LAVAR AS MÃOS
Conversando com Jesus no Calvário
Senhor Jesus, quando enfrentaste
o flagelo da cruz, nós te desdenhamos com a nossa indiferença
à tua sorte que era, hoje o sabemos, a nossa própria sorte.
Também temos nossas cruzes a carregar. Nos deste uma causa nobre,
mas preferimos, naquele dia de trevas, lavar as nossas mãos na
água da covardia. Bem o sabemos que o teu fardo é leve
e teu jugo suave. Mas nossa cruz é a cruz dos nossos enganos,
que pedem reparos. E a tua, nem sequer a mereceste. Carregaste-a por
amor a nós. Disseste, diante de nossa iniqüidade: "Não
sabem o que fazem". Tuas chagas foram as chagas dos cravos
em tuas mãos. Mas nossas chagas são as que cravam as nossas
almas com os cravos da imperfeição.
Como glorificaste tua missão! Perdoaste os teus algozes e deixaste,
como em toda a tua missão, lições preciosas, ainda
que no martírio do Calvário. Ah! Lembro-me de uma de tuas
lições, naquele momento de dor: "Filho, eis aí
tua mãe! Mulher, eis aí o teu filho!". Pedias
a proteção do amor daquela que te amou, ao discípulo
amado na grandiosa tarefa que se desenrolaria por longos e dolorosos
caminhos, mas também ensinavas-nos que o amor do próximo
não é restrito à nossa parentela e é poderoso
recurso de sublimação para renovação do
mundo, na edificação de cada coração.
Como podemos, diante da tua sublime lição,
fechar os olhos à sorte de nossos semelhantes, membros da família
universal que amaste, lavando nossas mãos com a água da
indiferença? Como podemos afirmar, perante ti, que nada temos
a ver com a morte de um morador de rua queimado por mãos criminosas
na insensibilidade da grande cidade; com o vilipêndio da inocência
da criança; nada a ver com a seca e a fome que afligem nossos
irmãos africanos?
Oh! Quão árido é o nosso
coração, em que pese todo o amor que nos deste. E a destruição
desse globo maravilhoso, sublime morada da casa do Pai, que abriga a
grande família da humanidade? E as balas perdidas que ceifam
vidas nas ruas da amargura humana ou o recém nascido rejeitado
por aquela que lhe devia amor, como a clamar: "Mãe,
eis aqui o teu filho!"?
Somos elos da mesma corrente, que com a têmpera
forjada no teu amor, deveria sustentar o amor no mundo. Por isso, te
devemos testemunhos de amor. Ajuda-nos no trabalho de edificação
de nossos corações, para que possamos não mais
obrar a indiferença.
Foste julgado com a pena da iniqüidade humana.
Acusaram-te de ser o rei dos judeus. Acusação injusta,
pois és mais; és o timoneiro de nossas almas; Caminho,
Verdade e Vida. Acusaram-te de incitar o povo a não pagar tributo
a César. Mas foste tu mesmo que disseste, quando ardilosamente
te perguntaram se era lícito pagar o tributo: "A César
o que é de César". Mas não deixaste de
recomendar: "A Deus o que é de Deus", porque
sabes que estamos no mundo, mas não somos do mundo; somos de
Deus, Senhor! Disseram que agitavas o povo, mas era o povo que se agitava
ao influxo do teu amor. Ah! Que bela passagem aquela da tua entrada
em Jerusalém, montado em uma jumenta, aclamado pela multidão.
Essa foi a multidão que chorou por ti. Teria chorado eu, Senhor?
E muitos de nós, ainda indiferentes a tudo o
que pregavas, estávamos lá, no julgamento vil, gritando:
"Barrabás! Solta-nos Barrabás!", levando
o julgador injusto a lavar as mãos e te condenar... e nos condenar.
Teria gritado eu, Senhor: "Barrabás, Barrabás!"?
Foste preso, mas tua doutrina liberta. Foste crucificado, mas tua mensagem
está viva para os que têm o coração de sentir
e o pensar de discernir. Subiste ao Céu, após permanecer
por 40 dias entre os teus discípulos no testemunho da Ressurreição.
Tua Ascensão é a Ascensão do justo que venceu o
mundo. Nossa ascensão, ainda em laboriosa construção,
é a ascensão do discípulo que aprende contigo a
amar e aspira a dizer, um dia, como disseste: “Eu venci esse
mundo!”. Subiste para permanecer entre nós, amando-nos
e ensinando-nos a amar e a vencer os enganos do mundo, na árdua
tarefa de ascensão do mundo para Deus. Voltarás, quando
estivermos voltados para ti. Serei digno de ti, Senhor?
O teu Evangelho é a nossa redenção do martírio
do Calvário. A força do teu amor nos ensina a amar. Hoje
já lavamos as nossas mãos e purificamos os nossos corações
na água pura desse amor que redime pela tarefa abraçada:
a de trabalhadores da tua seara. E hoje ainda, da mesma forma que nos
conclamaste que nos amássemos, nós te dizemos: "Sim,
amamo-nos e lançamo-nos no trabalho de renovação
do mundo em nós, com o suor de nossos esforços a verter
na abnegação pela missão a que nos confiaste!".
Já não gritamos mais: "Crucifica-o! Crucifica-o".
Dizemos, na acústica da alma, aos que têm ouvido de
ouvir: "Segue-o! Segue-o!".
Não haverá mais crucificação, Senhor! Teu
Evangelho não ficará preso à cruz dos interesses
humanos e estará sempre redivivo em nossas consciências
e em nossos corações, norteando nossas ações
no teu infinito amor, na sublime tarefa da regeneração
humana.
Fonte: http://www.aeradoespirito.net/