A REENCARNAÇÃO NO EVANGELHO
Paulo da Silva Neto Sobrinho
No jornal o Estado de Minas, datado
de 13.06.1999, na coluna Testemunho Cristão, um consulente pergunta:
“Tenho lido a Bíblia à procura de ao menos uma frase
que seja contra a reencarnação, etc., cuja resposta da
articulista foi: Entre numerosas evidências, de que são
fartas as páginas sagradas, cito-lhe duas muito incisivas e fortes.
A nossa vida é a passagem duma sombra e não há
regresso depois da morte, porque é posto o selo e ninguém
torna” . (Sab 2,5). Na carta de S. Paulo aos hebreus, lemos: “E
assim como está decretado que os homens morram UMA SÓ
VEZ, e que depois disso se siga o julgamento, assim também Cristo
se ofereceu uma só vez...” (9, 27).
Como queremos saber o que pensam outros
segmentos religiosos temos por hábito de, sempre que possível,
ler esta coluna. Desta vez, o tema chamou-nos a atenção
e achamos que deveríamos pesquisar na Bíblia as passagens
citadas.
Interessante como pegam frases isoladas
de um texto para tentar justificar suas posições, sem
levar em conta o contexto em que elas se encontram. O que é grave
nisto é que aos que não têm o hábito de verificar
em qual contexto a passagem se encontra, acabam convencendo de que aquilo
é uma verdade, pois, geralmente, têm a Bíblia como
infalível, não se preocupam de eles mesmos irem ao encontro
da verdade, simplesmente aceitam os pensamentos que lhe são passados
pelos outros.
A primeira passagem que citam como prova
de que não existe a reencarnação inicia-se assim;
"Dizem, com efeito, nos seus falsos raciocínios: Curta é
a nossa vida e cheia de tristezas, para a morte não há
remédio. Não há notícia de ninguém
que tenha voltado da região dos mortos. Um belo dia nascemos,
e depois disso, seremos como jamais tivéssemos sido! É
fumaça a respiração de nossos narizes, e nosso
pensamento uma centelha que salta do bater de nosso coração!
Extinta ela, nosso corpo se tornará pó e o nosso espírito
se dissipará como vapor inconsistente! E ninguém se lembrará
de nossas obras. Nossa vida passará como os traços de
uma nuvem, desvanecer-se-á como uma névoa que os raios
de sol expulsam, e que seu calor dissipa”.
A partir daí, sim é que
temos o versículo 5: "A passagem de uma sombra. Eis a nossa
vida, e nenhum reinicio é possível uma vez chegado o fim;
porque o selo lhe é aposto e ninguém volta”.
Daí continua até o versículo 20, onde o autor do
livro procura mostrar o que pensam os ímpios.
Voltemos à narrativa, agora nos
versículos 21-23: “Eis o que pensam, mas enganam-se, sua
malícia os cega: eles desconhecem os segredos de Deus, não
esperam que a santidade será recompensada e não acreditam
na glorificação das almas puras. Ora, Deus criou o homem
para a imortalidade e o fez à imagem de sua própria natureza".
Já vemos neste texto, de absoluta
clareza, que não se trata de contradizer a tese da reencarnação,
mas sim é mostrado de que maneira os ímpios pensavam sobre
vida além túmulo, não acreditavam que depois da
morte pudesse existir alguma coisa, para eles era o nada.
Constatamos, assim, que este texto não
tem nada que possamos tirar como contestação da reencarnação,
ficando, portanto, derrubado o primeiro argumento.
Vamos agora ao texto de S. Paulo, em
Hebreus 9, 27, mas antes devemos saber que é retirado de parte
da carta enviada aos hebreus, onde ele tenta mostrar que o sangue oferecido
nos sacrifícios não pode apagar nossos pecados e que Cristo
ao dar seu sangue, na cruz, pagou os nossos vários pecados. Aí
completa: “Como está determinado que os homens morram uma
só vez, e logo em seguida vem o juízo, assim Cristo se
ofereceu uma só vez para tomar sobre si os pecados da multidão,
e aparecerá uma segunda vez, não, porém, em razão
do pecado, mas para trazer a salvação àqueles que
o esperam".
Devemos sempre ter em mente que na Bíblia
não consta tudo e nem toda a ciência ali está, o
próprio Jesus disse: que tinha muitas coisas para dizer, mas
como os apóstolos ainda não eram capazes de compreender,
não iria dizer.
Por outro lado, não devemos tomar
como leis as opiniões pessoais dos apóstolos, pois seus
pensamentos representam sempre o contexto cultural da época em
que viveram.
Dito isto, vamos verificar que se realmente
fosse dado ao homem morrer uma só vez, as ressurreições
constantes do Evangelho (Mateus 9, 18-26; Lucas 7, 11-17 e João
11, 1-44, da filha de Jairo, do filho da viúva de Naim e de Lázaro,
respectivamente) seriam uma contradição perante esta Lei,
pois, nestes casos, estas pessoas que voltaram à vida tiveram
duas mortes, ou não?
Ainda mais, se logo em seguida vem o
julgamento. Não vemos nenhum sentido no juízo final (pensamento
deles), pois seríamos julgados duas vezes. Se realmente houvesse
dois julgamentos estaríamos diante de uma aberração
da justiça divina, pois valeria dizer que um não foi perfeito,
o que equivaleria afirmar que Deus não agiu com perfeição,
o que é um absurdo. Na hipótese do espírito ser
condenado ao “fogo eterno” no primeiro julgamento, seria
possível que, no segundo julgamento, ele fosse absolvido, ora
se isto acontecer fica evidente que ele foi condenado injustamente.
Vemos nisto só incoerência, assim não podemos, seguindo
a linha de raciocínio deles, aceitar os dois julgamentos.
Por outro lado, na nossa percepção
do texto, partindo para a essência, podemos afirmar que Paulo
tem a mais completa razão, ou seja, neste corpo que ora habitamos
morremos mesmo uma só vez e o julgamento de nossos atos será
realizado em seguida, e ainda mais, teremos sempre um novo julgamento
após cada desencarne.
Como já dissemos pegam os textos
conforme suas conveniências, muitos dos quais se mostram incoerentes
com outras passagens do Evangelho.
Vejamos por exemplo: “Porque sabemos
que, quando for dissolvido este corpo, nossa habitação
aqui na terra, receberemos de Deus uma habitação, uma
moradia eterna nos céus, que não é feita pela mão
humana. Por isso é que suspiramos nesta nossa situação,
ansiosos por revestir-nos do nosso corpo celeste: sob a condição,
porém, de sermos encontrados ainda vestidos e não despidos".(2
Coríntios 5, 1-3).
Esse texto é do mesmo Paulo que
foi citado como base contra a reencarnação, entretanto
ele é frontalmente contra a tese da ressurreição
da carne, um de seus principais dogmas. Aqui ele mostra que temos um
corpo celeste e é ele que teremos após nossa morte. Quanto
ao corpo físico, este será dissolvido.
Agora nós é que procuraremos
demonstrar o contrário, ou seja, que a reencarnação
fazia parte da cultura do povo hebreu e, principalmente dos ensinos
de Jesus.
Teremos para isto que buscar algumas
passagens do Novo Testamento que irão nos dar elementos de convicção.
Quando ele ia passando, viu um homem
que era cego de nascença. Os discípulos perguntaram: "Mestre,
quem pecou, para este homem nascer cego, foi ele ou seus pais?"
Jesus respondeu: "Nem ele nem seus pais, mas isso aconteceu para
que as obras de Deus se manifestem nele". (João. 9, 1-3).
Como um cego de nascença poderia
ter pecado? Se a cegueira fosse “castigo de Deus” pelos
pecados daquele homem, onde estaria seu pecado, pois era cego desde
quando veio ao mundo. Para ter lógica, somente poderia ter cometido
suas faltas em existências anteriores. Fato que os discípulos
acreditavam, pois só assim justificaríamos a pergunta
deles a Jesus: “Quem pecou, para este homem ter nascido cego,
foi ele ou seus pais?".
Diante do princípio “a
cada um segundo suas obras” (Mateus 16, 27), no dizer do Mestre,
ninguém paga pelo erro do outro, ficando a responsabilidade dos
atos atribuída às próprias pessoas que os praticam.
A resposta de Jesus: Nem ele nem seus
pais, mas isso aconteceu para que as obras de Deus se manifestem nele,
poderá ser explicada da seguinte forma: diante de tanta ignorância
e atraso espiritual daquele povo havia a necessidade de Jesus fazer
alguns “milagres”, como os fez, no sentido de despertar
as criaturas para as verdades do Pai. Assim, com Jesus encarnaram vários
espíritos que vieram com a tarefa de auxiliá-lo em sua
missão e este homem cego era um deles. Aqueles que escolheu como
apóstolos largaram tudo para segui-lo, atendendo ao seu chamado,
que funcionou como lembrete do compromisso que assumiram, quando estavam
no plano espiritual.
“Tendo chegado à região
de Cesaréia de Felipe, Jesus perguntou aos discípulos:"
Quem dizem por aí as pessoas que é o filho do homem? "Responderam:
" Umas dizem que é João Batista, outras que é
Elias, outras, enfim, que é Jeremias ou algum dos profetas ".
(Mateus 16, 13-14; Lucas 9, 18-19; Marcos 8, 27-28).
O povo também acreditava que
uma pessoa que já morreu poderia voltar. Ao dizerem que Jesus
seria João Batista, Elias, Jeremias ou alguns dos profetas confirmam
este entendimento, pois todos eles já haviam morrido, inclusive,
destes, somente João Batista foi contemporâneo de Jesus,
entretanto à época desta narrativa já tinha sido
morto por Herodes.
“Nesse ínterim, Herodes,
o Tetrarca, ouvia falar de tudo o que fazia Jesus e seu espírito
se achava em suspenso – porque uns diziam que João Batista
ressuscitou dentre os mortos; outros que aparecera Elias; e outros que
um dos antigos profetas ressuscitara. – Disse então Herodes:
"Mandei cortar a cabeça de João Batista; quem é
então esse de quem ouço dizer tão grandes coisas?
E ardia por vê-lo". (Marcos 6, 14-16 e Lucas 9, 7-9).
Nessa passagem encontramos novamente
o pensamento do povo a respeito de Jesus, entretanto, desta podemos
tirar, sem nenhuma sombra de dúvida, que naquele tempo o conceito
de ressurreição é o que hoje chamamos de reencarnação.
Conforme o texto, Jesus, no pensamento do povo, poderia ser João
Batista ou mesmo um dos antigos profetas ressuscitado, o que significa
em linguagem clara é que pensavam mesmo na possibilidade de Jesus
ser alguém que viveu anteriormente reencarnado.
“Havia entre os fariseus um, chamado
Nicodemos, dos mais importantes entre os judeus. Ele foi encontrar-se
com Jesus à noite e lhe disse:" Rabi, bem sabemos que és
um Mestre enviado por Deus, pois ninguém seria capaz de fazer
os sinais que tu fazes, se Deus não estivesse com ele".
Jesus respondeu:" Eu te afirmo e esta é a verdade: ninguém
verá o reino de Deus se não nascer de novo ". Disse-lhe
Nicodemos:" Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar
a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez? "
Jesus respondeu:" Eu vos afirmo e esta é a verdade: se alguém
não nascer da água e do Espírito, não poderá
entrar no Reino de Deus. O que nasce da carne é carne; o que
nasce do Espírito é espírito. Não te admires
do que eu disse: é necessário para vós nascer de
novo. O vento sopra para onde quer e ouves a sua voz, mas não
sabes donde vem, nem aonde vai. Assim é quem nasceu do Espírito".
(João 3, 1-8).
Antes de nossa argumentação
vamos ver o que consta em Atos 23, 8: “É que os saduceus
dizem que não há ressurreição, nem anjos,
nem espíritos, enquanto que os fariseus admitem todas estas coisas".
Nicodemos era um fariseu, assim deduzimos que ele acreditava na ressurreição,
que conforme mostramos anteriormente, corresponderia dizer que ele acreditava
na reencarnação.
Observemos que Nicodemos entendeu o
que Jesus quis dizer com o “nascer de novo” a dúvida
que lhe ficou era: como isto poderia acontecer. Razão de suas
duas perguntas: Como pode nascer um homem já velho? Pode voltar
ao ventre de sua mãe e nascer segunda vez?
Separa distintamente o corpo físico
do elemento espiritual, o que nasce da carne é carne, o que nasce
do espírito é espírito.
Algumas correntes religiosas buscam
sustentar que o nascer da água significa nascer de novo pela
água do batismo. Entretanto, o sentido, na época, da palavra
água é bem outro. Sabemos que 2/3 da Terra é composto
de água, e que sem água não haveria vida material
em nosso planeta. Assim o elemento água é a base para
a manifestação da vida material, aí incluindo,
é claro, nosso corpo físico.
Além do mais, no período
de nossa gestação, ficamos por nove meses dentro d’água,
no útero de nossa mãe. Donde concluímos que, neste
sentido, literalmente nascemos da água, não acham?
Quanto à questão do batismo,
no Evangelho só encontramos João Batista utilizando a
prática do batismo, não como um rito de iniciação
ou para nos livrarmos do pecado original, mas somente batizava as pessoas
que se arrependiam de seus pecados, era, portanto o batismo do arrependimento.
Tanto é que os fariseus e saduceus o procuraram para serem batizados
ele negou-se a fazê-lo dizendo: “Raça de víboras,
quem vos sugeriu escapardes da cólera que está chegando?
Portanto, produzi frutos que sejam o testemunho da vossa conversão,
sem presumirdes que vos basta dizer dentro de vós:" Temos
por pai a Abraão". (Mateus 3, 7-9).
Mais ainda, se realmente o batismo fosse
algo importante a ser feito, por que é que Jesus não batizou
ninguém? Não seria o caso de dar-nos este exemplo?
Bem, voltemos ao nosso assunto principal,
veremos agora o próprio Jesus confirmar a reencarnação,
fato que não combateu, quando do questionamento dos discípulos
acerca do cego de nascença e a respeito de quem as pessoas pensavam
que ele era.
No Antigo Testamento, o profeta Malaquias
(3, 23) anuncia a volta de Elias: “Vou mandar-vos o profeta Elias,
antes que venha o grande e terrível dia do Senhor, e ele converterá
o coração dos pais para os filhos, e o coração
dos filhos para os pais, de sorte que não ferirei mais de interdito
a Terra".
A volta é de Elias e não
como querem dar ao termo Elias a conotação de que quer
dizer Messias ou Mensageiro.
Em Lucas 1, 11-14, encontraremos o anúncio
da chegada de Elias: “Mas o anjo lhe disse:" Não tenhas
medo, Zacarias, porque tua oração foi ouvida: tua esposa
Isabel vai te dar um filho e lhe porás o nome de João”.
E continuando no versículo 17: “Ele o precederá
com o espírito e o poder de Elias, para reconduzir o coração
dos pais aos filhos, bem como os rebeldes aos sentimentos dos justos.
Vai preparar assim para o Senhor, um povo bem disposto".
Se João estaria com o espírito
e o poder de Elias, conclusão lógica que João era
o próprio Elias reencarnado.
E finalmente a confirmação
que João Batista era o Elias: “Os discípulos lhe
perguntaram:" Por que dizem os escribas, que Elias deve vir antes?
"Respondeu-lhes: "Elias há de vir para restabelecer
todas as coisas. Mas eu vos digo que Elias já veio e não
o reconheceram, mas fizeram com ele o que quiseram. Do mesmo modo, também
o filho do homem está para sofrer da parte deles.”. Então,
os discípulos compreenderam que Jesus lhes tinha falado a respeito
de João Batista". (Mateus 17, 10-13; Marcos 9. 11-13).
Não foi Elias reconhecido por
estar reencarnado como João. Se fosse o contrário Jesus
não deixaria que seus discípulos continuassem pensando
que João era o Elias, pois em várias passagens, demonstrou
conhecer os pensamentos mais íntimos das pessoas.
E para que não restasse dúvida
alguma quanto a isso, vem ele próprio confirmar: “E, se
quiserdes compreendê-los, João é o Elias que estava
para vir. Quem tiver ouvidos, que escute bem". (Mateus 11, 14-15).
Aqui fica bem clara e taxativa a reencarnação,
pois é da boca do próprio Jesus que sai a afirmativa de
João ser o Elias que estava para vir antes dele, a fim de preparar-lhe
o caminho.
E como sabia que ainda os homens não
teriam o completo entendimento de que realmente falava era da reencarnação
acrescenta: “Quem tiver ouvidos, que escute bem”.
Bibliografia
Bíblia Sagrada. Editora Ave Maria, 68ª Edição,
1989; Novo Testamento. São Paulo, SP, LEB - Edições
Loyola, 1984.
Fonte - http://www.espirito.org.br/portal/artigos/paulosns/a-reencarnacao-no-evangelho.html
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