Marcelo Henrique Pereira

>     Morte de crianças e jovens em acidentes: a orientação espírita

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Marcelo Henrique Pereira
>     Morte de crianças e jovens em acidentes: a orientação espírita



Recentemente, em nossa cidade - São José (SC) - seis crianças que brincavam num pedalinho, morreram afogadas, pois o brinquedo afundou em um lago. O fato comoveu os moradores da região e sensibilizou a opinião pública catarinense. A ocorrência pode ser interpretada à luz da filosofia espírita, tanto no sentido de consolo e esclarecimento, quanto em sede de orientação para o futuro.

As vítimas - três meninos e três meninas, entre 10 e 14 anos - haviam entrado clandestinamente em uma propriedade particular para brincar em um pedalinho, sem autorização ou ciência dos pais. No horário do acidente, os pais estavam trabalhando e alguns não sabiam que os filhos costumavam brincar naquele local. O lago tinha a profundidade variável entre 1,80 e 2,00 metros, consistindo em praticamente a única opção de lazer da criançada pobre do bairro. O local é cercado por muitas casas, inclusive da família proprietária da área, conhecida como antigo "Sítio do Becker". O pedalinho, segundo os proprietários do sítio, estava desativado e ficava escondido no meio de um bambuzal às margens do lago, mas as crianças, com sua curiosidade peculiar, já haviam descoberto o brinquedo, tendo sido "expulsos" do local, pelo caseiro, em oportunidades anteriores. A propriedade, ainda, estava totalmente cercada por telas e arame farpado, providência que, nesse caso, não foi suficiente para evitar a tragédia.

Lamentavelmente, as seis crianças/adolescentes subiram no pedalinho, que não suportou o peso (já que foi concebido para, no máximo três pessoas) e, também, por seu estado precário (contava vinte e seis anos desde seu fabrico), afundou, ocasionando o falecimento, por asfixia decorrente de afogamento das mesmas.

Segundo dados estatísticos, os afogamentos infantis representam um desafio para as autoridades públicas de todo o país, importando em 12% dos casos de internações hospitalares de crianças e adolescentes, conforme informa o Ministério da Saúde. Em Santa Catarina, no ano de 2005, foram registradas 34 ocorrências envolvendo crianças. A esmagadora maioria dos trabalhos de busca e salvamento não foi bem-sucedida em seus resultados, sendo que 26 casos resultaram em morte de crianças ou adolescentes.

Tragédias e desencarnes coletivos são assuntos que assustam e intimidam muita gente. As pessoas em geral são receosas em sequer aventar a hipótese de ter que enfrentar uma situação que envolva tais circunstâncias. Quando os mesmos ocorrem, o imaginário e a cultura popular apontam, geralmente, para a fatalidade, o azar ou, até, o castigo. Em diversos casos, parentes e amigos mais próximos carregam, por toda a vida, a culpa ou o remorso, por terem "deixado o fato ocorrer", ou por não terem exercido a vigilância, com o cuidado e o zelo exigíveis.

Sob a ótica espírita, no entanto, não há "fatalidade", muito menos "acaso". Os homens - espíritos encarnados - não são, amiúde, vítimas das contingências, do imponderável, das entidades sobrenaturais. Tudo, na Natureza, acha-se encadeado, e sujeito à aplicabilidade das Leis Universais, perfeitas, eternas e imutáveis. O acidente, tratado nas obras básicas espíritas, sobretudo em O Evangelho segundo o Espiritismo como "escândalo", decorre, necessariamente, da Lei de Causa e Efeito, que tem em cada Espírito os pontos de partida e chegada. Não há, assim, espaço para considerar quem quer que seja como "vítima do destino", ou "inocente útil" nos eventos que porventura resultem em infortúnios, perdas ou sofrimentos. Cada um de nós tem uma bagagem espiritual que concilia o aprendizado da atual existência com o das anteriores, tudo sopesando, e desembocando, em essência, no progresso individual de cada Espírito. Há, em verdade, circunstâncias relacionadas a expiações (resgates) de existências anteriores, que condicionam a possibilidade de ocorrência de determinados fatos presentes, bem como existem as provações que simbolizam o comprometimento espiritual na resistência às dificuldades e na experimentação de fatos e situações para cotejar o quanto já progredimos.

No que concerne ao caso que nos motivou a escrever este ensaio, envolvendo a desencarnação coletiva de seis crianças, pode-se dizer, com anteparo nos conceitos filosóficos espíritas, que as vítimas (embora ainda na idade infanto-juvenil) agiram com base na liberdade (livre-arbítrio) e assumiram o risco do resultado. Há, pois, uma relação direta entre o ato de escolher uma brincadeira perigosa (causa) – já que, pelo que consta, nenhum deles sabia nadar e o lago possuía uma profundidade bastante superior à altura física das vítimas – e o resultado, a morte por afogamento (efeito). Não há espaço para defender que a pouca idade dos adolescentes possa ser um atenuante da responsabilidade (das vítimas e de seus pais ou responsáveis legais), porque o espírito tem a bagagem de diversas existências (ninguém está em suas encarnações iniciais) e até a idade de sete anos, completa-se o período de adaptação e de “ambientação” do Espírito para uma nova existência. Sem querer acusar ninguém como "culpado", mas, sim, atestar o caráter de efetiva participação dos Espíritos (ainda em tenra idade) na consecução do resultado.

Retornando ao mundo espiritual, após relativo tempo de adaptação à nova realidade - e tratamento, por certo, com os cuidados afetos a todo aquele que abrevia sua existência, e desencarna de modo acidental ou violento - cada um destes jovens poderá, em breve, dispor-se a nova experiência encarnatória, para resgatar sofrimentos e provar novas situações.

Uma peculiar certeza anima-nos a todos: a continuidade da vida, a programação de novas oportunidades, e o aproveitamento de todas as situações, graças à magnitude das Leis Divinas (ou Espirituais) que permitem o refazimento, a recomposição e a renovação espiritual, tantas quantas sejam as vezes necessárias para a nossa Evolução. Viver, assim, é um axioma lógico e conseqüente: todos aprendemos. Sem vítimas, nem culpados, apenas reponsáveis.


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