12/2006
Moisés – primeiro inquisidor
Sempre quando ouvimos falar em inquisição,
lembramo-nos da criada pelo Concílio de Verona, em 1183, pela
qual se iniciaram os vergonhosos atos praticados pelos católicos
contra os que não comungavam a sua crença, e que se tornou
prática comum contra os hereges. Aliás, ainda têm
o disparate de dizer “Santa Inquisição”, embora,
com os requintados métodos de tortura usados pelos “homens
de Deus”, certamente, causaria inveja até ao próprio
“satanás”. Mas, muito antes disso, um homem tido
como profeta de Javé já havia instituído o “ou
crê ou morre”, como forma de impor suas idéias a
um povo. Obviamente, como todos que agem assim, sempre dizem que, com
tais práticas, estão agindo em nome da divindade.
Quem possui um espírito investigativo, livre
de preconceitos e dogmas, perceberá que, baseando-se em registros
históricos, o primeiro inquisidor foi Moisés, embora isso
possa parecer estranho; mas é a mais pura verdade, mesmo que
ele não tenha usado os “recursos” da inquisição,
iniciada no século XII e que se estendeu até ao século
XVIII.
A primeira vez que Moisés usou métodos
ortodoxos contra seu povo para lhe impor suas “verdades”
foi quando, após demorar quarenta dias e quarenta noites no Monte
Sinai, o povo hebreu resolveu construir um bezerro de ouro (Ex 32,1-6).
Para quem dizia acreditar num Deus único, houve uma mudança
de idéia muito rapidamente. Mas o que se percebe desse episódio
é que houve um retorno às práticas religiosas utilizadas
no Egito, quando adoravam o deus Ápis, que era representado por
um touro. O que fez Moisés diante dessa atitude? Manda triturar
e moer tal bezerro de ouro, cujo pó coloca na água, obrigando
o povo a beber dela (Ex 32,20). Depois disso, dizendo-se porta-voz de
Javé (Ex 32,27), manda matar três mil homens (Ex 32,28),
esquecendo-se de que, debaixo dos seus braços, ainda trazia as
tábuas com o Decálogo, no qual havia o “não
matarás”.
Interessante é que, quando da instituição
de suas leis, “os Dez Mandamentos”, Deus não estabeleceu
nenhuma pena de morte para quem não os praticassem; apenas abençoava
ou amaldiçoava os que, respectivamente, os seguissem ou não
(Lv 26,3-13; 14-45; Dt 11,26-28). As maldições eram castigos
relacionados às coisas ruins que aconteceriam em relação
aos atos de sua vida cotidiana. Não sendo tão rigoroso
quanto dizem, recomendou práticas religiosas - sacrifícios
de animais imolados em holocausto -, para os que viessem a descumpri-los,
especificando aquelas que deveriam ser feitas pelo sacerdote, pela comunidade,
pelo chefe, pelo homem comum, demonstrando os níveis de responsabilidade
de cada um desses infratores. (Lv 4,1; 3-4; 13-15; 22-24; 27-29).
Ora, o que é para nós um fato indiscutível
é que Deus não muda de opinião (Ml 3,6); assim,
qualquer atitude neste sentido, só poderá vir dos homens
que atribuíram a Ele coisas que, na verdade, são suas.
Portanto, se Ele havia instituído o “não matarás”,
jamais poderá mudar de atitude. Diante disso, então, poderemos
ver que Moisés foi o primeiro inquisidor, ao impor a ferro e
fogo suas verdades, usando um método convincente de persuasão:
a pena de morte. Em sua legislação passou a vigorar tal
pena máxima, para os seguintes atos: para quem ferisse uma pessoa
e lhe causasse a morte (Ex 21,12; Lv 24,17), para quem ferisse o seu
pai ou a sua mãe (Ex 21,15) ou quem os amaldiçoassem (Ex
21,17, Lv 20,9), para o seqüestrador (Ex 21,16), para os que trabalhassem
no sábado (Ex 31,15; 35,2), para os adúlteros (Lv 20,10),
para quem blasfemasse contra o nome de Javé (Lv 24,16) e para
quem oferecesse sacrifícios a outros deuses (Ex 22,19 combinado
com Lv 27,29).
Mesmo diante dessas evidentes atitudes pessoais por
parte de Moisés, ainda há indivíduos que atribuem
tudo isso como se fosse de Deus. O que será que acontece? Será
que abdicaram de sua capacidade de raciocinar? Não percebem que,
por conta dessa maneira de pensar, acabam por amesquinhar a Deus? Até
quando iremos ver pessoas assim?... Só mesmo apelando para Jesus
que certamente diria: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem
o que fazem” (Lc 23,34).
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