Parte 1
Perspectivas da Ciência
Espírita
“Uma das ironias da ciência é que os pesquisadores
em todos os campos parecem gostar de decidir quem de suas fileiras está
transpondo os limites aceitáveis da invenção em
busca do conhecimento científico – quem é culpado
de inventar algo que pertença mais ao domínio da pseudo
ciência ou mesmo da religião. Como o falecido filósofo
Herbert Marcuse observou uma vez, a ciência não é
isenta de juízos de valor, e embora desenvolver «teorias
de panqueca» para explicar a origem das galáxias e dividir
os primeiros trilionésimos de trilionésimo de segundo
da criação do universo possam ser aceitáveis, certas
reflexões sobre outros assuntos não o são.”
John Brockman([1])
Introdução
Num momento cultural em que a Ciência
e a Tecnologia representam para a nossa sociedade o voto de Minerva
com relação à maioria dos conceitos e valores,
é justo esperarmos que nossas mais íntimas conjecturas
encontrem, no contexto científico, sua abordagem, validação
ou abandono.
Mesmo não sendo a única forma de conhecimento
aceitável, e apesar de não se ter encontrado um sentido
completo para a palavra “verdade”, a sociedade ocidental
elegeu a Ciência como sua representante gnoseológica, suprema
intermediária entre o universo e a mente humana.
Entretanto, a Ciência não pode ser desvinculada
dos valores humanos, pois é construída por homens e, como
tal, sujeita à axiologia dos que a fazem. Ainda que idealizada
como elemento neutro, ela tem sido resultante de influências outras
além do puro desejo de conhecimento. Fatores econômicos,
sociais e políticos depositam no seu fluxo contribuições
que a fazem dirigir-se para este ou aquele aspecto sempre que se impõe
uma necessidade. Face a esse panorama, salientamos a citação
de Brockman, na abertura deste trabalho, como significativo termômetro
para analisar o relacionamento entre a Ciência e o Espiritismo,
cujo aspecto científico vem sendo pouco considerado e, por vezes,
ignorado pelos pesquisadores, leigos e, inclusive, por muitos espíritas.
Neste trabalho não pretendemos uma tese sobre
a Ciência ou o Espiritismo isoladamente, mas uma discussão
sobre a interseção e a interação entre eles.
Não intentamos a inovação de valores ou conceitos,
mas o resgate, pela reflexão crítica, do íntimo
relacionamento entre os dois, relacionamento este firmado pela metodologia
científica utilizada na pesquisa mediúnica e desenvolvido
na obra de Allan Kardec. Além disso, pretendemos transportar
esses conceitos para a realidade atual onde a Ciência e o Espiritismo
tiveram seu desenvolvimento natural face às profundas modificações
de uma moderna tecnologia e da avançada estrutura de conhecimentos,
hoje conquistados, acerca da Natureza.
Sentindo a necessidade de retomar a questão
do aspecto científico do Espiritismo, de identificar e definir
a abrangência e os métodos desse aspecto, pretendemos promover
discussões e não necessariamente encerrá-las. Nosso
interesse é o de apresentar pontos para reflexão, esperando
que aqueles cuja visão não coincida com a nossa, e aqueles
que algo tenham a acrescentar, possam nos encontrar neste terreno de
indagações e críticas.
Salientamos que é nossa obrigação
discutir os conceitos ora retomados porque a existência dos fatos
estudados pelo Espiritismo nos obriga a um posicionamento. Ou o Espiritismo
está certo em suas representações e precisa ser
desenvolvido como ciência, ou está equivocado e precisa
ser corrigido através de uma melhor representação.
Mas em ambos os casos precisamos conhecê-lo. Desse conhecimento
brotará a crítica e a reflexão necessárias
para darmos um passo a mais no sentido de elucidar os fatos por ele
abordados.
Iniciamos o trabalho com uma análise sobre a
Ciência e sua metodologia, procurando esclarecer o papel e os
objetivos do conhecimento científico. Em seguida pensamos o Espiritismo
analisando brevemente seu surgimento, seu contexto e, muito particularmente,
a influência recebida pelo Positivismo de Augusto Comte. E para
concluir apresentamos o modelo de conhecimento espírita sob seu
tríplice aspecto — Ciência, Filosofia e Religião
— como uma forma coerente de abordar o conhecimento, de representá-lo
e de utilizá-lo no sentido da nossa transformação
e da sociedade em que vivemos.
A Ciência e sua Metodologia
"Representamos uma civilização científica:
e isso significa uma civilização na qual o conhecimento
e sua integridade são cruciais. “
Jacob Bronowski([2])
A idéia de uma civilização científica
nos moldes definidos por Bronowski levou a sociedade ocidental a uma
restruturação de conhecimentos e valores na busca de uma
melhor integridade para eles. Verificar se o que sabemos é correto
e conseguir novos meios para conhecer o que hoje ignoramos é
o papel da Ciência e o compromisso de sua metodologia. Mas a definição
destes termos, ciência e metodologia, é em si mesmo um
objeto de estudo que, levado a efeito pela filosofia da ciência,
deve nortear o pensamento humano sobre suas próprias descobertas
e representações.
Definições
Antes de qualquer discussão sobre a temática
da ciência, urge procurar uma delimitação para o
sentido da palavra ciência de maneira que se possa identificar
as características centrais do conhecimento científico.
Só a partir daí poderemos analisar o Espiritismo em seu
aspecto de ciência. Nossa pergunta é: o que é ciência?
Vejamos algumas definições:
> “a
ciência caracteriza-se por ser a tentativa do homem entender e explicar
racionalmente a natureza, buscando formular leis que, em última
instância, permitam a atuação humana.”
Andery
> “Enquanto tentativa de explicar
a realidade, a ciência se caracteriza por ser uma atividade metódica.
É uma atividade que, ao se propor conhecer a realidade, busca
atingi-la através de ações passíveis de
serem reproduzidas”
Andery([3])
> “Conjunto organizado de
conhecimentos relativos a certas categorias de fatos ou fenômenos.”
Enciclopédia Delta Larousse([4])
> “a ciência não
é um sistema de conceitos, mas, antes, um sistema de enunciados.”
Popper([5])
> “a ciência pode ser
definida por meio de regras metodológicas”
Popper([6])
> “A ciência é
todo um conjunto de atitudes e atividades racionais, dirigidas ao sistemático
conhecimento com objetivo limitado, capaz de ser submetido à
verificação.”
Lakatos([7])
> “A ciência é
um conjunto de conhecimentos racionais, certos ou prováveis,
obtidos metodicamente, sistematizados e verificáveis, que fazem
referência a objetos de uma mesma natureza.”
Lakatos([8])
Por estas definições podemos observar
que a ciência está fundamentalmente relacionada ao problema
da metodologia. A preocupação central é a de proporcionar
um conteúdo de conhecimentos que possam ser tomados como verdadeiros
ou prováveis; e, segundo a opinião de Popper([9]), que
possam ser falseados por uma ou mais experiências. Assim, a este
sistema de enunciados elaborados racionalmente, fundamentados na experiência
empírica, e passíveis de falseabilidade através
de experiências denominamos ciência.
Destacamos o conceito de falseabilidade pela experiência
porque ele foi introduzido por Popper. Na sua concepção,
o conhecimento científico é eminentemente
dedutivo no sentido de que somente a experimentação possibilita
a confirmação de uma idéia. E, singularmente, Popper
propõe que uma representação da natureza só
seja considerada conhecimento científico se formos capazes de
estabelecer um critério, chamado critério de falseabilidade,
através do qual a experiência possa comprovar que aquela
representação, proposta como conhecimento científico,
é falsa. Assim para que um conhecimento seja dito científico
ele necessariamente deve estar aberto à possibilidade de estar
errado. Além disso, somente a experimentação ao
longo do tempo pode assegurar a permanência — ou não
— de uma dada explicação ou teoria([10]). Daí,
segundo Popper, o conhecimento científico ser eminentemente dedutivo.
Para não nos determos em definições
e obter uma abordagem mais significativa sobre o sentido de ciência,
é preciso analisar alguns aspectos relacionados à sua
estrutura, seus objetivos, sua função e objetos de pesquisa.
Para tanto, apresentamos o pensamento de Eva Maria Lakatos([11]) sobre
o assunto. Segundo ela as ciências possuem:
a) Objetivo ou finalidade.
Preocupação em distinguir a característica comum
ou as leis gerais que regem determinados eventos.
b) Objeto. Subdividido em:
· material – aquilo que se pretende estudar,
analisar, interpretar ou verificar de modo geral;
· formal – o enfoque especial, em face
das diversas ciências que possuem o mesmo objeto material.
c) Função. Aperfeiçoamento,
através do crescente acervo de conhecimentos, da relação
do homem com o seu mundo.
Dessa maneira, no contexto das ciências, os objetivos
se voltam para a aquisição de conhecimentos e técnicas
que nos possibilitem o entendimento das leis que regem determinados
fenômenos. Esses fenômenos são os objetos da ciência,
o ponto sob o qual converge o interesse do conhecimento. Assim a ciência
é utilizada como ferramenta cuja função é
identificar e definir mecanismos que permitam o refinamento desse conhecimento
A partir desses critérios — objetivo,
objeto e função — pode-se propor algumas
classificações para as ciências. Na verdade muitas
são as classificações que se têm proposto.
Para tomar uma delas, apresentamos a classificação dada
por Mario Bunge([12])
O
quadro nos mostra a estrutura de classificação proposta
por Bunge. A divisão da ciência em formal e factual leva
em consideração, entre outros, a diferença da natureza
dos objetos, da espécie de enunciados e a distinção
das metodologias aplicadas na comprovação dos enunciados.
Merece destaque o sentido dado aos adjetivos
formal e factual quando aplicado às ciências:
· Formal -
Estudo de idéias. Os objetos destas ciências são
enunciados analíticos cuja verdade depende unicamente do significado
de seus termos e de sua coerência lógica.
· Factual - Estudo de fatos.
Seus objetos, além de enunciados analíticos possuem relação
com fatos aos quais os enunciados se referem e a partir dos quais são
elaborados. ([13])
É importante ressaltar que existem pontos de
contato muito sutis entre um e outro conceito, e que, a rigor, essa
divisão é meramente simbólica e não absoluta.
Porém, de maneira geral, as ciências se classificam em
estudo de enunciados — ou idéias — e estudo de fatos.
Apesar da variação de nomenclatura adotada, a idéia
dessa divisão permanece aproximada entre os diversos autores.
No tocante às ciências factuais,
de acordo com os objetos de seu interesse, poderemos ainda dividi-las
em dois tipos:
> Ideográficas – cujos
fatos experimentados não estão sujeitos ao controle e
à repetição laboratoriais;
> Nomotéticas – cujos
fatos experimentados podem ser submetidos ao controle e à repetição
em laboratório.
Essa distinção procura estabelecer características
metodológica que devem ser dadas a cada tipo de ciência
de acordo com a natureza dos objetos sob sua responsabilidade, e com
os experimentos que podem ser aplicados para validação
e refutação das teorias acerca desses fenômenos.
Porém, a própria classificação é
uma proposta para as ciências estabelecidas na atualidade, significando
que outras propostas e abordagens poderão surgir.
A Ciência como representação
Lembramos ainda que existe uma opinião segundo
a qual a ciência não passa de um conjunto de idéias,
coordenadas pela mente humana e dispostas de tal forma que se torna
possível a compreensão de um universo limitado de fatos
e fenômenos. Um representante destas idéias é apontado
por John Brockman:
> "A idéia de que a
realidade não é mais que a rede imaterial e transitória
de nossa linguagem descritiva já foi formulada de vários
modos por vários pensadores importantes. Um dos mais eminentes
dentre eles foi o físico alemão Werner Heisenberg que,
em seu agora famoso princípio da incerteza, demonstrou que a
realidade em seu nível mais fundamental, ou subatômico,
é mais «criada» do que observada pelos físicos."([14])
Edwin M. Bartee apresenta o mesmo pensamento:
> "A solução
de um problema não depende da natureza do problema verdadeiro,
mas da natureza do problema percebido. (...) Admitindo que algumas percepções
podem, teoricamente, ser totalmente isomórficas à situação
real, torna-se essencial reconhecer que ainda assim se tratam de percepções."([15])
Posto isso, podemos perceber que a ciência também
pode ser entendida como uma forma de representação da
realidade, mas uma representação respaldada na observação
criteriosa de fatos, através de uma abordagem meticulosa, metódica
e sistemática.
Somos partidários desta idéia, segundo
a qual, a ciência se mostra como uma forma de interação
entre o homem e a realidade, uma ponte que o ser utiliza, entre tantas,
para compreender o seu universo. Essa representação possibilita
a ação do homem sobre a realidade; pois uma vez dominadas
as leis que regem os fenômenos, a tecnologia se encarrega de encontrar
aplicação para os princípios formulados pela Ciência.
Nos dias atuais, em que a Ciência foi eleita como
a representação mais precisa da realidade, devemos destacar
o fato de que essa escolha se deu em detrimento de outras formas de
percepção. Tal conduta estabeleceu para a Ciência
um aspecto popular de infalibilidade, errôneo segundo os próprios
pesquisadores. Mas apesar de não ser infalível, a opinião
da Ciência passou a ser o voto de Minerva nas questões
relativas ao entendimento e representação do universo.
As demais representações, oriundas da Religião
ou da Filosofia, foram, a priori, consideradas inadequadas ou falsas.
Para entender o processo que determinou essa postura
cultural é preciso discutir algo sobre a história da ciência
Breve história da Ciência
Uma das características mais fundamentais do
conhecimento científico é o fato dele ser racional. A
ciência surgiu exatamente da tentativa de opor um conhecimento
racional a uma explicação mítica do mundo, uma
explicação baseada em crenças e em outros valores
subjetivos. A noção de racionalidade pode ser melhor analisada
a partir do seguinte trecho extraído do livro “Para Compreender
a Ciência”:
> “Razão, logos
— em seu sentido original — significa, por um lado, reunir
e ligar e, por outro, calcular, medir; ambas relacionadas ao pensar,
uma atividade fundamental da inteligência. (...) O conhecimento
racional se opõe ao mítico, pois é um conhecimento
sobre o qual se problematiza e não simplesmente se crê;
um conhecimento no qual a explicação é demonstrada
através da discussão, da exposição clara
de argumentos e não apenas relatada, revelada oralmente; um conhecimento
que busca uma intersubjetividade e não é mero fruto de
um sentimento coletivo; um conhecimento em que se busca explicar e não
encontrar modelos exemplares da realidade; um conhecimento que possibilita
um movimento crítico, que possibilita sua superação
e a dos mitos, e não se propõe como acabado, fechado(...);
um conhecimento onde as explicações deixam de ser frutos
da ação de seres sobrenaturais e divinos, que agem a despeito
do próprio homem, para se tornarem explicações
baseadas em mecanismos imanentes à natureza ou ao próprio
homem em sua ação sobre a natureza(...)”([16])
Essa característica racional do conhecimento científico
surgiu pela primeira vez na Grécia num período que vai
do século VII ao século I a.C. Caracterizou-se pelas tentativas
de racionalmente explicar o Universo e dar-lhe outras causas que não
os deuses. A racionalização dessas explicações
ocorreram, em sua maioria, sem o apoio da observação experimental
baseada numa metodologia específica, o que fez com que a racionalidade
grega propusesse uma representação do universo baseada
na noção de um organismo com suas leis e “vontades”.
A ciência grega e a cultura judaica
Apesar de dar início a um período de explicações
racionais acerca da Natureza, a cultura científica da Antigüidade
Grega não se assemelha com as concepções científicas
que ora adotamos.
A origem da especulação racional é
atribuída a Tales — de Mileto —
um filósofo jônico cuja preocupação era identificar
o elemento primitivo do universo. Tentando identificar uma razão
para a phisys — Física ou Natureza —
Tales identificou na água o elemento primitivo do universo, colocando
nela a origem de todas as coisas e desenvolveu um sistema de leis para
explicar o comportamento desse elemento primitivo. Posteriormente a
Física, o estudo da Natureza — de seus
princípios e leis, recebeu de Aristóteles atenção
especial. O livro "Física" de Aristóteles
estabeleceu um novo marco para a cultura humana. Tratava-se
da exposição de um sistema completo para explicar a natureza
e as leis do elemento material, identificado na Natureza.
Vejamos a análise de R.
Hooykaas sobre esse ponto de vista grego:
"(...) o mundo era um organismo vivo, a divina
fonte de todos os seres vivos — e até dos deuses. (...)
Os filósofos jônicos encaravam a própria natureza
como uma divindade, um ser eterno em processo de contínua auto-regeneração.
(...) não importa quão divergentes possam ter sido as
diferentes concepções dos filósofos pré-socráticos,
ainda assim, como salientou O. Gilbert, 'toda a especulação
dos jônicos e dos eleáticos, e até mesmo dos pitagóricos,
nada mais é que a busca da divindade: isto é, da substância
divina que determina e dirige o desenvolvimento do mundo'."[17]
E acrescenta:
"(...) a fabricação e a geração
representavam o aspecto racional e organístico da concepção
grega."([18])
Essas palavras de Hooykaas demonstram que a postura grega frente à
Natureza, apesar de ter determinado o rumo das especulações
filosóficas e científicas, não se aproxima da noção
de ciência que hoje possuímos. Trata-se de uma resposta
ao pensamento mítico vigente naquela cultura, uma resposta que
ainda procura relacionar a Natureza com as concepções
humanas e moldar o universo segundo os parâmetros de idéias
e não de observações humanas. Tal concepção
levou o homem a tomar, perante os fatos, uma postura conseqüente:
"Os produtos da Natureza são inteligíveis
por serem o resultado da auto-reprodução de formas racionais."
- Hooykaas([19])
O antigo homem grego concebeu a Natureza como algo limitado pela razão,
pelas idéias e concepções humanas, ou seja, o que
não fosse racional — para o homem — não poderia
existir porque ela não age de maneira absurda, mas seguindo uma
ordem passível de ser concebida pelo pensamento humano.
Por tudo isso a ciência grega se constituiu na
busca das razões da Natureza, da forma como o mundo se conformava
à concepção humana. A regra do dia foi estabelecida
por Protágoras quando disse — "o homem é a
medida de todas as coisas."
Outra cultura que merece destaque na opinião
de Hooykaas é a cultura judaica. Mesmo não tendo uma ciência
formulada, os judeus ofereceram uma visão diferente para a representação
da natureza. Diferente da postura grega, a cultura judaica atribuía
à Natureza uma hierarquia distinta. Para os judeus ela era uma
criação de Deus — ao contrario do organismo vivo
dos gregos — e não estava submetida aos moldes dos homens.
Quando Deus disse "faça-se e luz", a luz se fez. O
fato, na concepção judaica, foi esse, e não caberia
ao homem julgar se isso era ou não racional, mas apenas estudar
e procurar uma explicação que possibilitasse o entendimento
do observado.
Para os gregos era preciso racionalizar e explicar os
fenômenos conforme as idéias humanas; para os judeus importava
observar os fatos e explicá-los não segundo a razão,
mas a observação. Como conseqüência dessa concepção
a postura do homem, na cultura judaica, era a de identificar os fatos,
estudá-los e, se possível, controlá-los.
A ciência medieval
A Idade Média caracterizou-se por uma infeliz
tentativa de reunir numa só cultura os pensamentos gregos e judaicos.
Enquanto o Movimento Cristão optava por atalhos([20]) e se degenerava
na concepção católica, a ciência foi se limitando
aos moldes do pensamento de Aristóteles com seus modelos físicos
e metafísicos. Frente a isso podemos compreender o sentido das
palavras de Hooykaas:
"A ciência medieval não deu um passo
no sentido de eliminar os principais vícios inerentes à
postura grega em face da natureza, pois nela deparamos novamente a mesma
subestimação do poder humano e a mesma deificação
da natureza; a mesma superestimação da razão humana
e a mesma depreciação do trabalho manual."([21])
"A natureza era considerada como um poder semi-independente,
e quando as coisas aconteciam de acordo com a natureza isso significava
que seguiam um modelo que pareceria racional à mente humana,
um modelo descoberto por Aristóteles. (...) A ordem regular da
natureza era considerada como algo instituído por Deus, embora
suscetível de ser anulada por Ele de forma sobrenatural (o termo
é significativo), ao realizar um milagre."([22])
Estas idéias a respeito do mundo fizeram da cultura
medieval uma caricatura do saber humano; a união perfeita de
dois aspectos curiosos e que redundou em nada. O esforço de Tomás
de Aquino em interpretar o pensamento cristão nas bases aristotélicas
resultou numa representação estética do mundo dissociada,
porém, da realidade. A beleza desse conhecimento trouxe, no entanto,
terríveis conseqüências para os períodos imediatamente
seguintes. Deslumbrados com o dourar das palavras os homens esqueceram
de analisar o sentido experimental das proposições. A
Ciência desapareceu do contexto e deu lugar a uma infindável
discussão no campo da escolástica — ou seja, dentro
de padrões distorcidos já que o valor das idéias
não estava consignado nas observações, mas adequado
a princípios dogmáticos já estabelecido pela crença
em voga e apresentados como inquestionáveis.
Razão e Experiência
Foi no final do século XVI e início do
XVII que a ciência conseguiu desvencilhar-se das rígidas
estruturas do preconceituoso racionalismo grego e lançar mão
da observação e experiência como critérios
de validação. As contribuições de Johanes
Kepler e Ticho Brahe foram de caráter fundamental. As
formulações matemáticas feita por Kepler para explicar
as órbitas elípticas dos planetas e repensar o sistema
heliocêntrico de Copérnico foram baseadas nas observações
de Ticho Brahe cuja dedicação à técnica
e paixão pelas coisas precisas possibilitaram a formulação
de uma visão matematicamente consistente da astronomia([23]).
O esforço de Brahe no sentido de utilizar a medição
e a observação representou a primeira oportunidade de
crescimento significativo na metodologia científica e graças
às suas observações e medidas a teorização
de Kepler pode ser desenvolvida.
Contemporâneo de Kepler e Brahe, o italiano Galileu
Galilei entrou para a história como o marco fundamental da disputa
entre a fé cega e a razão luminosa. Procurando aferir
as teorias aristotélicas Galileu propõe uma nova visão
da Física e sua obra "Duas Novas Ciências" representa
um marco na evolução do pensamento humano. A postura de
Galileu na tentativa de verificar se aquilo que era racional era de
fato real retoma e desenvolve a estrutura do pensar judaico que posicionava
o homem como observador das "irracionalidades de Deus". Observemos
os seguintes trechos retirados da introdução à
edição brasileira de "Duas Novas Ciências":
"... Galileu não só ridiculariza
e ataca a teoria aristotélica tradicional dos elementos, mas
propõe uma alternativa metodológica baseada na observação
e no experimento como principal critério da verdade. É
interessante o uso de experimentos para refutar argumentos verbais apresentados
pela teoria aristotélica."([24])
Seguindo essa linha Galileu destaca em seus escritos:
"Penso que discussões sobre problemas da
Física devem tomar como ponto de partida não a autoridade
de passagens das Escrituras, mas, sim, experiências sensíveis
e suas necessárias demonstrações. Deus não
é revelado com menor excelência nos atos da Natureza do
que nas afirmações sagradas da Bíblia."([25])
Aqui, a proposta é que o problema da ciência
deixe de ser teologicamente estético — no sentido de que
não se pretende mais a exaltação da Perfeição
e Racionalidade da Obra Divina — e desloque-se para o terreno
da quantificação matemática pela observação
do real. Embora Galileu tenha sido tomado como marco dessa modificação,
as contribuições de Kepler e Brahe não podem ser
desmerecidas.([26]) A introdução na observação
e experiência no processo de validação do conhecimento
trouxe nova luz para o pensar humano, possibilitou o surgimento de um
pequeno facho que iluminaria os séculos porvindouros.
Nesse contexto surge a necessidade do MÉTODO.
A essa época surge uma voz que dá o toque
de reunir para os conhecimentos dispersos. Francis
Bacon, espírito pratico e perspicaz, apresenta uma nova
visão para a Ciência. No seu "Novum Organon"
ele propõe:
"O homem enquanto ministro e intérprete
da natureza, só faz e compreende tanto quanto lhes permitem suas
observações sobre a ordem da natureza... mais do que isso
não conhece, nem é capaz de conhecer."[27]
Vemos que a temática central, proposta por Bacon,
passa a ser a observação da natureza para verificação
do nosso conhecimento sobre ela, a experimentação como
elemento validador das nossas representações acerca da
Natureza. Essa concepção, porém, limita o mecanismo
do conhecimento à experiência dos sentidos.
A formulação de "O Discurso
sobre o Método" de René
Descartes posiciona a dúvida como forma de apreender a
verdade e estabelece princípios de lógica para verificação
do que é real.
As idéias de Descartes baseavam-se no presuposto
de uma dicotomia entre os dois princípios existentes no Universo:
Espírito e Matéria. Na concepção cartesiana
esses elemento constituiam os fundamentos de duas realidades paralelas.
Essas realidades, material e espiritual, jamais interagiam em virtude
de suas naturezas serem absolutamente díspares. A essa postura
seguiram-se severas críticas com relação à
existência do Espírito.
Uma das conseqüência da dúvida concernente
à existência do Espírito foi a solidificação
de uma concepção mecanicista da Natureza, segundo a qual
o Universo seria uma máquina, um mecanismo movido por forças
e cuja explicação sistematizava relações
entre causas e efeitos. A Mecânica, oriunda dos trabalhos de Isaac
Newton, conseguiu eminentes conquistas com esta interpretação
do universo como máquina. Isso definiu o rumo a ser tomado pela
Ciência ao ponto de séculos depois, com o advento da quântica
e da relatividade homens como Einstein, Dirac,
Plank, Bohr e Heinsemberg encontrarem extremas dificuldades para
reposicionar a interpretação da Natureza em bases transcendentes
à da mecânica newtoniana.
Parte 2
O Método Científico
A necessidade de métodos para validação
do conhecimento foi a etapa conseqüente do processo de observação
e experiência. Não basta apenas observar, tornava-se preciso
delimitar critérios de observação, isolar o essencial
do secundário e relacionar causas a efeitos.
A metodologia científica se propõe, então,
a definir regras e procedimentos que darão segurança e
validade ao exercício de conhecer.
Vejamos algumas observações sobre
método científico:
> "O método científico
é um conjunto de concepções sobre o homem, a natureza
e o próprio conhecimento, que sustentam um conjunto de regras
de ação, de procedimentos prescritos para se construir
conhecimento científico”.
- Andery([28])
> "Método é um
procedimento regular, explícito e passível de ser repetido
para conseguir-se alguma coisa, seja material ou conceitual”.
- Bunge([29])
> "Método científico
é um conjunto de procedimentos por intermédio dos quais
:
a) se propõe os problemas científicos e
b) colocam-se à prova as hipóteses científicas"
- Lakatos([30])
Observamos particularmente a última definição.
Enquanto as outras duas se baseiam na idéia de propor procedimentos
para validação, esta procura distinguir a forma de propor
os problemas e de resolvê-los. Caracteriza duas etapas distintas
do procedimento científico: a proposição metódica
do problema e a explicação sistemática dele.
Neste ponto, fica bem destacado o papel da ciência
como representação de uma realidade metodicamente percebida
e sistematicamente explicada. Portanto, um sistema que permanece válido
até que novas observações o contrariem e exijam
novas representações para a explicação dos
fatos.
Essa opinião é igualmente apresentada
por Karl Popper e Thomas
Kuhn em "Lógica da Pesquisa
Científica" e "A estrutura
das revoluções científicas", respectivamente.
Para Popper a falseabilidade é utilizada como
critério para definir, metodologicamente, até quando uma
representação da Natureza permanecerá válida.
Da mesma forma, para Kuhn, a noção de
paradigmas caracteriza a prática da ciência normal, que
explora a representação do Universo até que revoluções
coloquem em xeque essa mesma representação quando, então,
a ciência desloca-se para um enfoque especial à procura
de novos paradigmas.
Em ambos os casos, a idéia de conhecimento científico
como representação, e a necessidade de método para
erigir esse mesmo conhecimento, fica suficientemente realçada.
Para compreender a Ciência
A concepção científica da humanidade
tem evoluído com o passar dos tempos. Merece ser considerada
a proposta de Karl Raimund Popper. Ele vê a ciência como
uma interpretação parcial e temporária de uma realidade
existente; uma interpretação atualizável, porém,
nunca exata.
Essa mesma percepção é apresentada
por Albert Einstein e Leopold Infield em "A Evolução
da Física":
"Em nosso esforço para compreender a realidade
somos algo semelhante a um homem tentando compreender o mecanismo de
um relógio fechado. Ele vê o mostrador e os ponteiros em
movimento, até ouve o seu tique-taque, mas não tem meio
algum de abrir a caixa. Se for engenhoso, poderá formar alguma
imagem de um mecanismo que seria o responsável por todas as coisas
que observa, mas jamais poderá estar bem certo de que sua imagem
seja a única capaz de explicar as suas observações.
Jamais poderá comparar esta imagem com o mecanismo real e não
pode sequer imaginar a possibilidade ou o significado de tal comparação.
Mas certamente acredita que, com o aumento de seus conhecimentos, a
sua imagem da realidade se tornará cada vez mais simples e explicará
uma gama cada vez maior de suas impressões sensoriais. Pode também
acreditar na existência do limite ideal de conhecimento e que
a mente humana dele se aproxima. Poderá chamar este limite ideal
de a verdade objetiva"([31])
Esta visão da Ciência como representação
e explicação de uma realidade percebida, sujeita a mudanças
e atualizações estabeleceu um novo parâmetro para
as concepções humanas que da Antiga Grécia às
concepções de Popper pretende estabelecer a Ciência
como uma das tentativa humana de encontrar padrões e estabelecer
relações que nos permitam compreender o mundo através
da proposição de modelos.
Além disso, em 1962, com o lançamento
do livro "A estrutura das revoluções científicas",
Thomas Kuhn critica o conceito de ciência, e de método
científico, apresentando uma noção ainda
mais explícita da ciência como representação
temporal de problemas, percebidos e propostos a partir de determinadas
idéias que são compartilhadas pelas comunidades científicas:
os paradigmas. Nesse sentido ele esclarece ([32]):
"A pesquisa eficaz raramente começa antes
que uma comunidade científica pense ter adquirido respostas seguras
para perguntas como: quais são as entidades fundamentais que
compõem o universo? como interagem essas entidades umas com as
outras e com os sentidos? que questões podem ser legitimamente
feitas a respeito de tais entidades e que técnicas podem ser
empregadas na busca de soluções?"
Tal visão recoloca o papel da filosofia
no contexto da ciência e introduz o conceito
de paradigma como pressupostos, leis, métodos e técnicas
aceitas e demonstradas para uma comunidade científica e que fundamenta
todo o trabalho de pesquisa daquela comunidade.
Como teremos a oportunidade de demonstrar, esse foi
exatamente o procedimento de Kardec ao abordar a questão
do espírito: identificar a natureza do problema; os
métodos que poderiam ser aplicados na solução dele;
as entidades fundamentais que deveriam ser tomados como pressupostos
para a colocação dos problemas; as experiências
que poderiam ser feitas para validar as hipóteses e, conforme
a proposta de Popper, os fatos que falseariam a teoria no caso de ocorrem.
Essa lucidez kardequiana foi o motivo mais forte pelo qual Camille Flammarion
referiu-se ao Codificador do Espiritismo como "o bom senso encarnado".([33])
O Espiritismo
Origens
O Espiritismo surgiu na França a 18 de
abril de 1857, com o lançamento da obra "O
Livro dos Espíritos". Essa data desponta, no entanto,
como um ponto crucial em que culmina um trabalho de quase uma década.
Os fatos que deram origem ao Espiritismo ocorrem desde
que se tem notícia do homem, posto que todas as culturas reportam-se
a comunicações efetuadas entre vivos e "mortos".
No entanto, foi a partir de 31 de março de 1848 que o mundo ocidental
pareceu se preocupar mais com os fenômenos de comunicação
mediúnica. Após os fenômenos de Hydesville, o mundo
inteiro foi invadido pela chamada dança das mesas. Em 1854, por
intermédio do Sr. Fortie, seu amigo pessoal, Hyppolyte Léon
Denizard Rivail, entrou em contato com os referidos fenômenos.
Após três anos de pesquisas vem a lume "O Livro dos
Espíritos". Nele está a assinatura de Allan Kardec,
pseudônimo de Rivail. Surgia o Espiritismo como uma doutrina de
origens científica, de caráter filosófico e de
conseqüências religiosas.([34])
O Espiritismo se apresentou como uma nova visão
para os problemas até então relegados ao campo do maravilhoso
e do sobrenatural, mas a primeira preocupação do Prof.
Rivail foi justamente a de reposicionar o problema sob o ponto de vista
do natural. Dessa preocupação com a maneira de propor
e tratar o problema evidencia-se uma postura metódica que busca
definir o universo no qual o problema está inserido.
Apesar de a comunicação com os Espíritos
estar reportada ao longo de toda a história da humanidade como
uma relação mística, de caráter maravilhoso
e sobrenatural Rivail efetua pesquisas como quem está lidando
com uma potência da natureza cujo tratamento deve ser de observação
e crítica; dúvida e ponderação e não
mais uma crença cega ou obstinada negação. Cabia-lhe
a observação metódica partindo da verificação
da veracidade dos fatos até à explicação
dele por um sistema de leis que possibilitassem o entendimento humano.
Aplicando aos "fatos espíritas"
a mesma metodologia empregada para analisar os problemas científicos
da época, Kardec deu um passo decisivo na abordagem de uma área
que, até então, permanecia intocável para a Ciência.
Propondo questões e compilando leis através de
uma abordagem metódica e sistematizada, ele desafiava outros
pesquisadores a examinar os fatos e propor novos modelos com suas respectivas
soluções para os fatos observados. Vejamos suas palavras:
Resumimos nas proposições seguintes
o que havemos expendido:
1º) Todos os fenômenos espíritas têm
por princípio a existência da alma, sua sobrevivência
ao corpo e suas manifestações.
2º) Fundando-se numa lei da Natureza, esses fenômenos
nada têm de maravilhosos, nem de sobrenaturais, no sentido vulgar
dessas palavras.
3º) Muitos fatos são tidos por sobrenaturais,
porque não se lhes conhece a causa: atribuindo-lhes uma causa,
o Espiritismo os repõe no domínio dos fenômenos
naturais.
4º) Entre os fatos qualificados de sobrenaturais,
muitos há cuja impossibilidade o Espiritismo demonstra, incluíndo-os
em no número das crenças supersticiosas.
5º) Se bem reconheça um fundo de verdade
em muitas crenças populares, o Espiritismo de modo algum dá
sua solidariedade a todas as histórias fantásticas que
a imaginação há criado.
6º) Julgar o Espiritismo pelos fatos que ele não
admite é dar prova de ignorância e tirar todo valor à
opinião emitida.
7º) A explicação dos fatos que o
Espiritismo admite, suas causas e conseqüências morais, forma
toda uma ciência e toda uma filosofia, que reclama estudo sério,
perseverante e aprofundado.
8º) O Espiritismo não pode considerar crítico
sério, senão aquele que tudo tenha visto, estudado e aprofundado
com a paciência e a perseverança de um observador consciencioso;
que do assunto saiba tanto quanto qualquer adepto instruído;
que haja, por conseguinte, haurido seus conhecimentos algures, que não
nos romances da ciência; aquele a quem não se possa opor
fato algum que lhe seja desconhecido, nenhum argumento de que não
já não haja cogitado e cuja refutação faça,
não por meio de mera negação. mas por meio de outros
argumentos mais peremptórios; aquele, finalmente, que possa indicar,
para os fatos averiguados, causa mais lógica do que a que lhes
aponta o Espiritismo. Tal crítico ainda está por aparecer."([35])
Diante dessas palavras, observamos que a postura do Espiritismo, frente
aos fenômenos observados — e que antes eram enquadrados
no campo do maravilhoso e do sobrenatural —, é a de lhes
assinalar uma causa natural, que estivesse fundamentada numa visão
realística da natureza, despojada de mitos ou crenças
irracionais. Os fenômenos são colocados do ponto de vista
de uma filosofia global que pressupõem, como toda e qualquer
ciência, a existência de entidades básicas no universo,
as quais fundamentam a explicação desses mesmos fenômenos.
Dessa forma, Kardec efetuava, com toda propriedade,
uma revolução na maneira de abordar a questão do
espírito, a qual permanecia relegada ao plano da Filosofia, da
Religião e do Misticismo. Sua postura é inicialmente a
de tentar identificar, no problema, uma solução coerente
com o mecanicismo vigente na Ciência de então.
Tentando identificar explicações de caráter
puramente "material" Kardec depara-se com
anomalias expressivas que impossibilitam o enquadramento dos fenômenos
nos moldes da Ciência corrente. Sua postura é idêntica
à referenciada por Thomas Kuhn.([36])
"Confrontando com uma anomalia reconhecidamente
fundamental, o primeiro esforço teórico do cientista será,
com freqüência, isolá-la com maior precisão
e dar-lhe uma estrutura. Embora consciente de que as regras da ciência
normal não podem estar totalmente certas, procurará aplicá-las
mais vigorosamente do que nunca, buscando descobrir precisamente onde
e até que ponto elas podem ser empregadas eficazmente na área
de dificuldades."
Esta posição de Kardec fica bem destacada
na introdução de O Livro dos Espíritos, quando
ele descreve:
"Se tal fenômeno (o das mesas girantes)([37])
se houvesse limitado ao movimento de objetos materiais, poderia explicar-se
por uma causa puramente física. Estamos longe de conhecer todos
os agentes da Natureza ou todas as propriedades dos que conhecemos:
a eletricidade multiplica diariamente os recursos que proporciona ao
homem e parece destinada a iluminar a Ciência de uma Luz nova.
Nada de impossível haveria, portanto, em que a eletricidade modificada
por certas circunstâncias, ou qualquer outro agente desconhecido,
fosse a causa dos movimentos observados. O fato de que a reunião
de muitas pessoas aumenta a potencialidade da ação parecia
vir em apoio dessa teoria, visto poder-se considerar o conjunto dos
assistentes como uma pilha múltipla, com seu potencial na razão
direta do número dos elementos." – Destaques nossos.
É clara a postura de Kardec. Primeiramente ele
pretendeu aplicar aos fenômenos sob análise dos crivos
da ciência corrente, com seus métodos, pressupostos, e
conceitos. O fato de procurar, na eletricidade, uma possível
explicação para os fenômenos mostra seu rigor metodológico
de buscar primeiramente nos elementos conhecidos, ou paradigmáticos,
como propõe Kuhn, as causas desses mesmos fenômenos. Não
encontrando, porém, lança mão de novas alternativas
ao colocar o problema para o campo da Ciência.
Mas, conforme o destacamos acima, a Ciência
não é isenta de juízos de valor e o assunto
não recebeu a abordagem merecida. Os sábios da época,
representantes da Ciência, tratavam da questão com desdém,
como se ela não existisse. A Ciência de então procurava
abordar o problema segundo o ponto de vista mecânico e a influência
do Positivismo foi marcante, tanto no sentido da abordagem kardequiana
como na negação dos sábios de então. É
Kardec quem destaca:
"Até aí, como se vê, tudo pode
caber no domínio dos fatos puramente físicos e fisiológicos.
Sem sair desse âmbito de idéias, já havia ali, no
entanto, matéria para estudos sérios e dignos de prender
a atenção dos sábios. Porque assim não aconteceu?"([38])
A pergunta é incisiva e podemos imaginar uma
resposta. Ocorre que os fatos fugiam dos limites da ciência de
então. As teorias e pressupostos não se aplicavam à
nova ordem de fatos que ali se demonstrava. Muitos querendo verificar
a realidade deles pretenderam reproduzir o fenômeno a seu bel
prazer, acreditando que ele se dava de conformidade com os preparativos
humanos, como ocorre com os estudos físicos.
"Mas ocorreu — diz Kardec — que o fenômeno
nem sempre lhes correspondeu à expectativa e, do fato de não
se haver produzido constantemente à vontade deles e segundo a
maneira de se comportarem na experimentação, concluíram
pela negativa. Mau grado porém, ao que decretaram, as mesas —
pois que há mesas — continuam a girar e podemos dizer com
Galileu: todavia, elas se movem!. Acrescentaremos que os fatos se multiplicaram
de tal modo que desfrutam hoje do direito de cidade, não mais
se cogitando senão de lhes achar uma explicação
racional."([39])
Foi então que o Espiritismo se apresentou
como uma ciência que pretende oferecer uma explicação
racional e coerente com os fatos observados, livre do espírito
de sistema. Criticado pelos religiosos por ser demasiadamente metódico
e racional no trato com fenômenos espirituais, e enquanto os cientistas
lhe acusavam se ressucitar o mito do Espírito, o Espiritismo
apresentava fatos e conclusões inaugurando a fase crítica
da revolução do espírito.
O Positivismo de Augusto Comte (1798-1845)
Para melhor entendimento do contexto e da dimensão
do Espiritismo, precisamos vislumbrar o horizonte cultural da
França no século XIX. Em particular, sob o ponto
de vista da Ciência, necessitamos observar o movimento Positivista
de Augusto Comte e tentar apreender quais as influências que esse
movimento teve sobre o Espiritismo.
O Positivismo surge como uma nova visão da forma
como o homem tem se relacionado, ao longo do tempo, com a Natureza.
Assume a postura de instrutor do intelecto humano e pretende elevar
o homem no sentido de abranger pela explicação, dita positiva,
os fenômenos observados. Mas o movimento positivista tem como
proposta central uma tentativa de transformar a Ciência em Religião.
Observemos as citações sobre o Positivismo
colocadas por Maria Amália Andery:
"Comte elabora (...) uma proposta para as ciências,
pretende ser o fundador de uma nova ciência - a sociologia e funda
uma religião"([40])
E Verdenal destaca:
“... Em última análise o positivismo
é a fórmula filosófica que permite transmutar a
ciência em religião: a ciência desembaraçada
de todo além teórico da especulação, converte-se
em religião despojada de perspectiva teológica e reduzida
aos fatos da prática religiosa: os ritos sociais."([41])
O pensamento de Comte propõe em primeiro lugar
três momentos para a historia da humanidade: o estado teológico,
o metafísico e o positivo. E, de maneira sistemática,
pretende aplicar esses estados a todos os episódios da aventura
humana. Cada estado, segundo Comte, é caracterizado por abordagens
e pressupostos próprios. O teológico pela busca de causas
divinas e sobrenaturais para os fenômenos do Universo; o metafísico
por causas e forças abstratas, ainda personificadas e com moto
próprio; e o positivo pelo busca de um mero relacionamento entre
causa e efeito na explicação, que mais se assemelha a
uma descrição, dos fenômenos.([42])
Essa interpretação positiva da evolução
humana trouxe uma conseqüência particular para a abordagem
científica. A Ciência deixou de ocupar-se com as causas
dos fenômenos no sentido de identificar-lhes as origens; importava
agora uma abordagem descritiva que relacionasse causas a efeitos no
sentido de explicar o como e não o porquê. Para Comte o
conhecimento científico é baseado na observação
de fatos e nas relações entre eles. Essas relações
são estabelecidas pelo raciocínio e excluem as tentativas
de descobrir a origem, ou uma causa subjacente aos fenômenos.
São, na verdade, descrições das leis que os regem,
nada mais.
É importante destacar que a visão da Natureza
como um grande mecanismo, a visão mecanicista, teve uma influência
decisiva na tomada desse rumo por parte da Ciência. A conseqüência
mais direta para esse tipo de abordagem foi o fortalecimento de uma
visão exclusivamente materialista do Universo, visão essa
assumida pela Ciência e sistematizada no campo da História
e da Economia com o advento do Materialismo Histórico Dialético
de Karl Max e Friederich Engels.
O pensamento de Comte, exposto no Positivismo, tem alguns
pressupostos que também merecem ser considerados, vejamos:
> A natureza é um conjunto
de leis eternas e imutáveis.
> O progresso é uma sucessão
linear de aquisições cuja base fundamental e a ordem.
> O conhecimento científico
é real porque parte do real.
Merece destacar o último pressuposto de Comte,
que nos leva a ver o conhecimento científico como absoluto, não
uma representação da nossa percepção da
realidade, mas a formulação da realidade em si mesma.
Para Comte a metodologia da ciência deve ser a ordem. A partir
daí o progresso é sempre crescente e linear porque o conhecimento
adquirido é absolutamente correto e, portanto, não tem
que se preocupar com o que já foi "conhecido".
O tempo se encarregou de demonstrar o quão errada
estava essa posição.
O Espiritismo - seu aspecto de ciência
"O Espiritismo é ao mesmo tempo
uma ciência de observação e uma doutrina filosófica.
Como ciência prática ele consiste nas relações
que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia ele
compreende todas as circunstâncias morais que decorrem dessas
relações.
"Podemos definí-lo assim: “O Espiritismo
é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação
dos Espíritos, e das suas relações com o mundo
corporal.”– Allan Kardec([43])
Vemos que Kardec procurou caracterizar o Espiritismo
como uma ciência e enfaticamente qualificou-o de ciência
de observação. Segundo ele, este caráter
científico do Espiritismo é decorrente do método
empregado para a construção do conhecimento:
"Como meio de elaboração, o Espiritismo
procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, aplicando
o método experimental. ([44]) (destaques nossos)
Com o termo ciência positiva Kardec faz referência
ao Positivismo. Sem pretender vincular o Espiritismo à interpretação
sistêmica de Comte, destaca, contudo, o caráter
de objetividade que as pesquisas espíritas possuíam com
relação ao emprego do método experimental.
O Espiritismo agiu com os fenômenos sob sua análise da
mesma forma que o Positivismo propunha a análise dos fenômenos
físicos: identificando os efeitos e procurando-lhes uma explicação
objetiva e racional.
Foi exatamente o emprego deste método experimental
que conferiu no alvorecer do século XVII o caráter de
distinção ao conhecimento científico. As experiências
de Brahe e Galileu trouxeram as questões científicas do
terreno das indagações para o campo da observação
experimental. Este foi o mesmo método empregado por Kardec: trouxe
a problemática do Espírito do plano especulativo para
o ambiente da observação. Os fatos lá estavam e
necessário era se lhes dessem alguma explicação.
O Espiritismo surgiu então como um sistema doutrinário
de caráter científico, quando se reporta aos fatos observados
e experimentados, e de caráter filosófico quando reflete
a respeito das conseqüências dessas explicações
para o pensamento e conduta humanos.
No entanto, o Espiritismo se apresenta de maneira distinta
das ciências do século XIX, tanto em proposição
de problemas quanto no objeto de suas pesquisas. É este objeto
de reflexão que distingue o Espiritismo enquanto disciplina científica.
Recorramos à percepção de Kardec:
"Assim como a Ciência, propriamente dita
tem por objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto
especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio
espiritual. Ora, como este último princípio é uma
das forças da Natureza, a reagir incessantemente sobre o princípio
material e reciprocamente, segue-se que o conhecimento de um não
pode estar completo sem o conhecimento do outro”.([45])
O Objeto de pesquisa do Espiritismo: as leis
do princípio espiritual
A partir da concepção racionalista dos
gregos, a Ciência definiu-se como uma pesquisa de elementos naturais.
Procurando identificar nos fenômenos uma causa que não
fosse sobrenatural e o homem pretendeu compreender as leis que regem
os fenômenos sob sua observação.
Quando a Ciência veio a libertar-se das amarras
da religião, procurou assentar sua atenção sobre
a Física como estudo da Natureza. Esse estudo baseou-se na pesquisa
sobre o elemento material. O elemento espiritual foi suprimido da especulação
pois pertencia ao domínio da teologia. Era um mistério,
e como os mitos gregos, deveria permanecer assim. Haviam portanto dois
elementos: um material — acessível ao conhecimento humano
pelas vias da observação; espiritual, o outro —
inacessível à percepção e ao entendimento
humanos.
Nos chamados milagres, que eram fenômenos sobrenaturais,
as leis da matéria eram quebradas e a ação do elemento
espiritual permanecia misteriosa, inacessível, misticamente dogmática.
Kardec, como codificador do Espiritismo, observa que:
"As ciências só fizeram progressos
importantes depois que seus estudos se basearam no método experimental,
até então, acreditou-se que esse método também
só era aplicável à matéria, ao passo que
o é também às coisas metafísicas."([46])
Como coisas metafísicas Kardec engloba aquelas
cuja base está no elemento espiritual, que estão além
da física (na concepção aristotélica e newtoniana).
É preciso lembrar a noção de matéria
vigente no século XIX era a de uma substância formada por
átomos "sólidos", indivisíveis. Além
disso, o pensamento cartesiano estabeleceu um princípio de dicotomia
entre Espírito e Matéria como duas realidade absolutamente
distintas que de modo algum interagem.
O elemento material fundamentava a concepção
da física mecanicista e fornecia a base para as pesquisas da
Ciência. Pesquisar o elemento material era pesquisar o que estava
na Natureza. O elemento espiritual referia-se ao sobrenatural e para
o progresso da Ciência, então materialista, devia ser ignorado,
posto que não existia, que não estava na Natureza. A pesquisa
da Ciência voltava-se para a aplicação de métodos
experimentais no estudo dos fenômenos da matéria –
como era entendida. Os métodos aplicados baseavam-se nas concepções
mecânicas e procuravam identificar o como e não o porquê
das coisas, seguindo o pensamento positivista. Destacamos que os métodos
de pesquisa empregados na obtenção do conhecimento voltavam-se
para a análise de elementos materiais. A tradição
científica havia se especializado na compreensão deste
elemento: o material.
O Espiritismo vem buscar novos referenciais
para a explicação dos fatos sob sua observação,
e para isso, procura entender as leis que regem o elemento espiritual.
Entretanto, o "elemento espiritual" referido por
Kardec é de ordem diferente. Esse "elemento espiritual"
apresenta-se sob diversas e distintas formas; possui leis de regência
próprias e é responsável pela explicação
de inúmeros fenômenos até então inexplicáveis.
Na proposição dos elementos fundamentais
do Universo, o Espiritismo coloca:
> DEUS – inteligência
Suprema e causa primária de todas as coisas.
> ESPÍRITO – o elemento
inteligente do universo;
> MATÉRIA - o elemento do
qual o Espírito se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, atua;
e
> FLUIDO UNIVERSAL
– elemento intermediário entre o Espírito e a Matéria.
Como podemos ver, as entidades fundamentais no processo
de proposição de novas leis, está colocada. A
discussão do Espiritismo sobre os fatos está baseada,
como qualquer outra ciência, em pressupostos filosóficos.
Deus, Espírito e Matéria são os elementos basilares
do Cosmo; mas ao elemento material necessário é acrescentar-se
o Fluido Universal, um elemento com características bastante
peculiares e que funciona, sob algumas de suas transformações,
como a "matéria" do mundo espiritual. Para uma análise
mais aprofundada a respeito dos elementos fundamentais do Universo na
visão espírita, recomendamos a leitura do capítulo
IV do livro "O PASSE - SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS,
SUA PRÁTICA" de Jacob Melo.
Em "O Livro dos Espíritos" na questão
23 a Kardec questiona:
"Qual a natureza íntima do Espírito?
Não é fácil analisar o Espírito
com a vossa linguagem. Para vós ele nada é, por não
ser palpável. Para nós entretanto, é alguma coisa.
Ficai sabendo: coisa nenhuma é o nada e o nada não
existe."([47])
A resposta deixa bem claro que o Espírito é
um ser "substancial" e não uma abstração
idealizada. Esse ponto de vista a respeito do Espírito colocou
o Espiritismo numa posição de vanguarda para analisar
os fenômenos da mediunidade. Uma vez que o Espírito era
em si mesmo alguma coisa, a idéia de agir sobre a matéria
já não permanecia tão absurda quanto o era na concepção
de Descartes. Para Kardec ficou tão clara a realidade da substância
que na questão 28 ele propõe:
"Pois que o Espírito é, em si, alguma
coisa, não seria mais exato e menos sujeito a confusão
dar aos dois elementos gerais (Espírito e Matéria) as
designações de - matéria inerte e matéria
inteligente?
As palavras pouco nos importam. Compete a vós
formular a vossa linguagem de maneira a vos entenderdes. As vossas controvérsias
provêm, quase sempre, de não vos entenderdes acerca dos
termos que empregais, por ser incompleta a vossa linguagem para exprimir
o que não vos fere os sentidos."([48])
Não é sem oportunidade a colocação
de Kardec. Para os extremados soa, inclusive, como um ponto de vista
que corrobora o Materialismo. Na verdade, o que se pretende é
destacar o caráter de realidade do elemento inteligente do universo.
Uma vez que entendemos os elementos fundamentais colocados
pelo Espiritismos para equacionar o Universo, podemos identificar que
o elemento espiritual que é objeto de pesquisa da ciência
espírita é, por assim dizer, bastante espiritual, daí
porque a colocação de Kardec a respeito da interação
e cooperação da Ciência com o Espiritismo:
"O Espiritismo e a Ciência se completam
reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha
na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas
leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam
o apoio e a comprovação.([49])" – Kardec (grifos
originais — Voltaremos a comentar esta citação na
página 17)
A Ciência estudaria o elemento material e suas
leis, o Espiritismo, o elemento espiritual.
Parte 3 (Conclusão)
Espiritismo e Ciência
Kardec não entende o Espiritismo como de competência
da Ciência vigente no século XIX. Por ser materialista
a abordagem científica e pelos métodos de pesquisa que
procuravam as leis do elemento material, a Ciência, de então,
enquanto método de pesquisa e pelos objetos de estudo que elegeu,
colocava-se, em sua própria constituição, à
distância do estudo do elemento espiritual, relegando-o ao campo
do sobrenatural.
Afirmando que:
"Desde que a Ciência sai da observação
material dos fatos, em se tratando de os apreciar e explicar, o campo
está aberto às conjecturas."
Kardec conclui:
"As ciências ordinárias assentam nas
propriedades da matéria, que se pode experimentar e manipular
livremente; os fenômenos espíritas repousam na
ação de inteligências dotadas de vontade própria
e que nos provam a cada instante não se acharem subordinadas
aos nossos caprichos. As observações não
podem, portanto, serem feitas da mesma forma; requerem condições
especiais e outro ponto de partida. Querer submetê-las aos processos
comuns de investigação é estabelecer analogias
que não existem. A Ciência propriamente dita, é,
pois, como ciência([50]), incompetente para se pronunciar na questão
do Espiritismo: não tem que se ocupar com isso e qualquer que
seja o seu julgamento, favorável ou não, nenhum peso poderá
ter. O Espiritismo é o resultado de uma convicção
pessoal, que os sábios, podem adquirir, abstração
feita da qualidade de sábios. Pretender deferir a questão
à Ciência equivaleria a querer que a existência ou
não da alma fosse decidida por uma assembléia de físicos
ou de astrônomos. Com efeito, o Espiritismo está todo na
existência da alma e no seu estado depois da morte. (...) Vedes,
portanto, que o Espiritismo não é da alçada da
ciência."([51])
E, por fim, complementa:
"(...) desde que se trata de uma manifestação
que se produz com exclusão das leis da Humanidade, ela escapa
à competência da ciência material, visto que não
pode explicar-se por algarismos, nem por uma força mecânica."([52])
Nossa primeira observação a respeito desse
trecho é o sentido das palavras Ciência, com "C"
maiúsculo e ciência com "c" minúsculo.
Pelo contexto em que ele vem utilizando esses termos, poderíamos
substituir ciência com "c" minúsculo por método
utilizado e então a expressão torna-se mais clara e possibilita
melhor entendimento das seguintes palavras contidas em "A Gênese"
sobre o Espiritismo e a Ciência.
"O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente;
a Ciência, sem o Espiritismo, se acha na impossibilidade de explicar
certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo,
sem a Ciência, faltariam o apoio e a comprovação.([53])"
– Kardec
E prossegue:
"Pela sua substância, (o Espiritismo) alia-se
à Ciência que, sendo a exposição das leis
da Natureza, com relação a certa ordem de fatos, não
pode ser contrária às leis de Deus, autor daquelas leis.
“(...)
Vemos então que a reserva colocada por Kardec
ao estudo dos fatos "espíritas" por parte da Ciência
trata-se de uma coerência com os objetos e métodos desta
própria ciência, que se auto restringiu à pesquisa
dos objetos materiais e das leis que os regem, os quais são passíveis
de explicação por algarismos e forças mecânicas.
Os fatos que se apresentavam não se enquadravam nesta ordem de
fenômenos, daí a afirmação de Kardec de que
o Espiritismo não era da alçada da ciência, de então,
enquanto enfoque metodológico.
Entretanto, a restrição não se
faz de maneira absoluta. Kardec pôde perceber que o Espiritismo
estudava uma potência da Natureza, o Espírito, e que, portanto,
não poderia seguir um caminho isolado. Sabia que o elemento espiritual
não atuava sozinho e reconhecia que alguns tópicos estudados
pelo Espiritismo, necessariamente seriam abordados pelas demais ciências.
Daí a suas criteriosas observações a respeito dos
pontos de contatos entre o Espiritismo e as outras ciências:
"Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo
jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrasse
estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse
ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará."([54])
Essas percepções acerca do Espiritismo
deixam bem caracterizada a posição de Kardec com relação
à estrutura do conhecimento espírita, que não é
de modo algum fechado em si mesmo. Ele entendia o Espiritismo como uma
representação de nossas atuais percepções
acerca de uma determinada ordem de fatos — os espirituais; e propunha
que esta representação não fosse estática,
mas continuamente atualizável como o resto do conhecimento científico.
Cabe ressaltar que a representação dos
fenômenos espirituais colocada pelo Espiritismo possui como fundamento
a observação de fatos e a experimentação
segundo as técnicas permitidas pela tecnologia vigente. Desse
modo, foi na observação dos fatos que o Espiritismo fundamentou
sua metodologia de conhecimento.
Observemos, novamente, as palavras de Kardec a respeito
do método experimental:
"As ciências só fizeram progressos
importantes depois que seus estudos se basearam sobre o método
experimental, até então, acreditou-se que esse método
também só era aplicável à matéria,
ao passo que o é também às coisas metafísicas."([55])
E com relação ao Espiritismo, ele destaca:
"Como meio de elaboração, o Espiritismo
procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, aplicando
o método experimental. Fatos novos se apresentam que não
puderam ser explicados pelas leis conhecidas; ele (o Espiritismo) os
observa, compara, analisa e, remontando dos efeitos às causas,
chega às leis que os rege; depois deduz-lhe as conseqüências
e busca as aplicações úteis."([56]) (grifos
nossos)
Afirmando categoricamente([57]) que não são
os fatos que vêm a posteriori confirmar a teoria, mas a teoria
é que vem subseqüentemente explicar e resumir os fatos,
Kardec acrescenta:
"O Espiritismo, pois, não estabelece como
princípio absoluto senão o que se acha evidentemente demonstrado,
ou o que ressalta logicamente da observação."([58])
Essa posição levou o Espiritismo a uma
situação de vanguarda na pesquisa dos fenômenos
espirituais.
A abordagem espírita
Metodologia aplicada ao elemento espiritual
A abordagem que o Espiritismo propõe às
questões envolvendo o Espírito estão em plena coerência
com o conceito de que metodologia científica "é um
conjunto de procedimentos por intermédio dos quais :
a) se propõe os problemas científicos
e
b) colocam-se à prova as hipóteses científicas"([59])
É assim que a primeira proposta do Espiritismo
com relação à maneira de abordas as questões
pertinentes aos Espíritos seja uma mudança sobre a forma
como o problema é proposto. Analisemos a opinião de Kardec
continua em o “O Livro dos Médiuns”:
"A dúvida, no que concerne à existência
dos Espíritos, tem como causa primária a ignorância
acerca da verdadeira natureza deles. Geralmente, são figurados
como seres à parte na criação e de cuja existência
não está demonstrada a necessidade."([60])
E propõe:
"O Espírito não é,
pois, um ponto, uma abstração; é um ser limitado
e circunscrito, ao qual só falta ser visível e palpável,
para se assemelhar aos seres humanos."([61])
Essa maneira de propor o Espírito como uma potência
da natureza cuja existência possui um caráter substancial
e não abstrato, removeu as barreiras da abordagem metodológica,
segundo a qual o Espírito era inacessível à pesquisa
científica por tratar-se de uma abstração. Kardec
devolve o Espírito para o plano real e pretende abordá-lo
com o mesmo enfoque com que a ciência do seu século estudava
a Matéria: como uma das potências da Natureza.
Seguindo essa linha de proposição, Kardec
defini o Espiritismo como:
"... ciência que trata da natureza
origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações
com o mundo corporal. "([62])
O problema passou a ser percebido com método;
pode ser resolvido com um sistema de leis explicativas, que ressaltaram
da observação e abriu-se para as críticas e correções
que, segundo a percepção de Kardec, necessariamente ocorreriam
com o desenvolvimento natural da pesquisa.
É ele mesmo quem propõe que a melhor forma
de combater a explicação espírita é oferecendo
uma mais adequada aos fatos observados, em sua totalidade e não
isoladamente; isto é, oferecendo uma teoria que explicasse de
uma só vez e com a mesma elegância os fatos estudados pelo
Espiritismo.
A abordagem kardequiana mostrou-se tão segura
que imediatamente surgiram outras posições como as da
Metapsiquica Francesa, de Charles Richet, e da Parapsicologia Alemã;
como outras tentativas para explicação dos fatos analisados.
Eminentes pesquisadores engajaram-se na elucidação dos
fatos estudados pelo Espiritismo. Homens como Friederich Zölnner,
Alexandre Aksakof, Gustave Geley, Cammile Flammarion, Cesare Lombroso,
Gabriel Dellane; William Crockes; Albert de Rochas; Crawford; Bozzano,
entre outros dedicaram suas pesquisas aos fenômenos em questão.
Mas esses mesmos fenômenos permanecem, até o momento, desprezados
pela chamada ciência oficial — ainda não destituída
dos seus juízos de valor.
Apesar deste elemento espiritual ser desprezado pela
dita ciência oficial ressaltamos aqui as palavras de Brockman
inseridas na introdução:
"Uma das ironias da ciência é que
os pesquisadores em todos os campos parecem gostar de decidir quem de
suas fileiras está transpondo os limites aceitáveis da
invenção em busca do conhecimento científico e
quem é culpado de inventar algo que pertença mais ao domínio
da pseudo ciência ou mesmo da religião."
É preciso que se retome as opiniões de
Kardec acerca da postura da Ciência. Se ela deseja demonstrar
que o Espiritismo está errado deve fazê-lo com a observação
dos fatos por ele estudados. Se insiste que estes fatos não existem
então demonstre que eles são realmente impossíveis
de acontecer e se ocorrem apresente explicações mais coerentes
acerca das observações. O Espiritismo será o primeiro
a seguir-lhe, conforme afirmou Kardec.
Os fatos existem e não se pode fugir deles. O
Espiritismo apresenta suas conclusões baseadas em observações
e apoiadas numa metodologia e portanto, é uma explicação
de caráter científico. A explicação espírita
está proposta. É preciso que outras apareçam para
que se possa avaliar qual a que melhor representa a realidade dos fenômenos
observados.
Podemos verificar, então, que o Espiritismo possui
um aspecto de ciência muito bem definido: procura, através
da observação e experimentação, extrair
uma representações das leis que regem os fenômenos
espirituais, aqueles cuja origem se encontra no elemento espiritual,
que seja coerente com os fatos sob observação.
Contudo, o Espiritismo não tem apenas o caráter
científico. É filosófico e religioso também.
E isso tem sido motivo de profundos desentendimentos e incompreensões.
Natureza do conhecimento Espírita
O Conhecimento Espírita transcende ao caráter
puramente científico. Pela sua essência deságua
numa estrutura de conhecimento filosófico que implica num redimensionamento
da postura do sujeito com relação ao universo conhecido,
objeto de suas reflexões.
Como forma de conhecimento o Espiritismo precisa acompanhar
a posição da Ciência, e divide com ela fatias do
seu objeto de pesquisa, já que na atualidade é tendência
que o "elemento espiritual" possa fazer parte das conjecturas
científicas, que deixam de ser estritamente "materiais".
Vale ressaltar que uma tendência à qual
a Doutrina Espírita não está inclinada é
a de estabelecer seus princípios como verdades incontestáveis.
O Espiritismo, desde Kardec, reconhece seu caráter representativo
e atualizável. É Kardec mesmo que propõe aos opositores
do Espiritismo que expliquem melhor, isto é, com um modelo mais
adequado o conjunto de fenômenos que o Espiritismo explica.
A estrutura da Doutrina Espírita é de
origem humana e espiritual, já que é um conhecimento oriundo
dos Espíritos, mas a sua representação, validação
e sistematização são de caráter essencialmente
humanos, confeccionados pelos homens. Por este mesmo motivo não
está isenta de erros, inerentes à interpretação
e representação das questões. A pedra de toque
utilizada para a validação dos princípios, mais
do que as idéias, são os fatos.
A postura espírita perante o Universo é
bastante semelhante à postura das outras ciências: o
Espiritismo, partindo de alguns pressupostos fundamentais, como a existência
de Deus e da Alma, em observando fatos objetivos, compõe um modelo
explicativo para o fenômeno e testa se o modelo é adequado
aos fatos observados. Tal modelo é aceito até que a experimentação
demonstre que ele está equivocado. então, outro modelo
é proposto.
Enquanto ciência o Espiritismo interpreta um conjunto
objetivo e restrito de fatos, para a partir das leis que estes demonstram,
e que os homens interpretam, edificar um conjunto de conhecimentos filosóficos
capazes de simbolizar o universo na idéia humana. Importante
perceber que na elaboração da Filosofia Espírita
entram não somente os dados da Ciência Espírita,
mas de todo o conhecimento científico, daí o afirmar Kardec
que a Ciência e o Espiritismo se completam. Com base nesta elaboração
filosófica é que decorre, por uma necessidade de coerência
entre teoria e prática, uma mudança de comportamento ético,
decorrente da Filosofia Espírita. Para aquelas que se detém
na ciência espírita, a mudança de comportamento
é uma abstração carente de sentido pois somente
o caráter filosófico do Espiritismo induz a uma nova postura
ética. Daí o afirmar Kardec :
"Sua força está na sua filosofia,
no apelo que dirige à razão, ao bom senso."([63])
O aspecto religioso do Espiritismo ressalta dos seus
pressupostos: Deus, existência da alma, etc. E principalmente
pelo caráter de revivecência da ética cristã,
igualmente decorrente de sua filosofia. Além disso, a proposta
de levar o homem a uma experiência existencial de auto-realização
pelo progresso; pelo desenvolvimento dos potenciais intuitivos e pela
comunhão e integração consigo, com o próximo
e com Deus — que o Espiritismo propõem, caracterizam-no
como uma religião transcendente aos ritos e dogmas.
O conhecimento espírita é um conhecimento
de tríplice aspecto. Está fundamentado na Ciência,
edifica-se na Filosofia e evidencia-se na prática. É a
prática, coerente com a filosofia, o caráter fundamental
da religião espírita. A religião espírita
não se mostra no culto realizado no templo, mas como expressão
de viver, como atividade prática, exercício de vida, na
coerência entre saber e agir, um mecanismo profundo de sentir
e experienciar a vida.
O não entendimento deste aspecto tríplice
do Espiritismo tem levado alguns a posições extremadas
e atitudes incoerentes com a essência da Doutrina Espírita.
A tendência eminentemente religiosa ou a pura especulação
filosófica ou ainda a fria pesquisa científica são
aspectos isolados que não possuem a coerência que o Espiritismo
lhes dá. A estrutura de conhecimento do Espiritismo é
uma proposta de educação integral para personalidade humana.
Uma dimensão do conhecimento que não pode
ser desprezada pelo Espiritismo é a Arte. Como mecanismo de conhecimento
e vivência, a arte desperta realidades para a alma de maneira
inexprimível em argumentos lógicos. Kardec preocupava-se
com a questão. Encontramos em Obras Póstumas as seguintes
afirmações a respeito do assunto:
"Assim como a arte cristã sucedeu à
arte pagã, transformando-a, a arte espírita será
o complemento e a transformação da arte cristã"([64])
E complementa:
"Sem dúvida, o Espiritismo abre à
arte um campo inteiramente novo, imenso e ainda inexplorado."([65])
De fato, a opinião de Kardec vai até aí:
esta profunda influência que o Espiritismo teria sobre a Arte.
Sua opinião é de que a Filosofia Espírita erigiria
uma Arte Espírita, mas como uma demonstração descritiva.
Entretanto, a simples preocupação com
o caso, por parte do Codificador do Espiritismo, deixa-nos ainda mais
à vontade para apontar a Arte como um dimensão extra para
a Natureza do conhecimento espírita. Ciência, Filosofia,
Religião e Arte seriam, pois, aspectos de percepção
para tornar o Espírito educado para a realidade da vida.
A proposta de educação integral que o
Espiritismo vem apresentar à humanidade pretende colocá-la
no plano do desenvolvimento de todas as potencialidades para uma íntima
integração do ser consigo, com o próximo e com
Deus. Mas essa integração não é apenas de
caráter racional; é também de conotação
profundamente afetiva.([66])
Reflexões finais
Pudemos verificar que o Espiritismo possui um aspecto
de ciência. Porém não podemos afirmar que tal aspecto
vem sido desenvolvido no Movimento Espírita de maneira geral.
É preciso se destaque dois elementos
no contexto do Espiritismo: o Espiritismo enquanto conhecimento
— A Doutrina Espírita; e o Espiritismo enquanto fenômeno
social — o Movimento Espírita. A Doutrina Espírita
é de caráter tríplice. Deve ser observado sob este
ponto de vista. Sua estrutura é bidirecional, influência
os demais ramos do conhecimento e é por eles influenciada. Está
naturalmente sujeita ao progresso e esforça-se por fazê-lo.
O Movimento Espírita é de iniciativa de grupos. Recebe
influência direta da Doutrina Espírita e pretende ser a
aplicação desta. Mas nem sempre é isto o que ocorre.
Aqui é que vamos identificar a estagnação
do aspecto científico do Espiritismo.
Por motivos os mais variados possíveis, cuja
análise não cabem neste contexto, o Movimento Espírita
de modo geral descuidou-se do aspecto científico da Doutrina
Espírita.
A pesquisa espírita precisa ser ressuscitada.
Enquanto a Ciência evoluiu, o aspecto científico do Espiritismo
permaneceu centrado no século XIX.
Hoje se dispõem de modernos arsenais tecnológico
cujo emprego poderão trazer significativas conquistas para elucidação
de problemas pertinentes ao Espiritismo .Urge retomar a linha traçada
por Kardec, mas é preciso igualmente cautela. Não se faz
ciência apenas com boa vontade, outros requisitos são necessários.
E na retomada deste aspecto não podemos correr o risco de menosprezar
os demais. O Espiritismo é uma estrutura de conhecimento coerente
e não podemos perder de vista essa estrutura.
Necessário que o Movimento Espírita
procure mecanismos para desenvolver a pesquisa espírita sem perder
o contexto global do Espiritismo. Pretender isolar o conhecimento
espírita dos demais ramos do saber é cometer um erro de
proporções desastrosas, assim como desprezá-lo
é equívoco de mesmo escalão.
O Espiritismo possui um aspecto de ciência. Negar
isto é ignorar os fatos ocorridos ao longo de toda a história
da humanidade. Se este aspecto não está desenvolvido é
por causa do movimentos humanos, não da estrutura do conhecimento
ou pela inexistência de fatos.
À medida que a Ciência oficial se aproxima
dos problemas propostos pelo Espiritismo, e ao mesmo tempo tenta ignorá-los;
vemos, mais uma vez, a caracterização do pensamento humano
repleto de juízos, preconceitos e valores. Por não mover-se
apenas por motivos de conhecimento é que a Ciência ainda
não voltou-se para o estudo do Espírito. Não existe
financiamento. Não há interesses econômicos. Afinal,
tudo que poderá ficar demonstrado é que no homem só
existe uma máquina biológica cuja existência esta
limitada pelo fenômeno da morte, como afirma o materialismo; ou
que existe o Espírito, que sobrevive e antevive à existência
terrena, que seu objetivo é o progresso através de múltiplas
experiências, que o mundo espiritual é um fato e que precisamos
modificar nossas condutas diante dessas realidades — como afirma
o Espiritismo.
A metodologia colocada por Kardec para abordar as questões
até então relegadas ao plano do maravilhoso e do sobrenatural,
colocaram o Espiritismo, diante do fenômeno espiritual, na condição
de vanguardeiro. Kardec não apenas apresentou o problema, mas
soube dar-lhe uma solução baseada em estruturas de conotação
filosófica, e em leis passíveis de experimentação
e análise.
Do ponto de vista de Thomas Kuhn, diríamos ele
efetuou uma revolução na estrutura do pensar humano concernente
ao Espírito. Levantou questões e ousou respondê-las.
Outros seguiram seus passos; outros mais ainda o farão por quê
os fatos permanecem, e com eles, a explicação espírita.
Estará absolutamente certa? Kardec considera
que não. Considera-se um elemento de princípio, responsável
pelas bases iniciais mas que o tempo saberá apontar falhas e
desenvolver. Soube colocar o Espiritismo numa posição
de abertura para que pudesse se desenvolver a posteriori.
A revolução espiritual de que tratamos
destacou a figura deste pesquisador Allan Kardec como um homem de visão
abrangente. Soube reunir abordagens tão distintas quais as da
Ciência, da Filosofia e da Religião, para abordar um mesmo
problema e, ainda assim, permanecer nos limites da coerência.
Seus resultados foram desafiadores. Sua resposta para os que o criticaram,
ou criticam, é ainda a mesma: que apresentem um conjunto de idéias
— de paradigmas, diria Kuhn, capazes de explicar e resolver, de
maneira mais adequada, os problemas estudados pelo Espiritismo.
E, enquanto a ciência normal permanece avaliando
as suas teorias de panqueca, permanecemos com Brockamn e Marcuse à
espera de que "certas reflexões sobre outros assuntos"
possam, de igual forma, ser convenientemente consideradas.
Nosso esforço é recuperar reflexões.
O Espiritismo tem um aspecto científico que precisa ser revitalizado.
O homem tem aspectos espirituais que precisam ser estudados. Então,
que possam os espíritas cuidar do primeiro problema, e que a
ciência oficial considere o segundo. É tempo de ouvirmos
o voto de Minerva. É tempo de considerar a urgente necessidade
de ponderar essa revolução do Espírito. Traçar
novos rumos para a Ciência Espírita e propor-lhe novas
perspectivas afinal, num momento cultural em que a Ciência e a
Tecnologia representam para a nossa sociedade o voto de Minerva com
relação à maioria dos conceitos e valores, é
justo esperarmos que nossas mais íntimas conjecturas encontrem,
no contexto científico, sua abordagem, validação
ou abandono.

O esquema nos mostra que tipo de percepção
predomina em cada ramo do conhecimento. O modelo parece ser uma proposta
de concepção holística, proveniente da teoria do
hólon de Arthur Koestler. Mas não nos foi dado identificar,
efetivamente, a fonte.
NOTAS:
-------------------------------------------------------------------------------
([1])BROCKMAN, Jonh. - Einstein, Gertrude Stein, Wittgenstein
e Frankstein: reinventando o universo. Companhia das Letras. 1ª
edição. Parte V. Introdução. pg. 277. .
Companhia das Letras. São Paulo. 1988.
([2]) BRONOWSKI, Jacob - A Escalada do Homem. cap.
13. pg437. Editora Universidade de Brasília. 2ª edição,1983.
([3]) ANDERY, Maria Amália e outros. - Para
compreender a ciência. . Introdução. pgs. 15 e 16.
EDUC. Rio de Janeiro.1988
([4]) Grande Enciclopédia Delta Larousse
([5]) POPPER, Karl R. - A Lógica da Pesquisa
científica. cap 1. pg. 35. 2ª ed. São Paulo. Cultrix
([6]) POPPER, Karl R. - A Lógica da Pesquisa
científica. cap 2. pg. 56. 2ª ed. São Paulo. Cultrix
([7]) LAKATOS, Eva Maria e MARCONI, Marina de Andrade
- Metodologia Científica. cap.1. pg.23. Editora Atlas. 1ª
edição. São Paulo. 1985
([8]) LAKATOS, Eva Maria e MARCONI, Marina de Andrade
- Metodologia Científica. cap.1. pg.22. Editora Atlas. 1ª
edição. São Paulo. 1985
([9]) Vide "A lógica da pesquisa científica"
de K. R. Popper.
([10]) A estas explicações ou teorias
chamamos uma representaçào conceitual dos fenômenos
analisados. Esta representação se formaliza em teorias
e hipóteses apoiadas por experiências.
([11]) LAKATOS, Eva Maria e MARCONI, Marina de Andrade
- Metodologia Científica. cap. 1. pg.24. Editora Atlas. 1ª
edição. São Paulo. 1985
([12]) LAKATOS, Eva Maria e Marina de Andrade Marconi
- Metodologia Científica. cap. 1. pg.26. Editora Atlas.1ª
edição.São Paulo. 1985
([13]) Para uma discurssão mais detalhada consultar
: LAKATOS, Eva Maria e Marina de Andrade Marconi - Metodologia Científica.
cap. 1. pg.28, 29 e 25. Editora Atlas. 1ª edição.
São Paulo. 1985
([14]) BROCKMAN, John. - Einstein, Gertrude Stein,
Wittgenstein e Frankstein: reinventando o universo. Companhia das Letras.
1ª edição
([15]) BARTEE, Edwin M. , apostila sobre MRP ( Método
de resoluçãode problemas)
([16]) ANDERY, Maria Amália e outros. - Para
compreender a ciência. Parte 1. pg. 23. EDUC. RIO DE JANEIRO.
1988.
([17]) HOOYKAAS, R. - A religião e o desenvolvimento
da ciência moderna. Editora Universidade de Brasília. 1988
. pg 13
([18]) HOOYKAAS, R. - A religião e o desenvolvimento
da ciência moderna. Editora Universidade de Brasília. 1988.
pg. 29
([19]) HOOYKAAS, R. - A religião e o desenvolvimento
da ciência moderna. Editora Universidade de Brasília. 1988
. pg. 29
([20]) Vide o conjunto de artigos "O atalho"
de autoria de Luciano dos Anjos publicados em O REFORMADOR - coleção
de 1973. Editora FEB.
([21]) HOOYKAAS, R. - A religião e o desenvolvimento
da ciência moderna. Editora Universidade de Brasília. 1988.
pg. 15
([22]) HOOYKAAS, R. - A religião e o desenvolvimento
da ciência moderna. Editora Universidade de Brasília. 1988.
pg 31
([23]) Para maiores detalhes sobre Kepler e Brahe
consultar - KOESTLER, Arthur. O homem e o Universo..Parte IV. Caps 1-11.
2ª ed. IBRASA. São Paulo. 1989.
([24]) MARICONDA, Pablo Rubén - in introdução
ao livro DUAS NOVAS CIÊNCIAS de Galileu Galilei. 1ª edição
.Nova Stella. pg XV.
([25]) Galileu – citado por BRONOWSKI, Jacob
in - A Escalada do Homem. Editora Universidade de Brasília. 2ª
edição,1983. pg. 209.
([26]) Sobre o assunto consultar a obra "Netuno"
de Isaac Asimov e "O Homem perante o Universo" de Arthur Koestler
([27]) DURANT, Will - História da Filosofia.
cap. III. pg 136. Edição "Livros do Brasil"
Lisboa.
([28]) ANDERY, Maria Amália e outros. - Para
compreender a ciência. Introdução. pg 16. EDUC,1988.
([29]) citado por LAKATOS, Eva Maria e Marina de Andrade
Marconi - Metodologia Científica. cap. 1. pg.41. Editora Atlas.1ª
edição.São Paulo. 1985
([30]) citado por LAKATOS, Eva Maria e Marina de Andrade
Marconi - Metodologia Científica. cap. 1. pg.41. Editora Atlas.1ª
edição.São Paulo. 1985
([31]) Einstein, Albert e INFIELD, Leopold - A Evolução
da Física - Zahar Editores. São Paulo.1980. 4ª ed.
pg. 36
([32]) KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções
científicas. Editora Perspectivas.1992. 3ª edição.
pg. 23.
([33]) Conforme se pode verificar no "Discurso
pronuciado junto ao túmulo de Allan Kardec" por Camille
Flammarion inserido no livro "Obras Póstumas" de Allan
Kardec - FEB. 22ª edição. pg. 24.
([34]) Para maiores detalhes consultar as obras "História
do Espiritismo" de Arthur Conan Doyle e "Allan Kardec"
de Zêus Wantuil e Francisco Thiesen.
([35]) KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.
FEB.55ª edição. 1987. pg.30-31.
([36]) KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções
científicas. Editora Perspectivas.1992. 3ª edição.
pg. 23.
([37]) O Fenômeno das mesas girantes foi que
deu início às pesquisas em torno da mediunidade. Para
maiores detalhes consultar as obras "História do Espiritismo"
de Arthur Conan Doyle e "Allan Kardec" de Zêus Wantuil
e Francisco Thiesen.
([38]) KARDEC. Allan. O Livro dos Espíritos.
Introdução. FEB. 56ª edição. 1982.
pg.18.
([39]) idem.
([40]) ANDERY, Maria Amália e outros. - Para
compreender a ciência. EDUC,1988. pg. 381
([41]) VERDENAL, R. - in A Filosofia Positiva de Augusto
Comte - Citado por ANDERY in Para compreender a ciência. EDUC,1988.
pg. 381
([42]) “ ... cada uma das nossas principais
concepções, cada ramo de nossos conhecimentos, passa sucessivamente
por três estados teóricos diferentes: o estado teológico
ou fictício, o estado metafísico ou abstrato, o estado
científico ou positivo. / No estado teológico o espírito
humano, ao dirigir suas pesquisas essencialmente no sentido da natureza
íntima dos seres, das causas primeiras e finais de todos os efeitos
que impressionam, numa palavra, no sentido dos conhecimentos absolutos,
representa os fenômenos como produzidos pela ação
direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos,
cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias
aparentes do universo. / No estado metafísico os agentes sobrenaturais
são substituídos por forças abstratas, verdadeiras
entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos
seres do mundo, e concebidas como capazes de engendrar por elas próprias
todos os fenômenos observados, cuja explicação,
consiste então em designar para cada um a entidade que lhe corresponde.
/ No estado positivo o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade
de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem
e o destino do universo, assim como a conhecer as causas íntimas
dos fenômenos, para se dedicar unicamente a descobrir, pelo uso
bem combinado da razão e da observação, suas leis
efetivas, isto é, suas relações invariáveis
de sucessão e similitude. A explicação dos fatos,
reduzida então a termos reais, não é, desde então,
mais do que a ligação estabelecida entre os diversos fenômenos
particulares e alguns fatos gerais, cujo número os progressos
da ciência tendem a diminuir." - COMTE, Augusto - citado
em "História dos filósofos Ilustrada pelos textos"
de A. Vergez e D. Huisman - 5ª ed. Rio de Janeiro. Freitas Bastos,
1982. pgs.291 e 292.
([43]) KARDEC, Allan - O que é o Espiritismo.
I.D.E. 15ª ed. São Paulo. 1983. pg. 10
([44]) KARDEC, Allan - A Gênese. FEB 24ª
ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 20
([45]) KARDEC, Allan - A Gênese. FEB 24ª
ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 21
([46]) KARDEC, Allan - A Gênese. FEB 24ª
ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 20
([47]) KARDEC, Allan - O Livro dos Espíritos.
FEB. 56ª ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 59
([48]) KARDEC, Allan - O Livro dos Espíritos.
FEB. 56ª ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 60
([49]) KARDEC, Allan - A Gênese. FEB 24ª
ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 21
([50]) Observe-se que Kardec faz uma distinção
entre a Ciência - propriamente dita - com C maiúsculo e
ciência com c minúsculo.
([51]) KARDEC, Allan - O Livro dos Espíritos.
FEB. 56ª ed. Rio de Janeiro. 1982. pgs. 28 e 29
([52]) Idem . pg. 30
([53]) KARDEC, Allan - A Gênese. FEB 24ª
ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 21
([54]) KARDEC, Allan - A Gênese. FEB 24ª
ed. Rio de Janeiro. 1982. pgs 44 e 45.
([55]) Kardec, Allan - A Gênese. FEB 24ª
ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 20
([56]) Kardec, Allan - A Gênese. FEB 24ª
ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 20
([57]) in A Gênese, cap. 1 item 14.FEB 24ª
ed. Rio de Janeiro. 1982
([58]) KARDEC, Allan - A Gênese. FEB 24ª
ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 44
([59]) LAKATOS, Eva Maria e Marina de Andrade Marconi
- Metodologia Científica. cap. 1. pg.41. Editora Atlas.1ª
edição.São Paulo. 1985
([60]) KARDEC, Allan - O Livro dos Médiuns.
FEB.48ª ed. Rio de Janeiro.1983. pg. 16
([61]) KARDEC, Allan - O Livro dos Médiuns.
FEB.48ª ed. Rio de Janeiro.1983. pg.20
([62]) KARDEC, Allan - O que é o Espiritismo.
FEB. 24ª ed. Rio de Janeiro. 1982. pg.50
([63]) KARDEC, Allan - O Livro dos Espíritos.
FEB. 56ª ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 484
([64]) KARDEC, Allan. Obras Póstumas. FEB.
22ª ed. Rio de Janeiro. 1987. pg.158.
([65]) KARDEC, Allan. Obras Póstumas. FEB.
22ª ed. Rio de Janeiro. 1987. pg.158.
([66]) Em Setembro de 1993, tivemos a oportunidade
de trocar idéias com um companheiro das lides espíritas,
o Dr. André Luiz Peixinho, que, na ocasião, nos apresentou
a Arte como um elemento adicional à natureza do conhecimento
espírita. Na época, o confrade nos apresentou o modelo,
que reproduzimos abaixo, sobre as percepções do homem.
http://www.ipepe.com.br/ciencia.html
Natal, 24 de fevereiro de 1997
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