Introdução
Vamos procurar fazer um estudo sobre a questão
da ressurreição, na tentativa de encontrar qual
era o entendimento que os antigos tinham sobre isso.
Sabemos não ser muito fácil fazer esse
tipo de pesquisa, pois os textos bíblicos de hoje, não
sendo os originais e eivados de "vícios" de tradução,
torna o resultado dessa tarefa assaz comprometido com a verdade, já
que a verdade bíblica pode ser bem diferente da realidade. Por
outro lado, conceitos arraigados que servem de arquétipo ao homem
hodierno, talvez possam nos levar a um caminho fora do nosso objetivo
principal que é saber a verdade verdadeira, vamos assim dizer.
Mas, para que não fiquemos apenas numa opinião
isolada, e mesmo de pouco valor, trazemos a opinião do pesquisador
holandês Emanuel Tov, especialista nos Manuscritos
do Mar Morto:
"Nas cavernas de Qumran e em outros lugares de
Israel, nós encontramos centenas de manuscritos, todos da Bíblia
hebraica, o Velho Testamento. Comparando com as traduções
que conhecemos hoje da Bíblia, notamos que há passagens
que eram mais curtas, outras mais compridas ou com textos diferentes
dos que conhecemos hoje. O Livro de Jeremias nos manuscritos aparece
em uma versão talvez 15% mais curta. Isso significa que, nas
cópias feitas por gerações após gerações,
freqüentemente os escribas mudavam os textos, acrescentando alguns
detalhes, suprimindo outros. Eles consideravam-se também autores
e permitiam-se fazer alterações. Isso ocorreu com os textos
de Homero, as tragédias gregas, não apenas com a Bíblia".
(Revista Veja, edição 1747, ano 35, nº 15, 17 de
abril de 2002, Ed. Abril, pág. 14).
Primeiramente, cabe-nos informar qual é o significado
daquilo que iremos tratar. Diz-nos o Aurélio que ressurreição
significa: S. f. 1. Ato ou efeito de ressurgir ou ressuscitar;
ressurgência. 2. Rel. Festa católica comemorativa da ressurreição
de Cristo, ao terceiro dia após a morte: 3. Fam. Cura surpreendente
e imprevista. 4. Fig. Vida nova; renovação, restabelecimento.
5. Quadro que representa a ressurreição de Cristo. 6.
Rel. Na doutrina cristã, o surgir para uma nova e definitiva
vida, distinta e, em certa medida, oposta à existência
terrestre, e que, a partir da ressurreição de Cristo,
aguarda todos os fiéis cristãos.
E que ressuscitar significa: V. t.
d. 1. Fazer voltar à vida; reviver, ressurgir. 2. Restaurar,
renovar, reproduzir: V. int. 3. Voltar à vida; tornar a viver;
reviver, ressurgir. 4. Tornar a surgir; reaparecer, ressurgir: 5. Escapar
de grande perigo.
Assim, podemos, para o nosso estudo, concluir que ressurreição
é a ocorrência pela qual faz volta à vida, tornar
a viver ou reviver, quem passou pelo derradeiro momento da morte física.
Nesse conceito mais abrangente podemos, também considerar como
ressurreição a volta do Espírito à sua condição
anterior no plano espiritual, ou seja, a ressurreição
do espírito.
Já pelo conceito encontrado no Dicionário
Bíblico Universal é:
Ressurreição não é a volta
à vida. É de maneira inexata que se fala de ressurreição
a propósito das crianças curadas por Elias e Eliseu (1Rs
17, 2Rs 4), a propósito do filho da viúva de Naim (Lc
7,11-17), de Lázaro (Jo 11) etc. Os textos se referem somente
a um retorno à vida que não dispensa a pessoa beneficiada
de ter que morrer um dia. Ressuscitar é descobrir, além
da morte, uma vida de tipo novo, comportando relações
novas dos homens entre si e dos homens com Deus.
O que não conseguimos estabelecer é quando
e porque o povo hebreu passou a acreditar na ressurreição,
pois os textos bíblicos, só mais tardiamente, por volta
de 175 a 161 a.C., passam a falar dessa possibilidade.
Histórico
Nos livros que compõem o Antigo Testamento,
percebemos que essa idéia aparece, como que caída de um
pára-quedas, já que até o século II a.C,
nem se pensava nisso, antes ao contrário, não tinham nenhuma
perspectiva para a existência de alguma coisa depois da morte.
A cultura egípcia admitia a vida após
a morte. Leiamos:
"A morte, para os egípcios, tinha um especial
interesse. Havia entre eles uma crença absoluta no renascer dos
mortos. Por isso, a preocupação em preservar o cadáver
e o desenvolvimento da técnica de mumificação.
De acordo com sua religião, a alma precisava de um corpo para
morar por toda a eternidade".
"Acreditava-se que a morte apenas separava o corpo
da alma. Daí, a obrigação a ser cumprida pelos
parentes quanto ao morto querido: a mumificação de seu
corpo".
"Se a vida poderia durar eternamente, desde que
a alma encontrasse no túmulo o corpo destinado a servi-lhe de
morada, era precioso, portanto, preservar suas características
físicas". (A Magia do Egito, nº 01, pág. 47).
É interessante o que pensavam a respeito do após
morte:
"A vida no outro mundo começava no próprio
túmulo com uma viagem pelo subterrâneo. Primeiro, o ka
(energia vital) deixaria o corpo acompanhado por ba (alma). O deus Coros
conduz o ba através dos portais de fogo até o salão
do juízo final".
"O julgamento final era a prova de fogo para que
a pessoa morta alcançasse, finalmente, a vida eterna".
"No julgamento final, o morto deveria provar que
foi verdadeiro e justo durante a vida, sem ter faltado com a verdade".
"Se a pessoa não passasse pelo julgamento
final, estaria condenada a uma espécie de coma perpétuo,
ou seja, teria então uma segunda morte porque, agora, o acesso
à eternidade estaria vedado" (A Magia do Egito, nº
05, pág. 12).
"Os egípcios acreditavam que o corpo ressuscitaria
magicamente do outro lado da vida por meio de um ritual chamado de ‘abertura
da boca’. O sacerdote ou alguém da família tocava
a boca do morto com um instrumento de metal para que ele pudesse ter
uma boa passagem para o outro mundo e conseguisse pronunciar as palavras
necessárias na hora do julgamento".
"No mundo dos mortos, os egípcios eram julgados
pelo deus Osíris e seus 42 assessores. Diante de cada juiz, o
defunto declarava não ter passado por determinada infração.
Seu coração era pesado numa balança. ‘Se
pesasse mais que a pluma da justiça de Maat, a deusa da ordem
universal, o morto seria engolido por um monstro em forma de crocodilo,
leão e hipopótamo e teria, assim, uma morte definitiva,
deixando por completo de existir’, afirma o historiador Ciro Flamarion
Cardoso, da Universidade Federal Fluminense". (As Religiões,
pág. 42).
Ora, sabemos que o povo hebreu permaneceu por 430 anos
em escravidão no Egito, tempo suficiente para incorporar, em
sua cultura, os costumes do povo que o subjugava. O que nos causa espécie
é por que a ressurreição não aparece na
Bíblia desde a época dos hebreus no Egito?
O que vemos é que inicialmente nem tinham idéia
de vida após a morte. Não aparece nem mesmo, quando promulgados,
no monte Sinai, os Dez Mandamentos. Observamos que todas as recompensas
e penalidades, estabelecidas por Deus, estão relacionadas às
situações terrenas, não para uma vida futura.
Na visão que tinham, todos iam para o mesmo lugar;
o sheol. Com o passar dos anos, desenvolveu-se a idéia que somente
os injustos é que iam para lá. O sheol era na verdade
a sepultura comum, da qual não viam nenhum corpo voltar, razão
de pensarem que a vida só se resumia a essa aqui na terra. Quando
imaginavam que alguém estava nas graças de Deus, davam
a ela uma vida longa. É por isso que aparecem na Bíblia
pessoas com tempo de vida inverossímil.
A idéia da ressurreição aparece,
pela primeira vez, no período histórico situado entre
175 a.C a 161 a.C., narrados em 2 Macabeus e em Daniel, ambos relatos
se referem a esse mesmo período.
É certo que alguns teólogos admitem que
Isaías teria falado a respeito dela. Mas é difícil
saber com certeza, pois quê "suas palavras foram conservadas
e sofreram acréscimos. ... São acréscimos mais
extensos ‘o Apocalipse de Isaías’ (24-27), que por
seu gênero literário e por sua doutrina não pode
ser situado antes do século V a.C.;..." (Bíblia de
Jerusalém, pág. 1238).
Quando lemos em Is 26,19: "Os teus mortos tornarão
a viver, os teus cadáveres ressurgirão", ficamos
na dúvida sobre o que se trata realmente, mas, em nota de rodapé,
explicam-nos:
"O texto poderia se entender como restauração
nacional (cf. Ez 37) ou como afirmação da fé na
ressurreição dos mortos (Dn 12,2). (Bíblia Ed.
Vozes, pág. 912). Reportando-nos a Ezequiel, lemos: 37,1-14.
Cumprindo-se os castigos anunciados pelo profeta (Ez 4-24) os exilados
caíram em profunda prostração. Longe de sua terra,
sem templo nem culto, estavam ameaçados de perder a identidade
de povo eleito (cf. 20,32; 33,10). As esperanças de uma restauração
pareciam perdidas (37,11). Neste contexto Ezequiel anuncia uma restauração
milagrosa de Israel, a ser produzida pelo espírito de Deus".
(Bíblia Ed. Vozes, pág. 1072).
E, confirmando essa afirmativa, citamos:
"Como em Os 6,2; 13,14 e Is 26,19, Deus anuncia
aqui (cf. 11-14) a restauração messiânica de Israel,
após os sofrimentos do Exílio (cf. Ap 2-,4+)".
Até aí estavam indo muito bem, mas...
"Contudo, pelos símbolos utilizados, ele
já orientava os espíritos para a idéia de ressurreição
individual da carne, entrevista em Jó 19,25+, explicitamente
afirmada em Dn 12,2; 2Mc 7,9-14; 12,43-46; Cf. 2Mc 7, 9+. Para o NT,
ver Mt 22, 29-32 e sobretudo 1Cor 15". (Bíblia de Jerusalém,
pág. 1534).
Do texto de Ezequiel: "estes ossos
representam toda a casa de Israel, que está a dizer: ‘Os
nossos ossos estão secos, a nossa esperança está
desfeita. Para nós está tudo acabado. Pois bem, profetiza
e dize-lhe: Assim diz o Senhor Iahweh: Eis que abrirei os vossos túmulos
e vos farei subir dos vossos túmulos, ó meu povo, e vos
reconduzirei para a terra de Israel" (37,11-12), confirmando o
que foi dito a respeito da restauração do povo de Israel,
não é, portanto, uma ressurreição coletiva
e nem individual o que se pode deduzir do texto. Vemos apenas como sendo
uma tentativa de se achar uma saída para justificar a crença
na ressurreição da carne.
Embora não fosse desta forma que pensávamos em tratar
desse assunto, devemos, para uma melhor compreensão, ver
o que se narra nos livros 2 Macabeus e Daniel.
a) Livro de Macabeus
"O Segundo Livro dos Macabeus não é
uma continuação dos fatos narrados por 1Mc. É antes
um relato paralelo a 1 Mc 1-7. Começa com os fatos do tempo do
Sumo Sacerdote Onias III e do rei Seleuco IV (180 aC.). E termina pouco
antes da morte de Judas Macabeu, com a derrota de Nicanor (161 a.C.).
Apresenta-se como um resumo de uma obra mais ampla, em cinco volumes,
de um tal de Jasão de Cirene (2,19-32). Este Jasão mostra-se
bem informado ao menos sobre a situação em Jerusalém,
a administração selêucida e seu funcionamento".
"O autor do resumo é um desconhecido, profundamente
religioso, talvez um fariseu. É um apaixonado pela causa dos
judeus e grande admirador de Judas Macabeu, seu herói principal.
A obra de Jasão de Cirene deve ter sido composta em torno de
130 a.C. E o ‘resumo’ deve ser posterior a 124 aC (data
da primeira carta; 1,9) e anterior a 63 a. C., quando Jerusalém
foi ocupada pelos romanos. Como se nota pelas duas cartas iniciais e
pelo prólogo, o ‘resumo’ foi composto em Alexandria
e sobretudo para leitores da comunidade judaica local."
(Bíblia Vozes, pág. 573).
"As informações que Jasão
possuía – segundo o que podemos deduzir do resumo fiel
– especialmente as notícias minuciosas e exatas sobre certas
particularidades da história dos Selêucidas, informações
precisas sobre títulos, cargos etc., nos levam a crer que tenha
consultado arquivos palestinenses e ouvido boas testemunhas. É
sabido, com efeito, que os judeus cultos da época costumavam
empreender tais viagens e pesquisas".
"A exatidão das notícias, que Jasão
só poderá ter recolhido por via oral, leva-nos a crer
que as tenha escrito quando ainda vivas as testemunhas oculares dos
fatos, e que, portanto, sua obra tenha sido escrita nos últimos
20 anos séc. II a.C.".
(Bíblia Paulinas, pág. 553).
"Por que o autor sentiu necessidade de retomar
uma história já conhecida? Qual a originalidade? Podemos
dizer que a intenção do autor é reler os mesmos
fatos, para mostrar que a luta em defesa do povo se enraíza na
atitude de fé, que confia plenamente no auxílio de Deus".
(Bíblia Pastoral, pág. 611).
"Os minúsculos que atestam a recensão
do sacerdote Luciano (300 d.C.) conservam por vezes um texto mais antigo
que os dos outros manuscritos gregos, texto que se reencontra nas Antiguidades
Judaicas do historiador Flávio Josefo, que segue geralmente 1Mc
e ignora 2Mc. A Vetus Latina, também, é a tradução
dum texto grego perdido e freqüentemente melhor que o dos manuscritos
que conhecemos. O texto que está na Vulgata não foi traduzido
por são Jerônimo – para quem os livros dos Macabeus
não eram canônicos – e não representa senão
uma recensão secundária".
(Bíblia de Jerusalém, pág.
718).
As informações acima são necessárias
para compreendermos bem o que nos traz esse livro, observar principalmente
o que grifamos em negrito. Podemos tirar que esse livro foi escrito
por alguém que acreditava na ressurreição e o escreveu
depois dos fatos acontecidos.
2 Mc 7, 9: "Estando prestes a dar o último
suspiro, disse: ‘Tu, execrável como és, nos tiras
desta vida presente. Mas o Rei do universo nos ressuscitará para
uma vida eterna, pois morremos por fidelidade às suas leis".
Analisando a frase "nos tira desta vida presente"
presumimos que acreditavam em outra vida, e quando se disse: "nos
ressuscitará para uma vida eterna", confirma essa idéia.
Então, a ressurreição aqui tratada é a do
espírito. E sobre essa última expressão, nos informam
na Bíblia de Jerusalém que: "Lit. ‘para uma
revivificação eterna da vida’" (Bíblia
de Jerusalém, pág. 777), o que sustenta idéia
concluída por nós.
2 Mc 7, 11: "dizendo com dignidade: ‘De Deus
eu recebi esses membros, e agora, por causa das leis dele, eu os desprezo,
pois espero que ele os devolva para mim’".
Aqui, ao que parece, a ressurreição que esperavam é
a do corpo.
2 Mc 7,13-14: "Passado também este à
outra vida, submeteram o quarto aos mesmos suplícios, desfigurando-o.
Quase a expirar, disse: ‘É desejável passar para
a outra vida às mãos dos homens, conservando em Deus a
esperança de ser um dia ressuscitado por ele Para ti, porém,
não haverá ressurreição para a vida!".
Essa passagem é singular, pois
volta à questão de se acreditar em "outra vida",
entretanto o texto já induz à idéia de uma ressurreição
futura, talvez a do juízo final. Mas, é aí que
a coisa fica difícil de entender, pois em outras Bíblias
encontramos coisa diferente, vejamos:
"Morto este, aplicaram os mesmos suplícios
ao quarto, e este disse, quando estava a ponto de expirar: ‘É
uma sorte desejável perecer pela mão humana com a esperança
de que Deus nos ressuscite. Mas para ti, certamente não haverá
ressurreição para a vida".
(Bíblia Ed. Ave Maria).
Tiram a idéia do início de acreditarem
em uma "outra vida", mas já não se tem a idéia
que a ressurreição seja para um tempo futuro, dá-nos
a entender que é próxima. Ao dizer que "para ti,
não haverá ressurreição para a vida",
que vida? Não seria a vida espiritual? Não seria a ressurreição
do Espírito? Se for, ficaria contrário a idéia
da ressurreição do corpo. Assim esse livro não
nos fornece elementos seguros para saber o que realmente pensavam.
2 Mc 7, 23: "Por isso, é o Criador do mundo,
que organizou o nascimento dos homens e preside à geração
de todas as coisas, ele mesmo é quem, na sua misericórdia,
vos dará de novo o espírito e a vida, pois agora desprezais
a vós mesmos, por amor às suas leis".
Será que aqui poderemos entender que "vos
dará de novo o espírito e a vida" como a ressurreição
espiritual? Acreditamos que sim. Observar que é mais forte essa
ocorrência do que a ressurreição do corpo.
2 Mc 12, 43-44: "Em seguida fez uma coleta, enviando
a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse
um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente
de sua crença na ressurreição, porque, se ele não
julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo
rezar por eles".
Ao se oferecer sacrifícios pelos pecados apenas
teria sentido se acreditassem que já estariam ressuscitados,
para que esses sacrifícios tivessem valor imediato.
b) Livro de Daniel
"A data desta [composição] é fixada pelo testemunho
claro fornecido pelo cap. 11. As guerras entre Selêucidas e Lágidas
e uma parte do reinado de Antíoco Epífanes nele são
narradas com grande luxo de pormenores insignificantes para o propósito
do autor. Este relato não se parece com nenhuma profecia
do Antigo Testamento e apesar de seu estilo profético, relata
acontecimentos já ocorridos. Mas a partir de 11,40 muda
o tom: o ‘Tempo do fim" é anunciado de um modo que
recorda os outros profetas. O livro teria sido composto, portanto, durante
a perseguição de Antíoco Epífanes e antes
da morte dele, antes mesmo da vitória da insurreição
macabaica, isto é, entre 167 a 164.
(Bíblia de Jerusalém, pág.
1245).
"O livro de Daniel já não representa
a verdadeira corrente profética. Não contém mais
a pregação dum profeta enviado por Deus em missão
junto de seus contemporâneos; foi composto e imediatamente
escrito por um autor que se oculta por detrás dum pseudônimo,
como já sucedera no opúsculo de Jonas". (Bíblia
de Jerusalém, pág. 1246).
"Autor e tempo de origem: Dn 1-6 nos coloca no
tempo do exílio babilônico (séc VI a.C.). Dn 7-12,
onde Daniel fala de si na primeira pessoa, é atribuído
a Daniel, judeu deportado em 606 aC. De fato, até o séc.
XIX o livro foi atribuído a este profeta exílico; mas
deste então tornou-se opinião generalizada entre
autores não-católicos e católicos que na realidade
o livro foi escrito no séc. II a.C, no tempo da perseguição
de Antíoco IV, entre os anos 167 a 163 a.C., no início
do período macabeu. ... Portanto, o autor é um desconhecido,
talvez pertencente ao grupo assideu (cf. 1Mc 2,27), o que não
exclui que o livro contenha elementos mais antigos".
"O Autor desconhecido quis oferecer
aos seus contemporâneos, cruelmente perseguidos pelo rei Antíoco,
um livro de conforto e consolação".
(Bíblia Vozes, pág. 1086).
"Com efeito, este escrito foi redigido
em três línguas: em hebraico, em grego e em aramaico;
ora, os dois últimos idiomas não eram ainda utilizados
no tempo em que o livro coloca o profeta. O seu redator, que escreveu
certamente no segundo século a.C, b, que podem remontar até
a própria época de Daniel".
(Bíblia Ave Maria, pág. 40).
"Pouco depois dele, Dn 12,2 explicitará
a fé numa retribuição após a morte e no
pensamento dele esta fé estará ligada à fé
na ressurreição dos mortos, já que a mentalidade
hebraica não concebe a vida do espírito separada
da carne. No judaísmo alexandrino a doutrina
progredirá em caminho paralelo e irá mais adiante. Depois
que a filosofia platônica, com sua teoria da
alma imortal, tiver libertado o pensamento hebraico de seus entraves,
o livro da Sabedoria afirmará que "Deus criou o homem para
a imortalidade (2,23) e que depois da morte a alma fiel gozará
de felicidade sem fim junto de Deus, enquanto os ímpios receberão
seu castigo (3,1-12).
(Bíblia de Jerusalém, pág.
798).
"A situação histórica coloca
o nosso Daniel no reinado do Antíoco IV Epífanes, que
determinou o extermínio da religião judaica e a consecutiva
helenização da Palestina. O autor do livro de Daniel (a
nós desconhecido) serve-se de histórias antigas, segundo
o gênero agádico, então muito em voga (cc.1-6; 13-14),
para inculcar esperança e fé aos judeus perseguidos por
Antíoco IV. Assim como Deus protegeu Daniel e os seus companheiros
de todos os perigos, assim acontecerá com os judeus que forem
fiéis à Lei e às tradições religiosas.
O autor não tem em vista descrever fatos históricos,
mas histórias moralizadoras, que poderiam, na realidade,
ter um fundo ou um núcleo histórico, mas de segunda importância.
Os dados internos do livro, lingüístico, histórico
e teológico obrigam-nos a datar o livro por altura da morte do
rei Antíoco IV (165-164 a.C)".
(Bíblia Santuário, pág. 1313).
A explicação que encontramos para o grupo
dos assideus: "Forma grecizada do hebr. Hasîdîm,
os ‘piedosos’, comunidade de judeus apegados à Lei.
Eles resistiram à influência pagã deste antes dos
Macabeus e tornaram-se a tropa de choque de Judas (cf. Mc 14,6), mas
sem se subordinarem à política dos Asmoneus (cf. 1Mc 7,13).
Segundo Josefo, durante a chefia de Jônatas, por volta de 150,
eles se dividiram em fariseus (Mt 3,7+ e At 4,1+) e essênios,
mais bem conhecidos desde as descobertas de Qumrã (cf. Ant. XIII,
17s)".
(Bíblia de Jerusalém, pág.
724).
Os fariseus acreditavam na ressurreição,
anjo, espírito, imortalidade da alma, coisas que dariam para
justificar o aparecimento da idéia de ressurreição
somente agora, já que estes dois livros; Macabeus e Daniel, provavelmente
tiveram como autores pessoas com essas origens.
O historiador Flávio Josefo registra nessa época
os fariseus, saduceus e os essênios, inclusive, os dois primeiros
são citados no Novo Testamento.
Recapitulando: autor desconhecido, escrito por volta
de 165-164 a.C., o que nos coloca em data próxima do livro anterior,
ou seja, 2 Macabeus.
Dn 12, 2: "Muitos dos que dormem na terra poeirenta,
despertarão; uns para a vida eterna, outros para vergonha, para
abominação eterna".
Encontramos a seguinte nota na Bíblia Santuário:
"O profeta anuncia a libertação de Israel após
os horrores levados a efeito por Antíoco Epífanes. Além
da ressurreição nacional, o v.2 anuncia a ressurreição
da carne (Is 26,29; 2Mc 7,9-14, 23-36; 12,43-46). A doutrina da ressurreição
da carne é tipicamente bíblica e semita, enquanto que
a da imortalidade da alma é de sabor mais helênico".
(pág. 1338/9).
Aqui, como já explicamos anteriormente sobre
Ezequiel, é provável que a idéia
seja mesmo a da ressurreição nacional, ou seja, restauração
do povo de Israel.
Vejamos agora o que ainda mais encontrarmos
para desvendar qual era o conceito de ressurreição.
a) Voltar à vida no mesmo corpo
Elias, que ressuscitou um filho da uma viúva
(1Rs 17,14),
Elizeu, que fez o mesmo com um filho de uma sunamita
(2Rs 4,32-37),
Pedro, por ter ressuscitado a jovem chamada Tabita (At
9,36-40),
Paulo, que fez voltar à vida o menino Êutico,
que havia morrido após ter caído de uma janela (At 20,9-12).
Jesus, a filha de Jairo (Mt 9,24), o filho da viúva
de Naim (Lc 7,11-17) e Lázaro (Jo 11,1-44).
Será que realmente houve propriamente uma morte?
Devemos observar, que no caso da filha de Jairo, Jesus disse: "a
menina não morreu, está dormindo" (Mt 9,24; Mc 5,39
e Lc 8,52). Em relação a Lázaro (Jo 11,1-44) a
coisa é mais complicada, pois apesar de Jesus ter afirmado que
"esta doença não é para a morte", e "nosso
amigo Lázaro dorme", o texto bíblico apresenta uma
contradição a partir do versículo 13 a 16, dizendo
que se trata de morte mesmo. Ora, isso, a nosso ver, para se justificar
a tese da ressurreição corporal, fizeram um acréscimo
ao texto original, cujo conteúdo se retirarmos da passagem não
perde a solução de continuidade da narrativa.
Temos dito, em várias oportunidades, que os médicos
de hoje se tivessem vivido naquele tempo seriam considerados "profetas",
pois com certeza, com os atuais conhecimentos de medicina, iriam "ressuscitar"
inúmeras pessoas. A grande questão é saber se Lázaro
e a filha de Jairo, e o filho da viúva de Naim estavam realmente
mortos, ou se passaram por uma EQM - Experiência de Quase Morte,
que tem despertado o interesse de vários pesquisadores nos tempos
atuais.
Esse conceito é o popular, mas, como já
demonstramos pelo Dicionário Bíblico, ele não é
exato.
b) Voltar à vida em outro corpo
Lucas (9,7-9): "O tetrarca Herodes, porém,
ouviu tudo o que se passava, e ficou muito perplexo por alguns dizerem:
‘É João que foi ressuscitado dos mortos’;
e outros: ‘É Elias que reapareceu’; e outros ainda:
‘É um dos antigos profetas que ressuscitou". Herodes,
porém, disse: ‘A João eu mandei decapitar. Quem
é esse, portanto, de quem ouço tais coisas?’ E queria
vê-lo". (ver Mt 14,1-2 e Mc 6,14-16).
Lucas (9,18-19): "Um dia Jesus rezava num lugar
retirado e seus discípulos estavam com ele. Ele lhes fez a seguinte
pergunta; ‘Quem sou eu no dizer das turbas?’ Eles responderam:
‘Para uns, João Batista, para outros, Elias ou algum dos
antigos profetas ressuscitado’". (ver também Mt 16,13-19;
Mc 8,27-28).
Por essas passagens podemos perfeitamente saber que
o povo realmente acreditava que alguém que já havia morrido
poderia voltar como outra pessoa, senão não teria sentido
o que o povo pensava a respeito de Jesus. E se isso não fosse
possível, com certeza, Jesus teria dito dessa impossibilidade.
Assim, fica claro que o conceito de ressuscitar aqui nessas passagens
pode muito bem ser entendido por reencarnar.
Somente devemos fazer uma ressalva quanto a João
Batista, que não poderia se enquadrar nesse conceito, nós
o estaremos explicando no item "d".
c) Ressurgir em Espírito
Qual a ressurreição foi pregada por Jesus,
a da carne ou a do Espírito?
Para responder essa questão é necessário
lermos a resposta que Jesus deu aos saduceus, negadores da ressurreição,
sobre uma mulher que, para cumprir a lei mosaica, teve que casar com
os sete irmãos. A dúvida deles era, quando da ressurreição
ela seria mulher de qual deles? A isso responde Jesus: "As pessoas
deste mundo se casam. Contudo, as que são julgadas dignas de
ter parte naquele mundo e na ressurreição dos mortos,
lá não se casam. E já não podem morrer outra
vez, porque são iguais aos anjos e filhos de Deus, sendo participantes
da ressurreição". (Lc 20, 34-36). São iguais
aos anjos, isso significa que serão seres espirituais, daí
não se justifica mais o casamento, que é coisa para os
que possuem corpos materiais.
Jesus disse que "O espírito é que
dá vida a carne de nada serve" (Jo 6,63), o que vem reforçar
a nossa natureza como sendo a espiritual. Por outro lado, partindo de
que "Deus é Espírito" (Jo 4,24) e que somos
a sua imagem e semelhança, é inevitável concluirmos
que, na verdade, somos também Espíritos.
Seguindo a leitura de Lucas, temos: "E que os mortos
ressuscitem, é Moisés quem dá a conhecer através
do episódio da Sarça Ardente, quando chama ao Senhor:
o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Ora,
Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos; para ele, então,
todos são vivos". (Lc 20, 37-38). Considerando que se afirma,
na narrativa, que Abraão, Isaac e Jacó "todos são
vivos" e que ainda não aconteceu o juízo final, para
a esperada ressurreição dos corpos, se eles são
vivos, são vivos, portanto, em Espírito. E concluindo,
pela comparação de Jesus, eles já ressuscitaram,
ou seja, estão vivendo a vida do Espírito, por isso não
morrem mais.
Assim, concluímos que, o que Jesus ensinou foi
a ressurreição do Espírito, não a do corpo
físico, dogma de igrejas tradicionais. O que também poderá
ser confirmado em Paulo, quando diz: "a carne e o sangue não
poderão herdar o reino de Deus" (1Cor 15,50)
d) Ressurgir em Espírito influenciando
outra pessoa
Mateus 14,1-2: "Naquele tempo, Herodes, o tetrarca,
veio a conhecer a fama de Jesus e disse aos seus oficiais: ‘Certamente
se trata de João Batista: ele foi ressuscitado dos mortos e é
por isso que os poderes operam através dele!’".
Essa passagem nós a estamos colocando para explicar
a questão de João Batista. Ora, se acreditavam que Jesus
estava fazendo prodígios porque "os poderes de João
Batista operam através dele", isso, num português
bem claro, seria a possibilidade de um morto exercer algum tipo de influência
sobre um vivo. Confirmando, pelo menos como uma hipótese muito
provável, que aceitavam a interferência dos mortos sobre
os vivos, ou seja, isso nada mais é que a comunicação
entre os dois planos da vida.
Assim, também, podemos dizer que ressurreição,
neste caso, seria a volta de um morto à condição
de espírito.
Conclusão
Podemos, para encerrar este estudo, concluir que o
conceito de ressurreição não é só
o que se nos têm passado pelas tradições religiosas.
É mais abrangente.
Mas ainda ficou uma questão no ar, poderá
nos falar. Sim, deixemos de propósito para falar agora: Jesus
não ressuscitou no corpo físico? Não, apesar de
que isso possa causar um certo choque. Explicaremos.
Quando se apresenta a Maria de Madalena, Jesus disse
"não me toques porque ainda não subi para meu Pai"
(Jo 20, 17), entretanto, em relação a Tomé disse:
"Põe aqui o teu dedo, vê as minhas mãos, aproxima
também a tua mão, põe-na no meu lado" (Jo
20,27), nos parecendo uma contradição. Ainda fica mais
difícil compreender quando colocam Jesus dizendo "porque
um espírito não tem carne, nem ossos, como vós
vedes que eu tenho" (Lc 24, 39), e, na seqüência, ele
está comendo peixe com favo de mel (Lc 24,43). Tudo isso nos
parece montado para justificar a idéia que os hebreus tinham
que a alma não sobreviveria sem o corpo físico.
No livro de Tobias, encontramos um
anjo fazendo coisas comuns ao seres humanos, inclusive comendo, mas
ao final ele declara: "Eu sou Rafael, um dos sete anjos... Vocês
pensavam que eu comia, mas era só aparência... E o anjo
desapareceu. Quando se levantaram, não o puderam ver mais".
(Tb 12, 15-22). No caso de Jesus não poderia ser uma materialização?
Nessa hipótese estaria justificada a questão de ser tangível.
Mas considerando que, em determinas oportunidades, se
manifesta e ninguém o reconhece, somente acontecendo após
algum gesto, como isso poderia ocorrer se ele tivesse ressuscitado no
corpo físico? Se fosse em espírito poderia muito bem pela
sua evolução espiritual transparecer com tanta luz que
não conseguiram mesmo prontamente identificá-lo. Teria
ele quando vivo dito algo que negaria depois de morto, já que
acreditamos que o que pregou mesmo foi a ressurreição
do Espírito?
Todos os evangelistas são unânimes
em dizer que o corpo de Jesus foi colocado num túmulo novo. Enquanto
pela narrativa de Mateis (27.59-60) e Marcos (15,46) o túmulo
era de José de Arimatéia, Lucas (23,52) não dá
a entender isso e João (19,41-42) diz que o túmulo estava
localizado no jardim perto do lugar onde Jesus fora crucificado, e o
colocaram lá porque estava perto, ficando, portanto, a idéia
que não pertencia a José de Arimatéia. Prestem
a atenção "colocaram", não enterraram,
não seria um lugar provisório?
Em Atos (5,6.10), quando se narra a
morte de Ananias, e, logo após, a de Safira, sua mulher, está
dito: "levaram para enterrar", ou seja, em definitivo. Assim,
por falta de maiores comprovações, podemos concluir que
o lugar onde colocaram o corpo de Jesus não seria o seu túmulo
definitivo, o que, provavelmente, foi feito depois, daí a razão
do desaparecimento de seu corpo, hipótese mais provável,
pelas narrativas.
Por outro lado, no domingo de manhã, dois dias
depois da morte de Jesus, algumas mulheres compram perfumes e foram
ao sepulcro para embalsamar o corpo (Mc 16,1; Lc 24,1), reforçando
a idéia de que foi colocado ali provisoriamente. No relato de
João (20,1) somente Maria Madalena foi ao sepulcro, sem dizer
o motivo, que ao encontrá-lo vazio, diz: "Retiraram do sepulcro
o Senhor e não sabemos onde o puseram". (20,2), ou seja,
falou exatamente o que se esperava acontecer.
Por que estamos dizendo isso? Quem vai nos tirar desse
impasse? Em Atos (16,7) Paulo e Timóteo tentam entrar na Bitínia,
aí diz o texto: "mas o Espírito de Jesus os impediu".
Em 2Cor 3,17, Paulo afirma: "O Senhor é Espírito".
Pedro nos diz que Jesus: "...sofreu a morte em seu corpo, mas recebeu
vida pelo Espírito" (1Pe 3,18) e nos dá outra informação
dizendo que Jesus foi pregar o Evangelho aos mortos (1Pe 4,4-6), e se
isso aconteceu, Jesus só poderia ter feito em Espírito.
Assim, tudo se converge para a idéia de que Jesus, após
sua morte, ressuscitou em Espírito.
A conclusão final, portanto, fica-nos
que a ressurreição contida na Bíblia é a
do Espírito e não do corpo. E sendo a do Espírito,
por ela também se admitia a influência desse Espírito
sobre um encarnado.
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Dez/2003.
Referências bibliográficas:
A Magia do Egito, Os mistérios da Civilização,
nº 01, Editora Escala.
A Magia do Egito, Deuses e Mitos, nº 5, Editora
Escala.
Bíblia Sagrada, Centro Bíblico Católico,
Editora Ave Maria, São Paulo, 1989, 68a. Edição;
Bíblia Sagrada, Edição Barsa,
Catholic Press, 1965.
Bíblia Sagrada, Edição Pastoral,
Paulus Editora, São Paulo, SP, 43ª. impressão, 2001;
Bíblia Sagrada, Edições Paulinas,
São Paulo, 37a. Edição, 1980;
Bíblia Sagrada, Editora Santurário Aparecida,
São Paulo, 5ª Edição, 1984.
Bíblia Sagrada, Editora Vozes, Petrópolis,
1989, 8a. Edição;
Bíblia de Jerusalém, Paulus Editora,
2002, nova edição, revista e ampliada;
Novo Testamento, LEB – Edições
Loyola, São Paulo, SP, 1984;
Dicionário Bíblico Universal, L. Monloubou
e F.M. Du Bruit, Petrópolis, RJ, Vozes; Aparecida, SP: Editora
Santuário, 1996.
Revista das Religiões, edição
2, Editora Abril, agosto 2003.
Revista Veja, edição 1747, ano 35, nº
15, 17 de abril de 2002, Ed. Abril
http://www.apologiaespirita.org/index.htm
Dez/2003
topo