*15/12/1906 - 26/12/1988
"Um apelido como qualquer outro" era a resposta
que Euclides Barbosa dava quando lhe perguntavam de onde ou do que havia
surgido o apelido Jaú.
Evitava falar de sua vida e das mulheres que sempre
povoaram sua existência de alegrias e muitos dissabores. Apenas
dizia que, como filho de Ogum, estava seguindo à risca os ensinamentos
de seu pai.
De fato, o cidadão Euclides Barbosa, que ficou
conhecido como Jaú, sempre foi um líder, desbravando territórios
que ainda não haviam sido tocados por nenhum outro brasileiro.
Sua espiritualidade, como a de todos os seres que são
contemplados com este tipo de missão, surgiu nos primeiros anos
de sua vida, mas a visita a algumas benzedeiras da época retardou
a explosão espiritual, que se deu após encerrar sua brilhante
carreira como jogador de futebol.
"Sou uma pessoa que tem três pesos
e três medidas: sou da raça negra, umbandista e corintiano."
Sábias palavras de quem tinha um parco conhecimento
das letras, mas um infinito instinto de sobrevivência e de garra
para não se deixar derrubar por nada neste mundo.
Suas façanhas no futebol foram cantadas em versos
e prosa; a mais conhecida foi um jogo de vida e morte do "Coringão".
Jaú, em uma dividida de bola, acabou tendo um
ferimento grave na cabeça. Sua presença era essencial
para que o time conseguisse vencer o adversário.
Foi nesse instante que recebeu, pela primeira vez, uma
mensagem espiritual, e a levou a sério.
Jaú estava deitado na maca, fora das linhas do
campo, o médico dizendo ao técnico que ele não
poderia voltar ao jogo, pois o sangue não parava de jorrar e,
provavelmente, ele havia sofrido uma concusão cerebral; somente
um milagre faria com que ele se levantasse. Quando olharam para o lado,
Jaú estava de joelhos, olhando para o infinito, como se estivesse
ouvindo instruções, e passou a mão no gramado,
arrancou um chumaço de grama, colocou no ferimento, e, ainda
seguindo as instruções, enfaixou a cabeça. Depois,
solenemente encostou a testa na terra e levantou-se, como que impulsionado
por uma mola, entrando vitorioso no campo, sob os aplausos da torcida
e a perplexidade do médico e do técnico.
Mais tarde, este gesto de tocar o solo do gramado com
a testa passou a ser marca registrada do grande jogador e tinha tanta
influência entre os colegas que ninguém se atrevia a colocar
os pés no gramado sem que houvesse o toque da sorte, como passou
a ser conhecido.
Quando Jaú pendurou as chuteiras e passou a dedicar-se
inteiramente à sua missão religiosa, teve realmente de
ter o mesmo espírito de luta que sempre lhe acompanhou nas disputas
esportivas.
Sua religião era mais discriminada do que ser
da raça negra ou então ser corintiano.
Mesmo sem jogar, continuou fazendo, no Pacaembu, toda
a vez que o timão fosse jogar, suas "mandingas" no
campo para dar sorte aos jogadores.
O radialista Estevam Sangirardi imortalizou a figura
de Jaú nos programas que eram apresentados após cada jogo
e ninguém reclamava, pois realmente era uma homenagem merecida
ao grande guerreiro.
Na religião, não teve tanto reconhecimento,
ao contrário, foi o mais discriminado, o mais criticado e o mais
perseguido pela polícia, que juntava a bronca de Jaú ter
sido grande jogador corintiano com o fato de sua magia ainda ajudar
nas grandes partidas.
Foi preso diversas vezes, sob alegação
de estar praticando feitiçarias. Passou por muitas torturas,
como ficar horas ajoelhado no milho; dias e noites sem comer, recebendo
apenas goles de água. "Se ele recebe mesmo espíritos,
não precisa comer nem beber", satirizavam os carrascos.
Por fim, acabavam libertando-o, pois os filhos-de-santo se aglomeravam
defronte à delegacia e, cantando pontos de Umbanda, pediam a
libertação de Pai Jaú.
Uma das torturas mais cruéis ocorreu quando o
Timão estava disputando uma final e Pai Jaú, ao acabar
de fazer sua mandinga de sorte, disse ao técnico que o zagueiro
deveria ficar mais solto, pois o gol da vitória estaria em seus
pés. Não deu outra e o Timão foi campeão
daquele ano. Não mencionaremos o nome do time adversário
para não causar constrangimento, pois temos certeza de que o
ato praticado por alguns indivíduos não era a vontade
de todos os torcedores.
A noite, Pai Jaú estava fazendo seu trabalho
espiritual, quando seu pequeno terreiro foi invadido por policiais,
que alegaram ter recebido uma denúncia de que no local estavam
promovendo uma orgia pela vitória do Timão. Pai Jaú
foi arrastado para o camburão e levado para a delegacia, não
na mesma de sempre, o que dificultou aos filhos localizarem prontamente
e pedirem sua soltura.
Até que fosse encontrado, na noite seguinte,
Pai Jaú passou pela humilhação de ficar no "pau-de-arara",
levando choques e foi jogado entre marginais de outros times, que o
espancaram.
Não satisfeitos, os policiais separaram dez palitos
de fósforo, fizeram pontas bem finas e enfiaram, bem devagarzinho,
entre as unhas das mãos de Pai Jaú, que nesse momento
invocou a proteção do Sr. Ogum.
Foi atendido; quando os carrascos acenderam os palitos,
ele começou a ver, nas chamas, uma espécie de luz, formando
uma figura de índio. De seus olhos escorreram lágrimas,
não de dor e sim de pena daqueles sujeitos que acharam que estavam
lhe fazendo um grande mal. Estavam lhe proporcionando passar por um
grande milagre espiritual.
Os policiais foram afastados a bem do serviço
e nunca mais Pai Jaú foi perseguido pela polícia.
Até os 82 anos, idade em que faleceu, Pai Jaú
atendia pessoas todas as quartas-feiras. Todos admiravam seu caboclo,
pois sempre vinha do mesmo jeito, independente da idade ou da saúde
do velho guerreiro. Na incorporação, seu corpo estirado
se elevava mais de um metro do chão e, ao tocar no solo, o caboclo
batia a cabeça no chão, no gesto característico
do grande Decano.
Como já aconteceu com muitos sacerdotes, por
não deixar por escrito sua vontade, após sua morte, no
que diz respeito a cerimônia e legados, Pai Jaú sofreu
a discriminação e o desrespeito. Seus filhos-de-santo
não puderam fazer nada, pois a família, com exceção
de seu filho Jair, que nunca havia participado de sua vida, proibiu
qualquer cerimonial umbandista e, no dia seguinte ao enterro, sua filha
evangélica desmontou o congá, jogou tudo na rua e colocou
fogo, sob os olhos atônitos dos vizinhos, que não puderam
ou não quiseram interferir.
Terminava assim a trajetória de um homem que
honrou seu tempo, seus amigos e seus filhos espirituais, mas que recebeu
muito pouco ou quase nada em troca, a não ser sua própria
luz na eternidade.
Ao Velho Pai Jaú,
por seu Dia de Glória
Guarulhos/SP - 27 de maio de 1984 - domingo de sol brilhante
em praça de esportes apinhada de amigos e companheiros de ontem,
hoje e sempre, todos ávidos por abraçar aquela figura
simples e humilde, que irradia amor e respeito. A gratidão dos
ali presentes se manifesta no riso e nas lágrimas, no abraço
fraterno e nas reminiscências.
Uma partida de futebol em sua homenagem, à volta,
em torno do gramado sob aplausos comovidos, pois presente estava, bem
junto de nós, aquele garoto que confortou e cuidou dos hansenianos,
que transmitiu aos seus contemporâneos de outrora a palavra de
incentivo à prática esportiva, formadora de homens de
corpo e mente sãos, haja vista que, com seu comportamento digno,
fazia chegar às consciências os exemplos de uma vida sem
mácula, dedicada ao trabalho e ao auxílio fraterno a quantos
o procuravam; muita caridade, muita fé e trabalho, sem esmorecimento
e sempre olhando para frente. Ali presente; o menino da várzea,
o rapaz de campo do matadouro, onde fundou seu primeiro clube esportivo
no município; o homem que capitaneou e honrou as cores da camisa
do selecionado brasileiro de futebol; o Babalorixá que durante
todos esses anos vem praticando e prestando a caridade a todos os irmãos
em humanidade, e que no passado a incompreensão e a perseguição
inquisitorial algum dia afastou por breves anos daquele município.
Mas, alguns anos são nada diante da eternidade
e, neste domingo de sol e reconhecimento do povo, dos amigos e das autoridades
ao nosso venerado Pai Jaú, sentia-se nele felicidade e o prazer
ao correr a vista à sua volta e rever o cenário, algo
modificado pelo tempo e pelo progresso, todavia, aqueles mesmos locais,
os companheiros já também encanecidos pelo tempo, e divisava-se
em cada rosto a alegria festiva de rever, naquele homem simples e bom,
a árvore frondosa de uma existência digna, exemplo vivo
do cidadão eterno, quer em sua vida particular, quer na sua vida
pública, mais ainda com o emérito sacerdote de uma Umbanda
que a cada dia vê crescer em número e representatividade.
Ainda hoje as suas palavras são de amor e respeito às
crianças e aos idosos, de incentivo aos que temporariamente
encontram-se no desespero e, primordialmente, de união entre
os seus irmãos de fé e para a humanidade, a fim de que
cheguemos todos à paz.
"A nós outros, que temos a felicidade
e o privilégio de poder compartilhar os passos de Pai Jaú,
fica indelevelmente gravado em nossas mentes suas palavras e ações,
sua vida, nomes e acontecimentos que não caberiam em um
único livro, mas o exemplo maior de infinita caridade e amor,
distribuídos à mancheias que a nossa pequenez permite
apenas e mui palidamente tentar imitar. Que Oxalá o abençoe
e guarde hoje e sempre. Sua benção Pai Jaú."
Rui N. Chagas
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