RESUMO
A Umbanda segue em sua vocação aproveitando
elementos culturalmente diversos e adaptando-se a realidades sociais
diferentes. Neste caráter camaleônico da religião,
o culto aos baianos vem crescendo bastante nos últimos trinta
anos. Baseado em pesquisa feita na cidade de São Paulo, o presente
trabalho analisa a popularidade desta entidade espiritual e a sua importância
para a Umbanda, no contexto de competição do mercado religioso
contemporâneo.
O desenvolvimento umbandista
A Umbanda é uma religião essencialmente
urbana, com origem histórica no Rio de Janeiro dos anos 20, então
capital federal, de onde os terreiros do chamado baixo espiritismo ou
macumba não tardaram a se espalhar pelas cidades brasileiras,
sobretudo nas emergentes áreas metropolitanas. Cresceu conquistando
adeptos do catolicismo popular e do kardecismo das classes médias.
O avanço umbandista destacou-se em São Paulo, onde em
1960 os terreiros já tinham invertido a proporção
de 1 para 10 em relação aos originários centros
espíritas (Concone e Negrão, 1987). Com grande capacidade
de auto redefinição e adaptando-se ao meio social em que
se insere, a Umbanda efetivamente vinha para ficar.
Entre a mesa branca e o culto aos deuses africanos,
a Umbanda se constituiu como uma multifacetada opção religiosa.
Abrangendo o "contínum mediúnico", por um lado
próxima à magia ritual e por outro à palavra, como
preceito de orientação moral (Camargo, 1961), essa religião,
tida como brasileira por excelência, oferece uma diversidade de
elementos simbólicos (discursivos e litúrgicos) que vão
desde a tradicional origem negra à mais recente onda "espiritualista"
da New Age. Trata-se de um bricolage tanto mais versátil, ao
que teorizara Roger Bastide (1975), quanto mais rico em possibilidades
se tornou o campo religioso contemporâneo. A Umbanda atende
aos anseios das camadas mais pobres, cujo ideário mágico
quanto à busca da solução de problemas de ordem
material, sobretudo, a torna contraponto do pentecostalismo
(Fry, 1975). E se adapta também
às classes médias escolarizadas, demandantes de mensagens
racionalizadas e de terapias para o corpo e para a alma, afinal sensíveis
ao apelo esotérico (Magnani, 1996).
Muito já foi dito sobre a brasilidade da Umbanda,
pela síntese das culturas (negra-africana, indígena-ameríndia
e branca-européia) que lhe é atribuída, numa afirmação
até ufanista do caráter identitário nacional. Ela
parece ser mais brasileira, entretanto, pela contradição
moral que encerra, o que a torna um reflexo da nossa sociedade. Do familiar
e carinhoso preto-velho ao trickster e arruaceiro exu, muitos guias
se apresentam e são reconhecidos como "paizinhos" ou
"compadres". Há uma identificação generalizada
com vários personagens da vida cotidiana do país. Através
da religião se constrói um palco onde a sociedade brasileira
faz sua auto-dramatização, vindo a apresentar, sob o rótulo
"quimbanda", as faces que não confessaria de outro
modo (Prandi, 1996-a). Por tudo isso, essa religião é
definida, sincrética e contraditoriamente: entre a demanda e
a caridade, entre o bem (direita) e o mal (esquerda), ou como disse
Lísias Negrão, "entre a cruz e a encruzilhada"
(1996).
A Umbanda tem realmente uma considerável
capacidade de absorção e redefinição de
traços religiosos diversos. Neste trabalho analiso o
modo como ela utiliza esse recurso para ajustar-se eficientemente a
diferentes contextos sociais. Nessa empreitada de adaptação,
um guia chama a atenção: o baiano. Essa
entidade, historicamente nova, cujo culto vem se destacando nos últimos
30 anos, assume características diferentes, de acordo com o estilo
de vida do público participante nas giras. Busco compreender
a emergência dessa entidade, sua crescente afirmação
e popularização em dois contextos sociais distintos. A
idéia da eficaz prestação de serviços parece
ter grande importância no contexto social marcado pela pluralismo
e pela competição religiosa (Prandi, 1996-b). Foi meu
objetivo portanto apreender como o universo umbandista de elementos
simbólicos, sobretudo no que se refere a essa entidade espiritual,
é modificado em função do serviço religioso
prestado, que é moldado pelos padrões culturais e sócio-econômicos
locais.
Para tanto estudei o jeito de ser e o significado de
baianos de duas unidades de culto inseridas em áreas distintas:
um terreiro de um bairro de classe média e outro da periferia
paulistana. A pesquisa mostrou que essa entidade constitui um trunfo
da Umbanda para ser versátil e atraente, dentre as diversas opções
religiosas da atualidade. A conversão a essa religião
se dá, em grande parte, pelo atribuição ao guia
espiritual da solução de aflições cotidianas.
Há um pano de fundo de aspectos culturais que propicia considerável
identificação com os baianos.
Conversão pela eficácia do guia
espiritual
Converter-se à Umbanda significa aceitar a possessão,
isto é, a comunicação com os eguns ou encantados,
espíritos desencarnados de origens míticas que se colocam
a serviço dos humanos aflitos. É portanto um rompimento
com a idéia de controle absoluto da consciência, grande
valor da sociedade racional ocidental. Ou seja, ser umbandista,
bem como adepto das demais religiões afro-brasileiras, é
conceber uma benéfica multiplicação do eu, através
da manifestação de diferentes personalidades espirituais,
os "santos da cabeça do médium" (Prandi,
1991-b). Essa adesão religiosa implica na superação
do obstáculo imposto pela moralidade cristã, ainda bastante
arraigada e que relaciona as atividades mediúnicas ao pecado.
A condenação religiosa e as acusações cientificistas,
etnocêntricas, de distúrbio mental, foram suporte para
a repressão do estado ao cultos de origem africana, tratados
como "caso de polícia" até os anos 50. Por outro
lado, a aceitação do transe foi facilitada pela concepção
popular de reencarnação, além das noções
de contato com o sobrenatural, tão difundidas, em geral, na cultura
brasileira. A Umbanda beneficiou-se desse trunfo cultural e
se aproximou do seu lado kardecista, organizando federações
para fins de proteção jurídica e praticando a caridade
para obter uma legitimidade moral. Enfim, em detrimento da magia de
origem negra, ela racionalizou-se à moda branca (Ortiz,
1990; Prandi, 1999).
Ser filho-de-santo na sociedade pós-industrial
moderna ainda não significa estar totalmente isento do estigma,
mas já é, sem dúvida, exercício de uma prática
religiosa qualquer em meio a tantas outras opções. O homem
e a mulher modernos estão em busca do carisma que lhes conceda
segurança e bem-estar. Há uma liberdade legítima
para fazer experiências místico-devocionais e passar de
uma religião à outra sem se sujeitar a constrangimentos,
pois, afinal, na sociedade contemporânea acaba por prevalecer
o dito popular "cada um, cada um", a liberdade de escolha,
a diferença entendida como um direito, o direito à
diferença. (Pierucci, 1999).
Um misto de curiosidade, medo e fascínio, além
da busca de solução de algum infortúnio, na base
do "quem sabe dá certo", faz as pessoas irem a uma
gira de Umbanda. Um convite de amigo, evidentemente, tem maior força
quando a pessoa está vivendo alguma dificuldade significativa.
Quando o problema íntimo é dito (ainda que de uma forma
genérica) pela boca do "próprio espírito incorporado"
tem-se aí uma surpresa e de imediato a relativização
do preconceito inicial. Vejamos, nesse sentido, o depoimento de Carla,
23 anos, ex-católica.
Eu estava chateada com um monte de coisas, as brigas
em casa, o fim do meu namoro... Um dia a Fátima me convidou para
ir na sessão do centro dela e eu fui...
Eu achava uma farsa, como boa católica, mas comecei
a acreditar quando o Zé do Coco falou exatamente o meu problema.
O contato inicial com a religião, em que o espírito
fala, ainda que indiretamente, do problema que a aflige a pessoa, pode
ser considerado o primeiro passo de uma eventual conversão. Depois,
seguindo os conselhos e prescrições de banho rituais ou
alguma outra "obrigação" (oferenda, despacho)
recomendados pelo guia, muitos consulentes sentem ter alcançando
a ajuda procurada, tendo para si a prova da eficácia religiosa.
Daí para tornar-se um membro da assistência é um
passo, que pode em seguida resultar em mais um "filho da casa".
Nesse processo é relevante a acolhida dos cambonos, que são
os assistentes dos guias, mas o decisivo é o atendimento dos
preto-velhos, caboclos e outras entidades espirituais, de quem o consulente
logo se torna amigo íntimo. Observa-se grande fidelidade do consulente
para com seu guia predileto, com o qual em cada sessão busca
conversar longamente. Os baianos parecem privilegiados no estabelecimento
dessas relações de intimidade e espontaneidade, sempre
com a exteriorização de muita alegria, tendo assim grande
facilidade para conquistar novos adeptos para a religião. A mesma
neo-umbandista Carla, afirma que sua adesão à Umbanda
se deu em grande parte pela ação de um baiano:
Eles te ajudam a resgatar a auto-estima que você
perdeu em algum lugar.
Eles te dão uma sacudida, os guias em si, principalmente
o Zé do Coco, ele tem uma forma carinhosa de lidar com com as
pessoas...
Como uma religião afro-brasileira, a Umbanda
requer tempo de aprendizado dos mistérios do panteão,
do ritual, do receiturário mágico. A jovem umbandista
ainda está iniciando-se na religião e explica que deverá
passar por um "aprimoramento mediúnico". Feito isso
ela estará apta a ser "cavalo" para um guia dar consulta,
talvez também um baiano, como seu querido Zé do Coco.
Quem é o baiano
Entre os anos 50 e 60, quando a Umbanda se firma em
São Paulo, a capital paulista assiste a um grande fluxo migratório,
que a torna uma das maiores metrópoles do mundo. Pela grande
quantidade, destacam-se os nordestinos, que vêm em grande parte
para trabalhar nas obras de construção civil, como os
"peões" urbanos, assim como nos mais diferentes ramos
da indústria automobilística então em expansão,
especialmente ocupando os postos de trabalho não qualificado.
No imaginário popular dessa cidade o nordestino é portanto
associado ao trabalho duro, à pobreza, ao analfabetismo, aos
bairros periféricos, à vida precária, de um modo
genérico, a tudo que é considerado inferior ou brega.
Com o inchaço populacional e os crescentes problemas, inerentes
ao processo de metropolização, o senso comum, marcado
pelo preconceito, passa a procurar o "culpado" pelo ônibus
lotado, pela falta de emprego, enfim pelas mazelas da cidade. E a culpa
é recorrentemente atribuída ao "intruso", o
"cabeça chata ignorante", o nordestino.
Assim como o oriental é indiscriminadamente
rotulado de japonês, o nordestino é o baiano.
Na vida cotidiana da cidade se percebe o caráter negativo dessa
designação: "isso é coisa de baiano",
"que baianada você fez" etc. Ainda que elementos culturais
originários da Bahia e do Nordeste tenham sido valorizados pela
mídia (no carnaval, na música popular), fenômeno
de alguma forma expresso na proliferação dos candomblés
em São Paulo (Prandi, 1991-a), o termo "baiano" (nordestinos,
em geral) ainda continua sendo pejorativo. Não obstante, o baiano
alcançou grande popularidade na Umbanda, tendo já superado
o preto-velho na composição dos nomes que são dados
aos terreiros paulistas, ficando atrás apenas do caboclo (Negrão,
1996).
A Umbanda caracterizou-se por cultuar figuras
nacionais associadas à natureza, à marginalidade, à
condição subalterna em relação ao padrão
branco ocidental. O nordestino é o "subalterno"
da metrópole, o tipo social "inferior" e "atrasado",
e por isso objeto de ridicularização, mas também
de admiração, pois igualmente representa aquele que resiste
firmemente diante das adversidades. O baiano representa a força
do fragilizado, o que sofreu e aprendeu na "escola da vida"
e portanto pode ajudar. O reconhecido caráter de bravura e irreverência
do nordestino migrante parece ser responsável pelo fato de os
baianos terem se tornado uma entidade de grande freqüência
e importância nas giras paulistas nos últimos anos.
De um modo geral, baianos são tidos como pessoas
alegres e teimosas em afirmar sua identidade cultural. Os baianos
da Umbanda, entretanto, são pouco presentes na literatura científica.
Sabe-se que eles são guias que mesclam características
da direita e da esquerda, como exus transfigurados em "espíritos
de luz" (Prandi, 1996-a). Nas giras ele se apresenta com
forte traço regionalista, usando chapéus de palha ou de
couro, às vezes lembrando os cangaceiros. Eles são "do
tipo que não leva desaforo pra casa", como define a filha-de-santo
de um terreiro situado num bairro da periferia, acostumada ao jeito
valente do nordestino:
Baiano é encrenqueiro. Quando é pra xingar
ele xinga mesmo. Trabalha mais na direita, mas à vezes também
na esquerda. Depende do grau de evolução, do estudo do
guia.
Por outro lado, no terreiro de um bairro situado na
área central da cidade, os freqüentadores da casa afirmam
que gostam dos baianos por sua capacidade de ouvir e aconselhar.
Os baianos têm paciência para ouvir e dar
conselhos.
Eles são carinhosos e passam segurança.
Num outro terreiro, com semelhante formação
social (de classe média) os baianos também conversam bastante,
dão conselhos e falam baixo, mansamente. Eles usam essências
aromáticas, ervas, flores e velas coloridas em seus "trabalhos".
Este terreiro, cuja arquitetura é de um moderno templo, recebe
o nome de Glauco e Rosa, respectivamente os nomes do exu e da baiana
de Dona Dagmar, a mãe-de-santo, conquanto a distinção
entre as duas entidades espirituais seja bem demarcada, como explicita
uma cambono da casa:
Aqui os baianos não bebem bebida alcoólica,
só os guias da esquerda bebem, mas esse culto é fechado.
Nestes dois terreiros os baianos são "doutrinados",
apresentando um comportamento comedido, o que significa não beber
álcool, preferindo água-de-coco ou refrigerante, não
xingar, nem provocar os presentes em voz alta, não sendo enfim
zombeteiros como outros baianos.
Há portanto diferentes modelos de baianos,
os quais têm em comum uma grande popularidade. Trazendo em si
faces marginais, familiares, irreverentes, complacentes o baiano faz
sucesso em realidades sociais distintas. Analiso mais detidamente o
culto aos baianos em dois terreiros paulistanos, da classe média
e do bairro popular, respectivamente.
A tenda que virou templo
O Templo Espiritualista Marco Antônio, que até
quatro anos atrás chamava-se Tenda Umbandista Marco Antônio,
funciona há 23 anos no número 781 da avenida Cantareira,
no Alto de Santana. Seu líder, proveniente de família
kardecista, parece bastante influenciado pela origem religiosa familiar
e pelo meio social em que vive, imprimindo forte traço kardecista
a seu terreiro. Semanalmente ministra palestras e convida pessoas para
dar cursos sobre temas que considera de interesse, como espiritualidade,
depressão, meditação, relaxamento, evangelho e
espiritismo etc.
Nas religiões afro-brasileiras, em que cada terreiro
é autônomo em relação aos demais, o estilo
do terreiro é em grande parte decorrência da personalidade
e da cosmovisão do pai-de-santo, que exerce em sua comunidade
autoridade incontestável. Na referida casa de culto, cujo líder
é reverenciado pelo modo elaborado de se comunicar, ocorre uma
valorização da palavra, do discurso racional. O destaque
fica para seu "guia de frente", Marco Antônio, espírito
de um menino baiano de oito anos de idade, cuja fala intelectualizada,
segundo os adeptos da casa, se deve à "luz" que alcançou
em suas vidas pregressas. Valoriza-se também, neste terreiro,
as práticas esotéricas e terapêuticas ensinadas
e empreendidas por médicos, astrólogos e outros intelectualizados
filhos da casa.
A entidade espiritual mais frequente nas giras é
o baiano, reconhecido por seu "poder de bênção".
As sessões acontecem quinzenalmente, pois há outras atividades
na casa, e às sextas-feiras, porque segundo o pai-de-santo é
um dia de "intenso magnetismo e vibrações energéticas".
O espaço físico que comporta o templo
é típico de uma área comercial de grande cidade:
salão de tamanho médio (mais ou menos 40 m2) bem instalado
no andar de acima de uma loja de roupas, numa avenida bastante movimentada.
Ao chegar ao terreiro, subindo a escada, logo se depara com uma mesa
receptora que distribui senhas para os passes e consultas, um marca
da burocracia idealizada e valorizada pela Umbanda. Quem vai para se
consultar apanha, ao entrar, sua senha, que marca sua ordem de atendimento
com o guia desejado, e aguarda o começo da gira aproveitando
para pôr as conversas em dia com os demais presentes, amigos e
iniciados.
Em geral, uma gira de Umbanda segue a seguinte ordem:
canto de abertura dos trabalhos, que pode ser o hino da Umbanda; orações,
às vezes de acentuada conotação sincrética,
e defumações; saudação inicial do sacerdote,
dos médiuns e dos cambonos; pontos cantados de descida; pontos
cantados de subida e saudação final (Magnani, 1986). A
gira do terreiro Marco Antônio não foge à regra,
mas tem suas peculiaridades. A oração inicial é
uma espécie de credo católico com alguns termos adaptados:
"Oxalá todo poderoso, criador do Astral e da Terra";
"comunhão dos orixás"; "santa doutrina
espiritualista". Outros pontos de destaque são a complexidade
das falas do pai-de-santo e de seu guia e a maneira serena dos baianos
atenderem ao público.
A gira dessa casa umbandista surpreende pela mistura
de elementos de culto, pelo clima de espetáculo que se cria e
pela ênfase na prática discursiva. Antes da abertura das
cortinas para o início da sessão, ouve-se: uma mensagem
em off sobre as recomendações da casa (desligar aparelhos
eletrônicos, observar precauções contra incêndio),
em seguida uma canção relacionada a orixás (Tenda
dos milagres, de Caetano Veloso, por exemplo), dois toques de campainhas;
e só então começa a sessão. Os atores entram
em cena. Há atabaques de verdade, mas todos os filhos da casa
vestem calças e tênis brancos e dançam de modo contido
para a vinda dos guias. As pessoas vêm de lugares distantes, inclusive
outras cidades da Grande São Paulo. Essa distância que
traduz-se em comunidade só de encontros — não de
convivência — se apresenta como vantagem para quem não
quer expor a vida privada. A maioria dos freqüentadores é
formada por "gente bem situada", cujos carros estacionados
à porta apontam o status social. Mas todo mundo reverencia e
pede conselhos ao estereótipo ainda ridicularizado no cotidiano
paulistano, o arretado baiano.
Os pontos cantados chamam o elenco protagonista da gira
para "trabalhar, praticando a caridade e trazer os ensinamentos
de Oxalá". E os baianos vêm com jeito manso, preguiçoso.
Essa tranqüilidade, segundo o povo da assistência, os faz
"transmitir muita paz". Usam chapéu de palha, só
alguns fumam, mas todos têm um assistente que conduz uma maleta
contendo velas brancas, açúcar, mel, fitas de cetim coloridas
e perfume, entre outros utensílios e ingredientes mágicos
do guia. Os baianos bebem refrigerante, sobretudo o brasileiro guaraná,
por vezes diet. Com seus acessórios e o auxílio dos cambonos,
os guias consultam, levando em geral muito tempo com cada pessoa. Eles
ouvem bastante e falam em "firmar a cabeça", "buscar
paz espiritual". Buscam enfaticamente acalmar e alentar as pessoas
que os procuram. Esses são os baianos pacientes para ouvir e
aconselhar, uma versão light desta entidade.
O terreiro de fundo de quintal
O Abaçá Caetés Girassol situa-se
à rua Ouvídio José Antônio Santana, 233,
Vila Nova Cachoeirinha, periferia norte da cidade. É um terreiro
já antigo no bairro, com cerca de 30 anos, localizado no quintal
da residência de dona Eudóxia, a mãe-de-santo. O
local de culto é pequeno, tendo no máximo 20m2, repleto
de imagens de santos católicos. Numa das paredes há um
quadro de avisos, no qual chamam a atenção os convites
para uma excursão ao litoral paulista e para uma feijoada, com
o fim de arrecadar recursos para o terreiro. As mulheres usam saias
compridas e vestidos e calçam chinelos, quando não estão
descalças.
O guia mais reverenciado é o caboclo Caetés,
o "chefe da casa", incorporado pela mãe-de-santo. Há
periodicamente giras dedicadas aos espíritos da esquerda, lideradas
pelo Exu Sete Encruzilhadas. Os baianos também têm muito
prestígio e participam da gira juntamente com os caboclos. As
sessões acontecem todos os sábados, às 20 horas.
A gira no Abaçá começa com uma
breve oração à Nossa Senhora Aparecida, liderada
pela mãe-de-santo. Não há discursos e a fala da
sacerdotisa é bastante simples. Um ponto cantado anuncia o início
dos "trabalhos" e logo em seguida ela incorpora o seu caboclo,
logo seguido de outros que vêm para ajudar no atendimento à
assistência. Grande parte dos consulentes está em busca
de cura, pois a fama de curandeiro do caboclo de frente da casa é
notória nas vizinhanças. Feitas as consultas, os "médicos"
vão embora para a vinda dos "advogados". É a
vez dos baianos.
Andando lá na rua
Eu pisei numa macumba
Mas não adianta não
Porque lá vem o baiano
Pra demanda desmanchar
Lá vem o baiano feiticeiro,
O baiano macumbeiro,
Vem aqui pra trabalhar
Este é o ponto cantado para a vinda dos baianos.
Eles já chegam dando altas gargalhadas, brincando com os filhos
da casa e com a assistência. Nesse terreiro os baianos são
muito animados, gostam de contar piadas e de dançar. Usam chapéus
de palha amassados e rasgados e todos fumam, às vezes charuto.
Os poucos cambonos que os assistem logo levam cachaça e batida
de coco, de preferência servida na própria casca. E eles,
tirando sarro, não demoram a pedir mais. O atendimento começa
e percebe-se que enquanto os caboclos são mestres na cura de
males do corpo, os baianos são especialistas em resolver questões
financeiras e problemas ligados à intimidade, como adultério,
desavenças por maledicência etc. Diz-se que os baianos
são mais afeitos a solução de problemas "da
terra". Eles fazem os consulentes beberem de sua bebida, enquanto
os cambonos anotam em folhas de papel suas receitas de "obrigação".
Álcool e fumo são ingredientes mágicos indispensáveis
para a intervenção do baiano nas coisas do mundo profano.
Os principais atributos do guia que atraem os clientes parecem ser a
objetividade e a ousadia, conforme diz uma das pessoa da assistência:
Ah, eu gosto mesmo é do baiano! Ele vai direto
ao ponto, o que tiver que falar ele fala mesmo. Se for preciso xingar,
ele xinga!
Os pontos cantados falam de "velho feiticeiro",
"viajante da Bahia que abre caminhos", ou seja, se referem
a alguém que conhece mandingas, os segredos da magia e usa isso
para ajudar. Enquanto os pretos-velhos e caboclos mostram limitada disposição
para trabalhos moralmente duvidosos, os baianos não vacilam em
aceitar tal tipo de empreitada. Por vezes eles surgem "virados"
para atuarem juntos com os exus na esquerda. Afinal, em sua vidas pregressas,
eles não foram médicos nem cientistas, mas sim nordestinos
pobres, brigões, pais-de-santo, "macumbeiros" etc.
Para enfrentar as dificuldades do dia-a-dia, o que é genericamente
julgado certo ou errado se confunde nas atitudes concretas para o alívio
imediato. Estes são os baianos arredios e justiceiros, a versão
cabra da peste.
Os baianos no panteão afro-brasileiro
As figuras centrais da Umbanda são, por um lado,
o caboclo e o preto-velho e, por outro, o exu e a pombagira. Essas entidades
espirituais são recuperadas de matrizes e estereótipos
presentes na formação do povo brasileiro, fazendo aparecer
no centro do culto tipos sociais, tradicionais ou contemporâneos,
que podem ser pensados como pertencentes a categorias sócio-culturais
"inferiores" e "subalternas", o que é distintivo
desta religião em relação ao kardecismo, que prefere
o contato com os considerados espíritos evoluídos, cultos
e escolarizados. No desenvolvimento da Umbanda, associado às
transformações de seu meio social nos grandes centros
urbanos, outros personagens foram surgindo, como o boiadeiro, o marinheiro,
o cigano, o baiano etc. Os boiadeiros podem ser considerados um tipo
de caboclo, associado ao sertanejo, ao trabalhador rural que vive da
lida com o gado no sertão, em condições duras que
requerem muito esforço e determinação. Há
portanto proximidade entre o boiadeiro e o baiano, sendo este, no entanto,
o nordestino do meio urbano. Em termos de mestiçagem, o boiadeiro
remete ao mundo do caboclo indígena, enquanto o baiano ao negro
africano. Em outro plano, enquanto o boiadeiro representa o trabalho
e a sisudez, o baiano é a festa, a alegria, a malandragem do
negro. (Concone, 1988, reeditado neste volume). O baiano é o
negro ou o mulato das cidades litorâneas da Bahia, embora os baianos
cultuados no tambor-de-mina maranhense, igualmente negros, não
sejam considerados originários da Bahia, mas sim de alguma baía
mítica em que teriam se encantado (Ferreira, 1999).
Ao baiano da Umbanda é atribuído grande
fama de "macumbeiro", pois, segundo a concepção
popular, ele é capaz de fazer ou quebrar as chamadas "demandas",
as temidas magias maléficas, por isso atuando às vezes
também na quimbanda, em meio aos exus e pombagiras. O ponto cantado
no terreiro Lodê Oiá de Dona Maísa, da periferia
norte de São Paulo, ilustra tal ambigüidade:
Aê baianinha
Da sandália de ouro
Venha ver seu povo baianinha
Que vale um tesouro
Aê baianinha
Da sandália de pau
Onde ela bate o pé baianinha
Faz o bem, mas também faz o mal
Ela é da Bahia
Cidade Santa
Terra da Magia
A baiana desse terreiro, Dona Maria de Nagô, é
uma mulher idosa considerada meiga e astuta. Segundo a chefe da casa,
ela foi uma mãe-de-santo da Bahia, "filha de Nanã".
O baianos da Umbanda foram ou pais-de-santo do candomblé baiano
ou então negros ou mestiços de africanos com grande experiência
de vida. Nesse sentido, em termos de senilidade, os baianos se aproximam
dos pretos-velhos. Em alguns terreiros sobressai o lado arredio e feiticeiro,
noutros o sábio conselheiro.
Conclusão
A Umbanda assimilou a lógica da oferta de bens
simbólicos para a conquista e manutenção de seu
espaço no campo religioso contemporâneo, marcado pelo pluralismo
cultural pela competição por adeptos. Para tanto ela mantém
os antigos traços do catolicismo popular, do ritualismo mágico,
do atendimento direto às aflições das camadas populares.
Aí o terreiro é referência no bairro pobre e tem
um caráter de agregação comunitária. Os
guias são reconhecidos como benzedores, "milagreiros",
defensores por "quebrar demandas e abrir caminhos", enfim
agentes solucionadores de problemas diversos da população
local.
Num outro contexto, porém, a religião
associa a racional ênfase na palavra com traços atuais
de espiritualismo da chamada Nova Era. A Umbanda aproveita elementos
esotéricos presentes nos hábitos de consumo e se mostra
"atualizada". Aí o templo é uma casa de prestação
de serviços, que acentua o anonimato da vida na grande cidade.
A religião assume um caráter terapêutico, constituindo-se
em mais uma opção para o indivíduo na sociedade
urbana secularizada.
O baiano constitui um importante componente
de síntese da Umbanda para que ela se afirme na sociedade contemporânea.
Em termos morais, esse guia, que atua também na quimbanda, representa
o esforço que a religião vem fazendo ao longo do tempo
para apagar a dicotomia o bem e o mal, que a caracteriza historicamente.
Mas além de ajustar-se à direita e à esquerda (caridade
e demanda), o baiano associa a mensagem moralizadora ao ritual mágico.
Isso é bastante relevante, pois essa religião tem um pé
na magia afro-indígena e outro na racionalidade cristã.
Mais que qualquer outra entidade do panteão, o baiano alia a
orientação de conduta à manipulação
do mundo. Por isso tem prestígio junto às classe médias
e aos segmentos populares, pois ajusta-se tanto ao estilo sério,
manso, sábio quanto ao zombeteiro, arredio, valente. O baiano
pode ser o generoso conselheiro ou o arretado comprador de brigas alheias.
Ele pode ser associado à água-de-coco com a rede de dormir
ou à peixeira com cachaça, ao velho pai-de-santo "evoluído"
ou ao "cangaceiro" destemido, à MPB cult ou ao forró
brega, aos personagens sedutores de Jorge Amado ou ao Zeca Diabo de
Dias Gomes. Enfim, entre terapeuta moderno e xamã tribal, essa
entidade espiritual, como um camaleão, representa de fato um
trunfo considerável para a versatilidade da Umbanda.
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São Paulo, Pioneira, 1975.
CAMARGO, Cândido Procópio Ferreira de.
Kardecismo e Umbanda. São Paulo, Pioneira,1961.
CONCONE, Maria Helena Vilas Boas e NEGRÃO,
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In: Umbanda & política. Cadernos do ISER, 18. Rio de Janeiro,
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FERREIRA, Francelino de Shapanan Vasconcelos. Caboclos
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