Paulo da Silva Neto Sobrinho

>    Espírito de Pessoa Viva ao se manifestar conseguiria mudar de aparência?

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>    Espírito de Pessoa Viva ao se manifestar conseguiria mudar de aparência?

"Durante a noite, Paulo teve uma visão: na sua frente estava de pé um macedônio que lhe suplicava: 'Venha à Macedônia e ajude-nos!'"
Atos 16,9

 


Certa feita, propusemos a um amigo que se nos provasse ser possível um Espírito de pessoa viva se manifestar na sua personalidade anterior, abriríamos espaço para aceitar que Chico foi Kardec, porquanto o Mestre lionês se manifestou quando o pedroleopoldense ainda estava vivo.

Recentemente, ele tomando como base para isso, o item 123, do cap. VII, de O Livro dos Médiuns, nos pergunta: "Se o espírito pode mudar a aparência do seu perispírito, por que não poderia realizá-lo, quando ainda alma em um processo de desligamento do corpo?" Em razão disso, resolvemos pesquisar sobre essa possibilidade.

Primeiro devemos ressaltar que, conforme estudo feito sobre manifestação de Espírito de pessoas vivas em estado de vigília
(1), é condição indispensável para que isso ocorra que o encarnado esteja dormindo ou em êxtase, porquanto: "[…] o Espírito [de uma pessoa viva] não pode comunicar-se, como Espírito, senão nos momentos em que a sua presença não é necessária à atividade inteligente do corpo." (2)

Em Nosso Lar, há um relato bem interessante, às vezes citado, no qual uma criança de três meses (3), é levada a uma reunião no plano espiritual, onde se manifesta para conversar com os seus familiares, D. Laura, Iolanda e Judite, respectivamente, esposa e filhas, que se encontravam nessa colônia espiritual.

A primeira, preparando-se para reencarnar em breve, tinha planos de encontrar-se com Ricardo, seu esposo, agora aprisionado no corpo dessa criança. Vejamos alguns trechos desse episódio:

– Amanhã à noite, André, espero igualmente por você. Faremos pequena reunião íntima. O Ministério da Comunicação prometeu-nos a visita de meu esposo. Embora se encontre nos laços físicos, Ricardo será trazido até aqui, com o auxílio fraternal de companheiros nossos. Além disso, amanhã estarei a despedir-me. Não falte.

Na espaçosa sala de estar, reunia-se pequena assembleia de pouco mais de trinta pessoas. A disposição dos móveis era a mais simples. Enfileiravam-se poltronas confortáveis, doze a doze diante do estrado, onde o Ministro Clarêncio assumira posição de diretor, cercando-se da senhora Laura e dos filhos. A distância de quatro metros, aproximadamente, havia um grande globo cristalino, da altura de dois metros presumíveis, envolvido, na parte inferior, em longa série de fios que se ligavam a pequeno aparelho, idêntico aos nossos alto-falantes.

– Estamos prontos; contudo, aguardamos a ordem da Comunicação. Nosso irmão Ricardo está na fase da infância terrestre e não lhe será difícil desprender-se dos elos físicos, mais fortes, por alguns instantes.

– Mas virá ele até aqui? - indaguei.

– Como não? - revidou o interlocutor. - Nem todos os encarnados se agrilhoam ao solo da Terra. Como os pombos-correio que vivem, por vezes, longo tempo de serviço, entre duas regiões, espíritos há que vivem por lá entre dois mundos.

E, indicando o aparelho à nossa frente, informou:

– Ali está a câmara que no-lo apresentará.

Por que o globo cristalino? - perguntei, curioso. - Não poderia manifestar-se sem ele?

– É preciso lembrar – disse Nícolas, atenciosamente – que a nossa emotividade emite forças suscetíveis de perturbar. Aquela pequena câmara cristalina é constituída de material isolante. Nossas energias mentais não poderão atravessá-la.

Nesse instante, foi Lísias chamado ao fone por funcionários da Comunicação. Era chegado o momento. Poder-se-ia começar o trabalho culminante da reunião.

Verifiquei, no relógio de parede, que estávamos com quarenta minutos depois da meia-noite. Notando-me o olhar interrogativo, disse Nícolas em voz baixa:

– Somente agora há bastante paz no recente lar de Ricardo, lá na Terra. Naturalmente, a casa descansa, os pais dormem, e ele, em nova fase, não permanece inteiramente junto ao berço

Às derradeiras notas da bela composição, notei que o globo se cobria, interiormente, de substância leitoso-acinzentada, apresentando, logo em seguida, a figura simpática de um homem na idade madura. Era Ricardo. Impossível descrever a sagrada emoção da família, dirigindo-lhe amorosas saudações.

O recém-chegado, após falar particularmente à companheira e aos filhos, fixou o olhar amigo em nós outros, pedindo fosse repetida a suave canção filial, que ouviu banhado em lágrimas.

Quando se calaram as últimas notas, falou comovidamente:

– Oh! meus filhos, como é grande a bondade de Jesus, que nos aureolou o culto doméstico do Evangelho com as supremas alegrias desta noite! Nesta sala temos procurado, juntos, o caminho das esferas superiores; muitas vezes recebemos o pão espiritual da vida e é, ainda aqui, que nos reencontramos para o estímulo santo. Como sou feliz!

A senhora Laura chorava discretamente. Lísias e as irmãs tinham os olhos marejados de pranto.

Percebi que o recém-chegado não falava com espontaneidade e não podia dispor de muito tempo entre nós. Possivelmente, todos ali mantinham análoga impressão, porque vi Judite abraçar-se ao globo cristalino, ouvindo-a exclamar carinhosamente:

– Pai querido, diga o que precisa de nós, esclareça em que poderemos ser úteis ao seu abnegado coração!

Observei, então, que Ricardo pousou o olhar profundo na senhora Laura e murmurou:

– Sua mãe virá ter comigo, em breve, filhinha! Mais tarde, virão vocês, igualmente! Que mais eu poderia desejar, para ser feliz, senão rogar ao Mestre que nos abençoe para sempre?

Todos chorávamos, enternecidos.

Quando o globo começou a apresentar, de novo, os mesmos tons acinzentados, ouvi Ricardo exclamando, quase a despedida:

– Ah! filhos meus, alguma coisa tenho a pedir-lhes do fundo de minh’alma! Roguem ao Senhor para que eu nunca disponha de facilidades na Terra, a fim de que a luz da gratidão e do entendimento permaneça viva em meu espírito!.

Aquele pedido inesperado me sensibilizou e surpreendeu ao mesmo tempo. Ricardo endereçou a todos saudações carinhosas e a cortina de substância cinzenta cobriu toda a câmara, que, em seguida, voltou ao aspecto normal. (grifo nosso) (4)


Certamente, que aqui temos um caso de manifestação de Espírito de pessoa viva, mas alguns detalhes da narrativa nos chamou a atenção, os quais enumeramos:

– "reunião íntima": a manifestação é algo esperado, com ambiente antecipadamente preparado;

–"será trazido": houve providências de Espíritos para levar a alma da criança ao local em que deveria se manifestar;

– "um globo cristalino": uma aparelhagem especial para se dar tal acontecimento;

– "está na fase da infância terrestre e não lhe será difícil desprender-se dos elos físicos" devemos entender que também há fase na em que é difícil para as almas se desprenderem;

– "a nossa emotividade emite forças suscetíveis de perturbar. Aquela pequena câmara cristalina é constituída de material isolante": confirma a existência de todo um aparato para a manifestação, significando que, em condições normais, a emotividade também emitiria forças suscetíveis de perturbação.

– "o trabalho culminante da reunião": algo bem especial;

– "estávamos com quarenta minutos depois da meia-noite": disso podemos concluir que a possibilidade da criança estar, no momento, dormindo é bem grande, portanto, não é manifestação de pessoa viva em estado de vigília;

– "notei que o globo se cobria, interiormente, de substância leitoso- acinzentada": não há explicação sobre o que é essa substância; porém, a nossa impressão foi algo semelhante ao que acontece em reuniões de materialização de Espíritos;

– "apresentando, logo em seguida, a figura simpática de um homem na idade madura. Era Ricardo": é certo que houve alteração no perispírito do manifestante, que na Terra era uma criança, agora se apresenta como adulto, embora não se tenha definido se a aparência dele era a que tinha como criança ou a anterior como Ricardo;

– "Percebi que o recém-chegado não falava com espontaneidade e não podia dispor de muito tempo entre nós": o que o levava a não falar com espontaneidade? Qual a razão de não dispor de muito tempo? Seria isso aplicado a todas as almas que se manifestam ou era específico do caso?

Diante de tudo isso, não achamos prudente generalizar e tomar essa manifestação como prova da possibilidade de o Espírito de uma pessoa viva manifestar-se em estado de vigília, até mesmo porque, pelo relato, a chance da criança, naquele momento, estar dormindo é de 100%.

Encontramos em O Livro dos Médiuns, cap. XXV, "Evocações", no item

"Evocação de pessoas vivas", o seguinte:

44-a. Quem pode nos evocar, se somos tão obscuros?
"É possível que em outras existências tenhais sido pessoas conhecidas nesse mundo ou em outros. É possível também que vossos parentes e amigos desse e de outros mundos também vos evoquem. Suponhamos que o teu Espírito tenha animado o corpo do pai de outra pessoa. Pois bem! Quando essa pessoa evocar seu pai, é o teu Espírito que será evocado e que responderá."

45. Ao ser evocado, o Espírito da pessoa vida responde como Espírito ou com as ideias que tem no estado de vigília?
"Depende de sua elevação; porém, sempre julga com mais ponderação e tem menos preconceitos, exatamente como os sonâmbulos. É um estado semelhante." (5)


O fato de responder como seu personagem de vida passada (pai), não nos leva a inferir que também tenha a aparência dele, uma vez que isso não foi informado, e, certamente, todo o nosso passado está gravado em nós como Espíritos imortais. O acesso ao passado, estará limitado à condição evolutiva do Espírito encarnado ou, como dito, "depende de sua elevação".

Entretanto, julgamos, que o fato de responder como Espírito não quer dizer que, necessariamente, a pessoa viva possa assumir a aparência de seu personagem da vida anterior. Portanto, acreditamos, que ainda não temos informações na Codificação, suficientemente, seguras para afirmar que isso possa acontecer.

Vejamos a explicação de Kardec a respeito de um médium que falava na 3ª pessoa do feminino:

Entre os fatos citados, há um que parece bastante bizarro; é o do militar que falava na terceira pessoa do feminino, é a distinção das duas personalidades em consequência do desligamento do Espírito; mas há um outro, que o Espiritismo nos revela, e do qual é preciso ter conta, porque pode dar às ideias um caráter particular: é a vaga lembrança das existências anteriores que, no estado de emancipação da alma, pode despertar, e permitir lançar um golpe de vista retrospectivo sobre alguns pontos do passado. Em tais condições, o desligamento da alma jamais é completo, e as ideias, se ressentindo do enfraquecimento dos órgãos, não podem estar muito lúcidas, uma vez que não o são mesmo inteiramente nos primeiros instantes que seguem à morte. […]. (grifo nosso) (6)

A conclusão, s.m.j., é de que, nos casos de emancipação da alma, o encarnado poderá recordar-se de existência anterior; porém, terá somente vaga lembrança dela, o que comprometeria a sua manifestação, com pleno acesso a seu arquivo mental para dele "retirar", vamos assim dizer, qualquer um de seus personagens anteriores.

Caso Chico Xavier seja mesmo Kardec em nova encarnação, supondo-o num estado que lhe permita emancipar, ou seja, dormindo ou extático, deveria ele se manifestar com a aparência do Codificador tendo lembrança dessa sua encarnação de maneira quase total, para transmitir suas mensagens. Porém, pelas considerações acima, fica claro, pelo menos para nós, que a possibilidade é a do Espírito da pessoa viva ter apenas uma "vaga lembrança".

Vejamos, agora, dois itens de O Livro dos Médiuns, um deles o que foi mencionado, lembrando que ambos constam do Cap. VII, intitulado "Bicorporeidade e transfiguração", certamente, fatos relacionados a aparições de Espíritos de pessoas vivas.

122. Passemos ao segundo fenômeno, o da transfiguração. Consiste na mudança de aspecto de um corpo vivo. Eis um fato dessa natureza, cuja perfeita autenticidade podemos garantir, ocorrido durante os anos de 1858 e 1859, nos arredores de Saint-Etienne.

Uma jovem de cerca de 15 anos gozava da singular faculdade de se transfigurar, isto é, de tomar, em dados momentos, todas as aparências de certas pessoas mortas. […]. (grifo nosso) (7)


Esse "tomar todas as aparências de pessoas mortas" é que se entende como transfiguração. É o que, na sequência, Kardec explica, apoiando-se na teoria do perispírito:

123. A transfiguração, em certos casos, pode originar-se de uma simples contração muscular, capaz de dar à fisionomia expressão muito diferente da habitual, ao ponto de tornar quase irreconhecível a pessoa. Temo-lo observado frequentemente com alguns sonâmbulos, mas, nesse caso, a transformação não é radical. Uma mulher poderá parecer jovem ou velha, bela ou feia, mas será sempre uma mulher e, sobretudo, seu peso não aumentará, nem diminuirá. No fenômeno com que nos ocupamos, há mais alguma coisa. A teoria do perispírito nos vai esclarecer.

Está, em princípio, admitido que o Espírito pode dar ao seu perispírito todas as aparências; que, mediante uma modificação na disposição molecular, pode dar-lhe a visibilidade, a tangibilidade e, conseguintemente, a opacidade; que o perispírito de uma pessoa viva, isolado do corpo, é passível das mesmas transformações; que essa mudança de estado se opera pela combinação dos fluidos. Figuremos agora o perispírito de uma pessoa viva, não isolado, mas irradiando-se em volta do corpo, de maneira a envolvê-lo numa espécie de vapor. Nesse estado, passível se torna das mesmas modificações de que o seria se o corpo estivesse separado. Perdendo ele a sua transparência, o corpo pode desaparecer, tornar-se invisível, ficar velado, como se mergulhado numa bruma. Poderá então o perispírito mudar de aspecto, fazer-se brilhante, se tal for a vontade do Espírito e se este dispuser de poder para tanto. Um outro Espírito, combinando seus fluidos com os do primeiro, poderá, a essa combinação de fluidos, imprimir a aparência que lhe é própria, de tal sorte que o corpo real desapareça sob um envoltório fluídico exterior, cuja aparência pode variar à vontade do Espírito. Esta parece ser a verdadeira causa do estranho fenômeno e raro, cumpra se diga, da transfiguração. (grifo nosso) (8)


Kardec parte do princípio de que o Espírito (desencarnado) pode dar a aparência que quiser a seu perispírito; que, mediante modificação na disposição molecular, pode dar-lhe a visibilidade, a tangibilidade, o que o fará tornar-se opaco. Deduz que o encarnado também poderá operar sobre o seu perispírito causando-lhe essas mesmas modificações, ou seja, a visibilidade e tangibilidade. Observar que, nos casos dos sonâmbulos, Kardec afirma que a transfiguração não é radical.

Julgamos que ainda não temos condições de abrir espaço para afirmar que uma pessoa viva mude a aparência atual de seu perispírito, para tomar a aparência que tinha em uma vida anterior, embora também não possamos dizer que a questão está fechada. Por esse motivo, vamos pesquisar em A Gênese, outra obra da Codificação, para ver se nela encontramos elementos que nos ajudem a resolver o problema.

Iniciaremos pelo item 17 do cap. XI, "Gênese espiritual", no qual se lê:

O fluido perispirítico constitui, pois, o traço de união entre o Espírito e a matéria. Durante sua união com o corpo, serve de veículo ao pensamento do Espírito, para transmitir o movimento às diversas partes do organismo, as quais atuam sob a impulsão da sua vontade e para fazer que repercutam no Espírito as sensações produzidas pelos agentes exteriores. Tem por fios condutores os nervos, como no telégrafo o fluido elétrico tem por condutor o fio metálico. (grifo nosso) (9)

Então, na emancipação da alma, o Espírito da pessoa viva ainda se mantém ligado ao corpo físico pelo perispírito, que lhe mantém em funcionamento, ainda que condições mínimas, mas o suficiente para lhe assegurar a vida. É também através do perispírito que repercute no Espírito as sensações produzidas por agentes exteriores.

Avancemos para o cap. XIV, "Os fluidos", onde encontraremos mais coisas.

14. Os Espíritos atuam sobre os fluidos espirituais, não os manipulando como os homens manipulam os gases, mas empregando o pensamento e a vontade. Para os Espíritos, o pensamento e a vontade são o que é a mão para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem àqueles fluidos tal ou qual direção, os aglomeram, combinam ou dispersam, organizando com eles conjuntos que apresentam uma aparência, uma forma, uma coloração determinadas; mudam-lhes as propriedades, como um químico muda a dos gases ou de outros corpos, combinando-os segundo certas leis. É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual.

Algumas vezes, essas transformações resultam de uma intenção; de outras, são produto de um pensamento inconsciente. Basta que o Espírito pense uma coisa para que esta se produza, como basta que modele uma ária, para que esta repercuta na atmosfera.

É assim, por exemplo, que um Espírito se torna visível a um encarnado que possua a vista psíquica, sob as aparências que tinha quando vivo na época em que o segundo o conheceu, embora ele haja tido, depois dessa época, muitas encarnações. Apresenta-se com o vestuário, os sinais exteriores – enfermidades, cicatrizes, membros amputados etc. – que tinha então. Um decapitado se apresentará sem a cabeça, o que não significa de modo algum que haja conservado essa aparência. Certamente, como Espírito, ele não é coxo, nem maneta, nem zarolho, nem decapitado; o que ocorre é que, retrocedendo o seu pensamento à época em que tinha tais defeitos, seu perispírito lhes toma instantaneamente as aparências, que deixam de existir logo que o mesmo pensamento cessa de agir naquele sentido. Se, pois, de uma vez ele foi negro, e branco de outra, apresentar-se-á como branco ou negro, conforme a encarnação a que se refira a sua evocação e à que se transporte o seu pensamento.

Por um efeito análogo, o pensamento do Espírito cria fluidicamente os objetos que ele esteja habituado a usar. Um avarento manuseará ouro, um militar trará suas armas e seu uniforme, um fumante o seu cachimbo, um lavrador a sua charrua e seus bois, uma mulher velha a sua roca. Para o Espírito, que é, também ele, fluídico, esses objetos fluídicos são tão reais, como o eram, no estado material, para o homem vivo; mas, pela razão de serem criações do pensamento, a existência deles é tão fugitiva quanto a deste.
(10) (grifo itálico do original, em negrito nosso) (11)


Aqui é clara a possibilidade de um Espírito (desencarnado) tomar a aparência que tinha em qualquer de suas vidas anteriores, a modo de se fazer reconhecer. Mas a nossa questão é: o Espírito de uma pessoa viva também poderia fazer a mesma coisa? A omissão disso, nessa explicação, pode ser considerada uma negativa, ou seja, que não pode ou, que, simplesmente, o tema não foi levantado? Continuamos na incerteza.

23. Embora, durante a vida, o Espírito se encontre preso ao corpo pelo perispírito, não se acha tão escravizado a ponto de que não poder alongar a cadeia que o prende e transportar-se a um ponto distante, seja na Terra, seja no espaço. Só a contragosto o Espírito permanece ligado ao corpo, porque a sua vida normal é a de liberdade, ao passo que a vida corpórea é a do servo preso à gleba.

O Espírito, portanto, sente-se feliz em deixar o corpo, como o pássaro ao deixar a gaiola; aproveita todas as ocasiões para dele se libertar, todos os instantes em que a sua presença não é necessária à vida de relação. É o fenômeno designado como emancipação da alma, o qual se produz sempre durante o sono. Toda vez que o corpo repousa e que os sentidos ficam inativos, o Espírito se desprende. (O Livro dos Espíritos, Livro II, cap. VIII.)

Nesses momentos o Espírito vive da vida espiritual, enquanto que o corpo vive apenas da vida vegetativa; acha-se, em parte, no estado em que se encontrará após a morte; percorre o espaço, conversa com os amigos e outros Espíritos, livres ou encarnados como ele.

O laço fluídico que o prende ao corpo só por ocasião da morte se rompe definitivamente; a separação completa somente se dá por efeito da extinção absoluta da atividade vital. Enquanto o corpo vive, o Espírito, a qualquer distância que esteja, é instantaneamente chamado à sua prisão, desde que a sua presença aí se torne necessária. Ele, então, retoma o curso da vida exterior de relação. Por vezes, ao despertar, conserva das suas peregrinações uma lembrança, uma imagem mais ou menos precisa, que constitui o sonho. Quando nada, traz delas intuições que lhe sugerem ideias e pensamentos novos e justificam o provérbio: A noite é boa conselheira. (grifo itálico do original, em negrito nosso) (12)


Algumas colocações elucidam pontos que anteriormente deixamos, propositadamente, de explicar. O que nos chamou a atenção foi o fato de que, durante o sono, o encarnado, no estado de emancipação da alma, não conserve sempre a lembrança do que lhe aconteceu durante este estado.

Se, como demonstrado, não há emancipação da alma com o encarnado em estado de vigília, então, diante disso, podemos concluir que, nessa situação, não terá condições de agir conscientemente no mundo espiritual a ponto de escolher onde se manifestar e conseguir ter lembrança de possíveis (ou seria melhor dizer impossíveis?) diálogos com encarnados.

37. Como o perispírito é o mesmo, tanto nos encarnados, como nos desencarnados, um Espírito encarnado, por efeito completamente idêntico, pode, num momento de liberdade, aparecer em ponto diverso do em que repousa seu corpo, com os traços que lhe são habituais e com todos os sinais de sua identidade. Foi esse fenômeno, do qual se conhecem muitos casos autênticos, que deu lugar à crença nos homens duplos. (13) (grifo nosso) (14)


Esse "pode aparecer" teria sentido de abrir alguma outra possibilidade ou significa sempre aparece, é o que, por ora, não conseguimos desvendar.

Há algo que, quem sabe, poderá contribuir para solucionar o nosso problema, vamos encontramo-lo em Léon Denis (1846-1927) e Gabriel Delanne (1857-1926), reconhecidamente destacados estudiosos do Espiritismo, nos tempos de Kardec, com vários livros publicados. As duas primeiras transcrições são de autoria de Denis e a última de Delanne:

O perispírito torna-se, portanto, um molde fluídico, elástico, que calca sua forma sobre a matéria. Daí dimanam as condições fisiológicas do renascimento. As qualidades ou defeitos do molde reaparecem no corpo físico, que não é, na maioria dos casos, senão imperfeita e grosseira cópia do perispírito. (grifo nosso) (15)

A matéria grosseira, incessantemente renovada pela circulação vital, não é a parte estável e permanente do homem. É o perispírito que assegura a manutenção da estrutura humana e dos traços da fisionomia, e isso, em todas as épocas da vida, do nascimento até a morte. Faz, assim, o papel de um molde compressível e expansível, sobre o qual a matéria terrestre incorpora- se. (grifo nosso) (16)

Precisamos recorrer ao perispírito, pois ele é que contém o desenho prévio, a lei onipotente que servirá de regra inflexível ao novo organismo, e que lhe assinará o lugar na escala morfológica, segundo o grau de sua evolução no embrião que se executa essa ação diretiva. […]. (grifo nosso) (17)


Aqui temos que o perispírito é o molde do corpo na nova encarnação, isso é algo que todos sabemos. A novidade é que ele também assegura a manutenção da estrutura do corpo humano e dos traços da fisionomia (aparência), durante toda a vida do encarnado. Diante disso, estamos inclinados a achar improvável que uma pessoa viva possa modificar a aparência de seu perispírito, para se manifestar com uma outra aparência, porquanto, além de não tem conhecimento suficiente para fazer isso, tal coisa, quem sabe, não causará algum transtorno ao corpo físico, do qual é modelo exato e com o qual se liga célula a célula.

E pensando bem, o fato de alguma coisa ser possível para uns não quer, necessariamente, dizer que ela seja para todos os outros. Por exemplo: o transplante de órgãos é um procedimento cirúrgico que nem todos os médicos estão em condições de realizá-lo, somente aqueles que têm especialização médica do órgão a ser transplantado. Então, semelhantemente, os encarnados não teriam condições de realizar tudo quanto produzem os Espíritos desencarnados.

Lendo a obra Recordações de Chico Xavier, de autoria de R. A. Ranieri (1920-1989), encontramos esse trecho que julgamos importante:

Chico possui todas as qualidades mediúnicas: psicografia, vidência, clarividência, incorporação, desprendimento, transporte, materializações, etc.

Enquanto escreve, seu espírito desprende-se do corpo e permanece na sala, no plano espiritual, conversando com outros espíritos, ou recebendo instruções; nessa hora pode estar recebendo, como já ocorreu, mensagens em duas línguas diferentes, inglês e francês, fato relatado pelos jornais e por um escritor espírita, se não nos enganamos, Carlos Imbassahy. (grifo nosso) (18)


Se Chico, temporariamente, se desliga do corpo e seu Espírito, que se encontra mesmo local onde está seu corpo, mantém conversação com desencarnados, isso significa, então, que ele conserva sua aparência da atual reencarnação e não a de Kardec.

Se, como nos informa Ranieri, Chico "Trabalha[va] desde as primeiras horas da manhã até a noite e a nova madrugada e quando vai para casa, às vezes, duas a três horas da manhã, ainda vai ver alguma coisa…" (19), lhe restaria muito pouco espaço de tempo para que ele pudesse se manifestar em estado de emancipação da alma até mesmo durante o sono.

O Espírito de pessoa viva, não se manifesta em estado de vigília; a impossibilidade disso acontecer está demonstrada na pesquisa que fizemos e já mencionada, a qual, novamente, recomendamos a leitura como complemento do presente estudo.

 

Paulo da Silva Neto Sobrinho
out/2015

Notas:

(1) NETO SOBRINHO, P. S. Manifestação de Espírito de pessoa viva é possível em estado de vigília?, disponível em:
http://www.paulosnetos.net/viewdownload/5-artigos-e-estudos/675-manifestacao-de - espirito-de-pessoa-viva-e-possivel-em-estado-de-vigilia

(2) KARDEC, LM, 2013, p. 315.

(3) XAVIER, 1995, p. 118.

(4) XAVIER, 1995, p. 263-269.

(5) KARDEC, A. LM, p. 316.

(6) KARDEC, RE 1861, p. 227-228.

(7) KARDEC, LM, 2013, p. 132.

(8) KARDEC, LM, 2013, p. 132.

(9) KARDEC, GN, 2013, p. 181-182.

(10) Nota da transcrição: Revista Espírita, junho de 1859. O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. VIII.

(11) KARDEC, GN, 2013, p. 240-241.

(12) KARDEC, GN, 2013, p. 246-247.

(13) Nota da transcrição: Exemplos de aparições de pessoas vivas: Revista Espírita de dezembro de 1858; fevereiro de 1859; agosto de 1859; novembro de 1860.

(14) KARDEC, GN, 2013, p. 254.

(15) DENIS, 1987, p. 246.

(16) DENIS, 2011, p. 214.

(17) DELANNE, 1989, p. 39.

(18) RANIERI, 1997, p. 92.

(19) RANIERI, 1997, p. 104

 

Referências bibliográficas:

DELANNE, G. Evolução anímica. Rio de Janeiro: FEB, 1989.

DENIS, L. Depois da morte. Rio de Janeiro: CELD, 2011.

DENIS, L. Depois da morte. Rio de Janeiro: FEB, 1987.

KARDEC, A. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

KARDEC, A. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2013. KARDEC, A. Revista Espírita 1861. Araras, SP: IDE, 1993.

NETO SOBRINHO, P. S. Manifestação de Espírito de pessoa viva é possível em estado de vigília?, disponível em:
http://www.paulosnetos.net/viewdownload/5-artigos-e-estudos/675- manifestacao-de-espirito-de-pessoa-viva-e-possivel-em-estado-de-vigilia

RANIERI, R. A. Recordações de Chico Xavier. Guaratinguetá, SP: Edifrater, 1997. XAVIER, F. C. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, 1995.

 

Fonte: http://www.aeradoespirito.net/ArtigosPN/ESPIR_D_PESS_VIVA_AO_SE_MANIF_CONSEG_MUD_D_APAR_PN.html



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>  O Mau-Olhado na Ótica Espírita
>  Mediunidade de Incorporação
>  Mediunidade no tempo de Jesus
>  Mediunidade - percepção da Psique humana : proposição de um novo conceito para a mediunidade
>  A Memória Genética não explica a reencarnação
>  Os milagres existem?
>  Moisés – primeiro inquisidor
>  Os mortos estariam dormindo?
>  A mulher na Bíblia
>  Nada é definitivo nas obras básicas
>  Neurocirurgião muda de opinião após vivenciar uma EQM
>  Os nomes dos títulos dos Evangelhos designam seus autores?
>  Para entender o Espiritismo - Resposta ao “parapsicatólico”
>  O Papel dos Médiuns na Comunicação
>  Pedro, tu és Papa?
>  Perdão, punição, redenção, crença ou reencarnação?
>  O perispírito não é fluido vital
>  Possessão: há a posse física do encarnado?
>  Preexistência do Espírito
>  A profecia sobre a volta de Elias se realizou?
>  As provas da sobrevivência do espírito
>  Quais são as Obras Básicas?
>  Qual a primeira obra espírita que deve ser lida?
>  Os quatro Evangelhos de Roustaing
>  Quem era o discípulo a quem Jesus amava?
>  A Questão do Bom ladrão
>  Racismo em Kardec?
>  A reclamação de um defunto
>  Reencarnação - Bibliografia
>  Reencarnação, a prova definitiva
>  Reencarnação e as pesquisas científicas
>  Reencarnação e a evolução humana
>  Reencarnação e o inconsciente coletivo
>  A Reencarnação é um dogma dos espíritas?
>  Reencarnação no Concílio de Constantinopla - (Orígenes x Império Bizantino)
>  Reencarnação no contexto histórico
>  Reencarnação no Evangelho, A
>  Reencarnação no Pentateuco
>  Reencarnação x ressurreição física e penas eternas
>  Religião Espírita: é o que, de fato, é o Espiritismo
>  Ressurreição da Carne?
>  Ressurreição, o significado bíblico
>  Ressurreição ou Reencarnação?
>  Reunião de doutrinação (esclarecimento) de espíritos foi recomendada na codificação?
>  Reuniões mediúnicas de desobsessão (doutrinação ou esclarecimento de Espíritos)
>  Satanás – ser ou não ser, eis a questão
>  Segredos da supermemória
>  Será que os profetas previram a vinda de Jesus?
>  Será que Saul conversou com Samuel-espírito?
>  Sinal combinado para confirmar contato com os mortos
>  Só a reencarnação para explicar
>  Somente Espíritos Superiores trazem-nos novas instruções?
>  Sudário: relíquia verdadeira ou falsificação medieval
>  Teodora e as 500 prostitutas
>  Terrorismo Religioso
>  Todos nós somos médiuns
>  Torre de Babel: o carro na frente dos bois
>  Tradutor, traidor
>  Trindade - o “mistério” criado por um leigo, anuído pelos teólogos
>  A vida do espírito é só no corpo físico?

Leiam também de Paulo da Silva Neto Sobrinho, em co-autoria

Silva Neto Sobrinho, Paulo da & Silva, Vladimir Vitoriano da

 >  Deuteronômio – lei divina ou mosaica?

 
Visitem o site de Paulo da Silva Neto Sobrinho


 >>>   http://www.paulosnetos.net

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