É desnecessário argumentar
em favor da filantropia e da caridade no movimento espírita brasileiro.
A obra kardequiana defende, seguida por diversas contribuições
de autores e médiuns brasileiros, a caridade como valor e a filantropia
como dever. De uma forma muito pessoal e individual, “O Evangelho
Segundo o Espiritismo” é um convite de muitas faces para
que o homem de bem, e não apenas o espírita, atenda a
exortações como:
“Encontra satisfações nos benefícios
que espalha, nos serviços que presta, no fazer ditosos os outros,
nas lágrimas que enxuga, nas consolações que prodigaliza
aos aflitos. Seu primeiro impulso é para pensar nos outros antes
de pensar em si, é para cuidar dos interesses dos outros antes
do seu próprio interesse. O egoísta, ao contrário,
calcula os proventos e as perdas decorrentes de toda ação
generosa.” (KARDEC, 1978a, p. 285)
Uma vez aceito o imperativo ético da prática da caridade,
e aceita a distinção entre caridade moral e material,
como o faz Kardec na mesma obra, não é inusitado aceitar
que as instituições espíritas organizem serviços
capazes de atender às necessidades sociais, no limite de suas
capacidades. O próprio Kardec propôs a manutenção
de instituições como um dispensário, onde se realizariam
consultas médicas gratuitas, uma caixa de socorros e um asilo,
a serem mantidos com recursos da Comissão Central do Espiritismo,
em seu conhecido Projeto de 1868. (KARDEC, 1978b)
Há que se distinguir a manutenção de instituições
do imperativo da caridade. O espírita (pessoa) não precisa
de uma instituição mantida por seu centro espírita
para a realização de uma ação social beneficente.
Ele pode juntar esforços a diversas iniciativas sociais mantidas
pelo Estado ou por organizações sérias sem fins
lucrativos. Da época de Kardec aos nossos dias, cada vez mais
os Estados têm trazido para si a responsabilidade de fornecer
serviços considerados necessários à população.
Educação, saúde, proteção alimentar,
entre outras ações, estão cada vez mais presentes
nas agendas de governos, das mais diversas orientações
políticas. Salamon (1998) defende, com números, que nas
últimas décadas o número de organizações
sem fins lucrativos, constituintes do chamado Terceiro Setor, têm
crescido intensamente em todo o planeta. O movimento espírita
não pode se furtar a refletir sobre as mudanças na sociedade
e sobre o seu papel. Diante destas mudanças, é muito oportuna
a questão que o Carlos Iglesia solicitou que se discutisse melhor:
devem os centros espíritas manter creches?
Antes de tratar da questão das creches, devemos pensar em uma
área que sofreu uma transformação mais intensa
em nosso país, as ações de saúde. Seja pelo
avanço da medicina e da tecnologia médica, seja pela evolução
das políticas públicas de saúde, hoje, de uma forma
geral, temos nos grandes centros urbanos um serviço de atendimento
médico disseminado e articulado. O Sistema Único de Saúde
(SUS) possibilitou a criação centros de saúde com
corpo médico de generalistas e alguns especialistas, serviços
de enfermagem, farmácia, campanhas de vacinação,
odontologia, psiquiatria, psicologia, entre outros serviços,
integrados a hospitais generalistas e de especialidades. Na última
década os governos federais têm incentivado o Programa
de Saúde da Família, no qual uma equipe de saúde
visita residências e passa a acompanhar pacientes cujo cotidiano
era desconhecido ao médico, que só os via no posto de
saúde, e a atender pacientes que eram mal atendidos pelo sistema
anterior pelas dificuldades de locomoção aos postos de
saúde.
Respeitadas as diferenças entre regiões no Brasil e as
exceções, um dispensário com um médico fazendo
consultas gratuitas, é uma organização de qualidade
inferior à que é oferecida pelo Estado (o que não
acontecia à época de Kardec). Sem poder pedir exames que
o auxiliem a fazer diagnóstico, sem poder encaminhar para hospitais
de alta complexidade, sem poder contar com o apoio de uma equipe de
profissionais da saúde, o seu trabalho, em que se pese a boa
vontade e a disposição de ajudar o próximo, será
de qualidade inferior ao que é oferecido pelos órgãos
de Estado. Não é exagero dizer que esta instituição,
nas condições acima indicadas, atende mais a necessidade
do voluntário em prestar o serviço que a do atendido.
A conseqüência da melhora dos serviços do Estado é
que a exigência para a atuação neste espaço
aumenta.
O que têm feito os centros espíritas que estão atentos
às mudanças no cenário social? Quando já
têm uma estrutura de saúde montada, vão migrando
seus serviços para os espaços mal cobertos pelos órgãos
de Estado ou vão aumentando a complexidade de suas ações.
As farmácias ligadas aos centros espíritas trabalham com
medicamentos que não são facilmente encontrados nos postos
de saúde. Os serviços de odontologia vão fazer
procedimentos cujo custo torna proibitivos aos postos de saúde.
Os voluntários da área de saúde realizariam trabalhos
que não estão disponíveis nos postos de saúde.
Esta é uma forma inteligente de integração à
rede de proteção social que o Estado e as organizações
da sociedade formam.
Outra ação conhecida pelo movimento espírita brasileiro
foi a constituição de Hospitais Psiquiátricos Espíritas
em diversos lugares do Brasil. Possivelmente, esta iniciativa tem como
motivo a preocupação do movimento espírita na distinção
entre doença mental e mediunidade, mas não se reduz a
isto, uma vez que são espaços de prática de uma
especialidade médica e de profissionais da saúde mental.
Estes hospitais vieram incorporando as modificações na
Psiquiatria, as ações multidisciplinares e se adaptaram
a muitas das justas exigências do movimento de luta antimanicomial
e às disposições governamentais. Estas instituições
espíritas romperam o isolamento e têm realizado encontros
entre seus profissionais, têm promovido eventos e têm trocado
experiências. Este, talvez, seja um dos projetos mais bem sucedidos
das Associações Médico-Espíritas que se
fundaram nos últimos anos em nosso país.
Da mesma forma que a saúde, a educação também
mudou. A nova lei de Diretrizes e Bases atribuiu precariamente às
prefeituras a obrigação de manter instituições
pré-escolares. O Estado Brasileiro começou a destinar
recursos e a pensar políticas para um segmento até então
marginal às agendas públicas. Um movimento semelhante
ao da saúde está acontecendo com a chamada educação
infantil.
Os centros espíritas devem, então, manter creches?
Penso que sim, desde que consigam fazê-lo com qualidade e mantidas
as suas diretrizes.
Inicialmente, a obrigação das prefeituras ainda
é relativa. A legislação atribui a educação
infantil às prefeituras, mas prioriza o repasse de recursos ao
ensino fundamental, ou seja, deixa uma brecha para os prefeitos justificarem
a falta de fornecimento deste serviço à população.
Muitos segmentos do tecido social ainda não tiveram atendidas
as suas necessidades de cuidados para as crianças em idade pré-escolar.
São recorrentes os casos de visitas a favelas nos quais se encontram
crianças na segunda infância tendo que tomar conta de recém-nascidos
e de seus irmãos menores, em nossa capital mineira. Além
disto, muitas creches da rede de educação infantil não
são mais que um espaço de cuidados à criança.
Em segundo lugar, da mesma forma que os hospitais espíritas têm
envidado esforços para fornecer um atendimento diferenciado aos
seus clientes, as creches espíritas podem dar uma educação
e cuidados superiores aos seus pequenos clientes e às suas famílias.
Ao lado do espaço de atuação voluntária
(que deve ser conseqüente e inteligente), a integridade das instituições
espíritas é um diferencial importante, em se tratando
de aporte de recursos públicos ou de parceiros da iniciativa
privada.
Um terceiro argumento é a necessidade dos centros espíritas
manterem ações sociais conseqüentes, que possibilitem
o engajamento não só de seus participantes, mas das comunidades
como um todo. A finalidade maior é, nestes tempos de desigualdade
social e dissolução do tecido social, além de possibilitar
a integração dos espíritas em ações
de impacto social, mostrar à sociedade que existem comunidades
íntegras, capazes de incentivar as pessoas a darem uma contribuição
pessoal pela melhoria de nossa sociedade, independente de sua posição
religiosa.
Os centros espíritas devem ter atenção com o zelo
pela humanização do cuidado infantil e evitar que a profissionalização
de muitos dos espaços transformem as creches em uma espécie
de anexo, um lugar no qual não se reconhece a ação
de homens de bem, mas apenas um espaço burocrático de
atuação técnica.
Para concluir, recordei-me de um comentário feito em um livro
inusitado e quase esquecido pela grande maioria dos espíritas
do nosso tempo, escrito pelo espírita argentino Humberto Mariotti.
Ele afirma que se “o Espiritismo permanecesse à margem
da questão social, adotaria um critério evasivo perante
as grandes coletividades humanas que sofrem, esperando sua definitiva
redenção”. (MARIOTTI, 1983, p. 106)

Saquinhos decorados, publicado pela Creche Espírita
Ponto de Luz
http://amaipontodeluz.blogspot.com
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
76 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978a.
KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 17 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978b.
MARIOTTI, Humberto. Parapsicologia e Materialismo Histórico.
São Paulo: EDICEL, 1983.
SALAMON, Lester. A emergência do Terceiro Setor: uma revolução
associativa global. Revista de Administração. São
Paulo, v. 33, n. 1, p. 5-11, jan/mar 1998.
Publicado no Boletim GEAE 514. Disponível
em http://www.geae.inf.br/pt/boletins/geae514.html . Acesso em setembro
de 2006.
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