Resumo: A partir da constatação de que alunos do
curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade
Estadual de Feira de Santana (UEFS) vivem um conflito entre manter o
compromisso com os dogmas compartilhados por sua comunidade religiosa
e sua responsabilidade, como professores, de ensinar o conhecimento
consensual da ciência, discutimos neste
artigo as relações entre ciência e religião
no contexto da formação do professor. Propomos
o uso de cartas de Galileu como ferramenta pedagógica para auxiliar
professores e alunos de biologia na administração de conflitos
entre ciência e religião, bem como no desenvolvimento de
uma visão de mundo compatível com a ciência.
Introdução
“Quando eu cheguei aos 17 anos, eu tive um contato
com a Igreja Protestante, a Igreja Universal. Hoje eu discordo muito
da Igreja Universal, mas na época ela me oferecia o que eu procurava
naquele momento, para o que eu estava passando. Durante este período
que eu passei a freqüentar a igreja universal é que eu passei
a ter contato com a Bíblia, que eu comecei a ler a Bíblia,
que até então era difícil. O Novo Testamento me
impressionou pelas maravilhas que vinham sendo contadas no livro, até
pela expressão lúcida de amor, de solidariedade, de compreensão.
E aquilo foi me chamando atenção, fui me entusiasmando
por aquele conhecimento e de certa forma foram se incorporando na minha
vida. Aí tudo bem. Defini completamente o que sei de religião,
de Deus, de Jesus Cristo. Com relação a visão científica,
eu vi a Teoria dos Coacervados, que no caso fundamenta a teoria da vida,
a primeira vez no terceiro ano científico, numa revisão
que teríamos para o vestibular. E o meu professor de Biologia
de certa forma não provocou este conflito, porque quando ele
estava explicando o assunto ele chegou e disse assim no final: ‘Ah!
Mas é claro que não ocorreu assim desta forma, não
deveria, não teria lógica que fosse desta forma. Só
Deus mesmo que poderia criar todas as criaturas’. Então
na verdade ele aniquilou, quando usou estas palavras, tudo que eu poderia
construir em função daquele conhecimento que ele estava
falando. E o engraçado é que quando ele estava explanando
aquele conhecimento, eu pensava em minha formação religiosa,
mas no momento final que ele disse isso, simplesmente o conflito desapareceu,
eu passei a adotar a palavra dele. E simplesmente aniquilei. Eu estava
gerando um conflito. Poxa, eu achava que aquilo tinha lógica,
era inteligível, digamos assim, dava para compreender. Mas a
partir do momento que ele falou aquilo, eu simplesmente eu disse: ’Não,
não tem lógica’. Foi como ele mesmo colocou, ele
foi muito firme, claramente as palavras dele: ‘Como é que
a gente tem certeza que a atmosfera primitiva é composta por
estes gases, quem ‘tava lá para ver? Ele usou esta expressão.
(...) E eu achei que tinha lógica [o argumento do professor],
que ninguém poderia definir com precisão que aquilo fosse
daquela forma. E eu vim para aqui para a Universidade e eu comecei a
ver novamente pincelagens em torno deste assunto, começou novamente
gerar aquele tormento que tinha sido, digamos assim, podado naquela
época. E quando eu cheguei aqui, o conflito ficou permanente,
eu lutava na verdade contra aquele novo conhecimento(...) Eu comecei
a buscar, consciente ou inconscientemente, falhas na teoria, primeiro
tentei identificar as falhas que meu professor [o do ensino médio]
tinha apontado e tentei achar outras falhas dentro da teoria científica,
e eu consegui algumas, digamos assim. Até que um colega de residência
que faz curso de história, conversando comigo, começou
a questionar a palavra da Bíblia como sendo a palavra de Deus,
uma vez que para ele o próprio Deus é uma criação
humana, que foi feito para dar respostas às questões que
o homem não consegue responder. E ele começou a explorar
uma série de evidências históricas para essa tese,
explorando exemplos contidos na própria Bíblia. [...].
E aquela abordagem dele me pareceu lógica, e aí eu falei:
‘ Meu Deus!’ Mas eu falava com angústia mesmo. A
princípio eu não sabia o que pensar. Eu entrei no quarto,
e eu tinha uma colega que era muito religiosa, e eu virei para ela e
disse: ‘Bel, se ter conhecimento é ter que me afastar de
Deus, eu prefiro não ter.’ De tão angustiada que
eu ‘tava. E ela disse “Não diga isso porque Deus
é conhecimento’. E a partir deste conflito, em prol da
ciência, em prol da história, eu fui reestruturando toda
minha percepção de mundo, minha concepção
de religião. Passei a ver a Bíblia diferente, porque eu
antes a lia como uma regra, como uma inspiração divina
do início ao fim. E eu comecei a ler a Bíblia de outro
modo, a partir deste momento eu comecei a fazer uma adequação
da religião com aquele conhecimento que eu estava criticando.
Então aquela anomalia que eu estava percebendo dentro do conhecimento
cientifico, eu comecei a preencher com a existência de Deus. E
começou assim , no Gênese quando eu lia que Deus pegou
o barro e moldou o primeiro homem e insuflou de espírito vital,
ou seja, lhe deu o sopro de vida, na realidade cada elemento que eu
recebia da Bíblia literalmente eu comecei a associar, ou interpretar
de maneira científica, o que seria esse sopro, o que seria esse
barro, e comecei a procurar uma razão científica para
tudo, e por incrível que pareça as coisas foram se adequando.(...)
Eu comecei ver a Bíblia como metáfora. E aí você
poderia me perguntar: Mas por que Deus escreveria por metáforas?
Claro que ele escreveria por metáforas, como é que ele
falaria para as pessoas sobre aminoácidos, sobre moléculas,
se hoje com todo conhecimento que temos é complicado entender,
imagine há tanto tempo atrás.(...) E então eu vejo
a Bíblia como metáfora. Mas o conflito não está
totalmente sanado. Porque a mesma probabilidade de eu estar certa é
a probabilidade de estar errada. E esse para mim não deve ser
um conflito só meu, deve ser o conflito da humanidade. Porque
ninguém pode afirmar uma coisa e achar que detém uma verdade
absoluta. E eu fico revoltada como isso é ignorado na universidade.
O conhecimento científico é passado como verdade única,
não se permite a percepção de outras formas de
conhecimento. Eu fico bestificada, aceita-se pela titulação
da ciência, o conhecimento não é questionado, e
deveria porque a própria história da ciência mostra
isso.(...) Minha dúvida é então: Será que
como professora de ciências eu tenho o direito de expor todos
os modelos explicativos? Seria certo passar a visão de que eles
não se anulam? Eu penso assim, não fizeram isso comigo,
eu vou fazer por alguém”.
Este foi um depoimento de
uma aluna em fase de conclusão do curso de Licenciatura em Ciências
Biológicas da Universidade Estadual de Feira de Santana,
justificando suas dúvidas em relação ao planejamento
de uma ação pedagógica no ensino médio,
em que o tema “Origem e Evolução da Vida”
deveria ser abordado. A dúvida, compartilhada com outros colegas
da turma, consistia em como abordar a origem da vida, se através
do Criacionismo ou do Evolucionismo, ou ainda apresentando ambos os
modelos explicativos, atribuindo-lhes na aula o mesmo grau de importância.
O relato da aluna e os debates surgidos em sala de aula a partir do
mesmo sugerem que este dilema é fruto de um conflito vivido pelos
alunos entre manter o compromisso com os fundamentos e dogmas compartilhados
com a comunidade religiosa de que participam e sua responsabilidade,
como professores, de ensinar o conhecimento consensual da ciência
para seus alunos.
No relato, percebemos que a aluna vinha amadurecendo estratégias
de acomodação deste conflito, buscando compatibilizar
a formação religiosa com a científica, sendo possível
acompanharmos as modificações sofridas em sua visão
de mundo ao longo deste percurso. É perceptível, por exemplo,
sua mudança de uma postura religiosa fundamentalista para uma
visão mais liberal, uma vez que ela passou a admitir novas interpretações
do texto bíblico, pautadas no conhecimento científico.
Segundo Mahner e Bunge (1996), o grau de incompatibilidade doutrinária
entre religião e ciência varia de acordo com o grau de
interpretação literal das doutrinas religiosas, em particular,
das escrituras sagradas. Assim, os fundamentalistas tendem a rejeitar
o conhecimento científico se este contradiz seus dogmas, enquanto
religiosos liberais admitem a competência da ciência para
lidar com questões terrenas, superando boa parte das incompatibilidades
doutrinárias (Mas cf. Woolnough 1996:176).
É interessante analisar o papel que a educação
formal desempenhou no desenvolvimento desta aluna. É possível
perceber que a experiência tanto no ensino médio como no
ensino superior, conforme apontado por ela, aniquilou a oportunidade
de conhecer a natureza do conhecimento científico, avaliando
sua validade e seus limites. Seja pela prática pedagógica
do seu professor do ensino médio, que transmitiu uma visão
equivocada do conhecimento científico, chegando a negá-lo
como forma válida de conhecimento, seja pela prática educativa
da universidade, que pecou pela visão cientificista, não
reconhecendo os limites do conhecimento científico e assumindo
uma postura preconceituosa frente a outras formas de conhecimento, a
educação formal não contribuiu para o desenvolvimento
de uma concepção mais sofisticada da ciência e da
própria religião. Esta aluna foi privada, assim, da oportunidade
de alargar o que Mortimer (1994, 1995, 1996) denomina ‘perfil
conceitual’.
Ao lançar a questão, “Como é que a gente
tem certeza que a atmosfera primitiva é composta por estes gases,
quem ‘tava lá para ver?”, o professor citado, aparentemente,
demonstra não entender como os modelos teóricos são
construídos na ciência, nem a relação entre
evidência, fatos, teorias, modelos e experimentação.
Trata-se de uma grave deficiência em conceitos epistemológicos
necessários para a compreensão do processo de produção
do conhecimento científico, que deveriam estar na fundação
de uma didática das ciências, como discutido por Astolfi
e Develay (1991). De fato, muitas investigações constataram
a presença de concepções inadequadas sobre a natureza
da ciência em estudantes, mesmo após a educação
formal (Lederman & O´Maley 1990, Lederman 1992). Foi também
demonstrado que professores muitas vezes possuem concepções
inadequadas, predominando visões empírico-indutivistas
e absolutistas da natureza da ciência (Abell & Smith 1994,
Harres 1999). Estas concepções são usualmente transmitidas
através do currículo oculto, dificultando a compreensão
de conteúdos nas várias ciências e, certamente,
prejudicando o entendimento da natureza da ciência. É importante
não perder de vista, por certo, que algumas investigações
não conseguiram estabelecer uma correspondência entre as
concepções dos professores e sua conduta em sala de aula
(Lederman & Zeidler 1987, Mellado 1997). Outras, no entanto, apontam
para uma correlação entre a concepção acerca
da natureza da ciência e a prática pedagógica do
professor (Brickhouse 1990, Porlán 1994, Porlán et al.
1997, Sepúlveda 2001).
O argumento empregado pelo professor citado para desqualificar o modelo
científico acerca da origem da vida que estava discutindo se
assemelha a alguns dos argumentos utilizados pelos criacionistas para
questionar a cientificidade da teoria da evolução. Como
analisado por Siegel (1981), os criacionistas, em sua crítica
à teoria da evolução, só reconhecem como
evidências válidas para sustentar ou refutar teorias aquelas
resultantes de observações de fatos presentes ou de experimentos
realizados em laboratórios. Este tipo de argumento invalida não
só teorias, mas uma série de áreas do conhecimento
científico, algumas delas estabelecidas desde a fundação
da ciência moderna, como é o caso da astronomia, e outras
mais recentes, como a geologia e a paleontologia. A postura adotada
por este professor frente à ciência pode ser devida ao
fato de a religião ser o fator predominante na sua visão
de mundo e interferir diretamente na sua concepção de
conhecimento, ou ao fato de ele desconhecer a natureza da ciência
que ensina, ou, muito provavelmente, a uma combinação
destes dois aspectos.
O relato da aluna e esta breve interpretação trazem à
tona questões que vêm permeando as investigações
e os debates acerca do ensino de ciências e da formação
do professor: Como os professores articulam sua concepção
de ciência com sua própria visão de mundo? Até
que ponto os professores consideram o conhecimento consensual da comunidade
cientifica como parâmetro para a seleção e organização
dos conteúdos a serem trabalhados em sala de aula? Que idéias,
valores, pressuposições podem dificultar a compreensão
da natureza do conhecimento científico e o desenvolvimento de
atitudes positivas frente à ciência? Até que ponto
as religiões, como elementos formadores da visão de mundo,
interferem na formação científica? Qual a conseqüência
de ignorarmos este fator na formação de professores de
ciências?
As relações
entre ciência e religião no contexto da formação
do professor de ciências
De acordo com Matthews (2000), desde o século XIX, quando as
ciências foram incorporadas ao currículo escolar, esperava-se
que o ensino de ciências tivesse um impacto benéfico na
cultura dos estudantes, visando não apenas a aprendizagem de
conceitos, mas também o desenvolvimento de um espírito
científico. Esta tendência encontrou maior ressonância
a partir da década de 1990, com as abordagens do ensino de ciências
ditas contextuais ou liberais (Matthews 1994, 2000), que emergiram da
crítica à ênfase profissionalizante das reformas
curriculares norte-americanas das décadas de 1960 e 1970, bem
como da reação à crise contemporânea do ensino
de ciências, evidenciada pelos elevados índices de ‘analfabetismo
científico’ e evasão de alunos e professores das
salas de aula de ciências (Matthews 1994). A abordagem contextual,
ao advogar que a educação científica não
deve restringir-se ao conhecimento factual, devendo ter em vista a introdução
dos jovens às dimensões históricas, filosóficas
e socio-culturais das ciências, coloca novas demandas para a formação
do professor, que já eram apontadas, desde 1918, no famoso Relatório
Thomson, produzido na Grã Bretanha: “algum conhecimento
da história e filosofia da ciência deve fazer parte do
equipamento intelectual de todo professor de ciências do ensino
secundário” (citado por Matthews 2000:333). Matthews (2000)
reconhece que seria irreal esperar que professores secundários
se tornassem competentes historiadores, sociólogos ou filósofos
das ciências, mas defende que os professores sejam encorajados
a enfrentar perguntas que naturalmente surgem nas salas de aula de ciências,
tais como: “Que tipo de coisas podem ser conhecidas?”, “Como
podemos conhecê-las?”, “O que realmente existe no
mundo real?”, “O que é uma lei, uma teoria, uma hipótese?”
Questões dessa natureza demandam uma deliberação
filosófica a respeito de problemas metafísicos e epistemológicos,
e trazem à tona aspectos culturais e a visão de mundo
dos professores, dando lugar a possíveis conflitos entre formação
religiosa e científica.
De acordo com uma abordagem contextual do
ensino de ciências, os professores não têm como esquivar-se
dos pressupostos metafísicos dos discursos científicos.
Nesta perspectiva, Mahner e Bunge (1996) afirmam que a ciência
pressupõe uma metafísica naturalista/materialista e se
opõem à idéia de que seja possível propor
uma ontologia mais ampla para a ciência, incluindo perspectivas
religiosas, discordando de teólogos e filósofos que consideram
a existência de cientistas religiosos um apoio para a tese de
que a religião e a ciência podem ser compatíveis.
Reconhecendo a dificuldade de oferecer uma concepção consensual
da ciência e de demarcá-la em relação a outros
campos não-científicos da investigação,
Mahner e Bunge (1996) apresentam uma caracterização própria
da ciência. Eles fazem o mesmo em relação à
religião, buscando demonstrar, mediante uma comparação
entre as duas caracterizações, as diferenças que
existem entre estes sistemas de conhecimento. Eles concluem, então,
que existem incompatibilidades metafísicas, doutrinárias,
metodológicas e atitudinais entre religião e ciência
(ver também El-Hani & Sepulveda 2001). Na medida em que a
religião constrói afirmações cognitivas
sobre o mundo, há superposição entre ciência
e religião, por exemplo, em questões como a da origem
do universo, da evolução da vida, da natureza da mente,
que geram conflitos inevitáveis, cujo grau depende de muitos
fatores, por exemplo, da natureza da interpretação da
doutrina religiosa, se liberal ou fundamentalista.
Mahner e Bunge (1996) afirmam que a formação
religiosa, em especial precoce, constitui um obstáculo para a
formação de uma mentalidade científica.
Esta posição foi críticada por vários autores
(Settle 1996, Lacey 1996, Turner 1996, Poole 1996, Woolnough 1996, Wren-Lewis
1996), no mesmo volume de Science & Education, inteiramente dedicado
ao tema “Ciência, Religião e Educação”.
Lacey (1996), discordando da interpretação de Mahner e
Bunge a respeito dos fenômenos religiosos, na medida em que ela
ignora a sua diversidade, propõe uma perspectiva alternativa
sobre as relações entre ciência e religião,
que pressupõe a possibilidade de um diálogo construtivo
entre estes dois sistemas de conhecimento. Ele também defende
a compatibilidade entre formação religiosa e científica,
advertindo, contudo, que considera que as crenças religiosas
não devem interferir no ensino de ciências, resguardando-se
a consistência dos dois discursos. A principal critica dirigida
por Woolnough (1996) a Mahner e Bunge se refere ao fato de a abordagem
dada por estes autores admitir apenas uma visão de mundo materialista,
científica e unidimensional, negando a riqueza da experiência
humana e destruindo valores sociais, não só da religião,
mas da arte, da estética, da literatura, do amor, da música.
Para Woolnough, o mundo não é unidimensional e existem
muitas perspectivas possíveis para interpretá-lo, cada
uma representando uma forma de conhecimento, cada qual com seus critérios
internos de verdade e validação, que geram descrições
apropriadas para diferentes contextos. Portanto, segundo o autor, a
questão da compatibilidade ou incompatibilidade da religião
e da ciência reside no problema de saber em que contexto e em
resposta a que pergunta devem ser utilizados cada um destes sistemas
de conhecimento. A posição de Woolnough é similar
àquela encontrada no construtivismo contextual (Cobern 1991,
1996; El-Hani & Bizzo 1999). Apoiado em observações
de experiências em situações de ensino multicultural
e tendo como referencial a teoria da visão de mundo de Kearney
(1984), Cobern (1991), mesmo reconhecendo que a religião influencia
fortemente os contornos da visão de mundo em desenvolvimento
na criança, considera ser possível para uma pessoa religiosa
desenvolver uma visão de mundo que, embora não possa ser
considerada científica em todos os seus aspectos, seja compatível
com a ciência.
De maneira oposta, Mahner e Bunge (1996) argumentam
que, ao formar sua visão de mundo, a pessoa tem que optar entre
a perspectiva científica e a religiosa, uma vez que consideram
inviável uma síntese entre religião e ciência,
dadas as diferenças metafísicas, metodológicas,
doutrinárias e atitudinais entre estas formas de conhecimento.
Ao sustentar a tese do conflito inevitável entre ciência
e religião, Mahner e Bunge (1996:112) consideram a existência
de cientistas religiosos não como um indício da possibilidade
de a religião ser compatível com a ciência, mas
como uma demonstração de que “a consistência
do sistema total de crenças de uma pessoa é difícil
de ser alcançada, em particular no meio de uma sociedade na qual
a religião organizada confere um poder político e cultural
formidável”. Eles não admitem, assim, a possibilidade
de uma relação de complementaridade entre formação
religiosa e científica no desenvolvimento de uma visão
de mundo, mediante a estratégia de utilizar os dois discursos
em contextos diferentes, conforme sugerido por Woolnough (1996). A viabilidade
da utilização deste tipo de estratégia para administrar
possíveis conflitos em eventos de cruzamento de fronteiras culturais
no ensino de ciências também é indicada por El-Hani
e Bizzo (1999), ao considerarem a possibilidade
da coexistência de crenças contraditórias na estrutura
cognitiva de um indivíduo. Uma pessoa que se desenvolve
sob a influência tanto de uma religião como da ciência
pode viver, por hipótese, com enormes quantidades de dissonância
cognitiva (Matthews 1994:185), utilizando visões de mundo mutuamente
inconsistentes em diferentes contextos (El-Hani & Bizzo 1999). A
alternativa proposta por Woolnough (1996) pode ser considerada uma abordagem
apropriada para o problema das relações entre formação
científica e religiosa, na medida em que não visa o tipo
de síntese criticada, ao nosso ver com muita propriedade e razão,
por Mahner e Bunge.
Cobern (1991) afirma que, através da
elucidação de episódios históricos como
o conflito entre Galileu e a Igreja Católica, é possível
demonstrar que, ao longo da história da ciência, muitos
cientistas religiosos foram capazes de participar do empreendimento
científico, o que demonstra que é possível ser
religioso e sustentar uma visão de mundo compatível com
a ciência. Ele sugere que a análise desses casos
pode ser bastante relevante nos programas de formação
de professores, uma vez que podem fornecer-lhes elementos para entender
que aspectos deve ter uma visão de mundo suficientemente compatível
com a ciência, de modo que possam buscar desenvolvê-los
em seus próprios alunos. É importante notar, contudo,
que esta perspectiva pode ser alcançada sem uma ruptura do professor
com os pressupostos fundamentais de sua visão de mundo (Cobern
1991; El-Hani & Bizzo 1999).De maneira semelhante, Woolnough (1996)
discute que, tanto nos tempos remotos (Russell 1987), como nos tempos
atuais (Polkinghorne 1987), encontram-se autores que consideram sua
fé religiosa uma motivação positiva para estudar
o mundo. E o fato de tantos cientistas viverem confortavelmente com
sua fé religiosa demonstra que, para eles pelo menos, ciência
e religião não parecem ser incompatíveis.
Para Matthews (1996), embora não haja consenso entre os educadores
científicos a respeito da compatibilidade entre a formação
científica e a formação religiosa, há uma
forte concordância de que o ensino de ciências que pretende
ser culturalmente benéfico não pode deixar de abordar
a questão da interação histórica e contemporânea
das ciências e das religiões, para auxiliar no discernimento
entre ciência e pseudo-ciência, e até entre religião
e pseudo-religião. Para Woolnough (1996), a relevância
de manter-se este tipo de debate na sala de aula de ciências reside
na grande suscetibilidade dos jovens ao ‘charme sedutor’
das pseudo-ciências e do chamado pensamento da nova era.
Matthews(1996) destaca que, a despeito de muitos cientistas modernos
expressarem sua fé religiosa ao tempo em que proclamavam sua
prática científica, pouco se ouve a respeito das suas
convicções religiosas nas salas de aula de ciências.
E, tendo em vista a disponibilidade de “sedutoras histórias
psicológicas, culturais e filosóficas acerca das convicções
destas pessoas”, sugere que este aspecto das biografias dos grandes
cientistas seja melhor explorado.
Cartas de Galileu sobre ciência
e fé: uma contribuição da história das ciências
para a formação de professores de ciências
Tendo como pressuposto a discussão de Cobern (1991) e Matthews
(1996) acerca da pertinência de investirmos na análise
de episódios históricos que revelem a natureza da relação
entre fé religiosa e atividade científica na biografia
de grandes cientistas, pretendemos avaliar o potencial das cartas de
Galileu a Dom Benedetto Castelli (21/12/1613) e à Grã-
duquesa Cristina de Lorena (1615) como recurso didático para
processos formativos que visem auxiliar alunos e professores de ciências
com significativa formação religiosa no que diz respeito
à administração de conflitos entre ciência
e religião, e, assim, a um possível desenvolvimento de
uma visão de mundo compatível com a ciência.
O confronto entre Galileu e a Igreja Católica figura entre os
episódicos históricos responsáveis pela popularização
da tese de que há um conflito inegociável entre a ciência
e a religião, ao tempo em que, certamente, está entre
aqueles que mais têm gerado controvérsias entre os historiadores
da ciência. Existem diversas interpretações a respeito
da origem e do significado do conflito entre Galileu e a Igreja Católica.
Entre elas, a leitura de Geymonat (1997), que o considera uma conseqüência
inevitável do ambicioso programa político-cultural do
cientista de difundir o Copernicanismo como forma de fazer surgir o
espírito científico, colocando em risco a ortodoxia e
a hegemonia cultural da Igreja Católica. Contrariamente, a análise
de Koestler (1989) busca desconstruir a idéia de que tal episódio
histórico consistiu em um inevitável choque de cosmologias
opostas e o atribui ao temperamento impulsivo e polêmico de Galileu
e à sua luta constante para manter seu prestigio como sábio
da época.
Esta controvérsia ilustra a falta de consenso a respeito da natureza
da interação de ciência e religião no âmbito
da história das ciências. Claramente, a interpretação
de Geymonat se aproxima da posição que vê a relação
religião/ciência como um conflito inevitável. Já
Koestler se aproxima da tese de que os supostos conflitos entre religião
e ciência representam, na verdade, conflitos de outra natureza,
relacionados a lutas por prestígio social, autoridade intelectual
e poder político. Ele compartilha da idéia de que a interação
de religião e ciência pode ser vantajosa para ambas, lamentando
e considerando precipitada e improdutiva a separação entre
ciência e religião naquele momento.
As cartas que pretendemos analisar aqui foram utilizadas como fonte
de argumentação tanto por Geymonat como por Koestler.
Elas foram escritas por Galileu em resposta aos ataques proferidos pelos
seus opositores aristotélicos, os peripatéticos da Universidade
de Pisa, os quais utilizaram fundamentos teológicos para invalidar
o Copernicanismo, apresentando citações da Bíblia
com o intuito de provar que a Terra estava no centro do Universo. Nestas
cartas, Galileu busca silenciar as objeções teológicas
ao Copernicanismo, ao tentar compatibilizá-lo com passagens das
Sagradas Escrituras e demonstrar ser possível admitir como igualmente
verdadeiras tanto a tese Copernicana quanto as palavras de Deus expressas
na Bíblia, como podemos observar em trechos da carta à
Benedetto Castelli:
“Quanto à primeira questão genérica
de Madama Sereníssima, parece-me que tenha sido muito prudentemente
proposto por ela, e estabelecido por V. Ver. ª , não poder
a Sagrada Escritura jamais mentir ou errar, e possuírem os seus
decretos absoluta ou inviolável verdade” (Galileu [1613]1988:18).
“Porque, procedendo igualmente do Verbo divino
a Sagrada Escritura e a natureza, aquela como palavra escrita do Espírito
Santo e esta como perfeitíssima executora de suas ordens de Deus,
sabendo-se agora, ainda mais, que as Escrituras dizem muitas coisas
diferentes da verdade absoluta, quanto ao aspecto e significado das
palavras, a fim de adaptarem-se ao entendimento de todos, e sendo todavia,
a natureza inexorável, imutável e indiferente a que suas
recônditas razões e modos de operar sejam sensíveis
ou não ao entendimento dos homens, razão pela qual jamais
transgride aos termos das leis a elas impostas, parece-me que o concernente
aos efeitos naturais, que a experiência sensível coloca-nos
diante dos olhos, ou que as necessárias demonstrações
comprovam, não deva de maneira alguma ser colocado em dúvida
pelas passagens da Escritura devido ao fato de haver nas palavras uma
aparência de significado diferente” (Galileu [1613]1988:19).
Nos trechos acima, podemos identificar que a estratégia
utilizada por Galileu para sustentar a compatibilidade entre Copernicanismo
e dogma católico se baseia na distinção entre a
linguagem utilizada na Bíblia para tratar das questões
morais e da salvação com os homens comuns e aquela utilizada
pelos cientistas para desvendar a verdade a respeito do mundo natural.
A primeira é tida como metafórica, desenvolvida para “adaptar-se
ao entendimento de todos”, e a segunda, uma linguagem precisa,
exata, matemática. Esta distinção, conhecida como
‘o argumento dos dois livros’, o livro da natureza e o livro
da salvação, coloca em questão a legitimidade das
diferentes interpretações literais realizadas pelos interpretes
canônicos, os quais, afora o fato de nem sempre falarem “sob
inspiração divina”, poderiam, “ao ater-se
ao mero significado das palavras”, produzir “não
só diversas contradições, mas graves heresias e
também blasfêmias”. Por outro lado, Galileu destaca
o rigor do discurso científico e seu valor no que concerne à
descrição do mundo natural, legitimando a natureza como
fonte de conhecimento da verdade. Este argumento propõe uma inversão
no estatuto epistemológico aceito na época, ao defender
que, no que diz respeito ao conhecimento sobre o mundo natural e não
às questões de fé, as passagens da Bíblia
deveriam ser reinterpretadas pelos teólogos a partir das conclusões
da ciência.
“Assim sendo, e sendo, ainda mais, pacífico
que duas verdades não podem jamais se contradizer, é ofício
dos sábios expositores esforçar-se por penetrar os verdadeiros
sentidos das passagens sagradas, que serão indubitavelmente concordes
com as conclusões naturais das quais a sensação
manifesta ou as demonstrações necessárias nos tivessem
anteriormente tornados certos e seguros”(Galileu [1613]1988:19).
Desta forma, Galileu, além de legitimar a natureza
como fonte de conhecimento verdadeiro, coloca a impossibilidade de conflito
epistêmico real entre resultados científicos e verdades
religiosas, conforme analisa Lacey ( 2000:5).
Para Geymonat (1997), estas cartas estão inseridas no esforço
de Galileu de promover uma espécie de ação propagandista
para a difusão do Copernicanismo, que significava a possibilidade
de integração da matemática, astronomia e mecânica,
e legitimação da metodologia que torna tais ciências
possíveis, afastando a hegemonia da visão de mundo aristotélica
e de seu espírito metafísico. Como Galileu reconhecia
na aceitação do Copernicanismo o ponto chave para a transição
entre a velha e a nova ciência, e não tinha interesse em
questionar os fundamentos da Igreja, mas sim convertê-la à
ciência moderna para que lhe desse apoio, tratou de empreender
um grande esforço para compatibilizar o sistema de Copérnico
e os dogmas católicos.
É interessante comentarmos que Feyerabend (1989) reconhece e
discute o uso da propaganda por Galileu para defender o Sistema Copernicano
como o principal exemplo histórico para fundamentar sua tese
de que a subversão dos princípios metodológicos
considerados corretos para a produção da ciência
é necessária para o progresso do conhecimento. Para Feyerabend,
Galileu utilizou táticas propagandísticas, truques psicológicos
e táticas persuasivas para induzir a aceitação
da teoria heliocêntrica. Tais táticas são criticadas
por Koestler (1989). Para ele, Galileu, ao utilizá-las, tinha
como objetivo confundir os oponentes e convencê-los de uma teoria
sem, contudo, apresentar provas e argumentos de fato favoráveis
a ela. Estas táticas, portanto, confirmariam sua obsessão
de manter sua autoridade intelectual. Referindo-se aos truques e artifícios
argumentativos presentes na carta à Cristina de Lorena, Koestler
(1989:307) a caracteriza como um texto em que “clássicos
de prosa didática, soberbas formulações de defesa
da liberdade de pensamento” se alternam com “sofismas, fugas
e simples desonestidades”. Na leitura de Feyerabend (1989), no
entanto, a habilidade de combinar sutilmente argumentos científicos
com propaganda, para induzir a aceitação de uma idéia
revolucionária, não diminuem a estatura científica
de Galileu, mas antes demonstram sua genialidade.
A solução encontrada por Galileu, através do argumento
dos dois livros, para as ‘aparentes’ contradições
entre a palavra da Bíblia e o discurso científico, é
bastante similar àquela utilizada pela aluna do curso de Licenciatura
em Ciências Biológicas, de formação evangélica,
cujo relato inicia nosso texto.
“Eu comecei ver a Bíblia
como metáfora. E aí você poderia me perguntar:
Mas por que Deus escreveria por metáforas? Claro que ele escreveria
por metáforas, como é que ele falaria para as pessoas
sobre aminoácidos, sobre moléculas, se hoje com todo conhecimento
que temos é complicado entender, imagine há tanto tempo
atrás.(...) E então eu vejo a Bíblia como metáfora”.
A referida aluna, de modo semelhante à proposição
de Galileu para os teólogos e intérpretes canônicos,
passou a reinterpretar as passagens bíblicas concernentes ao
mundo natural, de maneira a fazê-las concordar com o conhecimento
científico.
“Passei a ver a Bíblia diferente, porque
eu antes a lia como uma regra, como uma inspiração divina
do início ao fim. E eu comecei a ler a Bíblia de outro
modo, a partir deste momento eu comecei a fazer uma adequação
da religião com aquele conhecimento que eu estava criticando.[...].
E começou assim , no Gênese quando eu lia que Deus pegou
o barro e moldou o primeiro homem e insuflou de espírito vital,
ou seja, lhe deu o sopro de vida, na realidade cada elemento que eu
recebia da Bíblia literalmente eu comecei a associar, ou interpretar
de maneira científica, o que seria esse sopro, o que seria esse
barro, e comecei a procurar uma razão científica para
tudo, e por incrível que pareça as coisas foram se adequando”.
Para Galileu ([1613]1988:20), a teologia deveria ocupar-se
dos temas e das proposições que estão fora do alcance
do discurso humano, que só poderiam fazer-se críveis através
da palavra do próprio Espírito Santo. Já a verdade
sobre as questões relacionadas à natureza constitui, para
ele, objeto da ciência, uma vez que pode ser desvendada e dada
a conhecer pelos sentidos, intelecto e discurso humanos, meios que nos
foram dados pelo próprio Deus para conseguir tais conhecimentos.
Esta distinção aparece claramente na carta à Cristina
de Lorena, na argumentação sobre a impropriedade de constranger
as conclusões naturais dos cientistas utilizando-se da autoridade
da Escritura e usando como critério de validação
do conhecimento a harmonia com as passagens desta:
“Ela [a teologia] poderia ser digna deste título
[a de rainha das ciências] porque tudo aquilo que é ensinado
por todas as outras ciências se encontra compreendido e demonstrado
nela, mas com meios mais excelentes e com doutrina mais sublime. [...]
Ou a teologia poderia ser digna do título de rainha porque o
tema de que se ocupa supera em dignidade todos os outros temas que são
matéria das outras ciências e ainda porque os seus ensinamentos
procedem com meios mais sublimes. Que o título e a autoridade
régia cabem à teologia da primeira maneira, não
creio que pode ser afirmado como verdadeiro por aqueles teólogos
que têm alguma coisa prática das outras ciências.
Nenhum deles, creio eu, dirá que a geometria, a astronomia, a
música e a medicina estão contidas de modo muito mais
excelente e exato nos livros sagrados do que em Arquimedes, em Ptolomeu,
em Boécio e em Galeno. Parece, portanto, que a régia sobreeminência
se lhe deve da segunda maneira, isto é, pela elevação
do tema e pelo admirável ensinamento das revelações
divinas no que se refere às conclusões que por outros
meios não poderiam ser captadas pelos homens e que concernem
no mais alto grau de beatice eterna”. (Galileu [1615]1988:58)
Em conversas posteriores com a aluna em questão,
foi possível concluir que, quando ela relatou que passou a preencher
as anomalias que percebia no conhecimento científico com a existência
de Deus, ela quis dizer que passou a reconhecer algumas das anomalias
apontadas anteriormente por ela, na tentativa de desqualificar a ciência
como forma válida de conhecimento, como limites da ciência
em investigar determinadas questões que fugiam ao seu objeto
de estudo e competência, e que só poderiam ser explicadas
‘pela existência de Deus’.
Guardadas as devidas proporções, a distância da
época e o contexto, bem como a finalidade dos dois esforços,
o caminho percorrido por Galileu para compatibilizar as Escrituras,
preservando os dogmas da Igreja Católica, com as verdades produzidas
pelo conhecimento científico, se assemelha muito ao utilizado
pela referida aluna para negociar as fronteiras entre a formação
religiosa e o conhecimento científico ensinado na universidade.
Mais que isso, esta foi a solução encontrada por ela para
não ter que escolher entre renunciar a Deus ou ao conhecimento,
como podemos perceber nas suas tão significativas palavras:
“A princípio eu não sabia o que
pensar. Eu entrei no quarto, e eu tinha uma colega que era muito religiosa,
e eu virei para ela e disse: ‘Bel, se ter conhecimento é
ter que me afastar de Deus, eu prefiro não ter.’ De tão
angustiada que eu ‘tava. E ela disse “Não diga isso
porque Deus é conhecimento’. E a partir deste conflito,
em prol da ciência , em prol da história, eu fui reestruturando
toda minha percepção de mundo, minha concepção
de religião”.
Esta interpretação sugere a possibilidade
de as cartas de Galileu serem utilizadas pedagogicamente para auxiliar
estudantes e professores de ciências a estabelecerem diálogos
mais produtivos entre a formação religiosa e a científica.
Desse modo, parece possível, a princípio, evitar um confronto
aberto, que poderia acabar levando à negação de
uma delas, evitando-se também uma síntese, usualmente
baseada na distorção de ambos os discursos e construída
sobre fundamentos inconsistentes. Por exemplo, pode-se estabelecer uma
relação de complementaridade, em que ciência e religião
são chamadas a responder a distintas questões e necessidades
humanas, sendo utilizadas, contudo, em diferentes contextos. Esta é
uma alternativa que não foi contemplada por Mahner e Bunge (1996),
mas por Woolnough (1996), que não concorda com a possibilidade
da síntese criticada pelos primeiros, mas tampouco com o mero
confronto.
Ademais, como reconhecido pelo próprio Koestler, encontramos
nas cartas de Galileu verdadeiras lições didáticas
sobre vários aspectos epistemológicos da ciência.
Encontramos, por exemplo, na sua argumentação a favor
da teoria de Copérnico, várias contribuições
a respeito dos critérios de validação do conhecimento
científico, como, por exemplo, referências à adequação
empírica e ao poder explicativo como critérios para decidir
entre duas teorias científicas, como ilustrado nos dois parágrafos
abaixo:
“... além disso, percebendo que vou confirmando
tal posição, não só com a refutação
das razões de Ptolomeu e de Aristóteles, mas com a apresentação
de muitas razões em contrário; em particular, de algumas
atinentes a efeitos naturais cujas causas talvez não possa se
determinar de outra maneira, e de outras razões astronômicas
derivadas de muitos cotejos com os novos descobrimentos celestes, os
quais refutam abertamente o sistema Ptolomaico e concordam admiravelmente
com esta outra posição e a confirmam” ( Galileu
[1615]1988:43)
“... para executar tal determinação,
seria necessário proibir não só o livro de Copérnico
e os escritos de outros autores que seguem a mesma doutrina, mas também
toda a ciência da astronomia inteira. E mais : proibir os homens
de olhar para o céu para que não vejam Marte e Vênus,
ora próximos da Terra, ora muito afastados (...), para que a
própria Vênus não seja percebida ora redonda, ora
em forma de foice com pontas finíssimas e muitas outras observações
que de modo algum podem se ajustar ao sistema Ptolomaico, mas que são
argumentos finíssimos do Copernicano” (Galileu [1615]1988:61)
Apesar das diferentes leituras disponíveis na
literatura sobre a história das ciências, as escolas e
os livros didáticos, como destaca Zylbersztajn (1988), apresentam
aos estudantes apenas a imagem empirista de Galileu. Os professores
de Ciências reforçam esta imagem, ao que parece, não
em função de uma escolha fundamentada, mas muito provavelmente
por não conhecerem a história das ciências e não
terem tido acesso às demais versões a respeito do método
galileano. As cartas aqui analisadas apresentam contribuições
a este respeito e podem prestar-se à desconstrução
da imagem de Galileu como típico cientista que privilegia o papel
dos dados empíricos na fundamentação de suas teorias.
Esta imagem vem legitimando uma concepção experimentalista
do método científico, freqüentemente transmitida
no ensino médio e fundamental. Em alguns trechos da carta à
Cristina de Lorena, Galileu deixa claro que considera como características
do pensamento científico não apenas estar fundamentado
em dados empíricos, mas também apoiar-se “sobre
abstrações que, para ser concebidas, requerem imaginação
excessivamente ousada” (Galileu [1615]1988:65). Geymonat (1997),
referindo-se também ao conteúdo destas cartas, comenta
que Galileu supera o velho espírito empirista, ao reconhecer
tanto a ‘experiência sensível’ quanto a ‘demonstração
precisa’ como instrumentos para a produção de conhecimento,
sem estabelecer uma dualidade, mas reconhecendo uma profunda unidade
dinâmica entre experiência e razão.
Dessa forma, parece-nos que estamos diante de um poderoso recurso para
auxiliar professores e alunos de formação religiosa a
melhor administrarem os conflitos entre ciência e religião,
bem como a desenvolverem uma visão de mundo compatível
com a ciência, tanto pelo fato de sugerir uma estratégia
viável para a resolução de incompatibilidades entre
conhecimento científico e dogmas religiosos, semelhante àquela
identificada por Woolnough (1996), como por contribuir para uma melhor
compreensão da natureza da ciência.
Considerações
finais
Brooke (1991), analisando as teses a respeito das relações
entre religião e ciência, considera prudente reconhecer
a complexidade da questão e a dificuldade de tecer teses gerais.
Para o autor, a história das ciências tem mostrado que
muitos dos conflitos que pareciam envolver a ciência e a religião
eram, na verdade, conflitos entre interesses científicos em disputa
ou entre facções teológicas rivais, ou conflitos
em que questões de poder político, prestígio social
e autoridade intelectual estavam em jogo. De forma pertinente, este
autor adverte ser necessário, antes de tecer qualquer consideração
mais séria a respeito das relações entre ciência
e religião, definir tais termos, reconhecendo tratar-se de uma
tarefa complexa, em vista da diversidade de manifestações
religiosas e da falta de consenso entre filósofos e cientistas
acerca da definição de ciência. Ele considera também
que “a antítese popular entre ciência, concebida
como um corpo de fatos inquestionáveis, e religião, concebida
como um conjunto de crenças não-verificáveis, é
seguramente simplista” (Brooke 1991:6). Estes comentários
são certamente relevantes para a apreciação das
generalizações de Mahner e Bunge a respeito das relações
entre ciência e religião.
Através da análise de exemplos históricos, Brooke
(1991) demonstra que concepções teológicas e científicas
foram mutuamente relevantes no passado. Percebendo que as preocupações
filosóficas e teológicas não estavam desvinculadas
da investigação científica sobre o mundo natural,
quando da emergência da ciência moderna, fato ilustrado,
por exemplo, no comportamento de Newton, ele considera que o foco da
discussão não deve ser a incompatibilidade ou compatibilidade
entre ciência e religião. Ele
propõe, assim como Matthews (1996), a investigação
das conexões epistemológicas entre as convicções
religiosas dos cientistas e as suas práticas científicas.
Estudando esta relação na biografia de cientistas como
Galileu, Newton, Descartes, Boyle, Cuvier etc., é possível
que encontremos diferentes estratégias de conciliação
entre religião e ciência, que podem ser discutidas com
os alunos das licenciaturas em ciências, para que possam amadurecer
um caminho próprio de administração de conflitos
entre a formação religiosa e a formação
científica. Pretendemos estender esta investigação
em dissertação de mestrado vinculada ao Programa de Pós-Graduação
em Ensino, Filosofia e História das Ciências (UFBA/UEFS),
com o objetivo de sugerir novas propostas pedagógicas para cursos
de licenciatura em ciências biológicas.
Referências Bibliográficas
ABELL, S. K. & SMITH, D. C. 1994. What is
science? Preservice elementary teacher’s conceptions of the nature
of science. International Journal of Science Education 16(4):475-487.
ASTOLFI, J.-P. & DEVELAY, M. 1991. A Didática das Ciências.
Campinas: Papirus.
BRICKHOUSE, W. 1990. Teacher’s beliefs about the nature of science
and their relationship to classroom pratices. Journal of Teacher Education
41(3):53-62.
BROOKE, J. H. 1991. Science and Religion: Some Historical Perspectives.
Cambridge: Cambridge University Press.
COBERN, W. W. 1991. World View Theory and Science Education Research.
Manhattan-Kansas: NARST.
COBERN, W. W. 1996. Worldview theory and conceptual change in science
education. Science Education 80(5):579-610.
EL-HANI, C. N. & BIZZO, N. 1999. Formas de construtivismo: Teoria
da mudança conceitual e construtivismo contextual, in: Moreira,
M. A. & Ostermann, F. (Orgs.). Atas do II Encontro Nacional de Pesquisa
em Educação em Ciências.
EL-HANI, C. N & SEPULVEDA, C. 2001. Analisando as relações
entre educação científica e educação
religiosa: I. Professores de Ciências podem evitar o fisicalismo?
Artigo submetido ao III Encontro Nacional de Pesquisa em Educação
em Ciências.
FEYERABEND, P. 1989. Contra o Método. Rio de Janeiro: Francisco
Alves.
GALILEI GALILEU. 1988. Ciência e Fé. São Paulo:
Nova Stella Editorial.
GEYMONAT, L. 1997. Galileu Galilei. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
HARRES, J. B. S. 1999. Uma revisão de pesquisas nas concepções
de professores sobre a natureza da ciência e suas implicações
para o ensino. Investigações em Ensino de Ciências
4(3).
KEARNEY, M. 1984. World view. Novato-CA: Chandler & Sharp.
KOESTLER, A. 189. O Homem e o Universo: Como a Concepção
do Universo se Modificou Através dos Tempos. São Paulo:
IBRASA.
LACEY, H. 1996. On relations between science and religion. Science &
Education. 5(2):143-153.
LACEY, H. 2000. Como devem os valores influenciar a ciência? Aula
inaugural do Curso de Mestrado em Ensino, Filosofia e História
e Ensino das Ciências (UFBA/UEFS).
LEDERMAN, N. G. 1992. Students’ and teacher’s conceptions
of the nature of science: a review of the research. Journal of Research
in Science Teaching 29(4):331-359.
LEDERMAN, N. G. & O’MALLEY. 1990. Students’ perceptions
of tentativeness in science: development, use and sources of change.
Science Education 74(2):225-239.
LEDERMAN, N. G. & ZEIDLER, D. L. 1987. Science teacher’s conceptions
of the nature of science: do they really influence teaching behavior?
Science Education 7(5):721-734.
MAHNER, M & BUNGE, M. 1996. Is religious Education Compatible with
Science Education? Science & Education 5(2):101-123.
MATTHEWS, M. R. Science Teaching: The Role of History and Philosophy
of Science. New York, Routledge, 1994.
MATTHEWS, M. R 1996. Editorial. Science & Education 5(2):91-99.
MATTHEWS, M. R. 2000. Time for Science Education. How Teaching the History
and Philosophy of Pendulum Motion Can Contribute to Science Literacy.
New York:Kluwer Academic/ Plenum.
MELLADO, V. 1997. Preservice teacher’s classroom practice and
their conception of the nature of science. Science & Education 6:331-354.
MORTIMER, E. F. 1994.Evolução do Atomismo em Sala de Aula:
Mudança de Perfis Conceituais. São Paulo: FE-USP. Tese
de Doutorado.
MORTIMER, E. F. 1995. Conceptual change or conceptual profile change?
Science & Education 4(3):265-287.
MORTIMER, E. F. 1996. Construtivismo, mudança conceitual e ensino
de ciências: para onde vamos? Investigações em Ensino
de Ciências 1(1):20-39.
POLKINGHORNE, J. 1987. The faith of a Physicist. Physics Education 22:12-14.
POOLE, M . 1996. ‘... for more and better religious education’.
Science & Education 5(2):165-174.
PORLÁN, R. 1994. Las concepciones epistemológicas de los
professores: el caso de los estudiantes de magisterio. Investigación
en la Escuela 22:67-84.
PORLAN, R.; RIVERO, A. & MARTÍN DEL POZO, R. 1997. Conocimiento
profesional y epistemologia de los professores. I: teoria, metodos y
instrumentos. Enseñanza de las Ciencias 15(2):155-173.
RUSSELL, C.A.1987. Some founding fathers of physics. Physics Education
22:27-33.
SEPÚLVEDA, C. 2001. Limites e perspectivas da formação
continuada dos professores de ciências: experiência no programa
Pró-Ciências CAPES/UEFS. Revista da FAEEBA 14:159- 176.
SETTLE, T. 1996. Applying scientific openmindedness to Religion. Science
& Education 5(2): 125-141.
SIEGEL, H. 1981. Creationism, evolution, and education: The California
fiasco. Phi Delta Kappan 63(2):95-101.
TURNER H. 1996. Religion: impediment or saviour of science? Science
& Education 5(2):155-164.
WREN-LEWIS, J. 1996. On babies and bathwater: a non-ideological alternative
to the Mahner/Bunge proposals for relating science and religion in education.
Science & Education 5(2):185-188.
WOOLNOUGH, B. 1996. On the fruitful compatibility of religious education
and science. Science & Education 5(2):175-183.
ZYLBERSZTAJN, A. 1988. Galileu – Um cientista e várias
versões. Cadernos Catarinenses de Ensino em Física 5(Número
Especial):36-48.
http://www.comciencia.br/200407/reportagens
topo