Charles Richet, fundador da Metapsíquica,
divide a evolução histórica dos fenômenos
parapsíquicos no Ocidente em quatro períodos, a saber:
- Período mítico: se
estende da mais remota antiguidade até Mesmer e suas doutrinas
sobre magnetismo animal (1778);
- Período magnético:
vai de Mesmer (1778) às irmãs Fox (1847). Mesmer introduz
o ‘fluido’ e o sonambulismo artificial (hipnose), primeiras
noções da percepção extra-sensorial;
- Período espirítico:
das irmãs Fox (1847) a William Crookes (1872). Com Allan Kardec
surge a teoria do Espiritismo. Ápice do mediunismo. Espiritismo
como sistema filosófico e posteriormente religioso
- Período científico:
inicia-se a partir de 1872, com as pesquisas de William Crookes, subdivididas
em: período metapsíquico (1872 a 1930) e período
parapsicológico (de 1930 aos dias atuais).
A comunicação com os mortos vira
ciência
Embora o Espiritismo tenha feito muitos adeptos e conversões
durante o próprio séc. XIX e início do séc.
XX em diferentes meios sociais, chama a atenção o fascínio
que a nova doutrina parece ter exercido no meio intelectual, artístico
e científico da época, gerando tanto fervorosos adeptos
como tenazes adversários. Arthur Conan Doyle, Victorien Sardou,
Victor Hugo, Robert Owen, Cesare Lombroso, William Crookes, Oliver Lodge,
Camille Flammarion, Charles Richet, entre outros, dedicaram-se a estudar
o ‘outro lado’, recuperando o passado, revendo a religião
à luz da ciência e encarando a morte sob novos aspectos.
Grupos de cientistas reuniam-se em torno de médiuns, investigavam,
eliminavam possibilidade de fraudes. Muitas dessas reuniões de
estudos realizavam-se em centros de pesquisas e laboratórios
e os convidados eram pessoas credenciadas pela comunidade intelectual
e científica. Um exemplo foram as 43 sessões organizadas
pelo Instituto Geral Psicológico de Paris nos anos 1905, 1906
e 1907, com a médium Eusápia Paladino, que incluíram,
na sua assistência, Bergson, o casal Curie e Debierne, o reitor
da Sorbonne. Embora muitos dos assistentes do meio científico
não ficassem convencidos, um grande número confessou a
sua adesão.
Um dos mais importantes convertidos às novas
descobertas propostas pelo Espiritismo foi Camille Flammarion (1842
- 1925), o eminente astrônomo e cientista do séc. XIX.
Tornou-se espírita, amigo pessoal de Allan Kardec, e pronunciou
o discurso fúnebre à beira de seu túmulo, imbuído
pelas convicções doutrinárias espíritas,
sobretudo a imortalidade da alma e a visão de que a morte era
uma libertação, uma continuidade para uma nova existência
espiritual, operosa e de estudos.
Os fenômenos espíritas também repercutiram
fora da França. Um dos cientistas mais importantes a dedicar-se
ao estudo dos fenômenos foi o inglês William Crookes, cuja
história está relacionada com a da médium Florence
Cook e a materialização do espírito Katie King.
Químico e astrônomo, a partir de 1856 fez parte da Sociedade
Real de Londres dedicando-se a trabalhos fotográficos sobre a
lua. Descobriu um processo, a amalgamação do sódio
e pela análise espectral tornou conhecido um novo corpo metálico
simples, o tálio. Através de uma série de experiências
bem sucedidas demonstrou com exatidão um quarto estado da matéria,
além do sólido, líquido e gasoso: o da matéria
radiante. Com essa posição intelectual e científica,
anunciou que iria se ocupar dos chamados fenômenos espíritas,
com o rigor de um experimentador científico. Em 1874, publicou
os primeiros resultados de suas pesquisa no “Quarterly Journal
of Science”. Em fevereiro de 1897 publicou suas observações
sobre os fatos espíritas.
(...) Os fenômenos observados: levitações,
psicografia, telecinesia, materializações e aparições
luminosas de objetos foram colocados como fatos incontestáveis,
que mereceriam uma laboriosa série de experiências e elaborações
teóricas de acordo com as mais recentes descobertas científicas.
Para alguns outros convertidos, como Arthur Conan Doyle,
o desabar da muralha entre o mundo dos mortos e dos vivos; os fatos
que comprovam de forma cabal a sobrevivência após a morte
e a comunicação entre mortos e vivos deveriam conduzir
a uma grande transformação e esperança para o gênero
humano pela formação de uma nova e atual expressão
religiosa que levasse os homens a uma existência mais espiritualizada.
Cientistas de renome na Itália também
passaram a integrar o conjunto de estudiosos dos chamados fenômenos
psíquicos. Shiaparelli, Chiaia, Brotasi, Lombroso e Bozzano fizeram
parte dessa galeria. Ernesto Bozzano destacou-se nesse grupo dedicando
trinta anos às pesquisas psíquicas. Publicou inúmeros
trabalhos científicos sobre o assunto, expondo os princípios
básicos que o levaram a aderir à hipótese espírita
por ser uma “necessidade lógica”.
Uma das conversões mais intrigantes do final
do séc. XIX foi a de Cesare Lombroso, médico, higienista,
psiquiatra e antropólogo. Seus famosos estudos estavam na área
da Antropologia Criminal, nos quais revelava sua incondicional adesão
aos de investigação científica positiva de sua
época. Estudava homens e fatos numa mesma perspectiva, como ponto
de partida do método experimental. Estabeleceu uma teoria em
que expunha a Gênese Natural do Delito e as bases do sistema penal
positivo, associando Direito Penal e Antropologia Criminal.
(...) Durante muitos anos, negou os fenômenos
psíquicos e espirituais como charlatanice e credulidade simplória.
Porém, após assistir a algumas sessões mediúnicas
realizadas por Eusápia Paladino, e verificando a veracidade e
autenticidade da produção dos fenômenos e das manifestações
espirituais, Lombroso começou suas pesquisas.
Em 15 de julho de 1891 foi publicada uma carta onde
declarou sua rendição aos fatos espirituais: Estou muito
envergonhado e desgostoso por haver combatido com tanta persistência
a possibilidade dos fatos chamados espiríticos; digo fatos, porque
continuo ainda contrário à teoria. Mas os fatos existem,
e deles me orgulho de ser escravo.
No desenvolvimento de suas observações
e estudos, Lombroso caminhou na direção de aceitar a interferência
e influência de seres espirituais sobre as manifestações
e os fenômenos produzidos. Em 1909 publicou “Hipnotismo
e Mediunidade”, onde descreveu, de forma categórica e imbuída
do mais ortodoxo espírito científico, os resultados de
seus estudos, diante das hipóteses espíritas e de sua
veracidade e lógica.
(...) Também na Alemanha foram realizadas experiências
científicas da sobrevivência após a morte. Faziam
parte do grupo de especialistas, entre outros, Johann Karl Friedrich
Zöllner, professor de física e astronomia da Universidade
de Leipzig e elaborador da hipótese da teoria sobre a quarta
dimensão do espaço; professor Wilhelm Edward Weber, de
física e autor da doutrina da Vibração das Forças;
Schneiber, matemático de renome na Universidade de Leipzig; Gustav
Friedrich Fechner, físico e filósofo na mesma Universidade.
Este grupo publicou em 1879 o resultado de suas pesquisas. Para eles
tratava-se de uma Nova Ciência baseada em outra classe de Fenômenos
Físicos, provando a existência e um outro mundo de seres
inteligentes. Liderados por Zöllner, realizaram experiências
com o famoso médium americano Henry Slade. Ocorreram materializações,
levitações, aparições, psicografia de mensagens,
que foram meticulosamente observadas, descritas e estudadas. Submetidos
a considerações teóricas, os fenômenos observados
revelavam uma dimensão científica e verdadeira, como um
dos elementos fundamentais para a construção da teoria
do espaço em quarta dimensão e da sobrevivência
espiritual.
(...) É muito grande a galeria de cientistas
ilustres dessa época seduzidos pelos fenômenos espíritas,
realizando estudos, pesquisas, construindo teorias e revelando sua adesão,
em maior ou menor grau, às novas crenças. Em vários
países europeus e do continente americano, esses estudos apontam
um mesmo caminho, que marcou a história do pensamento contemporâneo:
a necessidade de comprovar pelos argumentos científicos aquilo
que antes estava no domínio da fé religiosa”.
LIVROS RECOMENDADOS:
1. G. Delanne - O Fenômeno Espírita;
O Espiritismo Perante a Ciência; A Alma é Imortal. Editora:
FEB
2. A. Erny - O Psiquismo Experimental. Editora: FEB
3. A. Aksakof - Animismo e Espiritismo. Editora: FEB
4. A. C. Doyle - História do Espiritismo. Editora: Pensamento
5. C. Imbassahy - O Espiritismo à Luz dos Fatos. Editora: FEB
6. W. Crookes - Fatos Espíritas. Editora: FEB
7. E. Bozzano - todos os livros. Editora: FEB
8. C. Flammarion - todos os livros. Editora: FEB.
Nota da Redação:
Esta matéria serviu de base para a Reunião de Estudos
promovida pela 10ª União Regional Espírita em 26/09/1999
na Sociedade Espírita Paz, Amor e Luz, em Cascavel PR.
Eliane Moura Silva.
“Vida e morte: o homem no labirinto da eternidade”, tese
de doutorado. Departamento de História do Instituto de Filosofia
e Ciências Humanas, UNICAMP, 1993; pp. 183-190).
http://www.universoespirita.net/ed78/pesquisas_psiquicas_pos_kardec.htm
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