Espiritualidade e Sociedade



José Augusto Ramos, Maria Cristina de Sousa Pimentel, Maria do Céu Fialho e Nuno Simões Rodrigues (coords.)

>    Paulo de Tarso: Grego e Romano, Judeu e Cristão

Artigos, teses e publicações

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José Augusto Ramos, Maria Cristina de Sousa Pimentel, Maria do Céu Fialho e Nuno Simões Rodrigues (coords.)
>    Paulo de Tarso: Grego e Romano, Judeu e Cristão


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Introdução:

Muito provavelmente, Paulo de Tarso, antes conhecido como Saulo, nasceu na primeira década do século I d. C., o que significa que seria pouco mais novo do que Jesus de Nazaré. Judeu da diáspora, o apóstolo seria natural da Cilícia, tendo decerto tido uma educação de tipo helenizante. Cidadão romano, como ele próprio se identifica pela mão do autor dos Actos dos Apóstolos, Paulo viajou por todo o Mediterrâneo, designadamente pela Síria, Chipre, Ásia Menor, Antioquia, Galácia, Macedónia, Corinto, Jerusalém, Éfeso, Roma e, muito possivelmente, pela Península Ibérica. Paulo terá vivido sob os principados de Augusto, Tibério, Gaio Calígula e Cláudio, acabando por ser condenado à morte, em Roma, no tempo de Nero. A sua vida coincidiu, por conseguinte, com a vigência de toda a chamada dinastia Júlio-Cláudia, assistindo assim à emergência do Principado ou Império Romano bem como a todas as transformações que o Mundo Antigo conheceu nessa época.

A vida e a obra de Paulo de Tarso podem ser conhecidas através de várias fontes, sendo as mais significativas o livro dos Actos dos Apóstolos, tradicionalmente atribuído a Lucas, e as cartas escritas a várias comunidades cristãs mediterrâneas emergentes e a alguns indivíduos, como Filémon e Timóteo. Aliás, não menos de treze dos vinte e sete escritos do chamado Novo Testamento são cartas atribuídas a Paulo. Se a esses juntarmos o facto de o apóstolo ser um dos principais caracteres dos Actos, então a presença de Paulo de Tarso nessa parte da Bíblia traduz-se num protagonismo que ocupa quase um terço de todo o corpus.

As epístolas paulinas relacionam-se com o «nascimento» do cristianismo enquanto movimento sócio-cultural e religioso. Como fontes históricas, as cartas de Paulo são autênticos documentos, com destinatários reais, nos quais se reflectem as vicissitudes do surgimento dos grupos e instituições que deram corpo ao cristianismo nos primeiros séculos da sua existência. Note-se aliás que Paulo de Tarso foi um dos protagonistas de todo esse processo, que podemos classificar como o da geração formativa do movimento cristão. Como conclui T. L. Donaldson, Paulo e os seus escritos representam uma «janela de inestimável valor para o cristianismo emergente». E se levarmos em conta a influência dos escritos paulinos na formação da cultura ocidental como um todo, então ficamos com uma percepção ainda mais clara da amplitude da importância histórica de Paulo de Tarso. A título de exemplo, salientamos o facto de o pensamento e os discursos paulinos, independentemente de concordarmos ou não com a forma como foram, e são, retoricamente usados, terem sido evocados em contexto de problemáticas sociais e políticas relevantes para a sociedade ocidental, de que são exemplos o tratamento dos Judeus e do judaísmo, a instituição da escravatura nos séculos XVIII e XIX, a colonização de África e do Extremo Oriente – onde a actividade missionária cristã foi particularmente significativa –, as estruturas e práticas de tipo patriarcal e a exclusão das mulheres da participação efectiva das mais variadas circunstâncias sociais e políticas, as atitudes intolerantes para com as questões da orientação sexual, além de temáticas estritamente teológicas, como os problemas do «pecado», da «culpa» e da «morte», centrais, por exemplo, nas diferenças estabelecidas entre as correntes católica e protestantes do cristianismo.

Juntamente com os Actos dos Apóstolos, as cartas paulinas remetem os investigadores para uma necessária reconstituição, contextualização e interpretação históricas, trazendo à colação as várias problemáticas em causa. Com efeito, mais do que pelas várias facções judaicas no activo durante o século I d. C., o enquadramento coevo pauta-se pelo domínio greco-romano, tanto ao nível político-institucional, como ao nível estritamente cultural – literário, filosófico, religioso, material, científico – e mental. A propósito, podemos citar o elucidativo exemplo evocado por T. L. Donaldson. Segundo este exegeta, o leitor moderno dificilmente compreenderá na plenitude o passo citado em Gl 3,1 («Oh Gálatas insensatos! Quem vos enfeitiçou, a vós, a cujos olhos foi exposto Jesus Cristo crucificado?»), se não levar em conta o facto de a magia ser, naquele contexto, um assunto na ordem do dia e pleno de sentido objectivo, que iria muito além da simples metáfora.

Se os Actos dos Apóstolos proporcionam essencialmente informação de natureza biográfica – acerca dos vários episódios vividos pelo apóstolo, dos itinerários e do ministério de Paulo de Tarso –, as cartas são fontes privilegiadas para conhecer o pensamento teológico, filosófico e até sócio-político do homem. Mas, como qualquer fonte histórica, estes documentos não estão isentos de crítica, havendo que submetê-los à dura avaliação da hermenêutica. Esse deve ser o meio privilegiado para compreendermos a profunda crítica e constestação dos «partidos» judaicos do seu tempo, assim como a adopção, senão mesmo construção, do pensamento que culminará na teologia cristã. Ao mesmo tempo, reconhecemos no teorizador as categorias e formas do pensamento grego, nomeadamente ao nível do uso da retórica, assim como os vestígios das estruturas institucionais que o Império Romano lhe proporcionou e de que ele de forma tão inteligente se serviu.

Refira-se, aliás, que a biografia de Paulo de Tarso é riquíssima do ponto de vista historiográfico-literário. Da conversão ou «experiência de Damasco» – como alguns autores hoje lhe chamam – ao topos do naufrágio; da vivência e rejeição do judaísmo à itinerância proselitista; da prisão e outras provações à condenação, o percurso biográfico do apóstolo não só segue pari passu o de Cristo – levando mesmo à conclusão de que estamos perante uma mimese biográfica que pretende colocar o Tarsense em referência directa com o Nazareno – como se apresenta com uma vitalidade própria de qualquer herói da Antiguidade.

O Vaticano designou o período de 28 de Junho de 2008 a 29 de Junho de 2009 como «Ano Paulino». No âmbito dessas comemorações, três Centros de investigação – o de História e o de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa e o de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, a que se associou ainda a colaboração do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa – decidiram reconhecer e relembrar a importância histórica e cultural da personalidade de Paulo de Tarso, atribuindo-lhe os epítetos de «Grego e Romano, Judeu e Cristão», reivindicando para o Apóstolo das Nações categorias que o definem como síntese e desse modo o tomam como um homem do seu tempo. Para concretizar esta reflexão, as unidades de investigação científica mencionadas decidiram avançar com o debate feito nos planos histórico, filológico, arqueológico, filosófico, e até mesmo teológico, dando-lhe forma através da investigação que originou uma série de estudos, cujo principal objectivo é contextualizar a figura e a obra de Paulo de Tarso. Para isso, os centros universitários referidos «convocaram» um grupo de investigadores nacionais, que aceitaram o desafio e avançaram com problemáticas que contribuíram para a discussão em torno do valor e importância do Apóstolo das Nações nos fundamentos da Cultura Ocidental.

É o conjunto das propostas então apresentadas que reunimos neste volume. Os textos que o integram podem ser agrupados em três grandes blocos: os que tratam de questões biográficas e de contexto sócio-cultural do tempo de Paulo de Tarso; os que abordam problemáticas do pensamento teológico-filosófico do apóstolo; e os que estudam a problemática da tradição, influência e recepção de Paulo nas mais variadas expressões culturais e épocas, da Antiguidade à Contemporaneidade. Assim, no primeiro bloco incluímos as investigações de Rodrigo Furtado (Paulo de Tarso: em torno da origem), Abel N. Pena (De Tarso na Cilícia à Roma Imperial. A educação de Saulo), Maria do Céu Fialho (Paulo no caminho de Damasco), José A. Ramos (Paulo de Tarso: a conversão como acto hermenêutico), Nuno Simões Rodrigues («Eis Spanian». Paulo de Tarso na Hispânia), Amílcar Guerra (A Lusitânia no tempo de Paulo de Tarso: tópicos do mundo provincial em fase pós-tiberiana) e Delfim F. Leão (Paulo de Tarso e a justiça dos homens. Helenismo e impiedade religiosa nos «Actos dos Apóstolos»). Ao segundo grupo pertencem os trabalhos de Paula Barata Dias (Paulo e a controvérsia dos alimentos permitidos aos cristãos: a mesa entre dois mundos), Maria Ana Valdez (A caminho da Nova «Aeon»: tolerar ou aturar? O que teria Paulo em mente?) e Ana Paula Goulart (Moisés e Paulo em busca de um povo). O terceiro e último conjunto de textos é constituído pelas reflexões e conclusões de Paulo Sérgio Ferreira (Séneca e Paulo de Tarso: conjecturas em torno de uma correspondência incerta), Cláudia Teixeira (Os Actos apócrifos de Paulo e Tecla: aspectos da sua recepção e interpretação), Cristina Sobral («In uirtute signorum»: Paulo de Tarso na hagiografia medieval), Luís U. Afonso (São Paulo na Arte portuguesa da Idade Média), Arnaldo do Espírito Santo (O Apóstolo na obra de Vieira) e António Cândido Franco (Paulo de Tarso e Teixeira de Pascoaes).

Com a sua publicação, as reflexões então apresentadas pelo grupo de investigadores ficam acessíveis a todo o público. Os organizadores do volume, que coordenaram os trabalhos, esperam assim fazer justiça ao Apóstolo, ao que ele significa para a nossa cultura e ainda ao facto de ter sido um pensador com o objectivo de intervir no seu mundo e no seu tempo, mas que não se ficou por aí. Longe disso. Recordando as suas próprias palavras:

Vede com que grandes letras vos escrevo pela minha mão! - Gl 6,11.

 

Os coordenadores
José Augusto Ramos
Maria Cristina de Sousa Pimentel
Maria do Céu Fialho
Nuno Simões Rodrigues

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Fonte:  https://dspace.uevora.pt/rdpc/bitstream/10174/7001/1/s.paulo.pdf

 



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