Marcelo Henrique Pereira

>      A necessidade de Estudo

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Marcelo Henrique Pereira
>      A necessidade de Estudo

Toda ciência que se preza e que almeja permanecer na senda do tempo, precisa de adeptos sérios e equilibrados, que não assumam posições ortodoxas e permanentes. Se as ciências possuem axiomas ou princípios, também é sabido que tais postulados, em razão da imperfeição dos conceitos, experimentos e realizações humanas, são mutáveis e progressivos. O mesmo se dá com a ciência espírita que, apesar de emanar de uma fonte fidedigna – Deus e os Espíritos Superiores – precisou e precisa do elemento intermediário humano – mediunidade e entendimento – para ser conhecido, divulgado e aprendido.

Nas três últimas décadas do século passado, de um modo mais efetivo, diversos foram os organismos institucionais (centros, alianças e federações) que desenvolveram projetos ou campanhas voltadas ao estudo da Doutrina Espírita. Cada um deles tinha um objetivo, um objeto e um método próprios, visivelmente direcionado à qualificação do público-alvo e a formação de continuadores das tarefas no movimento espírita. Não podemos esquecer, também, dos inúmeros trabalhos de sistematização da transmissão do conhecimento espírita, desenvolvido por pessoas sérias e dedicadas – algumas sem muito preparo acadêmico ou pedagógico, é verdade, – mas que, a seu turno, envidaram esforços para propagar os ensinamentos e fomentar a constância e a especialização dos interessados ou adeptos. Recordo-me, por exemplo, de reuniões em que as questões e as respostas de O livro dos espíritos eram lidas e comentadas, uma a uma, ou os temas de O céu e o inferno e A gênese eram explanados por monitores, com o uso de técnicas de ensino-aprendizagem e dinâmicas de grupo, muitas das quais tenho em arquivo e continuo utilizando em seminários ou workshops – espíritas ou acadêmicos – tal a sua validade e pertinência.

Mas, convenhamos, será somente isso o Estudo da Doutrina Espírita? Para que se destina e que resultados alcança estes procedimentos? Qual a ligação entre Estudo e Ciência?

Em regra geral, o movimento espírita acha-se voltado para a prática do proselitismo, isto é, a difusão das “verdades”, conceitos, idéias, premissas ou princípios afetos ao Espiritismo, possibilitando aos neófitos e aos adeptos, por meio da divulgação e da repetição, o entendimento das noções básicas que a Filosofia Espírita encampa. Considerando, ainda, a parcela majoritária do espiritismo tupiniquim (cognominado por Sandra Stoll como “espiritismo à brasileira”), podemos afiançar que os prosélitos são de natureza religiosa, de vez que os freqüentadores das instituições comportam-se como fiéis e encaram a “ida ao Centro” como prática de fé religiosa, mesmo que a doutrina não possua ritos, sacramentos ou dogmas. Mesmo sem querer tratar deste tema (religião ou não-religião) neste ensaio, é impossível abordar a prática espírita sem tangenciar a religiosidade explícita dos espíritas.

Assim sendo, que espaço temos para o “crescimento” da Doutrina Espírita, isto é, a expansão dos conceitos, a descoberta de novas verdades, a apresentação de novas teses (concebendo a perspectiva da antítese e da síntese, ou seja, a refutação e a conclusão – afirmativa ou negativa – conseqüente), e, como corolário deste processo, a continuidade do aprendizado balizado no Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos? Reflitamos...

Com muita franqueza, a postura sectária de muitos dirigentes e líderes espíritas, que considera o Espiritismo como uma “revelação divina”, isto é, obra do conjunto de espíritos superiores, sem intervenção humana – ressalvado, é claro, o trabalho de codificação de Allan Kardec – e, portanto, só pode ser “alterado” mediante uma “determinação” de ordem superior para que um (ou mais) missionários venham repassar novas informações ao público-ouvinte humano. No máximo, cremos, é permitida a “complementação” de alguns temas, ou a releitura dos mesmos, por meio do concurso de “renomados” guias ou médiuns de “reconhecida idoneidade”. Por isso, grande valor se dá aos livros psicografados – mormente se assinados por determinados espíritos que já gozam de prestígio e validade no seio do movimento. Em paralelo, não se difunde a prática dos trabalhos de pesquisa (científica ou literária), de peso e com lastro acadêmico, quando, no máximo, se procede à revisão bibliográfica para a montagem de “colchas de retalhos” sobre o que afirmaram este ou aquele médium ou espírito acerca de dados temas. Evidentemente, isto não é unanimidade e há, aqui ou acolá, pessoas ou grupos pequenos voltados ao trabalho de construção do pensamento espírita, entre os quais podemos, honrosamente, citar o CP-Doc (Centro de Pesquisa e Documentação Espírita) e o IPEPE (Instituto de Intercâmbio do Pensamento Espírita).

Precisamos, urgentemente, abrir espaço para a renovação de ares no movimento, evitando que o mesmo se cristalize no dogmatismo e na ausência de perspectivas, já que, em função da própria limitação histórico-territorial do trabalho (magnífico e pioneiro) do Prof. Rivail, algumas questões – mesmo com a criteriosa intervenção do codificador e a acuidade dos espíritos que o assistiram na tarefa – refletem o pensamento vigente na Europa do Século XIX, e necessitariam de atualização de linguagem e ideologia, de pluralismo e interdisciplinaridade, além, é claro, do necessário aprofundamento, já que, evidentemente, em termos intelecto-culturais, saltos imensos foram dados no concurso do tempo.

A última e mais peculiar questão que brota desta discussão é personalíssima: quem fará a atualização e a alteração do modus procedendi da obtenção e da disseminação dos “novos” conceitos espíritas? Nós, ou seja, todos os espíritas conscientes, que acreditam no trabalho de parceria entre os Planos Material e Espiritual e sabem que o progresso (humano-espiritual) é a conseqüência do trabalho conjunto. Reveladores, por excelência, são todos os espíritos que cotidianamente continuam comparecendo em reuniões e assistindo líderes e pensadores espíritas, assim como, propriamente, também, estes últimos, desde que cada uma das teses apresentadas possa estar sujeita ao mesmo crivo inicialmente proposto pelo pedagogo francês: a contrafação, a comparação com outras informações, a submissão da mesma às premissas fundamentais da Ciência Espírita, seus princípios.

Às lideranças espíritas, por fim, um apelo sincero: ao invés de olhar com preconceito, condenando previamente aqueles que militam no círculo da Cultura Espírita, interessados na permanência dos ideais espíritas e sua influência ativa no mundo em que vivemos, acusando-os de “intelectuais” ou “elitistas”, que tal entender que, apesar das limitações humanas (entre as quais as mazelas do egoísmo e orgulho ainda presentes em nós), a “volta ao passado”, é uma necessidade premente: Kardec – como os pensadores, estudiosos e cientistas do presente – só pôde realizar a tarefa hercúlea que encampou como missão, porque possuía um cabedal de conhecimento (acadêmico-científico) e uma metodologia de pesquisa derivadas de sua bagagem de homem cultural. Por que não nós?




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