Conta-se que Beethoven, o grande compositor, foi visitar seu irmão
que havia ganho muito dinheiro e adquirira propriedades. Era costume
na época, haver uma placa na entrada das residências, com
o nome do dono. Diante da luxuosa residência, a placa continha
os seguintes dizeres: Johann Van Beethoven, proprietário de terras.
Outro costume, era o visitante escrever seu nome num cartão,
que o mordomo levava ao patrão, anunciando quem chegara. O compositor
então escreveu: Ludwig Van Beethoven, proprietário de
um cérebro.
Caso Beethoven não fosse quem era em
termos de independência íntima, altaneria e confiança
em si, não teria rompido com regras limitadoras da composição
musical e não deixaria as obras de gigante que legou à
humanidade, mas temeria os "poderosos" e se submeteria ao
que os outros queriam que ele fosse e fizesse.
Ser quem foi e como foi não impediu que a vida
dele tivesse muitas dificuldades. Suas grandes capacidades não
fizeram dele um deus. Foi só um ser humano.
Mas perdura o pensamento de que deveria ser diferente...
Por que certas pessoas sofrem? Por que sofro se "sou boa pessoa
e não faço mal a ninguém"?
O Espiritismo aplicado no dia-a dia tem mostrado o quanto
somos pródigos em ilusões, que devem ser próprias
de nosso grau evolutivo. Mas será que não poderíamos
encurtar um pouco o caminho que nos leva a um patamar de maior equilíbrio,
pela adoção e vivência de idéias mais condizentes
com a verdade?
Ainda está muito entranhada na sociedade, a idéia
de que os sonhos, os "contos de fadas" são melhores
do que a realidade da Vida, que é vista como dura e feia. E essa
já é uma idéia ilusória, porque no passar
do tempo a realidade é melhorada e a ilusão trás
a dor da desilusão.
A quantidade de revistas e programas de TV sobre a vida
glamourosa dos famosos e o êxito que alcançam, mostra bem
o quanto se busca a ilusão e o quanto a vida das pessoas está
desinteressante.
Sim, claro que não é proibido gostar de
saber como vivem os outros, o que pode até exemplificar boas
e más condutas, mas a questão básica não
está aí. Está em se buscar nessas pessoas, modelos
ideais para nossas vidas.
Porque todos têm qualidades admiráveis,
todos nos ensinam algo, mas ninguém é deus.Nem os cientistas,
nem os filósofos, nem os sábios, nem os gurus, nem os
Espíritos superiores, nem os espíritas famosos, nem os
livros, nem nada e nem ninguém é deus. Só Deus
é Deus!
Pode parecer óbvio, mas não custa nada
observar se não temos, lá num cantinho bem guardado, o
desejo e a sensação de que alguém maravilhoso vai
chegar em nossa vida e nos mostrar os melhores caminhos, vai nos proteger
de todo mal, vai nos orientar de forma completa e depois, tudo estará
bem e poderemos descansar sem preocupações, pois estaremos
prontos e estarão acabadas todas as dúvidas e dificuldades.
Voltando ao passado dessa vida, não teremos escolhido,
de tempos em tempos, alguém, um livro, conceitos, idéias,
como nosso senhor e salvador, achando que "agora encontrei o que
queria e tudo vai dar certo"? Só que o milagre não
acontece e decepcionados e revoltados largamos esse deus, para logo
depois surgir outro e acharmos que "agora sim..." E tudo se
repetir.
Estaremos de algum modo agindo dessa forma? Se sim,
precisamos de tratamento urgente, pois estamos com as síndromes
do deus disse e do pronto e acabado.
Nos Princípios do Espiritismo encontramos cura
para esse mal da alma, a começar pelo ensino do processo evolutivo
gradual e contínuo a que todos estamos submetidos. Mas a cura
só se faz se usarmos essas informações na vida
diária. Outros podem nos ajudar, os livros nos esclarecem, nosso
anjo de guarda nos intui, mas ninguém pode fazer por nós.
E só saber não é suficiente. É indispensável
sermos mestres de nós mesmos, nos ensinando a usar o que sabemos.
A Vida, a Ciência, as descobertas interiores,
o Amor, são sempre feitos de uma longa seqüência de
portas que se abrem. Quem entra desfruta do que há no local.
Depois nota que existe uma outra porta. Abrindo-a haverá outro
ambiente e poderá desfrutar dele, para depois notar outra porta.
E assim sucessivamente, cada local tem suas próprias características,
mas nenhum tem todas. Algumas pessoas vão indo pelas portas.
Outras param e não querem seguir. E outras voltam para trás,
por sentirem segurança só no que já conhecem.
Se quisermos caminhar enfrentando o desconhecido de
cada situação boa ou má, ganhamos experiências
e discernimento para nos aproximarmos da felicidade. Mas se quisermos
esperar que um deus faça por nós...
Às vezes é preciso "pegar o touro
a unha", sendo firmes com as atitudes e exercícios pessoais,
porque não existe melhoria sem o necessário adestramento.
Somos "pegos" no que ignoramos e muitas vezes
esse ignorar de informações ou de vivências é
fruto apenas da preguiça que impede a mínima disciplina
interior em nosso favor.
Jornal
do CEEM - Ano X - Edição nº09 - Fevereiro de 2007
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