Marcelo Henrique Pereira

>     A união entre os espíritas

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Marcelo Henrique Pereira
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A (verdadeira e necessária) união entre os espíritas, segundo Vicente de Paulo

 

Em duas comunicações que Allan Kardec resolveu apresentar no capítulo XXXI de O Livro dos Médiuns, sob o título “Dissertações Espíritas”, direcionadas, segundo o Codificador, para o porvir do Espiritismo, aos médiuns e às reuniões espiritistas, nos itens XX e XXVI, encontramos duas mensagens assinadas por Vicente de Paulo, personagem que, aliás, já havia se manifestado inúmeras outras vezes, sobretudo subscrevendo textos contidos em O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Vicente de Paulo (1581-1660) ficou conhecido, na História da Humanidade, sob a expressão de um sacerdote católico francês do século XVII, o qual teve como divisa teórica e prática a caridade. Dedicado à evangelização de parcelas mais carentes da sociedade francesa, realizou prodígios visando minorar as dores dos camponeses, contribuindo, ainda, para a alteração da estrutura da Igreja Romana, por sua ativa participação no Conselho de Consciência, órgão encarregado de examinar todos os casos concernentes à Igreja, decisivo para o Renascimento católico.

Debruçando-nos sobre as contingências espíritas de nosso tempo e percebendo a relativa dualidade entre religiosos e laicos, que, cada qual entende e professa a Doutrina dos Espíritos, com base em práxis diversas e, até, antagônicas, entendemos que o momento é decisivo e exige, de todos, principalmente das lideranças e dos escritores e jornalistas espíritas, prudência, bom-senso e espírito de diálogo, conciliação e, sobretudo, caridade.

Caridade para entender que cada qual reage conforme sua bagagem espiritual e se afiniza com ideias e práticas mais concernentes com seus hábitos, crenças e idiossincrasias íntimas. Em outras palavras, a parte majoritária do movimento espírita afilia-se à noção religiosa da Doutrina e, em conseqüência, entende a caridade como a prática assistencialista, prioritariamente dentro das instituições, por meio de projetos e campanhas específicas. De outro lado, a corrente filosófico-científica, denominada de laica, mesmo reconhecendo o caráter moralizador do conteúdo espiritista e o seu embasamento nas máximas morais de Jesus, propugna pela não-adesão ao sentido religioso da doutrina e pela prática espírita extra-muros das entidades espíritas.

Caridade, também, para perceber que devamos investir nas semelhanças, que são muitas, efetivando parcerias que iniciem na promoção de eventos em que se busque a difusão das ideias espiritistas, investindo, ainda mais, em espaços de comunicação, ou seja, de aproximação, contato, fraternidade e debate, à luz do pensamento espírita, sem intenção de cooptação ou desejo de sobrepujar-se ao outro.

Para Vicente, “O Espiritismo devera ser uma égide contra o espírito de discórdia e de dissensão; mas, esse espírito, desde todos os tempos, vem brandindo o seu facho sobre os humanos, porque cioso ele é da ventura que a paz e a união proporcionam.” A discórdia e a dissensão, para ele, penetraria nas assembléias espíritas, deles decorrendo a desafeição entre os seguidores da doutrina. Recomenda, ele, assim, guarda e vigilância, porque ancoradas na paciência e na conciliação que a caridade verdadeira inspira e, no caso de ser necessária a separação entre o joio e o trigo, os bons espíritos “[...] estarão sempre do lado onde houver mais humildade e verdadeira caridade”. (OLM, cap. XXXI, item XXVI.)

De modo usual, uns e outros sempre se posicionam como “detentores” da verdade, com auto-designações como “pureza doutrinária”, “espiritismo verdadeiro”, “verdadeiro caráter da doutrina”, “resgate do pensamento kardecista”, etc., ou, de modo complementar, posicionam-se em relação aos “outros”, com adjetivações como “pseudo-espíritas”, “reformadores”, “espiritualistas”, “movimento paralelo”, para ficarmos nas principais nomenclaturas, aplicáveis, é verdade, em cenários e para destinatários específicos. Isto quando, por conveniência e diretriz, não adotam postura outra senão a de indiferença, fazendo de conta que “a” ou “b” não existem (ou não têm representatividade ou importância).

É mais do que hora de nos motivarmos ao exame sério, criterioso e detalhado da situação vivida no seio do movimento espírita (principalmente no Brasil). Há, notadamente, uma intransigência generalizada na direção de qualquer aproximação, por mais sutil que seja. Em eventos “oficiais”, promovidos por entidades “independentes” (espíritas ou não), temos visto uma espécie de “saia-justa” entre os dirigentes da corrente majoritária, por terem que “dividir” a mesa de honra com representantes do outro grupo.

Repisando o iluminado mentor, na outra passagem selecionada, encontraríamos novas (e severas, porquanto oportunas) advertências: “Sede unidos, para serdes fortes”, justamente para resistir, diz ele, “ [...] aos dardos envenenados da calúnia e da negra falange dos Espíritos ignorantes, egoístas e hipócritas”. E, catedraticamente, postula acerca da necessidade de agirem, todos os genuínos espíritas, com indulgência e tolerância recíprocas, para esquecer eventuais defeitos – de uns e de outros – tornando notórias as qualidades, numa amizade sincera que é o sustentáculo para a resistência aos “ataques do mal”.

Enquanto continuarmos – clara ou veladamente – nos combatendo, em busca de uma unidade que se traveste em uniformidade e dependência, enquanto primarmos pela adoção de sistemas rígidos de controle e tutela das atividades espiritistas, não dando oportunidade ao espírito de liberdade, cunhado pela Espiritualidade Superior como o principal requisito e legítima alavanca do progresso espiritual, estaremos fadados a ser (mais) um movimento de feições religiosas e de intransigência, tanto nas relações íntimas – com disputas de poder e influência – quanto no cenário exterior, numa época em que o mundo desperta para o combate de toda e qualquer intolerância, preconceito e fundamentalismo.

Este fundamentalismo, aliás, precisa urgentemente de um basta! Porque todos, invariavelmente, somos espíritas e porque a compreensão das verdades e dos princípios da Doutrina Espírita compreende e permite que, ainda que de modo parcial e evolutivo, nossas percepções e leituras sejam distintas, caminhando, com a marcha do progresso, para a convergência, num futuro que é obra consequente do presente.

As mensagens originais assinadas por Vicente de Paulo,

em O Livro dos Médiuns:

XX

 

“A união faz a força. Sede unidos, para serdes fortes.

O Espiritismo germinou, deitou raízes profundas. Vai estender por sobre a terra sua ramagem benfazeja. E preciso vos tomeis invulneráveis aos dardos envenenados da calúnia e da negra falange dos Espíritos ignorantes, egoístas e hipócritas. Para chegardes a isso, mister se faz que uma indulgência e uma tolerância recíprocas presidam às vossas relações; que os vossos defeitos passem despercebidos; que somente as vossas qualidades sejam notórias; que o facho da amizade santa vos funda, ilumine e aqueça os corações. Assim resistireis aos ataques impotentes do mal, como o rochedo inabalável à vaga furiosa.”

[...]

XX

 


“O Espiritismo deverá ser uma égide contra o espírito de discórdia e de dissensão; mas, esse espírito, desde todos os tempos, vem brandindo o seu facho sobre os humanos, porque cioso ele é da ventura que a paz e a união proporcionam. Espíritas! bem pode ele, portanto, penetrar nas vossas assembléias e, não duvideis, procurará semear entre vós a desafeição. Impotente, porém, será contra os que tenham a animá-los o sentimento da verdadeira caridade.

Estai, pois, em guarda e vigiai incessantemente à porta do vosso coração, como à das vossas reuniões, para que o inimigo não a penetre. Se forem vãos os vossos esforços contra o de fora, sempre de vós dependerá impedir-lhe o acesso em vossa alma. Se dissensões entre vós se produzirem, só por maus Espíritos poderão ser suscitadas. Mostrem-se, por conseguinte, mais pacientes, mais dignos e mais conciliadores aqueles que no mais alto grau se achem penetrados dos sentimentos dos deveres que lhes impõe a urbanidade, tanto quanto o vero Espiritismo. Pode dar-se que, às vezes, os bons Espíritos permitam essas lutas, para facultarem, assim aos bons, como aos maus sentimentos, ensejo de se revelarem, a fim de separar-se o trigo do joio. Eles, porém, estarão sempre do lado onde houver mais humildade e verdadeira caridade.”


(*) Marcelo Henrique Pereira, Mestre em Ciência Jurídica, Presidente da Associação de Divulgadores do Espiritismo de Santa Catarina e Delegado da Confederação Espírita Pan-Americana para a Grande Florianópolis (SC)



Fonte: http://aeradoespirito.sites.uol.com.br/A_ERA_DO_ESPIRITO_-_Portal/ARTIGOS/ArtigosGRs/A_UNIAO_ENTRE_OS_ESP_MH.html



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