Espiritualidade e Sociedade



Francisco Mozart Rolim

>   Discutindo a Cientificidade da Parapsicologia

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Francisco Mozart Rolim
>   Discutindo a Cientificidade da Parapsicologia



Desde suas origens a Pesquisa Psíquica ou Parapsicologia sofre ataques e preconceitos, seja por seu caráter fantástico, pela dificuldade ou impossibilidade de se reproduzir alguns de seus achados em ambiente controlado ou pela subjetividade de certos fenômenos. O fato é que a Parapsicologia, definida como o estudo de certos fenômenos psíquicos de origem supostamente sobrenatural e associados à experiência humana, analisa a natureza das faculdades mentais, sendo estas não totalmente compreendidas por seus estudiosos. Tais fenômenos desafiam muitas vezes as crenças, o senso comum e o establishment científico atual, o materialista. A possibilidade de que o conhecimento pose ser obtido por vias anômalas e de que a mente possa ser um substrato não redutível às funções sistêmicas sempre foram alvo de ataques por céticos e críticos. O que muitos ignoram é que várias experiências controladas e observações fenomenológicas foram replicadas vastamente, eliminando a possibilidade de fraudes e explicações "normais". Entretanto, persiste um véu de desconhecimento ou mesmo de ignorância acerca dos achados, levando o grande público a um completo estado de ausência de tais achados.

Assim, como foi exposto dias atrás, seguiu-se uma discussão no site de relacionamentos Orkut, entre este autor e um físico. Este último não se disse cético e nem se colocou contra a Parapsicologia. Na verdade, houve um questionamento de que se as observações feitas em torno dos fenômenos deveriam ganhar destaque em revistas mainstream, algo que este autor considera totalmente desnecessário ou mesmo, inútil. Ver-se-á que o debatedor incorreu em vários erros e contradições, não só em relação à Parapsicologia, mas na forma correta com que a ciência deve ser conduzida. Vale ressaltar que o autor cometeu um erro quando se valeu do argumento da autoridade, mas conforme será verificado adiante, a intenção do mesmo foi completamente distinta. O debate foi longo e, em partes, repetitivo. Para não ser redundante, resumi os pontos-chave da argumentação pró e contra e os temas mais polêmicos.

Inicialmente, foi questionada uma experiência onde indivíduos separados em Gaiolas de Faraday, aparato que parcialmente bloqueia ondas eletromagnéticas, e sem contato visual apresentavam coincidência em seus eletroencefalogramas (EEG) de 70%, sugerindo fortemente PES (percepção extra-sensorial). O debatedor não concedeu grande importância ao achado afirmando que Gaiolas de Faraday não isolam totalmente as radiações eletromagnéticas. Entretanto, tal argumento não refuta a possibilidade de PES uma vez que foi apenas questionada a capacidade de isolamento das gaiolas e não a transferência de informação via anômala. Apesar de alguns autores levarem a sério tal possibilidade, creio ser improvável que a PES se dê por ondas eletromagnéticas, do contrário penso ser esperado que muito mais pessoas possuiriam faculdades paranormais. No entanto, agentes psíquicos fortes são bastante raros. Na verdade, o estudo sugeriu que a PES ocorreu de forma similar à não-localidade, uma vez que os registros dos EEGs foram simultâneos.

Em seguida o debatedor fez um reforço do paradigma materialista, insistindo que graças a ele houve grandes avanços visíveis hoje em nossa sociedade, ao passo que o esoterismo, o misticismo, a religião e as pseudociências (creio que ele incluiu a Parapsicologia nesse rol) em nada contribuíram para o desenvolvimento científico. Notadamente, houve uma confusão entre Materialismo e método científico. Aqueles que advogam pelo Materialismo crêem que outros paradigmas sejam incapazes de fazer a mesma abordagem. No entanto, diversos autores e estudiosos se valem do mesmo método científico para postular explicações alternativas que forçam ao máximo o paradigma materialista. Logo, deve-se separar Materialismo de método científico, como coisas distintas e não sin equa non. Em nenhum momento foi feita qualquer defesa de crença ou credo pelo autor.

Depois, cometi um erro parcial que se mostrou mínimo no transcorrer da discussão. Afirmei que a opinião de dois físicos, Harold Puthoff e Russel Targ, em questão era em prol da existência dos fenômenos paranormais, respaldando-os por serem dois dos inventores do Laser. O debatedor me acusou de ter usado o argumento da autoridade. E ainda devolveu-me o argumento da autoridade com outro, perguntado quais seriam as opiniões dos inventores da Física Quântica e de vencedores do Nobel. Em tempo, me vali desse discurso não visando expor o argumento da autoridade, mas sim mostrar que cientistas de renome e gabarito consideram seriamente tais possibilidades e as investigam. É interessante constar que é lugar comum entre os céticos, embora nunca admitido, o argumento da autoridade, uma vez que em suas refutações sempre se valem das opiniões de seus "ídolos", que também fazem pouco das evidências e não conferem a devida atenção a elas. Como réplica, além de frisar a minha intenção com esse argumento, respondi que existem, sim, vencedores do Nobel que defendem a existência de fenômenos paranormais, com destaque recente para Brian Josephson, renomado físico britânico.

Honestamente, não considerei esses argumentos lógicos, racionais e científicos. Não é necessário que se creia em determinado assunto para que ele se torne cientificamente tangível. A ciência, antes de tudo, deve ser imparcial. A intenção de refutar uma determinada hipótese, através de pesquisas, tem o mesmo valor de prová-la em positivo, caso seja factual. Em relação aos financiamentos, Dean Radin, PhD, teve grande parte de suas pesquisas financiadas pela Bell Corporation, conglomerado norte-americano das comunicações. Suas pesquisas foram bastante frutíferas, com excelentes resultados estatísticos, inclusive para achados pré-cognitivos. Lembrei a ele também que a atitude cética de hoje é tão deletéria quanto os mais fundamentalistas dogmas religiosos e que a legítima ciência não é feita somente por interesses econômicos.

O debatedor usou depois de um preceito de LaPlace que quanto mais forte for a alegação, mais forte deve ser a prova ou evidência. Além disso, também comentou que são os que acreditam em algo que devem se esforçar para provar o que sustentam. Com relação à primeira assertiva, penso tal fundamento ser subjetivo, uma vez que a força de um caso ou evidência está aos olhos de quem vê, sendo que um indivíduo de mente aberta (não quer dizer crédulo) possa julgar aquilo que possa ser convincente em potencial. O fato de quem alega é quem deve provar é um fato, porém pseudocéticos em muito se esforçam para negar e sempre sem estar a par das evidências. Se por um lado o que o debatedor falou é correto, por outro é deturpado pela comunidade científica em geral. Afirmei também que em muitos casos a ciência nasce da dissidência, citando os exemplos de Horace Wells, dentista inventor da anestesia, que se matou após uma demonstração fracassada, e Albert Wegener, proponente da Teoria da Deriva Continental, hoje conhecida como Teoria das Placas Tectônicas. Reforcei ainda que a Parapsicologia possui suficiente corroboração estatística e casuística para justificar suas pesquisas, lembrando também que Carl Sagan, célebre cientista e cético, julgou que alguns atos ditos paranormais mereciam ser investigados.

Outro argumento do debatedor que considero bastante questionável foi a comparação entre os estudos das Neurociências e da Parapsicologia, sendo que, segundo suas palavras, a primeira é bem mais estudada e escrutinizada que a segunda, como se esta última fosse uma ciência recente. Tal afirmação denotou falta de conhecimento em relação à Parapsicologia, e para refutar tal argumento lembrei que a Parapsicologia existe desde o século XVIV e que em 1967 ela foi aceita como ciência legítima pela AAAS (American Association for Advancement of Science). Além disso, pesquisas sérias, como as de Ian Stevenson sobre CORTs (cases of reincarnation type) existem há 40 anos, por exemplo. Mostrei a ele também que ilustres figuras do meio científico, incluindo ganhadores do Nobel, já investigaram ou investigam a fundo os fenômenos paranormais.

Um ponto em comum entre o autor e o debatedor é com relação ao excessivo entusiasmo na relação entre Física Quântica e Parapsicologia. Muitos místicos e religiosos estão se valendo dessa associação para proclamar suas crenças. Na verdade, tudo ainda é especulação e ainda não existem provas substanciais dessa correlação. Contudo, ressaltei que muitos cientistas sérios, incluindo físicos, contribuem com modelos para que se desenvolvam teorias, visando uma Parapsicologia séria e racional.

Discutimos bastante acerca do Materialismo. Penso que este paradigma, conforme consta hoje, é insuficiente para elucidar completamente a natureza da nossa realidade. Se a relação matéria/energia pode explicar de forma parcimoniosa a totalidade dos fenômenos, então se deve estender em muito o atual conceito de matéria. A própria Consciência, juntamente com seus temas acessórios (memórias, experiência de primeira pessoa, volição e criatividade) não são devidamente explanadas por modelos fisicalistas. Considero que, caso o paradigma esteja incompleto, ele deve ser redefinido. Se estiver errado, deve ser abolido.

Posteriormente, o debatedor afirmou que não havia publicações sobre temas parapsicológicos em revistas de peso. Tal afirmação é uma tremenda falácia, especialmente se constatarmos que existem tais publicações em revistas não só voltadas ao público da Parapsicologia, mas também em revistas médicas e de ciências naturais. Mostrei um rol de publicações em periódicos respeitabilíssimos, como Journal of Mental e Nervous Disease e The Lancet. Como um mal-sucedido ad-hoc, o debatedor afirmou que faltavam publicações em revistas de "maior" peso como Nature, Science e PNAS. Este autor discordou plenamente, pois todas aquelas outras também são peer-reviewed e têm grande valor científico, com a diferença de que são destinadas a públicos específicos e que não há sentido em "melhor ou pior revista". Além disso, revisores de artigos científicos, geralmente, têm interesses pessoais, bem como a própria revista em relação aos seus patrocinadores. Isso pode minar a possibilidade de um artigo "subversivo" ser publicado. Ainda assim, com hesitação, mostrei a ele publicações parapsicológicas em revistas que ele considerava de "peso" como a Science e Nature. A hesitação se deu porque eu discordo totalmente do argumento do debatedor por razões já descritas previamente nesse parágrafo.

A tônica maior da discussão se deu em torno da alegação do debatedor de que a Parapsicologia andava de mãos dadas com as pseudociências e que, se existissem tão boas evidências delas, deveriam estar mais difundidas e documentadas. Em contrário, afirmei que isso não é uma falsa visão. O Brasil, no que tange à Parapsicologia, sequer tem representatividade consistente e existe todo um lobby contra tais estudos por uma maioria de cientistas céticos. Esses raramente avaliam a evidência e, quando o fazem, é de forma parcial. Mais comum ainda é a negação de tais evidências por "achismos" e por "visões que não condizem com a realidade". Tais falácias são verdadeiros atos de fé, sem qualquer embasamento científico e baseados no argumento da autoridade.

Durante todo o debate pude observar que o debatedor não é um indivíduo dogmático e discutiu com distinção. Ele argumentou de forma madura, sem ataques ou ad hominens, o que é raro em discussões desse tipo. O que ficou claro é que uma grande parcela do público, mesmo os mais intelectualizados, desconhece os ostensivos dados sobre a Parapsicologia, seja ela laboratorial ou de campo. Infelizmente nem todos os debatedores aceitam, com a devida educação, argumentar em um tema tão espinhoso. Fica registrado um elogio a um crítico que, mesmo falhando em alguns pontos, soube ser honesto e racional em tão polêmica contenda.


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