Lucy Dias Ramos

>    A Felicidade é Possível?

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Lucy Dias Ramos
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Através de todos os tempos, muitas religiões têm se mostrado ineficazes na solução dos problemas humanos, principalmente, como agentes de equilíbrio e profilaxia das dores morais que aniquilam as melhores aspirações de plenitude íntima.

Analisando a evolução do pensamento religioso até o século XIX, deparamos com instituições frias, radicais, que tolhiam a liberdade de pensar e de agir através de um poder constituído.

Inúmeras religiões, demarcando as classes sociais, isolando-se em pontos de vista convencionais, alimentaram, durante séculos, as paixões inferiores, especialmente o egoísmo e o orgulho de seus adeptos, gerando a incredulidade dos que não se submetiam às suas diretrizes e dogmas.

Detendo-nos apenas na análise do Cristianismo, é fácil entender como a distorção dos ensinamentos de Jesus, após o século III, levou os detentores do poder temporal a atividades belicosas e perseguidoras, impondo deveres e compromissos gerados pelo fanatismo religioso, o que resultava em crimes hediondos, em nome da fé cristã.

A perseguição religiosa, a intolerância aos que não seguiam suas crenças perduraram no Brasil até meados do século XX. Ainda hoje, a fraternidade e a aceitação do outro, que não se identifica com determinado credo religioso, coloca o ideal cristão – “amai-vos uns aos outros” – bem distante da realidade em que vivemos.

Muitos estudiosos e escritores que analisaram a evolução histórica das religiões colocam-se como obstáculos à conquista da felicidade. Argumentam citando exemplos das religiões orientais que, a pretexto da purificação interior e da elevação espiritual, adotam atitudes extremas de mortificação do corpo, sem conseguir debelar a miséria física e moral dos seus seguidores.

No Ocidente, a partir do século XIX, um novo conceito, mais humano e social, tem levado alguns líderes religiosos a uma conduta que visa a amenizar o sofrimento da Humanidade.

A evolução científica estimulou o homem a buscar sua libertação espiritual.

Sua mente, mais aberta às pesquisas e às inquirições filosóficas, já não se contenta com fantasias mitológicas nem crenças pueris, lutando para impedir o cerceamento de sua liberdade. Além deste posicionamento, surge, na maioria dos grupos religiosos cristãos, uma visão existencial com a preocupação de se impor nova ordem social alicerçada no amor, na fraternidade e na tolerância, numa tentativa de reparar os erros do passado...

A conclusão realista de tudo o que podemos observar, através da evolução histórica das religiões, é que elas sempre, em se transformando em organizações ou instituições, vão se distanciando, aos poucos, de seus princípios básicos e de seus objetivos iniciais. Isto ocorreu ao longo dos tempos.

Com a codificação do Espiritismo no século XIX, uma nova visão dos conceitos de fé e moral cristã é estabelecida. A razão e o raciocínio levam pesquisadores e estudiosos da alma humana e de sua destinação espiritual a uma formação religiosa mais profunda. É o Cristianismo que retorna, cumprindo a promessa de Jesus, enviando-nos o Consolador Prometido.

Um novo alento surge nas almas sequiosas de paz e entendimento. A felicidade, como ensinara Jesus, é possível. Entretanto, a fé raciocinada enseja ao ser humano a entender o porquê do sofrimento, da dor e das desigualdades sociais através da lei da reencarnação, que confirma a justiça divina e suas conseqüências morais coerentes com o que nos ensinara Jesus.

A felicidade relativa, decorrente da harmonia íntima, é possível e todos poderemos consegui-la. Este é, também, o pensamento de Joanna de Ângelis quando nos ensina que: “Idear a felicidade sem apego e insistir para consegui-la; trabalhar as aspirações íntimas, harmonizando-as com os limites do equilíbrio; digerir as ocorrências desagradáveis como parte do processo; manter-se vigilante, sem tensões nem receios e se dará o amadurecimento psicológico, liberativo dos carmas de insucesso, abrindo espaço para o auto-encontro, a paz plenificadora.”

* * *

Compreenderemos então que a felicidade requer o autoconhecimento para estarmos em paz com a vida e com o próximo, limitando nossas ambições nos parâmetros do que nos é essencial, sem abusos ou distorções; desejar somente o que nos mantém equilibrados dentro do entendimento do real sentido da vida; manter a vigilância e a fé para sentir segurança e apoio nas horas difíceis, sabendo esperar e entender que nem tudo nos é lícito, mesmo sendo possível sua concretização.

Aprenderemos, assim, a não fugir às responsabilidades assumidas, a respeitar as leis morais estabelecidas por Deus, nosso Pai, o que, certamente, resultará na conquista da paz e da plenitude íntimas.

REFORMADOR
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
Ano 119 / Dezembro, 2001 / Nº 2.073




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