Cristina Helena Sarraf

>    As síndromes do deus disse e do pronto e acabado

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Cristina Helena Sarraf
>    As síndromes do deus disse e do pronto e acabado


Conta-se que Beethoven, o grande compositor, foi visitar seu irmão que havia ganho muito dinheiro e adquirira propriedades. Era costume na época, haver uma placa na entrada das residências, com o nome do dono. Diante da luxuosa residência, a placa continha os seguintes dizeres: Johann Van Beethoven, proprietário de terras. Outro costume, era o visitante escrever seu nome num cartão, que o mordomo levava ao patrão, anunciando quem chegara. O compositor então escreveu: Ludwig Van Beethoven, proprietário de um cérebro.

Caso Beethoven não fosse quem era em termos de independência íntima, altaneria e confiança em si, não teria rompido com regras limitadoras da composição musical e não deixaria as obras de gigante que legou à humanidade, mas temeria os "poderosos" e se submeteria ao que os outros queriam que ele fosse e fizesse.

Ser quem foi e como foi não impediu que a vida dele tivesse muitas dificuldades. Suas grandes capacidades não fizeram dele um deus. Foi só um ser humano.

Mas perdura o pensamento de que deveria ser diferente... Por que certas pessoas sofrem? Por que sofro se "sou boa pessoa e não faço mal a ninguém"?

O Espiritismo aplicado no dia-a dia tem mostrado o quanto somos pródigos em ilusões, que devem ser próprias de nosso grau evolutivo. Mas será que não poderíamos encurtar um pouco o caminho que nos leva a um patamar de maior equilíbrio, pela adoção e vivência de idéias mais condizentes com a verdade?

Ainda está muito entranhada na sociedade, a idéia de que os sonhos, os "contos de fadas" são melhores do que a realidade da Vida, que é vista como dura e feia. E essa já é uma idéia ilusória, porque no passar do tempo a realidade é melhorada e a ilusão trás a dor da desilusão.

A quantidade de revistas e programas de TV sobre a vida glamourosa dos famosos e o êxito que alcançam, mostra bem o quanto se busca a ilusão e o quanto a vida das pessoas está desinteressante.

Sim, claro que não é proibido gostar de saber como vivem os outros, o que pode até exemplificar boas e más condutas, mas a questão básica não está aí. Está em se buscar nessas pessoas, modelos ideais para nossas vidas.

Porque todos têm qualidades admiráveis, todos nos ensinam algo, mas ninguém é deus.Nem os cientistas, nem os filósofos, nem os sábios, nem os gurus, nem os Espíritos superiores, nem os espíritas famosos, nem os livros, nem nada e nem ninguém é deus. Só Deus é Deus!

Pode parecer óbvio, mas não custa nada observar se não temos, lá num cantinho bem guardado, o desejo e a sensação de que alguém maravilhoso vai chegar em nossa vida e nos mostrar os melhores caminhos, vai nos proteger de todo mal, vai nos orientar de forma completa e depois, tudo estará bem e poderemos descansar sem preocupações, pois estaremos prontos e estarão acabadas todas as dúvidas e dificuldades.

Voltando ao passado dessa vida, não teremos escolhido, de tempos em tempos, alguém, um livro, conceitos, idéias, como nosso senhor e salvador, achando que "agora encontrei o que queria e tudo vai dar certo"? Só que o milagre não acontece e decepcionados e revoltados largamos esse deus, para logo depois surgir outro e acharmos que "agora sim..." E tudo se repetir.

Estaremos de algum modo agindo dessa forma? Se sim, precisamos de tratamento urgente, pois estamos com as síndromes do deus disse e do pronto e acabado.

Nos Princípios do Espiritismo encontramos cura para esse mal da alma, a começar pelo ensino do processo evolutivo gradual e contínuo a que todos estamos submetidos. Mas a cura só se faz se usarmos essas informações na vida diária. Outros podem nos ajudar, os livros nos esclarecem, nosso anjo de guarda nos intui, mas ninguém pode fazer por nós. E só saber não é suficiente. É indispensável sermos mestres de nós mesmos, nos ensinando a usar o que sabemos.

A Vida, a Ciência, as descobertas interiores, o Amor, são sempre feitos de uma longa seqüência de portas que se abrem. Quem entra desfruta do que há no local. Depois nota que existe uma outra porta. Abrindo-a haverá outro ambiente e poderá desfrutar dele, para depois notar outra porta. E assim sucessivamente, cada local tem suas próprias características, mas nenhum tem todas. Algumas pessoas vão indo pelas portas. Outras param e não querem seguir. E outras voltam para trás, por sentirem segurança só no que já conhecem.

Se quisermos caminhar enfrentando o desconhecido de cada situação boa ou má, ganhamos experiências e discernimento para nos aproximarmos da felicidade. Mas se quisermos esperar que um deus faça por nós...

Às vezes é preciso "pegar o touro a unha", sendo firmes com as atitudes e exercícios pessoais, porque não existe melhoria sem o necessário adestramento.

Somos "pegos" no que ignoramos e muitas vezes esse ignorar de informações ou de vivências é fruto apenas da preguiça que impede a mínima disciplina interior em nosso favor.

 

Fonte: Jornal do CEEM - Ano X - Edição nº09 - Fevereiro de 2007



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