Resumo
Este artigo tematiza as condições
de possibilidade de formação de uma sociedade espírita
integradas pela democracia e pelo conhecimento. Para isso, avalia as
condições concretas em que se encontram o movimento espírita
brasileiro, questionando as políticas de unificação
e pureza doutrinária. Nesse sentido, procura demonstrar que o
caminho do conhecimento e da democracia — que são as grandes
e irrenunciáveis conquistas da modernidade — não
é, nem pode ser, o da unificação dos conteúdos
de pensamento. Para isso, estabelece esta última pretensão
como uma herança do positivismo, somente viável num regime
social autoritário, formas de vida que a filosofia e a ciência
política têm superado desde o século 20, reposicionando
a atitude do saber e a vivência democrática nas possibilidades
do pluralismo e da convivência construtiva com as diferenças.
Por fim, defende-se a necessidade de que o espiritismo se compatibilize
com esses sentidos, a fim de que se mantenha atualizado em relação
ao avanço dos tempos, evidenciando, sem prognosticar, a relativa
improbabilidade de que isso venha a acontecer, devido à ausência
significativa de sinais concretos que permitam identificar essa tendência.
Palavras Chaves: Alteridade, pluralismo, política,
democracia, espiritismo.
Introdução
As temáticas da “unificação”
e da “pureza doutrinária” não apenas têm
sido dominantes no espiritismo brasileiro, ao longo de sua história,
como, especialmente no interior do Brasil, gozam de uma legitimidade
entre os espíritas que beira o consenso. Raros são os
intelectuais orgânicos do espiritismo (oradores, escritores, articulistas
etc.) que ousaram contestar tais noções, como direcionadoras
do processo de organização do pensamento e das práticas
espíritas, tendo havido muitos que as defenderam.
Atualmente, com a crescente e rápida
penetração da Confederação Espírita
Pan-Americana (Cepa) dentro do movimento espírita no país,
começam a surgir os questionamentos a estes termos, tornando
necessária uma reflexão mais profunda sobre os sentidos
históricos e sociais que cercam essas noções, até
para que as diferenças de posicionamento teórico ou político
possam ser úteis, o quanto possível, ao enriquecimento
das interpretações, mais do que ao fomento de divisões
internas.
Uma reflexão dessa natureza é
a pretensão deste trabalho. Para isso, procura-se demonstrar,
inicialmente, o sentido contraditório das políticas de
unificação e pureza doutrinária ao, por um lado,
contribuir para a consolidação do processo de institucionalização
do espiritismo brasileiro e, por outro, justificar o enrijecimento das
possibilidades de diferenciação de interpretações
e práticas espíritas. Em seguida, busca-se posicionar
analiticamente a atual condição histórica do espiritismo
organizado no Brasil, na qual a exigência ético-política
de democratização, embora improvável, se torna
cada vez maior no interior do movimento, sendo este, hipoteticamente,
o principal leitmotiv da penetração de grupos como o da
Cepa.
1. Unificação e Pureza Doutrinária:
A Institucionalização do Espiritismo no Brasil
Define-se aqui a institucionalização
de um movimento como sendo o seu processo de autonomização
sistêmica, no sentido habermasiano (1)
do termo. Em termos de filosofia social, isso significa o descolamento
dos contextos do mundo da vida das ações patrocinadas
pelo movimento em referência, pela crescente utilização
de mecanismos de controle e de poder, respaldados por instituições
capazes de garantir a eficácia desses mecanismos ao longo do
tempo. Em outras palavras, trata-se da modificação das
bases de legitimidade do movimento em causa, quando deixa de referenciar-se
nos sentidos sociais — na maioria das vezes, de onde ele se originou
— para referenciar-se nas suas próprias instituições,
as quais, nesse sentido, se “autonomizam” das demandas sociais.
Ou, como afirmamos em outro texto, “a instituição
passa a ter como principal finalidade a sua própria sobrevivência
e o seu crescimento, e não a solução dos graves
problemas sociais do mundo” (Signates, 2002).
Nos movimentos sociais, identificamos
dois modos de institucionalização que se superpõem,
adquirindo, cada um, as peculiaridades da situação histórica
concreta em que se encontram: os processos de dogmatização
e de ritualização, correspondentes, respectivamente, aos
âmbitos simbólico e prático das ações
coletivas. A dogmatização é a consolidação
de um sistema de ideias e crenças; e a ritualização,
de um sistema de ritos e práticas; ambos a serviço da
consolidação de uma definição identitária
forte, centrada em parâmetros de fidelidade ideológica.
Por razões que nos parecem óbvias, e que não discutiremos
aqui, quando sofre uma mudança assim, o movimento social perde
o seu eventual caráter revolucionário de origem e torna-se
conservador.
A hipótese com a qual este texto
trabalha é a de que o movimento social espírita vive hoje
o apogeu de um processo de institucionalização sistêmica,
cujo marco histórico fundamental foi a criação,
em 1949, do Conselho Federativo Nacional (CFN), junto à Federação
Espírita Brasileira (FEB), cuja atuação contribuiu
para consolidar um modelo hegemônico, tanto de interpretação
quanto de prática do espiritismo no Brasil, e que hoje alimenta
pretensões de se estender pelo mundo.
A observação dos conflitos
que pontuaram o movimento espírita na primeira metade do século
20 não deixa dúvidas de que a grande questão àquela
época era o processo de legitimação do espiritismo
na sociedade brasileira e, para isso, o problema da identidade espírita
aparecia como o principal. Desde o final do século 19, o espiritismo
brasileiro se dividia entre místicos e cientificistas ou, em
outra perspectiva, os “roustainguistas” e os “kardecistas”,
desenvolvendo-se aí a disputa pela hegemonia do sistema de ideias
e crenças. Igualmente nessa época conflitavam as identidades
relacionadas às heranças culturais européia e afrobrasileira,
que repercutiram na opinião pública como sendo o “alto
espiritismo” e o “baixo espiritismo”, desencadeando-se
nessa tensão a afirmação da identidade espírita
no âmbito das práticas e ritos, fortemente marcada por
conflitos étnicos e de classe.
Houve, é claro, diversas outras
rupturas no movimento espírita, ao longo de sua história
no Brasil e várias delas já examinadas por cientistas
sociais. Entretanto, foram, em sua maioria, divisões internas
que, ou foram absorvidas com o tempo, como foram os casos da Oscal (2)
e da Concafras-PSE, ou se tornaram movimentos ou instituições
independentes, como o Racionalismo Cristão (3)
e a LBV (4), cujos núcleos identificadores
não mais se concentram na identidade espírita. A luta
ideológica pela identificação kardecista e pela
exclusão das correntes e práticas típicas da cultura
negra, ao contrário, não foi episódica, nem localizada:
manteve-se no centro nervoso das disputas pela hegemonia dos sentidos
do movimento espírita, percorreu com peculiaridades específicas
todas as regiões brasileiras e constituiu o caldo de cultura
no qual se consolidou o processo de institucionalização
sistêmica do espiritismo no Brasil.
Tanto a discórdia teológica
envolvendo a natureza do corpo de Jesus, quanto a disputa litúrgica
para manter a ritualidade espírita afastada das tradições
culturais e práticas negras, constituíram lutas pela hegemonia
da identidade do espiritismo. Tais lutas serviram de base e referência
para a consolidação de instituições de poder
no movimento. Na virada do século 19 para o século 20,
a supremacia dos místicos sobre os cientificistas estabeleceu
a FEB como instituição referencial do movimento no Brasil.
Na primeira metade do século 20, desdobra-se essa divisão
entre os próprios místicos, na divergência entre
Kardec e Roustaing, concentrada, sobretudo, na região sudeste
do Brasil, que culminou na política de “unificação”,
determinada institucionalmente pela criação do CFN, em
1949, e pela consolidação das federativas estaduais, ao
longo das décadas posteriores.
As divergências teóricas
e teológicas, contudo, tinham — como, de certa maneira,
têm até hoje — um pé no amplo plano das práticas
rituais. Desde o século anterior, o espiritismo aos moldes brasileiros,
adaptado da herança francesa, conflitava violentamente com as
tradições afrobrasileiras, remanescentes dos cultos escravos.
É nesse campo de luta simbólica que se constrói
o conceito de “pureza doutrinária”, como política
de policiamento ideológico espírita. No plano da definição
identitária, esse processo culmina com a publicação,
pela FEB/CFN, do manual “Orientação ao Centro Espírita
- 1980”. Essa política conferiu não apenas uma “disciplinarização“,
como sugere Giumbelli (1997, p. 279), em sua tese doutoral, isto é,
uma relativa unidade de funcionamento para os centros de todo o país,
a partir de estratégias de regulação das práticas
espíritas, mas também serviu de base para todo o processo
de institucionalização sistêmica do espiritismo
no Brasil.
É, pois, correto concluir que
a institucionalização sistêmica do espiritismo brasileiro
operou-se fundamentada por duas tendências: a dogmatização
do sistema de pensamento de Allan Kardec e a ritualização
das práticas consolidadas pela marcação das diferenças
em relação às tradições negras. Resta,
então, saber quais as vantagens e desvantagens que essas políticas
trouxeram, não apenas para a afirmação da identidade
espírita brasileira, mas, sobretudo, para a conformação
institucional do movimento neste início de milênio, a fim
de identificarmos, até onde for possível, as demandas
sociais e políticas espíritas da atualidade.
Parece-nos autoevidente que o processo
de dogmatização contribuiu para impedir a formação
do que poderia ser denominado de uma “sociedade do conhecimento”
na esfera espírita, uma vez que privilegia a ideia de um “pensamento
único” dotado de legitimidade para suportar a identidade
espírita.
O que Allan Kardec denominou “unidade
de princípios” (Kardec, 1890, p. 342), como elemento de
justificação da necessidade de que os adeptos, pela via
do estudo, se mantivessem “esclarecidos” quanto à
nova ciência, acabou se tornando toda uma política de transformação
de seu pensamento — evidentemente interpretado de certa forma
— em critério de verdade. Certamente, esta opção
decorreu na adequação do espiritismo francês às
práticas católicas que constituíam a experiência
cultural possível da elite brasileira do século 19, desenvolvendo,
assim, um autêntico relacionamento teológico com a obra
de Kardec, apesar de suas pretensões “científicas”,
as quais, evidentemente neste contexto, tornaram-se meramente ideológicas
(Signates, 2000a).
O processo de ritualização
ocorre muito mais tardiamente e é questionável se já
se completou, embora haja sinais fortes nesse sentido. De toda forma,
é possível afirmar que seu sucesso é bastante aparente,
uma vez que há uma pressão constante pela conformação
do espiritismo prático decorrente, a nosso ver, primeiro da postura
histórica nesse sentido dos principais intelectuais orgânicos
do movimento espírita (ver, por exemplo, Amorim, 1957; Lex, 1988;
Anjos, 1989; Pires, 1979). São fortes os indícios de que
as motivações identitárias do espiritismo brasileiro
se situaram, sobretudo, na rejeição do mediunismo praticado
pela cultura negra, ideologicamente inspirado nas interpretações
da antropologia racista e evolucionista eurocêntrica do século
19, na qual o próprio Kardec (1890, p. 161 e seg.) se posicionou
e que somente seria superada no Brasil a partir da década de
1930, mas que, por conta da inteira ausência de um diálogo
com o meio científico, permaneceu no espiritismo brasileiro.
A opção por uma política
de demarcação identitária contra as demais práticas
de mediunismo situou o espiritismo brasileiro muito mais próximo
das religiões cristãs tradicionais do que dos cultos mediúnicos,
repontando, com isso, a proeminência de uma demarcação
de classe e etnia, na produção de sua identidade específica.
Essa característica é portadora de contradições
éticas enormes, com as quais as lideranças espíritas
terão que, mais cedo ou mais tarde, se defrontar.
Ambas estas condições
chamam a atenção para a contradição profunda
entre os modelos europeu e brasileiro de espiritismo, aquele, comprometido
com o ideário iluminista e racionalista francês, e, este,
transformado em uma grande religião organizada, que se orienta
para o individualismo e as terapias de autoajuda, numa dinâmica
de acentuada institucionalização sistêmica. A questão,
nesse plano, é até que ponto se faz possível restabelecer
o saber e as práticas espíritas em face das conquistas
da modernidade, de que ele próprio é originário.
Pensar essa questão é questionar o próprio futuro
do espiritismo como movimento social.
2. Espiritismo e Modernidade:
Entre o Saber e a Democracia
Indubitavelmente, o conhecimento científico
e a democracia são as grandes e irrenunciáveis conquistas
da modernidade. Mesmo que, no âmbito do pensamento econômico,
ainda se possam identificar posturas anticapitalistas consistentes ou,
no quadro das opções culturais, seja viável uma
crítica fundamentada do consumismo e da colonização
ideológica e etnocida, mesmo assim, todas estas possibilidades
críticas, capazes ou não de fundar movimentos contestatórios
orientados à transformação social, apenas seriam
possíveis com a manutenção da racionalidade filosófico-científica
como conquista máxima do pensamento, e da racionalidade ético-pragmática
da democracia como conquista máxima da política.
Importante considerar que, nesta análise,
não se quer cerrar os olhos para o regime de tensão que
constitui a própria convivência destas duas racionalidades
entre si. Numa rápida análise pragmática, parece
simples constatar que, por um lado, a racionalidade filosófico-científica,
domínio da episteme, tende a exacerbar a sua pretensão
de verdade e, com isso, afirmar os demais setores do pensamento como
“irracionais” ou “falsos” e, por outro, a racionalidade
da política e da democracia, âmbito da doxa e da retórica,
tende ao populismo e à demagogia, especialmente em sociedades
como as contemporâneas, onde as tecnologias de comunicação
se superpõem, a tudo virtualizando num jogo sem fim de imagens
e discursos. Nem o saber especializado e sistematizado admite fácil
a livre circulação da opinião comum, nem as escolhas
democráticas podem ser necessariamente vinculadas nem mesmo às
condições do saber e da informação historicamente
conquistadas e disponíveis. Não há, contudo, como
dispensarmos qualquer dessas conquistas, pois os reinos da ignorância
e do despotismo, condições opostas àquelas racionalidades,
são igualmente indesejáveis.
Esse posicionamento, contudo, embora
predominante, jamais foi consenso na história da modernidade.
O Iluminismo, na verdade, viveu intensamente a contradição
dessas duas racionalidades. A ideia do “déspota esclarecido”,
inspirada na república platônica, foi por muito tempo a
expressão política da confiança desmedida nas capacidades
da razão em forjar a felicidade humana — uma confiança,
aliás, que marcou também o espiritismo desde a sua origem.
O século 20, porém, com o seu rastro de atrocidades racionalmente
coordenadas, que vão desde o Estado nazista até as atuais
guerras tecnológicas e seus mísseis teleguiados com precisão
“cirúrgica”, foi marcado pela crescente desconfiança
nas possibilidades da razão. Assim, entre a denúncia pós-moderna
do fim da razão e as esperanças neo-iluministas de uma
razão não despótica, comunicativa e enraizada na
ética, dentro de uma situação histórica
de derrocada do chamado socialismo real e, por conseguinte, dos horizontes
revolucionários, a democracia emerge no mundo contemporâneo
praticamente como um valor em si, como a única forma de manter
as conquistas da inteligência humana em condições
de defesa contra a tirania dessa própria inteligência.
Em síntese, a busca da atualidade é a da razão
plural, da razão múltipla: não há racionalidade
na ditadura, pois, ante o pensamento único, a primeira coisa
que se perde é justamente a racionalidade.
Este é um macrocontexto dentro
do qual o espiritismo se insere contraditoriamente. Marcado desde a
origem pelo pensamento positivista, o espiritismo jamais conseguiu superar
essa herança epistemológica. Allan Kardec trabalhava com
os conceitos de verdade e razão únicas, de uma evolução
linear do pensamento científico e de um modelo comprovacionista
da atividade científica. Entretanto, Kardec praticava a ciência
que ensinava e, certamente por isso, diversas vezes relativizou a conceituação
positivista chegando, algumas vezes, à quase antecipação
da discussão filosófica e científica. Este, por
exemplo, é o caso, que analisamos em outro artigo (Signates,
1998), da antecipação de uma teoria consensualista de
verdade, na formulação genial da tese do “controle
universal do ensino dos espíritos” (Kardec, 1864, p. 28
e seg.). Além disso, mesmo que admitamos, como é forçoso
fazer, um profundo enraizamento das ideias de Allan Kardec no positivismo
e no racionalismo francês, seria injusto declarar que o codificador
do espiritismo aprovaria a eleição de sua obra a dogma
do espiritismo e a busca continuada por garantias institucionais e políticas
de manutenção de uma identidade ideológica centrada
no pensamento único.
Consideradas, ainda, as exigências
de saber e democracia das sociedades atuais, parece óbvio considerar
que políticas de unificação, com base nos critérios
da pureza ou da vigilância doutrinária, dificilmente conduzirão
a comunidade espírita a um formato cognitivamente plural e pragmaticamente
democrático de espiritismo. Tanto a democracia quanto o saber,
demandam um ambiente de liberdade de pensamento e ação,
para se consolidarem em termos de seus próprios objetivos. A
questão, portanto, neste ponto é verificar até
que ponto o espiritismo brasileiro tem condições concretas
de reverter um quadro de pensamento único, institucionalmente
garantido, no âmbito das relações internas, pelos
processos de disciplinarização, de exclusão e,
no quadro das relações com os demais grupos sociais, pela
insistente defesa da demarcação contínua das fronteiras
identitárias. Com a análise desta problemática,
concluiremos estas reflexões.
3. Das Improbabilidades do
Espiritismo Democrático
A explicitação da metodologia
de análise com que encerramos este artigo é, a nosso ver,
profundamente significativa neste momento, pois serve-nos para deixar
tão clara quanto possível a perspectiva com que temos
buscado analisar as graves questões do movimento espírita
brasileiro. Intentamos um trabalho sociológico consistente, capaz
de implicar em uma teorização sistematicamente fundamentada
e uma observação adequada das condições
concretas do espiritismo brasileiro. Nesse sentido, afastamo-nos dos
modelos de textos espíritas típicos, mesmo daqueles produzidos
pelos seus intelectuais orgânicos, por deixarmos de lado o cotejamento
doutrinário de textos consagrados, ou mesmo a busca por algum
sentido de origem, perdido nas “distorções”
da história espírita. E, dentro dessa opção,
procuramos trabalhar a partir das condições concretas
da vida social espírita.
É nessa perspectiva que procedemos
a uma investigação preliminar das condições
de possibilidade da vida democrática espírita, especialmente
no que diz respeito às de uma democracia do conhecimento definida,
aqui, como sendo a criação hegemônica de espaços
de debate público, filosófica ou cientificamente orientados,
para a produção crítica de uma forma de conhecimento
espiritualista continuamente reflexivo. Assim, principia-se por reconhecer
que não basta a articulação de argumentos, mesmo
que fortemente referenciados nas obras básicas, isto é,
mesmo que ainda enraizados numa interpretação dogmática
do pensamento espírita. Em outras palavras, e em termos espíritas,
a questão da democratização do espiritismo não
é uma mera questão doutrinária, mas um problema
político, e que, portanto, deve ser politicamente considerada,
na análise de suas condições de possibilidade.
Ao constatarmos um avançado processo
de institucionalização em curso, em termos de sua racionalização
instrumental, pela criação de condições
institucionais cada vez mais sólidas de dogmatização
e ritualização, parece inclusive justificável trabalhar
com a hipótese de que nem mesmo é provável que
uma democratização nos termos de uma sociedade do conhecimento
venha a acontecer. Na virada do século 21, há toda uma
cultura já construída nos termos de uma autoreferencialidade
teórica e prática de tipo doutrinário. Em outras
palavras, e isso nos parece importante considerar, o processo de institucionalização
sistêmica do espiritismo brasileiro deu certo, do ponto de vista
de sua funcionalidade e sua autosustentabilidade.
Há, pois, por um lado, uma ausência
significativa de demanda social por democratização interna,
a qual aparece substituída pela utilização instrumental
e individualista dos recursos espirituais providenciados pela ritualidade
consagrada (palestras, cursos, passes, desobsessões, tratamentos
etc.), alternativa cômoda à qual as instituições
lançam mão integralmente, uma vez que satisfaz os anseios
institucionais típicos, que são a viabilização
dos recursos materiais e humanos de sua sustentação e
a necessária passividade dos públicos que as buscam. As
pessoas vão aos centros à procura de conforto e é
exatamente isso o que ali recebem, numa relação típica
de consumo terapêutico de serviços religiosos. Não
há porque, então, problematizar aquilo que funciona tranquilamente.
Vez por outra surgem, episodicamente,
demandas pela democratização das instâncias tipicamente
políticas do movimento, sobretudo das federativas estaduais.
Porque não possuem, com suas filiadas, uma relação
de dependência, seja material, seja simbólica, as federações
são alvos mais frágeis dessas demandas. Instituições
de poder exclusivamente simbólico, as federações
espíritas não possuem, como é característico
dos centros de poder de outros movimentos e instituições
religiosas, os chamados “meios materiais de controle”, que,
no mundo capitalista contemporâneo, são tipicamente dois:
a força e o dinheiro. Por não deterem a capacidade orçamentária,
nem efetivos de repressão, o poder das federativas espíritas
inexiste, para além da capacidade de monopolizar a produção
de interpretações em eventos ou periódicos. É
preciso que se diga que essas instituições trabalham fortemente
nesse sentido, continuamente movimentando processos de exclusão
que, como analisamos em outro trabalho (Signates, 2000), acontecem de
forma contraditória e subreptícia, jamais confessada.
Entretanto, por não disporem de meios extrassimbólicos
capazes de garantir o desempenho de suas pretensões de poder,
estas instituições são reconhecidamente frágeis,
sendo possível verificar, pelo vazio de suas assembléias,
em relação ao total de instituições espíritas
existentes nas suas regiões de atuação, que a maioria
delas mantém uma política de “boa vizinhança”,
mas ignora amplamente as suas decisões e recomendações.
Essa fragilidade parece se manifestar,
sobretudo, nos estados brasileiros onde há mais de uma instituição
com pretensões federativas, o que é bastante natural,
uma vez que nessas regiões, a federativa não dispõe
da capacidade plena de controlar a produção de sentidos.
Nesses casos, aparentemente, a tendência de buscar formas mais
democráticas de relacionamento com as instituições
filiadas é tanto maior quanto maior for a complexidade das relações
historicamente construídas dentro do movimento regional. Um caso
típico para a observação pode ser, por exemplo,
a diferença de posicionamento ante a recente emergência
da Cepa no Brasil, das federativas de São Paulo e do Rio Grande
do Sul. A primeira, de tímida e complicada abertura para o diálogo
dentro de condições kardecistas básicas e, a segunda,
de inteiro fechamento e conflito aberto. Tais exemplos servem igualmente
para reforçar a tese de que não se pode analisar as conflitualidades
do espiritismo apenas pela perspectiva doutrinária, devendo o
analista inserir categorias de contexto, a fim de compreender as razões
políticas, econômicas, culturais e históricas que
cercam e alimentam tais conflitos.
Um outro lado dessa questão diz
respeito às relações do movimento espírita
com os demais grupos sociais. Consolidado nos parâmetros de sua
identidade e articulado institucionalmente em condições
pouco democráticas, mas não problematizadas, o movimento
espírita brasileiro dificilmente iria pretender outra relação
com os demais grupos, que não a de divulgação e
conversão. Também o diálogo é desnecessário,
sendo até sentido como “perigoso”, uma vez que a
intromissão de novos olhares, conceitos ou alternativas, mesmo
que cientificamente fundados nos ritos discursivos espíritas,
constituiria um risco para a constância e a tranquilidade teórica
ou ritual das instituições. Em outras palavras, se a democracia
não é desejável na vida interna do movimento, o
que não dirá nas relações com o mundo não
espírita...
Essa alternativa, porém, nesse
caso, não ocorre pacificamente. Se, no ordenamento interno do
movimento, inexistem condições rigorosas de exercício
de poder, o mesmo não se pode dizer no âmbito das relações
sociais e sistêmicas mais amplas. O espiritismo brasileiro é
pródigo em instituições de assistência e
promoção social, as quais, pela quantidade e pela dimensão
que tomaram, dependem hoje fortemente de verbas estatais e são
crescentemente fiscalizadas pelas organizações governamentais,
baseadas em legislações cada vez mais rígidas,
pois instituídas num quadro de falência do Estado do bem-estar
social e na consequente afirmação de um “terceiro
setor”, integrado pelas organizações da sociedade
civil (Mestriner, 2001).
Por não poder se ausentar da
regulação do Estado e por depender crescentemente das
verbas destinadas pelos governos, a área de promoção
social espírita constitui um interessante espaço de discussão
das relações “externas” do movimento espírita
em suas conexões sistêmicas. Nesse sentido, como dissemos
em outro trabalho (Signates, 2002), “não nos parece ser
possível discutir promoção social sem falar da
relação entre o Estado e a sociedade civil. Isso porque,
com raras exceções, as questões de promoção
e assistência têm sido tratadas pelos espíritas apenas
a partir de uma perspectiva voluntarista, deixando de fora as temáticas
políticas que envolvem toda a manutenção de suas
maiores instituições. Em outras palavras, o espiritismo
é capaz de debater a assistência social sem sequer citar
o Estado ou fazer qualquer referência à questão
das políticas públicas. Trata-se de uma lacuna incompreensível
e extremamente perigosa. Sem que se pretenda fazer qualquer acusação,
até porque, ao que saibamos, inexiste pesquisa específica
a respeito das relações entre o Estado e o movimento espírita,
é preciso considerar que o silêncio no debate público
a respeito desse assunto deixa em aberto as relações institucionais
para todo tipo de prática, inclusive as que configuram a má
política, como o clientelismo, a corrupção, a distribuição
de propinas, o aparelhamento de interesses partidários e a troca
de favores — e tudo isso, provavelmente, sob o pretexto de garantir
a “sobrevivência da obra”.
Observa-se, deste relato, que as práticas
de relacionamento do movimento espírita com os demais grupos
sociais e, inclusive, com o Estado, obedecem a um ordenamento sistêmico.
As instituições espíritas tendem a assumir, nesse
sentido, modelos empresariais de funcionamento, nos quais os referenciais
de eficiência e produção sobrepujam os interesses
de democracia ou mudança social. Esta parece ser a principal
razão pela qual as relações com o Estado se tornam
cada vez mais profundas, mas, ainda assim, a temática política
jamais é publicamente discutida.
Tais condições, reunidas,
caso esta análise esteja correta, não tornam muito provável
a realização de um processo de democratização
do espiritismo. Tendo dado certo, o processo de institucionalização
sistêmica do espiritismo brasileiro desenvolveu uma cultura institucional
que o autonomiza, tornando-se relativamente independente, tanto em relação
às eventuais dissidências internas, quanto a possíveis
e improváveis exigências exteriores — improváveis,
pois o movimento espírita no Brasil construiu uma identidade
destacada dessas questões e, além disso, a sociedade dispõe
de outras esferas para onde dirigir tais demandas.
4. Conclusão Possível:
As Esperanças Contidas
Haverá um movimento espírita
democratizado no Brasil? Conseguirão os espíritas reverter
o quadro institucionalizado que se formou e produzir uma esfera pública
capaz de realizar os sonhos iluministas de origem? Ou sucumbirá
como movimento social, vítima de seu próprio sucesso institucional,
convertendo-se de uma vez por todas em uma simples religião organizada,
reduzido à expressão terapêutica junto às
camadas médias e altas da sociedade brasileira e à solidariedade
despolitizada e caritativa na atuação junto aos bolsões
de miséria, sem jamais discutir as causas estruturais da sua
miséria ou incluí-los na sua própria composição
social?
Tais questões, angustiantes tanto
para adeptos quanto para simpatizantes de um movimento que desfruta
de legitimidade e admiração pela população
brasileira, não podem ser teoricamente respondidas. Apenas o
futuro é capaz de afirmar as opções coletivas do
espiritismo organizado.
Três proposições,
coligadas de forma dialética, contudo, pareceram-nos muito claras
ao longo da construção deste trabalho e, por isso, com
elas encerramos estes comentários. Primeiro, a necessidade da
democratização que, hoje, parece ser uma exigência
radical de sobrevivência e reestruturação de um
modelo de espiritismo capaz de oferecer respostas à sociedade
ou, nos termos dos prognósticos de Allan Kardec (1863), de alcançar
o “período da renovação social”
(6). Segundo, a preocupante improbabilidade de que isso aconteça,
devido ao estado avançado em que se encontra a estruturação
sistêmica das instituições espíritas no Brasil.
E terceiro, a possibilidade de relativização dessa hipótese
pessimista, a partir do potencial criador de setores do movimento espírita
sintonizados com as demandas sociais e suficientemente abertos para
se repensar as condições de produção do
pensamento e da prática espírita.
Neste terceiro nível, deve-se
mencionar a atuação da Confederação Espírita
Pan-Americana que, aparentemente, abre novas possibilidades de análise.
Entretanto, embora demonstre uma vocação muito mais democrática,
em seu modo de funcionamento, este movimento não está
inteiramente ausente de alguns dos sentidos que este artigo questiona.
Cabe-nos, pois, observá-lo e colocar em debate essas e outras
questões, a fim de que se possa ajuizar de forma mais consentânea
as indicações que virão do futuro, a partir das
respostas concretas da história, forjadas pela iniciativa coletiva
dos espíritas.
Notas do Pense
(1) Jürgen Habermas, sociólogo
e filósofo alemão, integrante e herdeiro da chamada Escola
de Frankfurt.
(2) Oscal, sigla de Organização Social
Cristã-Espírita André Luiz.
(3) O Racionalismo Cristão, surgido a partir
de uma dissidência do movimento espírita brasileiro, foi
fundado pelo português Luiz de Mattos em 1910.
(4) A Legião da Boa Vontade (LBV) é um
movimento religioso e assistencial fundado por Alziro Zarur em 1950,
no Rio de Janeiro, a partir de uma revelação mediúnica
a ele dirigida, em uma sessão espírita realizada em 1948,
na sede da Federação Espírita Brasileira. Desde
1979 a LBV é dirigida por José de Paiva Neto.
(5) Confraternização Nacional das Campanhas
de Fraternidade Auta de Souza - Promoção Social Espírita,
movimento itinerante surgido há cerca de 50 anos, em Goiás,
à margem do movimento espírita oficial, e que se caracteriza
pela realização de encontros nacionais durante o carnaval,
com o objetivo de dinamizar as campanhas Auta de Souza.
(6) Allan Kardec formulou, na Revista Espírita
(dezembro de 1863), o desenvolvimento histórico do espiritismo
em seis períodos: o período de curiosidade, filosófico,
de luta, religioso, intermediário e o último período,
que ele denominou de regeneração social.
Bibliografia
AMORIM, Deolindo (1957) O espiritismo e as doutrinas
espiritualistas. Rio de Janeiro: Centro Espírita Léon
Denis, 1988.
ANJOS, Luciano (1989) O atalho: análise crítica do movimento
espírita. Niterói: Lachâtre, 1995.
AUBRÉE, Marion; LAPLANTINE, François (1990) La table,
le livre et les esprits: naissance, évolutionn et actualité
du mouvement social spirite entre France et Brésil. Mesnil-sur-l'Estrée:
JCLattes.
BOURDIEU, Pierre (1989) O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2000.
GIUMBELLI, Emerson (1997) O cuidado dos mortos: uma história
da condenação e da legitimação do espiritismo.
Rio de Janeiro: Arquivo Nacional.
GOHN, Maria da Glória (1997) Teorias dos movimentos sociais:
paradigmas clássicos e contemporâneos. São Paulo
: Loyola, 2002.
KARDEC, Allan (1863) Período de luta. In: Revue Spirite, Dez/1863.
São Paulo: Edicel, 1965. (p. 377-379).
KARDEC, Allan (1864) O evangelho segundo o espiritismo. Brasília:
Feb, 1998.
KARDEC, Allan (1890) Obras póstumas. Brasília: Feb, 1977.
LEX, Ary (1988) Pureza doutrinária. São Paulo: Feesp.
MAGGIE, Yvonne (1991) Medo do feitiço: relações
entre magia e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992.
MARLETTI, Carlo (1983) Intelectuais. In: BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI,
Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política,
Vol. 1. Brasília : Brasília : Edunb,, 1994. (p. 637-640).
MESTRINER, Maria L. (2001) O Estado entre a filantropia e a assistência
social. São Paulo: Cortez.
PIRES, Herculano (1979) O centro espírita. São Paulo:
Lake, 1987.
SANTOS, Boaventura de S. (1995) Pela mão de Alice: o social e
o político na pós-modernidade. São Paulo : Cortez,
1996.
SIGNATES, Luiz (1998) A filosofia espírita da fé raciocinada.
São Paulo: Do autor. (original).
SIGNATES, Luiz (2000) Fraternidade como paradigma da identidade espírita.
In: Autores Diversos. A Cepa e a atualização do espiritismo.
Porto Alegre: Ccepa, 2001. (p. 149-160)
SIGNATES, Luiz (2000a) Ciência como ideologia do espiritismo.
Goiânia: Do autor. (original).
SIGNATES, Luiz (2001) A sombra e o avesso da luz: apropriação
crítica da teoria dual de sociedade em Habermas aos estudos contemporâneos
de comunicação social. São Paulo: ECA/USP. (tese
de doutoramento).
SIGNATES, Luiz (2002) E os paradigmas se movem novamente: a comunicação
como ética da promoção social espírita.
Goiânia: Do autor. (original).
SOUZA, Denizard de (2001) O espiritismo e a cultura contemporânea.
Revista A Reencarnação. N. 422, Ano LXVII. Porto Alegre:
Fergs. (p. 22-26).
Fonte: Trabalho apresentado na XIV
Conferência Regional Espírita, realizada em São
Paulo, capital, de 14 a 17 de setembro de 2002. O evento foi promovido
pela Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA).
PENSE - Pensamento Social Espírita
http://www.viasantos.com/pense/arquivo/1256.html
Luiz Signates é jornalista, pesquisador
e professor adjunto da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia
da Universidade Federal de Goiás (UFG). Especialista em Políticas
Públicas pela UFG, Mestre em Comunicações pela
UnB e Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.
É atualmente coordenador do Núcleo de Pesquisas em Comunicação
e Política - NPCP/UFG/CNPq, do Curso de Marketing Político
da UFG e do curso de Publicidade e Propaganda da Faculdade Cambury,
de Goiânia. Em movimentos sociais, atua hoje como presidente do
Instituto de Comunicação Social Espírita - ÍCONE
e da Fundação de Rádio e Televisão Educativa
e Cultural de Goiás – FRTVE; é Diretor de Política
Nacional de Comunicação da Associação Brasileira
de Divulgadores do Espiritismo - ABRADE.
E-mail: signates@uol.com.br