da vida cerebral. Sua posição medianímica é de extrema passividade. Por isso mesmo, revela-se o comunicante mais seguro de si, na exteriorização da própria personalidade. Isso, porém, não indica que a nossa irmã deva estar ausente ou irresponsável. Junto do corpo que lhe pertence, age na condição de mãe generosa, auxiliando o sofredor que por ela se exprime qual se fora frágil protegido de sua bondade… É por essa razão que o hóspede experimenta com rigor o domínio afetuoso da missionária que lhe dispensa amparo assistencial.

[…] A psicofonia inconsciente, naqueles que não possuem méritos morais suficientes à própria defesa, pode levar à possessão, sempre nociva, e que, por isso, apenas se evidencia integral nos obsessos que se renderam às forças vampirizantes.

Fitando o companheiro encarnado mais detidamente, concluí que o ataque epiléptico, com toda a sua sintomatologia clássica, surgia claramente reconhecível.

Reconhecíamos no moço incapacidade de qualquer domínio sobre si mesmo.

Acariciando-lhe a fronte suarenta, Áulus, informou, compadecido:

– É a possessão completa ou a epilepsia essencial.

– Nosso amigo está inconsciente? – aventurou Hilário, entre a curiosidade e o respeito.

Sim, considerado como enfermo terrestre, está no momento sem recursos de ligação com o cérebro carnal. Todas as suas células do córtex sofrem o bombardeio de emissões magnéticas de natureza tóxica. Os centros motores estão desorganizados. Todo o cerebelo está empastado de fluidos deletérios. As vias do equilíbrio aparecem completamente perturbadas. Pedro temporariamente não dispõe de controle para governar-se, nem de memória comum para marcar a inquietante ocorrência de que é protagonista. Isso, porém, acontece no setor da forma de matéria densa, porque, em espírito, está arquivando todas as particularidades da situação em que se encontra, de modo a enriquecer o patrimônio das próprias experiências.
(XAVIER, 1987, p 29-80 – passim, grifo nosso).

Pelo que entendemos, de todas essas transcrições, para André Luiz a incorporação é fato concreto, relacionando-a diretamente à psicofonia. Essa generalização parece-nos um pouco além do que estamos acostumados a ver na prática.

A incorporação é um fenômeno que acontece com alguns tipos de médiuns, tais como os psicofônicos, psicográficos, desenhistas (pictografia), cantores, instrumentistas, etc; porém, nem a todos os seus possuidores, visto haver especificidade no grau de sintonia ou na forma de manifestação, gerando os médiuns conscientes, semiconsciente e inconscientes, dentro da classificação que nos informou, mais acima na nota 10, José Herculano Pires (1914-1979).


Léon Denis (1846-1927) em seu livro No invisível, Cap. XIX – Transe e incorporações, faz uma análise interessante, que demonstra tanto a possibilidade da comunicação ser via mental ou por incorporação, conforme veremos, depois; antes, vejamos como o capítulo inicia:

O estado de transe é esse grau de sono magnético que permite ao corpo fluídico exteriorizar-se, desprender-se do corpo carnal, e à alma tornar a viver por um instante sua vida livre e independente. A separação, todavia, nunca é completa; a separação absoluta seria a morte. Um laço invisível continua a prender a alma ao seu invólucro terrestre. Semelhante ao fio telefônico que assegura a transmissão entre dois pontos, esse laço fluídico permite à alma desprendida transmitir suas impressões pelos órgãos do corpo adormecido. No transe, o médium fala, move-se, escreve automaticamente; desses atos, porém, nenhuma lembrança conserva ao despertar.
(DENIS, 1987, p. 249, grifo nosso).


Esclarecendo que "no transe o médium fala, move-se e escreve automaticamente" o médium age inconscientemente, parece-nos que, diante disso, Léon Denis reconhece que a incorporação é uma particularidade mediúnica e não um tipo de mediunidade. E vemos, também aqui, uma correspondência direta entre incorporação e inconsciência do médium, em relação aos fatos ocorridos durante o transe.

Um pouco mais à frente lemos:

Indagam certos experimentadores: o Espírito do manifestante se incorpora efetivamente no organismo do médium? ou opera ele antes, a distância, pela sugestão mental e pela transmissão de pensamento, como o pode fazer um espírito exteriorizado do sensitivo?

Um exame atento dos fatos nos leva a crer que essas duas explicações são igualmente admissíveis, conforme os casos. As citações que acabamos de fazer provam que a incorporação pode ser real e completa. É mesmo algumas vezes inconsciente, quando, por exemplo, certos Espíritos pouco adiantados são conduzidos por uma vontade superior ao corpo de um médium e postos em comunicação conosco, a fim de serem esclarecidos sobre sua verdadeira situação. Esses Espíritos, perturbados pela morte, acreditam ainda, muito tempo depois, pertencerem à vida terrestre. […] É difícil às vezes fazer-lhes compreender que abandonaram a vida carnal e sua estupefação atinge o cômico, quando, convidados a comparar o organismo que momentaneamente animam com o que possuíam na Terra, são obrigados a reconhecer o seu engano. Não se poderia duvidar, em tal caso, na incorporação completa do Espírito.

Noutras circunstâncias, a teoria da transmissão à distância parece melhor explicar os fatos. As impressões oriundas de fora são mais ou menos fielmente percebidas e transmitidas pelos órgãos. Ao lado de provas de identidade, que nenhuma hesitação permitem sobre a autenticidade do fenômeno e intervenção dos Espíritos, verificam-se, na linguagem do sensitivo em transe, expressões, construções de frases, um modo de pronunciar que lhe são habituais. O Espírito parece projetar o pensamento no cérebro do médium, onde adquire, de passagem, formas de linguagem familiares a este. A transmissão se efetua, em tal caso, no limite dos conhecimentos e aptidões do sensitivo, em termos vulgares ou escolhidos, conforme o seu grau de instrução. Daí também certas incoerências que se devem atribuir à imperfeição do instrumento.

Ao despertar, o Espírito do médium perde toda consciência das impressões recebidas no sentido de liberdade, do mesmo modo que não guardará o menor conhecimento do papel que seu corpo tenha desempenhado durante o transe. Os sentidos psíquicos, de que por um momento havia readquirido a posse, se extinguem de novo; a matéria estende o seu manto; a noite se produz; toda recordação se desvanece. O médium desperta num estado de perturbação, que lentamente se dissipa.
(DENIS, 1987, p. 252-254, grifo nosso).


Léon Denis mesmo admitindo, como se vê, a possibilidade da real posse física em alguns casos e em outros a transmissão de pensamento, trata, ao longo de suas obras, genericamente, todos os médiuns como "de incorporação", apesar dele ter demonstrado serem situações distintas uma da outra. Possivelmente, tenha sido ele a base para, no meio espírita, se espalhar o conceito de médium de incorporação aos que são de psicofonia ou falantes.

Por outro lado, essas duas possibilidades mencionadas por Denis, vêm justamente corroborar a questão da classificação dos médiuns em conscientes, semiconsciente e inconsciente. Para nós, no inconsciente é justamente onde ocorre a incorporação mediúnica.

O Livro dos Médiuns foi publicado em janeiro de 1861; como bem sabemos, antecedeu-lhe a obra Instruções Práticas Sobre a Manifestações Espíritas, cuja data de publicação provável seja o mês de julho de 1858; é, por conseguinte, a segunda obra espírita publicada por Kardec. Dela transcrevemos esse pequeno trecho do Capítulo VI – Papel e Influência do Médium nas Manifestações:

[…] Notamos aqui coisa importante de ser registrada, que o Espírito estranho não se substitui à alma, pois não pode desalojá-la: ele a controla à revelia dela, imprime-lhe sua vontade. Quando dizemos à revelia dela, queremos falar da alma atuando exteriormente pelos órgãos do corpo. Entretanto a alma, como Espírito, mesmo encarnado pode, perfeitamente, ter consciência da ação exercida sobre ela por um Espírito estranho. O papel da alma, nessa circunstância, é, algumas vezes, inteiramente passivo e então o médium, se é de incorporação, não tem nenhuma consciência do que escreve ou diz. Ocasionalmente, entretanto, a passividade não é absoluta; então ele tem uma consciência mais ou menos vaga, embora a mão seja arrastada por um movimento maquinal, ao qual a vontade permanece alheia.
(KARDEC, s/d, p. 138-138, grifo nosso).

 
Kardec, nessa época, ainda não admitia a posse física; é fato o que aqui informamos. O nosso amigo Astolfo Olegário de O. Filho (1944- ) nos alertou, por e-mail, que pelo, fato de Kardec nunca ter se utilizado do termo incorporação, poderia haver algum problema na tradução. Fomos conferir, e descobrimos que o trecho "se é de incorporação" reflete apenas a opinião pessoal do tradutor Cairbar Schutel (1868-1928), o que se pode facilmente confirmar comparando-se a versão francesa e também com a tradução de Júlio Abreu Filho (1893-1971).

Então o fato dele, Cairbar Schutel, ter feito isso significa que entende "médium de incorporação" como uma aptidão peculiar aos médiuns que escrevem (psicografia) e os que falam (psicofonia); não se trata, portanto, de um tipo de mediunidade, mas, sim, de um atributo pessoal do médium comunicante.

A impressão que temos, ao relacioná-los com o fato de não terem nenhuma consciência, é que Cairbar Schutel está justamente indo ao encontro do que hoje pensamos, ou seja, que os médiuns tidos inconscientes o são justamente pelo motivo de seu corpo ser utilizado por um Espírito estranho; portanto, nada do que ele transmite passa pelo cérebro físico do médium; daí a razão deste agir inconscientemente.

Concluímos que, ao se utilizar o termo incorporação, para designar o fenômeno da psicofonia, se comete um equívoco, pois estar-se-ia enquadrando, como mais uma mediunidade específica, algo que ocorre indistintamente, em diferentes tipos de mediunidade, como as que mencionamos nesse estudo.

Como se vê, a incorporação é uma peculiaridade comum a vários tipos de fenômenos mediúnicos, provavelmente uma especificidade do próprio médium; portanto, um fenômeno comum a vários tipos de mediunidade, estaria sendo utilizado para designar somente um deles. Nesse caso, como ficamos frente ao que Kardec disse: "Os fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos juízos, o argumento sem réplica. Na ausência dos fatos, a dúvida se justifica no homem ponderado."?
(KARDEC, 2007a, p. 35). Essa é a indagação que fazemos...

Paulo da Silva Neto Sobrinho
mar/2015


Referências bibliográficas:

DENIS, L. No invisível. Rio de Janeiro: FEB, 1987.
KARDEC, A. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2007e.
KARDEC, A. Instruction pratique sur les manifestations spirites. Paris, FR: E. Dentu, Libraire e Ledoyen, Libraire, 1858, versão PDF Books Google, disponível em http://books.google.com
KARDEC, A. Instruções Práticas Sobre as Manifestações Espíritas. 6ª Edição, Matão, SP: O Clarim, s/d.
KARDEC, A. Instruções Práticas Sobre as Manifestações Espíritas. São Paulo: Pensamento, 1995.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2007a.
KARDEC, A. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2007b.
KARDEC, A. O Livro dos Médiuns. São Paulo: LAKE, 2006.
KARDEC, A. Revista Espírita 1863, Araras – SP: IDE, 2000b.
NETO SOBRINHO, P. S. Possessão e incorporação, espíritos possuindo fisicamente encarnados. Disponível em: http://www.paulosnetos.net/index.php/viewdownload/10-ebook/543-possessao-e-incorporacao-espiritos-possuindo-fisicamente-os-encarnados.
XAVIER, F. C. Missionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB, 1986.
XAVIER, F. C. Nos Domínios da Mediunidade, Rio de Janeiro: FEB, 1987.
VIVES, M. V. O Tesouro dos Espíritas. Internet: Site Autores Espíritas Classicos, 2009.
SEF – Sociedade Espírita Fraternidade, Mecanismos da mediunidade, disponível em: http://www.mkow.com.br/apostilas/unid49.htm, acesso em 05/03/2015, às 08:57hs.


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Fonte:
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