Espiritualidade e Sociedade



André Luís N. Soares

>       Continuamos Vivos: Mente Além ou Aquém do Cérebro?

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André Luís N. Soares
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Seria importante o leitor previamente ver a discussão inicial no artigo
"Estamos Vivos: uma re-análise de 16 casos psicográficos"

 

 

Resumo

No presente artigo, o autor, além de dar continuidade a análise estatística dos dados inseridos nas psicografias de Chico Xavier, sentiu-se na necessidade de buscar um novo caminho para entender o que pôde ter efetivamente representado este médium. Assim, paralelamente, tendo em vista agora certeza de que houve vazamento sensorial de parte das informações contidas nas psicografias, o autor do presente revisou na literatura conteúdos que não poderiam ser explicados por leitura fria e nem informações descuidadamente fornecidas ao médium e a seus assistentes e nem conhecidas por leitura de jornais, obituários e outros papéis. Posteriormente, fez-se uma discussão entre a suficiência do argumento de psi para explicar casos que intuitivamente sugerem a interferência de mentes desencarnadas.


Agradecimentos

Gostaria de agradecer aos amigos Francisco Mozart R. de Souza e Vitor Moura Visoni pelo auxílio na análise das psicografias do médium aqui submetido a inquirição bem como a indicação de outras fontes importantes para estudo.


Introdução

O presente artigo prossegue na revisão das psicografias de Chico Xavier. Desta vez a análise seguiu paralelamente dois caminhos na busca de elementos evidenciais de paranormalidade nos fenômenos deste médium. O primeiro, seguindo os moldes do estudo feito em "Estamos Vivos: uma re-análise de 16 casos psicográficos", verificou a significância estatística dos 13 casos psicográficos na obra "Enxugando Lágrimas", organizada pelo Dr. Elias Barbosa. As psicografias agora ficaram compreendidas em regra no período de 1970-80. O segundo trajeto foi procurar casos nos quais os parentes do falecido, ou o entrevistador, expressamente afirmam que determinado dado não foi dito ao médium nem a quem quer que seja em Uberaba, nem publicado antes do recebimento da mensagem psicográfica em algum jornal ou revista; ou ainda, que certa informação era desconhecida de todos os familiares e amigos, mas verificada e confirmada a posteriori, seja por uma pesquisa dos parentes ou por exame pericial.

Termos como “consulente” e “requerente” foram usados aqui para indicar a pessoa que se direcionou ao médium e solicitou notícias de um parente falecido. “Comunicante” e “comunicador” designam a personalidade mediúnica - ou autor espiritual - que transmite a mensagem através do médium.


Dados Gerais de "Enxugando Lágrimas"

Desta vez todos os comunicantes foram pessoas esperadas. Todas as psicografias citaram nomes de parentes vivos (53). Os 13 casos psicográficos mencionaram 16 nomes de pessoas conhecidas do comunicante e família, sem relação de parentesco. Outro dado estatisticamente considerável foi a referência a 46 parentes e amigos falecidos, tidos como vivos num suposto plano espiritual. 38,46% dos casos fizeram referência a personalidades identificadas após o contato e as quais só foram supostamente conhecidas pelos comunicantes após a morte. Em 56,25% dos casos a psicografia citava alguém não pelo seu nome próprio, mas por um apelido. Mais da metade das comunicações (61,5%) expressava ter a personalidade comunicante recebido alguma espécie de socorro ou tratamento espiritual, fazendo referências a palavras ou cognatos de "clínica", "hospital", "tratamento", "posto de socorro espiritual" e "internação". A média de idade dos comunicantes foi bem mais alta (34 anos) do que os 19,38 anos de "Estamos Vivos", variando de 07 a 72 anos. A média de tempo entre a morte dos comunicantes e suas mensagens através do médium foi de 3 anos e meio, variando de 1 mês a 21 anos. 61,5% deles se referiram ou descreveram detalhadamente o modo da morte. 69,29% dos casos citaram nomes de lugares (ruas, municípios, estados e países). 15,38% das mensagens trouxeram alguma declaração informando dificuldades na transmissão das mensagens. Em 53,85% dos casos houve menção a circunstâncias peculiares. Essas são aqui consideradas como detalhes significativos que individualizam a comunicação, tornando-a de alguma maneira especial em relação as demais.

Comparativamente aos 16 casos de "Estamos Vivos", psicografias de 1980-90, os 13 casos de "Enxugando Lágrimas" conseguiriam citar 115 nomes entre parentes, amigos, falecidos e pessoas supostamente conhecidas somente após a morte e ainda 10 apelidos. Naquela há referência a 101 nomes e 12 apelidos. A média de idade também é muito superior na obra aqui analisada. 34 anos contra 19,3 anos. Ambas tiveram o mesmo número de circunstâncias peculiares (16). Em geral, o padrão permanece substancialmente o mesmo. A diferença quantitativa de informações aqui consideradas (apenas dados que não dependam de "sim" ou "não" para serem verdadeiros ou falsos) fornecidas pelo médium, entre os dois grupos de psicografias, nas duas obras, é não-significativa (3,44 acertos/caso a mais para "Enxugando Lágrimas".). Grosso modo o padrão permanece em todas as obras que carreiam esclarecimentos sobre as psicografias deste médium. Apesar de todos os números, grande parte das informações pode ser explicada por meios comuns de percepção, como veremos abaixo. Daí a premência da segunda vertente de inquérito: pesquisa qualitativa de informações declaradas como não-divulgadas ou ignoradas pelos conhecidos da suposta entidade comunicante.


Vazamento de Informações e Fraude deliberada

Parte da carreira mediúnica de Chico destinava-se a transmitir mensagens de parentes falecidos. Isso acontecia principalmente quando atuava na Comunhão Espírita Cristã e no Grupo Espírita da Prece, ambos em Uberaba, Minas Gerais. O médium mantinha diálogo antecipado com as famílias que concorriam a mensagens de seus entes falecidos. As sessões públicas aconteciam às sextas-feiras e aos sábados. Das 14:00 às 18:00 h o médium percorria uma fila de aproximadamente 60 grupos de familiares suplicantes por uma mensagem de algum parente falecido. As conversas com cada requerente duravam cerca de 5 a 15 min. Não há indício de ter havido qualquer anotação de alguma informação, como nomes, relações de parentesco e causa morte.

“As apresentações foram rápidas, não tendo sido relatado nenhum pormenor ao médium sobre a vida de André. Somente uma sua fotografia 3x4 foi vista por Chico. A entrevista da mãe com o médium não durou mais de dois minutos”
(GERMINHASI, Rubens Silvio e XAVIER, Francisco Cândido.
Continuidade. 1990).

Fim das entrevistas, o médium encaminhava-se ao receituário e prescrevia aos necessitados que previamente haviam deixado apenas os nomes. Ao término do receituário, aquele dirigia-se ao salão principal, onde, após comentários dos expositores sobre temas da doutrina espírita, começava a preencher freneticamente as folhas em branco diante de mais de duzentas a trezentas pessoas. Isso ocorria em média 8 h depois das entrevistas.

A hipótese de fraude por ação única do médium fica enfraquecida diante do número extenso de dados fornecidos, não sendo razoável afirmar que ele seria capaz de reter na memória as descrições de acidentes; nomes de parentes, amigos e falecidos; lugares; citar corretamente as relações de parentesco; grafia correta e completa de nomes (não trocar "s" por "z", como em "Tereza" ou "Teresa", "w" por "v", como em "Walter" ou "Valter" etc.); e prosseguir com coesão e coerência dos fatos nas cartas subseqüentes remetidas pelos mesmos falecidos. Em boa parte do período abrangido pelas sessões públicas, os instrumentos de gravação existentes não eram compactos, de maneira que não me parece idôneo crer que o médium carregava algum aparelho no bolso etc. Por outro lado, por mais que houvesse o desejo dos parentes em se comunicar com entes falecidos, num país predominantemente católico, havia muita desconfiança sobre Chico. Um dos requerentes falou:

“Prevenida da maneira que eu estava contra a Doutrina Espírita, confesso que se tivesse conversado e comentado alguma coisa sobre o acidente, eu não acreditaria, mas deu-se tudo ao contrário. As únicas palavras minhas foram para dar o meu nome e o do meu filho a Chico Xavier e nada mais”.

Nesse momento Chico perguntou-me quem era vovó Maximínia. Queria falar comigo. Dizia que o menino estava bem e feliz. Pedia para não me desesperar. Sorriu e disse-me ainda:

'O menino está aqui, é muita luz, ele está feliz por ter uma mãezinha que o auxiliou a ajudar duas pessoas que agora estão enxergando'"
(BARBOSA, Elias e XAVIER, Francisco Cândido. Claramente Vivos, 1979).


Outro entrevistador, Sr. Caio Ramacciotti, com trabalho similar ao do Dr. Elias Barbosa, realmente confirma a prevenção de muitos suplicantes:

"Dos próprios familiares [...] destaca-se, por outro lado, o desejo de omitirem, em seus contatos com Chico, nomes, datas ou acontecimentos ligados aos filhos mortos, para crerem integralmente na eventual comunicação mediúnica, com que sejam aquinhoados, seja essa comunicação simples recado ou uma página mediúnica".
(RAMACCIOTTI, Caio e XAVIER, Francisco Cândido. Jovens no Além. 2007)


Volta-se então a dizer que, se toda a carreira de Chico Xavier pode ser explicada pela fraude, isso requereria um número de partícipes para ludibriar todos os suplicantes. Um plano para fraude poderia ser o seguinte: Chico, durante as entrevistas, por leitura fria, marcaria os familiares mais suscetíveis a deixar escapar informações em conversas informais. Posteriormente, algum assistente, ou mais de um, em tempos sucessivos, dirigir-se-ia aos sujeitos marcados e, por conversas de propósitos velados, roubaria dados úteis para montar os dramas espirituais estampados nas falsas psicografias. O papel Central de Chico poderia ser explicado por uma memória de alta capacidade (seu professor, Dr. Ottoni, destacou inteligência lúcida, superior a normal, e memória, ver MAIOR, M. S., 2006, p. 61; ver também Guy Playfair, 1975, p. 24) e criatividade bem acima dos limites comuns, uma vez que o engodo deveria ser feito dentro do período de 8 h (lapso entre as entrevistas e as psicografias), exigindo engenho dramático dentro da temática da doutrina espírita, vinculação dos nomes conseguidos com suas relações de parentesco, descrição da causa mortis, revisão e memorização para não haver troca de dados entre os destinatários das psicografias, de 6 a 8 por sessão, tal como acontecia. Isso tudo poderia ser feito durante algum intervalo nas horas de receituários. A objeção de que as psicografias carregam o linguajar do falecido poderia ser afastada por uma explicação psicológica, principalmente porque as datas de falecimento eram regradamente curtas (nas 45 mensagens em "A Vida triunfa", 42,2% das famílias reconhecem na carta o estilo peculiar dos comunicantes).

O problema com essa inferência é que não há absolutamente uma evidência material dela. Céticos aqui comeram mosca. Uma atriz poderia ser contratada para fazer o papel de uma viúva ou mãe que perdera seu filho, inventar dados falsos e esperar se viria alguma "psicografia". Em abril de 1971, o repórter Hamilton Ribeiro, para a
Revista Realidade, fez algo parecido. Colocou dois nomes, um verdadeiro e um falso no receituário. Curiosamente os dois não receberam as receitas, mas sim a mesma frase: "Junto dos amigos espirituais que lhe prestam auxílio, buscaremos cooperar espiritualmente em seu favor, Jesus nos abençoe". Fazemos a mesma pergunta que ele: o que pensar disso? Fraude com certeza não é a única inferência, e talvez seja a mais radical. Chico poderia ter simplesmente errado, ou mesmo acertado, considerando que não houve receita.

Fechando esta primeira parte, se realmente Chico representou o conceito original de mediunidade, é certo também que boa parte das informações pode ser respondida por criptomnésia, retenção inconsciente de informações. A grande quantidade de dados figurada nas análises dos 29 casos psicográficos de "Estamos Vivos" e "Enxugando Lágrimas", embora carreiem: a) algumas informações só conhecidas após as mensagens ou, b) dados especificamente expressos como não-informados; a maior parcela de informações fica numa área cinzenta de incerteza sobre o que foi ou não dito ao médium e a outras pessoas no local, pelo menos para nós que fazemos uma revisão na literatura. Considerando que parcela de sujeitos chegava desconfiada, talvez o número real que apresente alguma informação paranormal não esteja tão abaixo dos valores acima encontrados, mas conferir certeza a isso, de qualquer forma, seria temerário.


Saindo da Fronteira: Informações que Realmente Sugerem Paranormalidade

Na tabulação abaixo, a qual é meramente exemplificativa, relacionamos casos que:

a) indicam ter havido, pelo menos, uma informação não-declarada pelos parentes ao médium ou a quem quer que seja em Uberaba; e

b) casos que trazem informações desconhecidas a todos os presentes, mas confirmadas depois por alguma espécie de pesquisa ou perícia técnica.

Nome
do Caso
Resumo Fonte Bibliográfica
1 Nadinho A psicografia vincula o pai do morto à profissão de contador. Em entrevista, o pai do falecido revela que não informou a natureza de sua profissão ao médium nem a ninguém. A mensagem foi transmitida na primeira visita do pai. BARBOSA, Elias e XAVIER, Francisco Cândido. Estamos Vivos. Araras: IDE. 3ª edição, 1998, p. 48.
2 Romero J. de Souza A psicografia acerta as datas de aniversário do Dr. José Marco Alves de Souza e do Sr. Homero Alves de Souza sem que ninguém da família tenha comentado com o médium ou a qualquer pessoa no recinto. BARBOSA, Elias e XAVIER, Francisco Cândido. Estamos Vivos . Araras: IDE. 3ª edição, 1998, p. 56
3 Antenor de Amorim O apelido (Lelé) de Adelaide Siqueira de Amorim e quanto ao fato dela ter sido uma distinta religiosa franciscana que posteriormente abraçou o Espiritismo eram detalhes completamente desconhecidos do médium. segundo informações do entrevistador. BARBOSA, Elias e XAVIER, Francisco Cândido. Enxugando Lágrimas. Araras: IDE. 18ª edição, 1993, p. 73
4 João Guignone Quando o sr. João Guignone, presidente da Federação Espírita do Paraná, chegou para abraçar o médium, ouviu-o dizer:
- Sabe quem está aqui do meu lado, cheia de emoção e querendo abraça-lo? Sua mãe!
O sr. João fingiu alegria, manteve a aparência e depois comentou com um companheiro:
- Acho que o Chico não está regulando bem. Disse que viu ao seu lado o espírito, de minha mãe, e mamãe está viva em Curitiba!
Bem, foi ele chegar ao hotel e um interurbano do Paraná lhe dava a notícia. A mãe havia falecido.
REVISTA REALIDADE. Novembro de 1971.
5 Izídio I. da Silva A psicografia revelou que quem conduzia o veículo acidentado fora Izídio, o comunicante, não obstante todos acreditassem que Zé da Brahma, outro falecido no acidente, guiava o carro. A perícia técnica depois esclareceu que quem dirigia era Izídio. BARBOSA, Elias e XAVIER, Francisco Cândido. Enxugando Lágrimas. Araras: IDE. 18ª edição, 1993, p. 146.
6 Wady A. Filho - O Sr. Wady, pai de Wady A. Filho, o falecido, impôs como condição que ninguém se abrisse com ou médium ou quem quer que seja em Uberaba a fim de que eventual revelação fosse realmente autêntica. Dentre vários nomes e intimidades, o comunicante cita o nome "Maria Albertina". Ninguém sabia a que ele se referia. Ao voltarem para São Paulo descobriram que era o nome do orfanato o qual Wady A. Filho tinha programado a festa de natal do ano em que faleceu.
- A mãe, sem que ninguém soubesse, pedia em prece para que o filho assinasse Wadyzinho, como ela estava acostumada a chamá-lo, tendo em vista que nas duas primeiras comunicações o comunicante assinava "Wady". Coincidência ou não, a partir da terceira mensagem as psicografias passaram a ser assinadas "Wadyzinho".
RAMACCIOTTI, Caio e XAVIER, Francisco Cândido. Jovens no Além. São Bernardo do Campo: GEEM. 25ª edição, 2007, pp. 160, 176, 185 e 210. e MAIOR, Marcel Souto. As Vidas de Chico Xavier. São Paulo: Planeta. 2003, 2ª edição.
p. 209.
7 Jair Presente - O comunicante fala da "Irmã Elvira". A mãe do falecido relacionou a Sra. Elvira Vanini Favoreto, sua tia e madrinha, cuja morte ignorava. Apenas quando regressou de Uberaba, ao entrar em contato com familiares, veio a saber que Elvira havia falecido. Curioso que o restante da família até então não concordava com a mãe de que irmã Elvira fosse a Elvira Favoreto, sua tia e madrinha. Achavam se tratar de uma benfeitora espiritual. Numa segunda mensagem o comunicante ratifica a identidade dizendo: "mamãe faz questão que fale na tia e madrinha".
- O comunicante fala em "Aníbal". Que este "abriu o portão do lado de vocês e veio pra cá em dificuldades". Mas ninguém conhecido de Jair sabia de tal nome. O jornalista Mário Tamassia publica num jornal de Campinas a mensagem de Jair. Sra. Maria Aparecida Rodrigues identificou o nome como do seu filho Aníbal o qual cometera suicídio.
RAMACCIOTTI, Caio e XAVIER, Francisco Cândido. Jovens no Além. São Bernardo do Campo: GEEM. 25ª edição, 2007, pp. 124, 125, 143 e 144.
8 "Minha Cica" Numa das sessões do Grupo Espírita da Prece, uma mãe reconhece a identidade do filho. O falecido se refere à mãe como "minha Cica". Só depois de algum tempo a mãe lembra-se de uma discussão que teve com o rapaz duas semanas antes da morte dele, na qual havia proibido-o de chamá-la "Minha elefantinha". O rapaz trocou "elefantinha" por "Cica", conhecida marca do elefantinho de extrato de tomate. MAIOR, Marcel Souto. Por Trás do Véu de Ísis. São Paulo: Planeta. 2004, p. 18.
9 Rosimari Daurício A comunicante faz um poema para a mãe. Repetidamente aparece no início das estrofes a letra "N". Só depois de algum tempo a mãe lembra do hábito delas de quando Rosimari era menina, despedir-se com beijos na ponta do nariz, os beijos "N". Pra quem está fora de contexto, o "N" não tem significado. Não obstante isso convenceu a mãe. Não foi o entrevistador que sugeriu. A objeção de que a mãe é a "pior pessoa do mundo" para avaliar, pelos depoimentos que pude observar, é um argumento superficial, pelo menos no caso de Chico e no tempo em que ele fazia tal trabalho. No início da pesquisa estava inclinado a pensar assim. Se analisarmos de perto, tal contestação ainda está fora de ambiência histórica. Há 40-50 anos atrás, ou até mais, o Espiritismo ainda era severamente atacado pelo Catolicismo. Mais de 60% dos requerentes em a "Vida Triunfa" eram católicos. Inclusive, RAMACCIOTTI, como citado acima, asseverou que as famílias chegavam desconfiadas, de manera que já houve relato de vias de fato contra o médium e, por outras 4 ocasiões, sujeitos rasgaram as psicografias diante dele, como protesto por não acreditarem na comunicação. Bem, são detalhes que simplesmente não se pode desprezar e que, na minha visão, têm mais embasamento do que uma explicação por disposição psicologia condescendente generalizada, a qual ignora relatos importantes e, no mais das vezes, é alegada sem nenhum estudo prévio a fim de testar se ela é aplicável ou não à espécie de caso. Não existe hipótese com validade absoluta. Nesta análise, observou-se a evidência mais apontando para "familiares prevenidos" no lugar de "sujeitos complacentes". MAIOR, Marcel Souto. Por Trás do Véu de Ísis. São Paulo: Planeta. 2004, p. 18-19. e SEVERINO, Paulo Rossi e Equipe AME-SP. A Vida Triunfa. São Paulo: Fé. 2006, 2ª edição, p. 134.
10 Elisabeth Vieira Elisabeth, moradora do Rio de Janeiro, foi na companhia de amigos a Uberaba. Nunca tinha ouvido falar em Chico Xavier. Junto com um anfitrião, amigo do médium, ela visitou este. Chico a cumprimentou com os vocábulos estranhos "boneca" e depois de betinha". Eram os trejeitos, respectivamente, do pai e da mãe da moça, logicamente falecidos. O Pai, Laudo, censurou a filha pelo desquite, o que era um tabu na época. MAIOR, Marcel Souto. Por Trás do Véu de Ísis. São Paulo: Planeta. 2004, p. 19
11 Orimar de Ramos Bastos e Waldéa Argenta Bastos O mesmo Juiz Orimar do caso Henrique, meses depois da sentença, visita o médium com sua mulher. O médium logo manifesta o pai da Sra. Waldéa, cita diversos nomes, agradece a filha por ter sido enterrado aos pés de Santa Bárbara e fala em Lourenço, parente de Orissanga, este era pai do Juiz Orimar. Lourenço tinha sido assassinado por m homem que o acusava de ter deflorado a filha deste. Por Chico, insistia em sua inocência. MAIOR, Marcel Souto. Por Trás do Véu de Ísis. São Paulo: laneta. 2004, p. 22.
12 Ilda Mascaro Saullo O especialista em identificação datiloscópica, Carlos Augusto Perandréa, analisou a assinatura psicográfica de Ilda com sua ssinatura em vida. O resultado foi positivo para identidade. PERANDRÉA, Carlos Augusto. A Psicografia à Luz da Grafoscopia. 1ª. ed. São Paulo: Editora Jornalística Fé, 1991.
13 O caso das folhas rubricadas O repórter investigativo Clementino, acompanhado do promotor da comarca e do engenheiro Andrade Pinto, caminhando os três juntos à sessão, idealizam rubricar as folhas que serviriam para psicografia, a fim de afastar o risco de fraude, tendo em vista a hipótese das folhas usadas serem substituídas por outras preenchidas antecipadamente. O engenheiro tomou incumbência de solicitar isso ao médium. Logo ao entrar em transe, o médium diz: "Emmanuel diz que podem rubricar as folhas". MAIOR, Marcel Souto. Por Trás do Véu de Ísis. São Paulo: laneta. 2004, pp. 49 e 50.
14 Xenoglossia O mesmo Clementino faz três perguntas em inglês. Chico responde-as convenientemente. No entanto, o que Clementino queria era uma resposta também em inglês. Para tanto realizava pedidos mentais. No fim, o médium responde: "my good friend. I consider terminated this experiences phasis with himself. Even in benefits of investigation either science, I cannot sacrifice he health of our Francis. We think you have encountered enough elements to remove all supposition from fraud". MAIOR, Marcel Souto. Por Trás do Véu de Ísis. São Paulo: laneta. 2004, p 77.
15 Volquimar C. Dos Santos A moça Volquimar faleceu no incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo. Inconsolada, a mãe, mesmo católica e descrente na mediunidade, decide procurar Chico. Ela é informada pelo médium que a filha havia feito uma espécie de Ouija de cartolina quando viva e que, por intermédio daquele instrumento, iria comunicar-se. A família, ao retornar para São Paulo, procura desenfreadamente tal objeto e o acha no quarto da falecida. Ninguém tinha a mínima idéia da existência de tal aparelho, embora o irmão dela tenha se lembrado de ter encontrado a irmã desenhando algo em cartolina. Ninguém sabia para qual finalidade, salvo a própria Volquimar. RAMACCIOTTI, Caio e XAVIER, Francisco Cândido. Somos Seis. Bernardo do Campo: GEEM. 25ª edição, 2006.

e

SEVERINO, Paulo Rossi e Equipe AME-SP. A Vida Triunfa. São Paulo: Fé. 2006, 2ª edição, p. 46.
16 Ricardo Leão - A psicografia fala do "vovô Joaquim", só descoberto por averiguações posteriores feitas pelos familiares. SEVERINO, Paulo Rossi Equipe AME-SP. A Vida Triunfa. São Paulo: Fé. 2006, 2ª edição, p. 196.
17 Allann C. Padovani A psicografia cita "Antônio Padovani", falecido há mais de 40 anos. Era o tio-avô do pai do comunicante. Ninguém presente tinha conhecimento da existência deste Padovani. SEVERINO, Paulo Rossi Equipe AME-SP. A Vida Triunfa. São Paulo: Fé. 2006, 2ª edição, p. 229.
18 Sidnei Martini - Sidnei citou a avó Marietta, sua avó que desencarnou nove meses após ele. Chico de nada sabia.

- Outro fato realmente esclarecedor foi a menção de vovô Giacomo. Na hora, os pais do falecido, em dúvida, não sabiam se era por parte do pai ou da mãe o próprio parentesco de Giacomo. Não lembravam. Só quando retornaram, os irmãos mais velhos da mãe, quando perguntados por parte de quem era o vovô Giacomo, confirmaram se tratar do avô materno deles, Giacomo Pedrina, falecido na Itália em 1918, na 1ª Guerra Mundial.
GERMINHASI, Rubens Silvio e XAVIER, Francisco Cândido. Continuidade. São Paulo: IDEAL. 1990.
19 Serginho O comunicante, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, fala do vovô Rocha. Na ocasião, Chico diz ao pai de Serginho tratar-se do vovô Antônio Rocha. Ninguém conhecia o Sr. Antônio. Sr. Luiz, ao retornar de Uberaba, começa uma pesquisa na família a fim de identificar a personalidade. Depois de algumas inquirições inicias, não havia ainda encontrado nenhum parente chamado Antônio. No entanto, após revirar algumas certidões de nascimento, ele descobre o Sr. Antônio Rocha, tataravô do comunicante. RAMACCIOTTI, Caio e XAVIER, Francisco Cândido. Adeus Solidão. Bernardo do Campo: GEEM. 1982, p. 128.

 

Como vimos, os casos acima sugerem paranormalidade, embora mediunidade não seja a única possibilidade exegética. Passemos agora a examinar a inferência de percepção extra-sensorial (PES) e mediunidade.



Percepção Extra-Sensorial e Mediunidade:
Rapport Como Divisor de Águas


Passamos analisar as explicações paranormais. Uma primeira abordagem para percepção extra-sensorial (PES) obstrui a evidência do fenômeno mediúnico. Se um médium transmite a informação sobre uma pessoa falecida, e, se esta informação não é verificável, nada mais preventivo que atribuir o caso à fraude ou à mistificação. Por outro lado, se a informação é verificável e verdadeira, há quem entenda que se deve explicar sempre por telepatia ou clarividência do sensitivo, sendo, pois, dispensável a atuação de uma mente desencarnada. Essa generalização, a meu ver, não passa de uma ideologia materialista de que a mente seja ou uma substância dependente e gerada pelo cérebro ou uma função desempenha pela rede neural. No entanto, a assunção fisicalista está cheia de lacunas dentro da discussão ontológica sobre consciência. Ademais, psi, ao invés de favorecer o materialismo, vem destacar ainda mais as falhas no programa materialista.

Muitos filósofos que possuem um discurso fisicalista, e que discutem psi, usam um argumento elástico de que, se não conhecemos os limites dela, nada impede que possa responder pelos mais estranhos fenômenos, como telepatia indireta, retrocognição telepática, aviões caindo por psicocineses (PK), por que não? O problema é que, quando se tenta teorizar como psi funciona, começamos a observar que alguns limites filosóficos existem para ela, ou pelo menos deixa de ser razoável determinado modus operandi. Muito curioso é que estes mesmos filósofos, quando discutem sobre o Idealismo na filosofia da mente, não têm a mesma flexibilização, são mais rígidos e refutam a possibilidade da consciência ser o único componente da ontologia em razão do Idealismo não ser testável ou não ser prático por dispensar muitos conceitos que entendemos como reais. Ora, mas para Super-PES estas mesmas objeções não se aplicariam? Como posso provar que meu cérebro derrubou aquele avião? Ou então, como o estado das minhas conexões neurais foi capaz de sondar a rede neural de outra pessoa? Como posso decodificar a linguagem telepática sem ter tido um processo de aprendizagem prévio? Por que o cérebro é o único objeto físico que é uma barreira às "radiações" telepáticas, tendo em vista que, fora ele, elas não respeitam espaço-tempo, atravessando paredes, cruzando vastos terrenos, rios, mares e montanhas etc.?

Podemos dizer que telepatia é uma leitura de pensamento e não mera transmissão. Isso resolve a questão do subjetivismo ou da perspectiva de primeira pessoa. Se uma mãe telepaticamente "sente" as dores de seu filho, o qual estava, sem o conhecimento dela, acidentado, como saber que as dores que ela "sente" são as experiências do seu filho ou os próprios qualias dela? Penso ser mais razoável dizer que aquela mãe reflete a experiência dela mesma, segundo a influência que lhe chega, seja uma sensação ou a interpretação que faz de uma proposição informacional. Por outro lado, telepatia como leitura, encontra os mesmos problemas espaço-temporais que a telepatia como transmissão, sendo a diferença fundamental que a primeira transforma o emissor num agente passivo e o receptor num papel ativo de sondagem. De qualquer forma, deveria haver alguma "radiação" - ou seja o que for aquilo que o cérebro produz - que fosse capaz de penetrabilidade em todos os objetos, salvo o próprio cérebro, e hábil a selecionar, dentro do arquivo de memórias de alguém, apenas as informações que são úteis ao propósito do invasor. No caso de Chico Xavier, deveria ele ter a capacidade de decifrar certas disposições neurais dos requerentes e traduzi-la para seus correspondentes semânticos da linguagem falada. Mas não só isso, o cérebro do médium deveria ser apto a sondar também mentes de pessoas distantes e desconhecidas (ver casos 6, 7, 15, 16 e 17 acima) e mesmo hábil a dar informações até então ignoradas por pessoas vivas, o que implicaria em precognição em certo grau (ver casos 4 e 5).

Sondagem telepática não difere em natureza da clarividência, trocando apenas os objetos-alvo: coisa qualquer por coisa específica: o cérebro. Mas uma explicação fisicalista para clarividência é ainda mais esquisita. Dentro da abordagem da transmissão, a matéria deveria possuir alguma energia capaz de armazenar situações, pensamentos e sentimentos de pessoas próximas daquela, a qual então radiaria as informações para fora. O cérebro de algum sensitivo deveria desta forma captar tais "ondas radiantes" e decifrar o significado, descrevendo cores, formas etc. Telepatia por transmissão, num viés materialista, exigiria o mesmo poder radiante, mas pela estrutura cerebral do emissor. Telepatia por sondagem também não facilita muito o problema. Afinal, que espécie de substância produzida pelo cérebro seria capaz de ir e voltar fora dos limites ordinários de espaço-tempo e selecionar por clarividência, no banco de memórias de de um cérebro distante, as informações úteis ao sujeito invasor, substância essa que ainda deveria teoricamente carregar tais dados durante o período de transposição, para, no fim, servir de substrato a um drama de acordo com as crenças e propósitos pessoais de alguém, como os médiuns espíritas?

Uma solução para resolver os problemas acima seria não se exigir demais de psi. Isso transformaria muitas dessas indagações, as quais estão longe de serem solucionadas, em não-problemas. A incompreensibilidade de como o cérebro seria capaz de realizar tais operações parapsicológicas exalta também as conclusões das teorias dualistas e outras que sejam consciencialistas, sugerindo que os fenômenos poderiam ocorrer na mente, uma substância separada e possivelmente independente do cérebro. Poderíamos então supor de psi apenas a existência de um receptor passivo e de um emissor que transmitisse as informações. Acontece que isso não explicaria as informações sabidas pelo médium e desconhecidas dos presentes, salvo se evocarmos a contribuição informacional de mentes desencarnadas. Por assim dizer, não existiriam fenômenos de telepatia indireta, as informações desconhecidas de parentes e amigos proviriam realmente da mente daquele que teve a experiência em vida, estando agora sem um corpo físico.

Em telepatia experimental, a exemplo de ganzfeld, há um condicionamento metodológico de colocar emissores e receptores em sincronia voluntária de objetivos que se complementam. Resultados estatisticamente significativos já foram apresentados a ponto de haver uma boa certeza quanto à existência de PES, embora não saibamos sua natureza e como ela funciona, principalmente do ponto de vista de outras ciências além da Psicologia, como a Física e a Biologia. Muitos parapsicólogos vão justificar a dificuldade e o baixo impacto de psi nos laboratórios em razão da impossibilidade de recriar o ambiente e as condições naturais em que psi espontâneo acontece. Deste raciocínio parte a idéia de que psi in natura deve ter impactos bem mais possantes. O problema desta elucubração, simplesmente como está posto, é que poderia nos levar a enxergar apenas a distinção de grau entre PES induzida (em laboratório) e PES espontânea, e tirando-nos o foco de uma exigência primordial para PES funcionar: o alinhamento voluntário entre emissor e receptor para transmissão da mensagem, isto é, o que os pioneiros em pesquisa psíquica chamavam de rapport. Em tese, quanto maior a "relação psíquica" entre os sujeitos (afinidade de sentimentos e pensamentos, proximidade sensória, como contato físico ou visual, focalização mental ou concentração simultânea em metas comuns etc.) telepatia deveria ser mais fácil. Por este raciocínio, pesquisadores começaram a fazer uma série de sessões por procuração (ou representação) com médiuns espíritas a fim de diluir o elo entre médium e possíveis fontes vivas para as mensagens. Tais experimentos consistiam em pôr diante de um médium um assistente que nunca tivera qualquer espécie de contato com o sujeito requerente. O assistente saberia apenas o nome deste e o nome e a época da morte do parente desencarnado que deveria se manifestar. Todas as informações ainda seriam passadas por um terceiro sujeito independente. Para quem leu o relatório do Rev. Drayton Thomas com a médium Leonard nos Proceedings da S.P.R, vol. 45, de 1938-9, pp. 259-308 deve ter ficado impressionado com a quantidade e qualidade das informações sobre o falecido. O que isso quer dizer? Que mesmo vínculos muito tênues de proximidade já seriam suficientes para o êxito da sondagem telepática e sem afetar a qualidade de acesso, por parte do cérebro do médium, a informações contidas em estados neurais de pessoas distantes? Bem, se você achar tudo isso muito complicado, penso haver uma saída mais simples, mas que acabará lhe guiando a existência de mentes independentes de cérebros as quais persistiriam com memória, cognição e percepção capazes de interagir e fornecer informações a pessoas com faculdades especiais. É uma abordagem muito sedutora para muitos casos na Parapsicologia e que não precisa responder a questão sobre a existência de um "cérebro radar". É o que vemos na teoria da mediunidade. Outra possibilidade para justificar mediunidade seria a capacidade psicocinética (PK) de uma mente (desencarnada ou não) sobre o aparelho motor do médium fazendo-o escrever páginas e páginas de mensagens, tal como sugere, algumas vezes, o processo de psicografia. Mas ainda não terminei a questão do rapport. PK e PES são espécies de psi. Na PK, derrubar um avião pelo pensamento ou movimentar alguns pequenos objetos, como palitos de fósforo, a exemplo de Nina Kulagina (KEILT e FAHLER, 1974), é uma diferença de grau. Seja qual for a "radiação" responsável, esta não necessita retornar a sua fonte de emanação, muito menos trazendo algum conteúdo informacional, pelo menos não como em PES. Nesta, pelo contrário, partindo de um paradigma de sondagem por parte do sensitivo, seja qual for a natureza física da "radiação", ela precisa retornar a sua fonte geradora com a resposta orientada ao propósito. Daí a importância da motivação e concentração afinada a uma meta comum, ajustamento sincrônico entre os sujeitos ativo e passivo para o êxito. Tal alinhamento poderia dar-se por alguma espécie de contato ou proximidade prévios suficientes para individualizar o alvo. Assim, no meu entender, telepatia indireta só seria explicável pela hipótese mediúnica, mesmo quando o requerente diante do médium teve contato com sujeitos vivos os quais seriam possíveis fontes de dados. O interessante que apenas tenho notícia de casos deste tipo dentro de cenários espiritualistas. O que pensar disso? Bozzano (1968) é complacente em admitir sondagem telepática (leitura de pensamento) na mente de sujeitos desconhecidos do sensitivo, mas que sejam conhecidos dos que estão na presença deste. Haveria uma espécie de orientação psíquica por parte do sujeito presencial o qual serviria de marcação para individualização do sujeito-alvo, que está distante. O falecido pesquisador italiano talvez entenda assim por pensar que as faculdades psi sejam de natureza espiritual. Mas dentro do fisicalismo, aceitar telepatia indireta talvez nos leve a assumir, ao nosso redor, a existência de campos psicométricos carregados de informações sobre o quê e quem já tivemos alguma espécie de contato. Ou então nos trazer a embaraçosa indagação de como o sensitivo é capaz de decodificar a disposição das cargas neurais que constitui o banco de memórias de alguém presente e pegar informações que identifiquem semanticamente uma outra pessoal distante (nome, aparência, residência etc.) e assim sondar remotamente a memória dela em busca de informações específicas? Aqui mora um terreno por deveras ardiloso para se concluir. De qualquer forma, para um materialista, é uma odiosa discussão a perpetrar-se.

Mas o que dizer da clarividência, não existiria? Se dissermos que sim, isso nos deveria jogar mais uma vez longe dos assuntos que um materialista se sentiria à vontade em dialogar, como discussões sobre espaço-tempo alternativo, uso de uma nova geometria e assunções filosóficas que poderiam ser emprestadas pela física quântica e principalmente a possibilidade de uma mente que pode se destacar do corpo. Se dissermos que não, como explicar a literatura correlacionada, como justificar a série de experimentos do livro feitos com a médium Leonard (ver Rev. S. W Irving, J.S.P.R Volume 24, 1927-1928. p. 04; Sr. e Sra. Grey. J.S.P.R Volume 24, 1927-1928. p. 71; Drayton Thomas. "Life Beyond Death with Evidence", W. Collins Sons & Co., Ltd., 1928)? Dever-se-ia necessariamente invocar a atuação de mentes desencarnadas ou dos controles espíritas (os chamados guias) como fonte das informações? Uma outra opção seria admitir clarividência por projeção mental, dentro de um espaço razoavelmente delimitado, a exemplo dos casos de projeção PES como Alex Tanous; Keith Blue e Ingo Swann reportados na American Society Psychical Research e na Psychical Research Foundation ou, forçando um pouco, a captação de imagens-pensamento de lugares visitados por pessoas afinadas por proximidade ou sentimento com o sensitivo. Quer dizer, o rapport aqui deveria ser também indispensável.

Bem, não tenho a pretensão de demover ninguém do materialismo, inclusive parapsicólogos que acreditam que psi pode ser explicada neurofisiologicamente. Só penso ser mais prudente, no lugar de usar um conceito elástico para psi, não ser tão condescendente quanto ao tamanho do alcance da relação psíquica entre os sujeitos. De minha observação, essa indulgência mesmo enfraquece psi como teoria científica, tornando-a imprestável a falseabilidade. Casos como o de Izídio (5), psicografado por Chico Xavier, exigiram um super-alargamento do conceito de PES, bem como todos aqueles outros em que este médium cita dados desconhecidos pelos requerentes que se dirigiram a Uberaba, nomes de ancestrais e lugares os quais os parentes sequer sabiam existir, salvo se recorremos a co-participação de alguma mente (encarnada ou desencarnada) próxima fisicamente ou sintonizada por propósitos em comum e que detenha as informações. A explicação mediúnica nestes casos faria de PES um processo simples, pois o que haveria seria uma telepatia entre duas mentes harmonizadas finalisticamente e com motivações necessárias. No entanto, por uma das mentes estar desencarnada, é difícil assumir abertamente tal posição tendo em vista o tabu social já enraizado pela ideologia materialista, apesar de existirem falhas na visão fisicalista de um cérebro gerador de mente, como aquelas provenientes das EQMs, casos de crianças que lembram espontaneamente de vidas passadas, experiências-fora-do-corpo, fenômenos psíquicos no leito de morte e a própria mediunidade.


Conclusão

Tendo em vista minha posição pessoal ajustar-se melhor a teorias transmissivas da relação mente-cérebro e por pensar que o conceito de sintonia psíquica para psi não deve ser tão arbitrário, até mesmo pela falta de exemplos que a história das pesquisas parapsicológicas pode nos conceder sobre um psi sem rapport, penso existir uma gama de fatos que poderia com mais razoável certeza ser explicada pela ação de uma mente desencarnada, tais como os casos 5, 6, 7, 15, 16 e 17 acima, salvo uma explicação normal por fraude. Chico Xavier continua sendo um indício forte de evidência da Sobrevivência, o qual poderia ser mais esclarecedor se houvesse um aproveitamento experimental controlado. Trabalhos espirituais assistenciais são benesses e consolos aos entes que ficam, mas não ajudam muito a resolver o problema da sobrevivência na raiz. São ações capazes de dar conforto aos que tiveram a sorte de uma experiência pessoal, porém não silenciam as justas objeções a uma vida após a morte.

Mais uma vez ressalto que minha posição sobre Chico Xavier continua aberta a sugestões. Não me sinto obrigado a defender seu legado, salvo entendimento de que isso possa estar conciliado a verdade dos fatos. Desta forma, o autor do presente artigo persiste não tendo problemas em rever seu ponto de vista.


Referências

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Fonte:
http://parapsi.blogspot.com.br/2007/12/continuamos-vivos-mente-alm-ou-aqum-do.html

 


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André Luís N. Soares

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