"O Brasil foi o primeiro país da América do Sul a
receber noticias sobre as mesas girantes."
Isabelle Sarmento*
“Haverá grandes mudanças no século dezenove.
Coisas que, atualmente parecem obscuras e misteriosas para vocês,
tornar-se-ão claras aos seus olhos. Os mistérios vão
ser revelados. O mundo será esclarecido”.
Uma certa força central que se dizia Benjamin Franklin
(Doyle, 1960)
Os precursores
do Espiritismo que evidenciaram a comunicação
entre os dois mundos, o dos vivos e o dos supostamente mortos, são
inúmeros. As visões do sueco Swedenborg, a mediunidade
inconsciente de Gottlieben Dittus, a clariaudiência do príncipe
Luis XVII, os fenômenos com o trabalhador escocês Edward
Irving e a extraordinária mediunidade clarividente e clariaudiente
do “profeta da nova revelação”, Andrew Jackson
Davis, revelaram um novo mundo de conhecimentos até então
quase ocultos aos homens.
A nova era espiritualista
teve início em 31 de março de 1848 com os fenômenos
de Hydesville, que ficava perto da cidade de Rochester, em Nova Iorque,
nos Estados Unidos da América. Ali morava a família metodista
Fox, composta de três filhas (Leah Fox, Margaret Fox e Katerine
Fox), duas das quais viviam com os pais (Maggie e Kate), já Leah
era professora de música em Rochester. A família se estabeleceu
na humilde casa desde 1847, no entanto foi no ano seguinte que barulhos
estranhos começaram a acontecer. Esses ruídos misteriosos
despertaram a curiosidade da pequena Kate, então com 11 anos,
que decidiu manter um certo diálogo com os supostos ruídos.
Através dessa primitiva comunicação, ficou-se sabendo
que o autor das pancadas era o Espírito do vendedor ambulante
Charles B. Rosma, que fora assassinado há cinco anos pelo antigo
proprietário da casa e enterrado na adega. Utilizando-se do alfabeto,
David S. Fox, irmão do Sr. Fox, iniciou uma comunicação
sistemática com os Espíritos. Por este processo, a primeira
mensagem reveladora da Previdência Divina foi obtida: “Caros
amigos, deveis proclamar ao Mundo estas verdades. É a aurora
de uma nova era, e não deveis tentar oculta-lá por mais
tempo. Quando houverdes cumprido o vosso dever, Deus vos protegerá,
e os Bons Espíritos velarão por vós”. (Wantuil,
1945, p. 7)
Até a descoberta do corpo do mascate, 56 anos
depois dos ruídos (rappings, Moises e knockings), as irmãs
Fox foram alvo de muitas acusações e várias experiências,
a fim de desmascará-las ou definitivamente descobrir-se o que
eram aqueles sons. A descrição completa da comprovação
do assassinato se acha no número do Boston Journal, de 23 de
novembro de 1904. Essas descobertas, diz Conan Doyle, fecharam a questão
para sempre e provam, de forma concludente, que foi cometido um crime
naquela casa.
Com o fim das investigações públicas
em Nova Iorque e a afirmação da veracidade dos fenômenos,
entre eles o das mesas girantes (table-moving),
cresceu a curiosidade em torno deles. A imprensa dos Estado Unidos ocupou-se
em disseminar a notícia. Antes de terminar o ano de 1850, alguns
Estados da União já contavam com numerosos Centros de
estudos do Moderno Espiritualismo que, até então, ainda
não tinha recebido o nome de Espiritismo pelo seu codificador
Allan Kardec. No entanto, era necessário difundir a Terceira
Revelação na Europa, o centro do mundo naquela época.
“Prepararam então os Espíritos Superiores
a entrada dos novos ensinos naquelas velhas paragens históricas,
onde campeava o cepticismo e o materialismo. Bem mais cedo do que se
supunha, aqueles extraordinários fenômenos, negados pela
Ciência, explorados pelos charlatões, ridicularizados pelos
jornais, anatematizados por diferentes seitas, sofrendo desde o inicio
formidável oposição, acompanhadas, por vezes, de
cenas selvagens, em que houve a deplorar violências, grosserias
e absurdos de toda a espécie, – atravessaram o Oceano Atlântico
e invadiram a Europa”. (Wantuil, p. 17).
Em pouco tempo o fenômeno
das mesas girantes tornou-se moda na Europa. Em 1852, eram comuns
os convites para reuniões elegantes, em salões na Inglaterra,
onde, após o chá, as pessoas se divertiam consultando
tais objetos voadores. Além das formas rudimentares de comunicação
com o mundo invisível, como a das pancadas, outras foram imaginadas
e empregadas. A corbeille (ou carrapeta) era uma cestinha de vime usada
para servir vinho em garrafa, na qual fixava-se um lápis na sua
extremidade, em cuja ponta pode apoiar-se e deslizar sobre uma ardósia
(lousa). Os circunstantes colocam o dedo indicador sobre a borda da
cesta que, após certo tempo, movimentava-se escrevendo palavras
e frases inteiras. O Sr. Kardec utilizou este método em muitas
de suas experiências.
Enquanto no Velho Mundo o fenômeno das mesas girantes
crescia e, junto com ele, aumentavam as discussões sobre sua
legitimidade, seja com finalidade de estudo ou de recreação,
na América do Sul, “o grandioso movimento preparatório
do Espiritismo” (Wantuil, 1945, p. 124) também começava
a ter repercussão. A nobreza do Rio de Janeiro pode ter sido
o primeiro lugar aonde as notícias vindas da Europa aportaram.
O Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, foi o primeiro periódico
da Imprensa brasileira a divulgar as tabolas
volleantes.
O Diário de Pernambuco,
o jornal mais antigo até hoje em circulação na
América Latina, cujo primeiro exemplar circulou em 1825, publicou
uma matéria, na parte destinada às noticias do Exterior,
sobre os fatos que atraiam a curiosidade geral do povo europeu. Na edição
de 2 de julho de 1853, o correspondente do Diário de Pernambuco
em Paris, noticiou a seguinte matéria:
Paris, 20 de maio de 1853
“Apesar das preocupações políticas, um facto
bizarro e que talvez não lhe eh desconhecido, attrahe neste momento
a attencao curiosa do publico, quero falar do phenomeno das tabolas
volleantes (tables tournantes). Esta bizarra descoberta nos veio da
América do Norte, porem aclimatou-se logo em Franca, onde faz
andar em roda todas as cabeças. Na hora em que lhe escrevo, não
se pode por pe em um salão, sem ver toda a sociedade em torno
de uma mesa redonda tendo cada um o dedo mínimo apoiado no do
visinho, e esperando todos em silencio que a tabula queira voltar. Nesta
posição se esta quinze minutos, meia hora e ate uma hora,
como se estivesse occupado de um negócio importante. Algumas
vezes a experiência falha, mas quase sempre tem resultado, e a
mesa arrasta em seu movimento os experimentadores contentes e admirados.
A mesma experiência se faz com os chapéus, sapatos, e uma
multidão de objectos inertes, os quaes recebem igualmente o impulso
do fluido magnético. Tomei parte em algumas dessas experimentações,
ajudei a fazer voltar a tabola, e affirmo-lhe que o phenomeno se produzio
realmente.
Nossa academia das sciences esta embaraçada/
ella não quer admittir um resultado contrario as leis da physica,
mas, entretanto, lhe e um facto, e se prova alguma cousa he certamente
nossa ignorância de certas relações entre o ser
animado e a matéria bruta. Os magnetisadores estão maravilhados,
porque nos novos factos que se produzem, acham a demonstração
da verdade de seu systema. Eu os tinha como charlatões, que exploravam
a curiosidade pública, quando pretendem fazer descobrir os objectos
ronhados *ou predizer o futuro. Hoje quase que creio que não
he tudo mentira nas suas momices *, e que se poderia tirar do magnetismo
alguas meio de reconhecer as doenças e de cura-las. Chamam o
nosso mundo bem velho, ao ver o que se passa, parece que elle esta ainda
na infância e que nossos netos hão de ver cousas estranhas.
Em verdade desejar-se-hia viver por curiosidade”.
* Ronha – s.m. Malícia, manha, astúcia.
* Momices – s.f. Trejeitos, esgares, caretas.
Referências Bibliográficas:
CORRESPONDENTE EM PARIS. Paris, 20 de maio de 1853. Diário de
Pernambuco, Pernambuco, 02 de jul. 1853. Coluna Exterior, p.2.
DOYLE, Arthur Conan. História do Espiritismo. São Paulo,
Ed. Pensamento, 1960.
MIGUEL, Alfredo. As Heroínas de Hydesville. Bahia, Tipografia
Naval, 1948.
WANTUIL, Zëus. As Mesas Girantes e o Espiritismo. Rio de Janeiro,
Ed. Federação Espírita Brasileira, 1945.
* Isabelle Sarmento - Coordenadora de Infância
da Mocidade Tio Chico, do Lar Espírita Chico Xavier
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