O grande psicólogo norte-americano Carl Rogers fez em 1979 um
relato pessoal sobre a perda da sua querida esposa Helen, uma antiga
amiga de infância. Ele tinha consciência de que as suas
palavras teriam grave repercussão no mundo acadêmico e
materialista reinantes nos EUA e no mundo ocidental. Mas Rogers não
estava muito preocupado com as aparências. Já em idade
avançada, estava filosófico e cada vez mais convicto de
que a verdade estava acima dos interesses humanos e corporativos.
O grande psicólogo norte-americano Carl
Rogers
Rogers conta que, a convite de amigos, havia participado
de uma reunião mediúnica, constatou a autenticidade da
mensagem da falecida irmã de Helen e tirou conclusões
muito positivas desse contato, sobretudo a quebra de antigos preconceitos.
Confessou seu longo desinteresse e cetismo em relação
a continuidade da vida e a sua mudança radical após esse
evento. Dessa experiência espiritual surge um outro Rogers, talvez
o verdadeiro, que permaneceu oculto durante a longa trajetória
profissional. É um Rogers de profundidade assustadora, leitor
dos novos fatos científicos, do futuro do planeta e da Humanidade,
e ao mesmo tempo um ser humano simples, preocupado com o aproveitamento
e a evolução pessoal na sua existência. Nesse tempo
de 90 anos ele se preparou para ser sacerdote e professor, mas acabou
descobrindo que a sua missão era a defesa da psicologia e travar
uma difícil batalha contra o poder da psiquiatria. Foi tudo isso,
mas foi um revolucionário tranquilo.
Psiquiatras e psicólogos hoje vivem relativamente
em paz. Cientistas e céticos influentes atualmente acenam, embora
cautelosos, sem preconceitos para as questões da espiritualidade.
Muitos deles fazem do assunto uma bandeira para lotar congressos, realizar
workshops e vender milhares de livros. Antes as coisas não eram
assim e muitas mudanças aconteceram por causa de Carl Rogers
e outros “conspiradores” da Era de Aquário. Essa
tendência havia sido descrita na famosa obra da jornalista Marilyn
Ferguson e apontava os novos rumos das ciência e das artes através
da quebra de paradigmas seculares.
Um novo mundo , uma nova pessoa - por Car Rogers
Nosso mundo está em uma tumultuada agonia, agonia
sem parto. Isto bem pode ser a desintegração precedente
à destruição de nossa cultura pelo suicídio
de um holocausto nuclear. Por outro lado, o terrorismo, a confusão,
o desmoronamento de governos e de instituições podem ser
as dores de um mundo em trabalhos de parto (...) nas aflições
do nascimento de uma nova era (...) do nascimento de um novo ser humano,
capaz de viver nessa nova era, nesse mundo transformado. Estamos diante
não de uma, mas de várias mudanças inevitáveis
de paradigmas. Os velhos padrões se desvaneceram. Isto nos inquieta
e nos deixa incertos.
A busca por uma unidade material (moléculas,
átomos, núcleos do átomo, inúmeras micro-partículas)
do universo foi infrutífera. Ela não existia. As partículas
eram padrões de energia oscilante. Toda nossa percepção
da realidade se desvaneceu em irrealidade. Nosso mundo era diferente
de qualquer coisa que tivéssemos imaginado. Não existe
solidez nele.
As pesquisas de J.S. Bell –1964 a 1972 - sugeriram
um universo interconectado em cada evento está em conexão
com todos os outros.
Partículas gêmeas, com o mesmo spin, poderiam
ser separadas. Se o spin de uma dessas partículas é alterado,o
spin da outra muda instantaneamente. Como essa partícula “sabe”
o que está acontecendo à sua partícula gêmea?
Existe no universo um misterioso e desconcertante vínculo
de comunicação.
Nesse novo paradigma, matéria, tempo e espaço desaparecem
como conceitos absolutos ou como conceitos significantes. Existem apenas
oscilações. A solidez de nosso mundo desapareceu. O velho
paradigma não serve mais.
A ciência – pedra angular da nossa era tecnológica-
não é mais simplesmente um sistema linear de causa e efeito,
mas é uma descrição maravilhosamente complexa do
processo recíproco de causa e efeito através do qual o
universo está criando a si próprio!
Fritzjof Capra e Gary Zucav demonstram a convergência
entre a física racional e teórica do ocidente e o esoterismo
pragmático oriental.
A epistemologia de Murayama demonstrou eu os sistemas
vivos só podem ser entendidos através do reconhecimento
do fato de que existem interações recíprocas de
causa e efeito. Estas ampliam os desvios e permitem o desenvolvimento
de informação nova e de novas formas.
O prêmio Nobel em química Prigogine provou que quanto mais
complexa a estrutura –química ou humana – mais energia
ela despende para manter a complexidade. O cérebro humano, com
apenas 2% do corpo, utiliza 20% do oxigênio disponível.
Um sistema complexo é instável e nele
ocorrem flutuações ou “perturbações”.
Se elas são pequenas ele as dissipa. Se elas são grandes,
elas são aumentadas e ampliadas pelas conexões do sistema.
As perturbações atingem um ponto tal que o sistema –químico
ou humano – é conduzido a um estado alterado, novo, mais
coerente, mais ordenado e complexo. É uma nova forma de ser.
Esta mudança não é uma mudança gradual,
é súbita, com vários fatores operando ao mesmo
tempo para forçar a alteração. Segundo Ferguson,
“Quanto mais complexo um sistema, maior o seu potencial para a
auto-transcendência: sus partes cooperam para reorganizá-lo.
A teoria holográfica de Karl Pribam etá
alterando não apenas a nossa compreensão do como percebemos
– e talvez mesmo criemos – a realidade.
Barbara Brown demonstra em seu trabalho sobre biofeedback
que a mente é uma entidade maior do que o cérebro, e que
o nosso intelecto não consciente é capaz de realizar proezas
como controlar uma única célula selecionada entre trilhões
de células do corpo.
Aspy, Roebuck e Tauch mostraram que, dado o clima psicológico
adequado, a aprendizagem e a mudança e comportamento ocorrem
num ritmo acelerado. Facilitar a expressão de sentimento, potencializar
a pessoa, liberar o indivíduo para uma escolha mais autônoma,
resulta em mais aprendizagem, mais produtividade, mais criatividade,
do que a que resulta do exercício de poder sobre a pessoa.
Potencializar a pessoa é colocar em movimento
um processo que pode revolucionar a família, a escola, a organização,
a instituição, o Estado. Estamos diante de uma mudança
paradigmática. Outras potencialidades humanas, delonga data conhecidas,
mas desconsideradas, têm recebido uma nova apreciação.
Fenômenos paranormais, como a telepatia, clarividência,
precognição têm sido suficientemente testados e
aceitos por associações científicas. Energias curadoras,
que operam consciente ou inconscientemente, não são mais
motivo de escárnio, mas partes de uma medicina holística.
O poder da meditação, de forças transcendentais
é também conhecido.
A realidade, como a temos conhecido – matéria,
tempo e espaço – não existe mais de nenhuma forma
fundamental. Estamos frente a uma realidade misteriosa de energias oscilantes
que operam formas bizarras. É uma realidade de uma interconexão
quase que mística , uma relação que participa cada
entidade, tanto animada quanto inanimada.
Como indicou um grande cientista, o universo não
se parece mais com uma grande máquina. Assemelha-se a uma grande
“idéia”.
Um novo mundo
Este novo mundo será mais humano e humanitário.
Explorará e desenvolverá as riquezas e capacidades da
mente e do espírito humano. Produzirá indivíduos
que serão mais integrados e plenos.
Será um mundo que valorizará a pessoa
individual, o maior de nossos recursos. Será um mundo mais natural,
com um renovado amor e respeito pela natureza.
Desenvolverá uma ciência mais complexa
e humana, baseada em conceitos novos e menos rígidos. Sua tecnologia
objetivará o engrandecimento das pessoas, ao invés da
exploração delas e da natureza.
Libertará a criatividade, à medida que
os indivíduos sentirem o seu poder, suas capacidades, sua liberdade.
Este é o novo mundo em direção
ao qual estamos inevitavelmente nos movendo: uma nova realidade, uma
nova ciência, um novo ser, em constante processo de transformação.
Quem será capaz de viver neste mundo completamente estranho e
novo?
Uma nova geração de conspiradores. Os
jovens na mente e no espírito. Os jovens de corpo se juntarão
a pessoas mais velhas que absorveram os conceitos em transformação.
Não todos, naturalmente. Eles já estão nascendo.
Um novo ser e suas qualidades
Nosso conceito de pessoa está diante de uma drástica
mudança. Esta pessoa tem um potencial inimaginado, está
ganhando tanto uma nova consciência de sua força e poder
quanto o reconhecimento de uma única coisa constante na vida
é o processo de mudança. Parece que precisamos ver o indivíduo
primariamente como uma pessoa que está continuamente se transformando,
uma pessoa transcendente.
Estas pessoas vivem a vida como um processo, como um
fluxo de energia, uma transformação. A vida rígida,
estática, não atrai mais.
Vivem numa relação confortável com a natureza,
um parentesco responsável. A idéia de “conquista
da natureza” é um conceito a que são avessos.
Vêem que poder sobre os outros é simplesmente
uma outra forma de conquista, igualmente inaceitável e a que
são igualmente avessos. O objetivo delas é potencializar
a cada individuo, compartilhar o poder em empreendimentos comuns.
Experienciam sua relação com os outros
como parte de sua relação com a natureza. Esta relação
fundamenta a construção de comunidades em uma escala humana,
o seu flexível modo de lidar com problemas comuns.
Não gostam de viver em um mundo compartimentalizado
– corpo e mente, saúde e doença, intelecto e sentimento,
ciência e senso comum, indivíduo e grupo, sadio e insano,
trabalho e divertimento. Em lugar disso, empenham-se no sentido de uma
totalidade de vida, experienciando o pensamento, o sentimento, a energia
curadora, todos, de uma forma integrada. Estes indivíduos são
fundamentalmente indiferentes a posses materiais, confortos recompensas.
Dinheiro e símbolos de status material não são
o objetivo deles. Podem viver em abundância, mas de nenhuma forma
isto lhes é necessário.
São pessoas que buscam, e seu questionamento
é de uma natureza essencialmente espiritual. Estão conscientes
e são influenciados pelos ritmos mais amplos do universo. Estão
familiarizados com os estados alterados de consciência, com a
energia psíquica, com experiências de meditação
ou místicas. Querem encontrar um significado e objeto na vida
que transcenda ao indivíduo.
Têm uma abertura para o mundo – tanto interior
como exterior. São abertas à experiência, a novos
modos de ser, a novas idéias e conceitos e a um recentemente
descoberto mundo de sentimentos.
Vejo estas pessoas valorizarem a comunicação
como meio de dizerem as coisas como elas são.
Rejeitam a hipocrisia, a mentira e a conversa dúbia
de nossa cultura. São abertos, por exemplo, sobre suas relações
sexuais, em vez de manterem uma vida reservada ou dupla.
São interessadas pelos outros, ávidas
para serem úteis quando a necessidade é real. Seu interesse
é um interesse, suave, não moralista, não avaliativo.
Suspeitam de pessoas que “ajudam” profissionalmente.
Têm uma antipatia por qualquer instituição
altamente estruturada, inflexível, burocrática. Acreditam
que a instituição deve existir para as pessoas, e não
o inverso.
Têm uma confiança em sua experiência
e uma profunda descrença pela autoridade externa. Fazem seus
próprios julgamentos morais, mesmo que desobedeçam abertamente
a leis que consideram injustas.
Suas vidas são construídas sobre uma filosofia
consistente – uma confiança básica na natureza construtiva
do organismo humano, um respeito pela integridade de cada pessoa, uma
crença na idéia de que a liberdade de escolha é
essencial para uma vida plena, uma crença de que a comunicação
harmoniosa entre indivíduos pode ser facilitada, um reconhecimento
de que a experiência de comunidade íntima é essencial
a uma boa vida.
Elas estarão à vontade em mundo que consiste
somente de energia em vibração, um mundo sem uma base
sólida, um mundo em processo de mudança, um mundo que
a mente, no seu sentido mais amplo, tanto está consciente como
cria a nova realidade. Elas serão capazes de viver as várias
mudanças paradigmáticas.
Sobreviverão estas novas pessoas?
A taxa de mortalidade infantil entre aqueles que são
acentuadamente diferentes de sua cultura, que carregam em si o fermento
de uma revolução do estilo de vida, tem sido alta. Encontrarão,
sem dúvida, muita oposição.
Terão que lutar contra a opressão, as
perseguições e a marginalização. Sofrerão
o desdenho, o escárnio, a raiva , por que nunca serão
bons conformistas e uma constante ameaça a pessoas raivosas e
amedrontadas. Serão desajustadas em muitos aspectos. Sua infância
será uma um tempo de provação e de sofrimento.
Mas elas dispõem de um importante elemento que nutrirá
sua força, que é a sintonia com o futuro, pois podem conviver
comas fantásticas mudanças quem estão em perspectiva.
Os ventos da mudança científica, social
e cultural estão soprando fortemente. As enormes perturbações
da sociedade moderna forçarão uma transformação
para uma ordem nova e mais coerente. E nessa ordem parece crescer uma
nova visão de mundo, a relação de um renovado amor
pela natureza, por todas as pessoas, uma compreensão da unidade
espiritual do universo.
Texto resumido e adaptado de “ Em busca
da Vida”- Sumus Editorial
Carl Rogers, uma pequena biografia
Professor João Hipólito
Carl Ransom Rogers nasceu a 8 de Janeiro de 1902
em Oak Park nos arredores de Chicago. Tinha quatro irmãos e uma
irmã, sendo o antepenúltimo. Faleceu em La Jolla, na Califórnia,
a 4 de Fevereiro de 1987 na sequência de uma fractura do colo
do fémur. De acordo com as instruções que deixara,
as máquinas que mantinham "artificialmente" a sua vida
foram desligadas após três dias de coma.
Os pais, de educação universitária,
faziam parte de uma comunidade protestante de forte pendor fundamentalista.
A família valorizava uma educação moral, religiosa,
sendo muito conservadora, isto é, muito enraizada nos valores
tradicionais e fechada sobre ela mesma; contudo, intelectualmente era
muito estimulante. Desde muito novo Carl Rogers mostrou-se interessado
pela leitura e pelo "saber". Foi sempre um aluno excepcionalmente
brilhante, mantendo, no entanto, uma colaboração constante
nos trabalhos do quotidiano familiar, reduzindo ao mínimo a sua
rede relacional fora da família. A hipervalorização
do trabalho físico ou intelectual, não dava azo a outras
atividades de lazer, que não fosse a leitura dos clássicos,
de preferência de carácter religioso. Quando Rogers tem
12 anos o pai compra uma grande propriedade nos arredores de Chicago
para onde a família vai morar, com a intenção oficial
de fazer uma agricultura "científica". Segundo Carl
Rogers, o objectivo real era afastar os filhos dos "perigos da
vida da cidade". A vida na quinta e o trabalho na agricultura levam-no
naturalmente a matricular-se em 1919 em Agronomia na Universidade de
Wisconsin. Envolve-se em várias actividades comunitárias
desenvolvendo as suas capacidades de "facilitador" e organizador.
Entra em contacto com meios evangélicos militantes e decide mudar
para o curso de História com a intenção de se dedicar
posteriormente à carreira eclesiástica.
No terceiro ano da faculdade faz uma viagem à
China integrado numa delegação americana com o objectivo
de participar no Congresso da Federação Mundial dos Estudantes
Cristãos. A viagem dura seis meses e, no decorrer da mesma, abandona
parte das suas convicções religiosas, abrindo-se à
diversificação das ideias e opiniões. Ao chegar
de novo aos Estados Unidos ganha uma nova independência e autonomia
face às opiniões e posições da família,
tendo começado a sofrer de uma úlcera gastroduodenal,
provavelmente como resultado deste processo de afirmação.Guarda,
contudo, a sua motivação para uma carreira pastoral e
empenha-se social e politicamente, tentando demonstrar a incompatibilidade
do cristianismo e da guerra através de escritos sobre o pacifismo
do reformador Wyclif ou sobre a posição de Lutero face
à autoridade.
Em 1924, Carl Rogers termina a sua licenciatura em História
e casa-se com Hellen Elliot, sua amiga de infância, de quem virá
a ter dois filhos: David e Natalie.Após ter obtido a sua licenciatura
em História, Carl Rogers matricula-se no Seminário da
União Teológica em Nova Iorque, seminário conhecido
pelas suas posições "liberais" e, ao mesmo tempo,
academicamente bem cotado, recusando a ajuda financeira que o pai, Walter
Rogers, lhe oferecia se aceitasse matricular-se no Seminário
de Princeton conhecido, então, como muito mais conservador. Durante
o primeiro ano nesta instituição, Rogers tem a oportunidade
de frequentar alguns cursos na faculdade de psicologia, contactando
assim com os psicólogos Goodwin Watson e William Kilpatrick que
muito o impressionam. Com outros colegas organiza um seminário
de reflexão auto-facilitado e acaba por tomar consciência
da sua "não vocação" para o ministério
pastoral, apesar do estágio realizado nesse mesmo Verão,
como pastor substituto na paróquia de Dorset em Vermont. Assim,
no segundo ano do curso transfere-se para o Teachers’ College
da Universidade de Columbia com o objectivo de frequentar o curso de
psicologia clínica e psicopedagogia. Nessa instituição
é marcado pela filosofia de John Dewey que terá um grande
impacto na evolução das suas ideias. Entretanto, para
sustentar economicamente a família continua a colaborar com instituições
eclesiásticas no ensino religioso.
Em 1926, Carl Rogers postula e obtém um lugar
de interno no Instituto de Aconselhamento ("guidance") Infantil
recém criado pelo Fundo Comunitário de Nova Iorque. Após
ter recebido um contrato de 2.500 dólares anuais, querem reduzir-lhe
o salário para metade, visto não ser psiquiatra mas psicólogo.
Começa a sua primeira "guerra" com a psiquiatria, mas
consegue ser pago em igualdade com os psiquiatras.
Em 1928, Carl Rogers doutora-se no Teachers’ College.
Na sua tese desenvolvia um teste de personalidade para crianças
ainda hoje utilizado. Nessa altura trabalhava como psicólogo
no Centro de Observação e Orientação Infantil
da Sociedade para a Prevenção da Crueldade sobre as Crianças,
em Rochester. A partir de 1929, dirige este Centro e, durante 12 anos,
interessa-se pelo trabalho com crianças delinquentes e marginais.
Na instituição entra em contacto com Otto Rank que o marca
mais pela sua prática terapêutica do que pelas suas teorias.
Maior impacto terá, sem dúvida, Jessie Taft que publica
em 1933 o livro "The Dynamics of Therapy in a Controlled Relationship"
que Carl Rogers considerará como uma obra prima, quer ao nível
da forma quer do conteúdo literário. Progressivamente,
Rogers abandona uma orientação directiva ou interpretativa,
optando por uma perspectiva mais pragmática de escuta dos clientes,
numa posição precursora do que mais tarde estruturará
como Orientação Não Directiva em terapia.
A partir de 1935 começa a leccionar no Teachers’
College, mas não vê nem o seu ensino nem o seu estatuto
de psicólogo reconhecido pelo departamento de psicologia da faculdade
e só muito mais tarde, após vários anos de ensino
nos departamentos de sociologia e psicopedagogia, e quando já
está para abandonar Rochester, o departamento de psicologia o
reconhecerá como psicólogo e como docente.
Em 1938, Carl Rogers entra de novo em "guerra"
com os psiquiatras. O Centro, em que trabalha e que dirige, transforma-se
e amplifica-se e o conselho de administração sob a pressão
dos médicos psiquiatras, decide, como então era tradição,
contratar para director um psiquiatra, apesar de estarem satisfeitos
com o trabalho que Rogers até então realizara. Carl Rogers
luta vivamente e consegue ser reconhecido como primeiro director do
novo Centro de Aconselhamento de Rochester.
Em 1939, publica o seu primeiro livro: "O tratamento
clínico da criança-problema no qual expõe o essencial
das suas reflexões e pesquisas realizadas até esse momento.
Com a publicação desse livro começa a ser conhecido
na qualidade de psicólogo clínico e é convidado
para professor catedrático da Universidade de Estado do Ohio,
sendo da sua responsabilidade a cadeira de "Técnicas de
Psicoterapia".
O período de 1945 a 1957 é para Carl Rogers
muito rico quer do ponto de vista humano quer do ponto de vista científico,
publicando extensa bibliografia e, mais particularmente, o livro "Terapia
Centrada no Cliente onde, com a colaboração da sua equipa,
faz o ponto das suas pesquisas e reflexões. No entanto, entre
1949 e 1951, Carl Rogers atravessa um período de profundo sofrimento,
pois, após ter vivido momentos de extrema dificuldade no processo
psicoterapêutico de uma paciente esquizofrénica, passa
por um período de depressão afectando a sua capacidade
de trabalho e de funcionamento. Finalmente, aceita a ajuda de um dos
seus discípulos, Ollie Bown, com quem faz uma psicoterapia pessoal,
experimentando nele mesmo a eficácia do seu modelo, o que lhe
proporcionou um longo percurso de "crescimento" pessoal que
nunca mais o abandonou.
O seu nome começa a ser bem conhecido e é
convidado por várias Universidades para ensinar como professor
convidado (UCLA, Harvard, Berkley, Brandeis, etc.) e, mais particularmente,
em 1957 pelo Departamento das Ciências da Educação
da Universidade de Wisconsin onde, após uma experiência
de alguns meses, acaba por se instalar. Durante os sete anos que vai
durar a sua permanência nessa Universidade, Carl Rogers e a sua
equipa fazem um esforço colossal de pesquisa na área da
psicoterapia dos doentes esquizofrénicos, publicada, no essencial,
em 1967, no livro "A relação terapêutica e
o seu impacto".
No Verão de 1961, Carl Rogers faz uma longa viagem
ao Japão onde é recebido calorosamente e onde estabelece
laços de amizade e de partilha profissional que considera como
muito enriquecedores. Nesse mesmo ano publica o livro "Tornar-se
pessoa que rapidamente se torna um best-seller mundial. Nesse livro
Carl Rogers explora a aplicação dos princípios
da terapia centrada no cliente a outros domínios do humano -
educação, relações inter-pessoais, relações
familiares, comunicação intergrupal, criatividade —
e apresenta a sua abordagem como uma filosofia de vida, uma "maneira
de ser" ("a way of being"), com profundas implicações
e aplicações em todos os domínios do humano. Foram
vendidos quase um milhão de exemplares desta obra.
Rogers investe cada vez mais no trabalho com os grupos
de encontro. O interesse pelos grupos já tinha começado
em 1946-47, sensivelmente ao mesmo tempo que Kurt Lewin o havia feito
no National Training Laboratories em Bethel.
Em 1971, em colaboração com o filho David
e Orienne Strode, Rogers desenvolve o "Human Dimension Project"
para utilização dos grupos de encontro na educação
médica e na formação à relação
médico-doente. A sua atenção dirige-se também
de maneira prioritária, nesta época, para o campo da educação,
propondo uma pedagogia centrada no aluno, experiencial. Esta pedagogia
aparece como tendo muitos pontos comuns com a que Paulo Freire proporá
como "educação não bancária",
apesar de Carl Rogers ainda não ter, nesse momento, conhecimento
do trabalho de Paulo Freire. A Pedagogia Experiencial é objecto
de um grande número de trabalhos de pesquisa que se encontram
parcialmente descritos nos dois grandes livros: "Liberdade para
Aprender", publicado em 1969, e "Liberdade para Aprender nos
Anos 80", publicado em 1983. O essencial da sua mensagem consiste
no facto de que os alunos aprendem melhor, são mais assíduos,
mais criativos e mais capazes de solucionar problemas quando os professores
proporcionam o clima humano e de facilitação que Carl
Rogers propõe.
Com 70 anos, Carl Rogers é o primeiro psicólogo
americano a receber os dois maiores galardões da Associação
Americana de Psicologia, tanto pelo seu contributo científico
como pelo seu contributo profissional.
Carl Rogers faz uma análise do sucesso das negociações
de Camp David, em 1978, entre Israelitas e Egípcios
em termos de dinâmica de grupo de encontro e propõe essa
formula para a resolução dos conflito sociais e políticos.
Recordemos que o "modelo de Campo David" é aplicado
de novo em 1995, com relativo sucesso, para pôr fim, esperemos
que definitivamente, ao conflito armado da Bósnia e de novo em
1998 para dar um novo impulso aos acordos de paz no médio oriente.
Rogers facilita, em 1985, em Rast, na Áustria, um workshop com
50 líderes internacionais, incluindo o ex-presidente da Costa
Rica, embaixadores e pessoas de grande influência política
e diplomática, tendo como objectivo trabalhar, segundo o modelo
dos grupos de encontro, na problemática das tensões, então
muito fortes na América Central.
Carl Rogers investe cada vez mais nos últimos
anos da sua vida na investigação, empenhando-se em grandes
workshops transculturais, ou de esforço pela paz e, finalmente
em 1987, o seu nome faz parte do grupo das personalidades indicadas
para a atribuição do prémio Nobel da Paz. Infelizmente
a morte colheu-o antes, num momento em que, apesar da sua idade avançada,
continuava perfeitamente lúcido, extremamente activo, e gozando
plenamente da vida em todos os domínios desta e, como ele dizia
aos seus amigos mais próximos, como nunca o fizera antes. Estes
últimos anos foram também marcados, sobretudo após
a morte de sua esposa Helen, em Março de 1979, por um maior interesse
pela dimensão espiritual do homem, pela sua integração
numa globalidade que o transcende e que se insere numa harmonia global
do universo. Toma consciência da importância da dimensão
da "presença" na terapia, que ele associa a uma forma
de comunicação transpessoal e na qual a intuição
tem um papel importante. Apresenta-a como um novo campo a explorar no
âmbito da sua abordagem e no domínio daquilo que se poderia
chamar, talvez, os estados alterados de consciência.
Assim, de uma certa maneira, o circulo se fechara.
Dos primeiros interesses e empenhos numa teologia e numa carreira pastoral,
Carl Rogers chega ao fim da sua vida a um interesse renovado pelo campo
do espiritual no homem, mas num espírito de liberdade e de tolerância,
muito longe da visão fundamentalista e estreita da sua juventude.
Guardara talvez o aspecto proselitista, a confiança indestrutível
num futuro melhor, não ignorando, como ele fez questão
de sublinhar em numerosas ocasiões, toda a miséria, dor,
sofrimento e mal que nos acompanham na nossa peregrinação.
João Hipólito, doutorado em medicina,
psiquiatra, pedopsiquiatra e psicoterapeuta, é professor catedrático
de psicopatologia e director do Departamento de Psicologia e Sociologia
da Universidade Autónoma de Lisboa. É vice-presidente
da Associação Portuguesa de Psicoterapia Centrada na Pessoa
e de Counselling.
Fonte: Observador Espírita
http://observadorespirita.blogspot.com/2007/12/em-1979-o-grande-psiclogo-norte.html