Marcelo Henrique Pereira

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Crianças e Mediunidade
Comentários sobre a matéria de capa
da revista IstoÉ, de 17 de janeiro de 2007



Inegável o interesse pela imprensa leiga por questões espirituais. As principais revistas de circulação nacional, sobretudo as duas com maior tiragem e penetração (Veja e IstoÉ), tem, volta e meia, se debruçado sobre temas de indizível relação com a espiritualidade – característica, aliás, peculiar à espécie humana, afinal, todos somos espíritos, independentemente de nossas crenças pessoais, sobretudo, se, ainda, negamos certas realidades, por desconhecê-las. Costumo dizer, em palestras, que muitos “sentem ojeriza e renegam até o fim, certas questões”, mas, quando desencarnam e despertam no Plano Espiritual, “sentem na pele a emoção” de continuarem vivos, de manterem relações com os que ficaram (“vivos”) e precisarão se preparar adequadamente para o “retorno” (a reencarnação), cedo ou tarde. É possível que, portanto, ao desembarcarem no porto seguro da espiritualidade, tornem-se, lá, novamente, “espíritas”, ou seja, não possam mais negar aquilo que, durante a vida, se esmeraram em duvidar e repelir.

A revista do momento é a IstoÉ, em sua edição de n. 1942, datada de 17 de janeiro de 2007. Sua capa é, textualmente: “Crianças que falam com espíritos – Mediunidade Infantil”, com as seguintes descrições complementares: “Crescem os relatos de meninos e meninas que conversam com os mortos. E atenção: isso pode ser mais do que simples fantasia”, e “Paloma, cinco anos, diz que se comunica com entidades espirituais: - Elas vêm brincar comigo”. No interior do periódico, seis páginas (38 a 43), com textos pontuais e imagens, sugestivas ou casuais, com direito, inclusive à menção, em quadro específico, a médiuns do passado e do presente, com destaque para Chico Xavier, Yvonne Pereira e Divaldo Pereira Franco, além dos espiritualistas Robério de Ogum e Benedicta Gomes, a “Santa” Dica. No texto, assinado pelos repórteres Camilo Vannuchi e Celina Côrtes, podemos perceber que a editoria do veículo de comunicação “cercou-se” de informações de fontes respeitáveis, tanto no âmbito espírita como de especialistas clínicos, como, por exemplo, pela ordem, Reinaldo Hiraoka, das Faculdades Integradas “Espírita”, de Curitiba (PR), Agnes Henriques Leal e Nazareno Tourinho, escritores espíritas (autores de, respectivamente, Mediunidade em crianças e Experiências mediúnicas com crianças e adolescentes), Sergio Felipe de Oliveira, da Associação Médico-Espírita de São Paulo, como, Ana Maria Sigal, psicanalista do Instituto Sedes Sapientiae, Leonardo Posternak e César de Moraes, ambos médicos, um, pediatra, do Instituto da Família, e o outro, neurologista, da Associação Brasileira de Neurologia e Pediatria Infantil, e Athena A. Drewes, psicóloga infantil, consultora da Parapsychology Foundation, de Nova Iorque.

Foi-se o tempo em que os meios de comunicação “economizavam” na busca e consulta a fontes, seja por falta de tempo ou ausência de recursos para viagens, etc., se bem que a vida moderna tem, é verdade, facilitado um pouco as coisas. Os jornalistas, em geral, apesar de suas crenças pessoais e cultura geral própria, tem procurado dar às matérias – sobretudo as que temos apreciado – um teor contributivo à informação necessária às pessoas, e, costumeiramente, deixa ao leitor a oportunidade de tirar “suas próprias conclusões”. Com a matéria em comento, não é diferente.

Abro um parênteses para dizer que, aqui ou ali, certamente, surgirão dados espíritas que irão “torcer o nariz” para a reportagem, e, mais à frente, aparecerão aqueles que, com pinça e lupa, irão encontrar uma ou outra “inverdade” ou “atentado” à “pureza doutrinária”. Tanto pelas colocações jornalísticas, algumas opinativas ou conclusivamente pessoais, quanto pelas citações ou paráfrases de depoimentos ou comentários dos especialistas espíritas consultados. Esta gente, que assim procede, sinceramente, de minha parte, não merece nenhum crédito. Estou, verdadeiramente, farto dos chamados “guardiães do espiritismo”, “leões de chácara” que estão ali, à espreita, prontos para avançar ferozmente sobre suas “presas”, como a apontar todos os dedos para os “defeitos” dos outros (ou, como assaz acontece, para aquilo que “julgam” ser defeitos ou falhas), e, em sua imensa maioria, não prestam qualquer outro serviço relevante à disseminação das idéias espíritas na Sociedade. Portanto, para que não fiquemos, aqui, tergiversando sobre assuntos paralelos, deixemos estes companheiros de lado.

Voltando ao tema principal – a divulgação das idéias espíritas para o público leigo, através de poderosos veículos de comunicação – devemos, sinceramente, valorizar este momento. Com a revista, assim como as novelas – ou, ainda, os filmes de cinema – o relevante é que o assunto “está no ar”, motivando leituras, comentários, conversas e, por que não, discussões acaloradas, quando, em essência, sempre surgem os que (apaixonadamente) defendem ou contrariam certas idéias. Tenho certeza de que, de norte a sul deste país, a partir do “mote” sugerido pela reportagem de capa da IstoÉ, aparecerão pessoas que dirão: - Isto também aconteceu comigo (ou, com meu filho, sobrinho, neto, o filho da vizinha, etc.). Eu vi com meus próprios olhos. O “fulano” realmente dizia que falava com “amiguinhos” (para nós) invisíveis.

E, como em todo contato interpessoal, no “calor” dos diálogos, haverão os que se manifestarão de modo concorde à existência de Espíritos, ao “retorno” dos “mortos”, às relações travadas entre encarnados e desencarnados, a influência destes últimos nos acontecimentos da vida, e os que afirmarão tratar-se de fantasia, imaginação fértil e continuação de enredos de livros, filmes, ou coisas do gênero.

Da reportagem, pinço, outrossim, algumas considerações muito válidas e oportunas:

a) a mediunidade, em caráter espontâneo, é circunstância comum na infância, em face, principalmente, da proximidade (temporal) do espírito encarnado com o período em que esteve no Plano Espiritual, preparando-se para o (novo) regresso, e, portanto, possui, como que uma “maior sensibilidade”, estando, muitas vezes, mais do “lado de lá” do que “do de cá”;

b) a referência ao inesquecível Chico Xavier, que teve desabrochada sua mediunidade a partir dos cinco anos de idade, serve como parâmetro para inúmeros casos da atualidade, em que crianças vêem e conversam constantemente com pessoas próximas ou familiares (conhecidos dela ou não, nesta vida), e a relação que se trava é de caráter valorativo positivo, seja porque os entes queridos só desejam “proteger”, “amparar”, ou, até, “matar saudades”, seja em função de que muitos, na espiritualidade, recebem a incumbência de atuar como espíritos protetores daqueles que se encontram vivendo na matéria. Ainda assim, com a mediunidade é uma faculdade espiritual (todos a possuímos), o exercício mediúnico irá determinar a tendência para esta ou aquela “habilidade” mediúnica (psicografia, vidência, audiência, intuição, clarividência, incorporação, atendimento e assistência, etc.), a qual, se educada e orientada, poderá resultar em visíveis benefícios espirituais (tanto para o médium, pelo exercício correto da tarefa, quanto por parte das pessoas que recorrerem àquele);

c) a comunidade científica ou médica, principalmente no caso de especialistas que lidam, diariamente, com infantes, independentemente de suas crenças íntimas, passa a ler e a estudar a matéria, com olhos “clínicos”, para poder melhor atender sua clientela. Antes, se percebíamos médicos céticos, reticentes e combativos às idéias espíritas, já constatamos que, embora em muitos casos, o ceticismo não tenha desaparecido, – até por questões profissionais, já que a teoria deve estar, sempre que possível, amparada em experimentação – a “mera” desconfiança ou o pontual descrédito (em decorrência do desconhecimento ou de preconceitos) é substituída pela oportunidade de agregação de informações e, na ponta, a definição da melhor diagnose, acompanhamento e prescrição clínica, considerando, ainda, que nenhuma ciência é totalmente auto-suficiente, esbarrando em barreiras que, pela imprecisão dos conceitos e pela insuficiência de informações ou práticas, não se tenha, ainda, respostas a determinadas questões de nossa atualidade;

d) o termo “possessão”, usado em alguns trechos, pelos jornalistas, embora tecnicamente não adequado, já que há, na imensa totalidade dos casos, uma “influenciação”, um contato motivado pelo interesse recíproco, mas não a nível de “dominação” de um (ou uns, já que podem – e são – diversas as entidades em contato com a criança) pelo outro, desde que, os pais ou pessoas mais próximas, de modo diligente, possam perceber, em diálogos com os infantes, quais as características do “amigo invisível”, se é, realmente, amigo ou não, já que, em alguns casos, “inimigos” do passado, do outro lado da vida, buscam acompanhar aqueles que reencarnam, para tentar influenciá-los, negativamente, ou até atrapalhar seu livre desenvolvimento no curso da materialidade. Em todos os casos, entretanto, de um modo mais ou menos consciente, é necessário que o encarnado “queira” a simbiose, o envolvimento, estabeleça a parceria, por sintonia mental-espiritual (não há “vítimas”, portanto);

e) há uma linha distintiva entre ficção e realidade, fantasia e verdade, que se estabelece a partir de certas “revelações” que a criança, de modo espontâneo, possa indicar. Nomes de pessoas, detalhes de lugares, descrição de objetos, familiaridade com instrumentos musicais ou habilidades e competências que só poderiam ser desenvolvidas com a experiência (trabalhar com números, recitar poesias ou trechos de livros, falar outras línguas, por exemplo), dão-nos conta de que “há um passado” e este não pode ser desprezado, nem pela criança, nem pelos circunstantes. Por detrás do “véu do mistério” há, sim, contornos vívidos da realidade da seqüência existencial, no conjunto das vidas sucessivas, e o retorno à Terra configura, também, a oportunidade de crescimento espiritual, mormente pela continuidade de desenvolvimento de especialidades iniciadas em vidas pretéritas;

f) a procura por instituições espíritas sérias e a freqüência a serviços de atendimento nelas existentes é elemento importante, tanto para a compreensão da criança e dos demais sobre o que realmente se passa com ela, quanto para, se for o caso, o atendimento de entidades desencarnadas que, inadvertida ou propositadamente, possam estar causando transtornos aos encarnados, pela influência (ou presença) excessiva. Há, ainda, quem ministre passes, como forma de esclarecimento (dos encarnados e desencarnados), e, terapeuticamente como forma de aliviar as preocupações e a angústia que, porventura, a familia esteja experimentando, ainda mais se considerarmos que grande parte das pessoas não tem familiaridade com a temática e não tem instrução espiritual para “lidar” com tais questões; e,

g) do contrário a outras filosofias, embora as respeitemos, o Espiritismo não advoga a idéia de que crianças (e adolescentes) devam “exercer” a mediunidade em instituições espíritas e seus trabalhos específicos, uma vez que o organismo físico-psíquico ainda não plenamente desenvolvido pode ser prejudicado, com risco de grandes abalos à sua saúde. Salvo casos excepcionais – como o do próprio Chico e sua dinâmica mediunidade – mesmo sendo uma faculdade e, considerando a existência de “flancos” para o desabrochar de ditas mediunidades, como as citadas antes – melhor é, para a criança, a freqüência a ambientes e atividades peculiares à sua faixa etária (educação infantil, infanto-juvenil e estudos sistematizados), sem descurar do acompanhamento da mesma por médiuns experientes, inclusive com vidência, para que, em um momento mais adequado e, com o preparo devido, possa aquele ser trabalhar com sua mediunidade, segundo as balizas contidas na obra de Allan Kardec, para o benefício de si mesmo e do próximo.  

Finalizando este ensaio, dizemos estar alegres e satisfeitos com a escolha da Editora Três (que publica a revista IstoÉ), em abordar mais um assunto espírita-espiritual, com o respeito ao conteúdo filosófico e à prática espírita, consultando, inclusive, especialistas espíritas ligados ao tema, contribuindo, decisivamente, para um jornalismo investigativo, independente e construtivo, porque informa e abre perspectivas, não “fecha questões”, e permite ao leitor o exame pessoal e a seleção das informações que melhor lhe sirvam para a vida. Parabéns à editora, aos jornalistas e, também, a nós espíritas, que temos a oportunidade de ver as idéias de nossa doutrina espalhadas sem a necessidade de investimento financeiro de nossa parte.

(*)

Marcelo Henrique Pereira, Mestre em Ciência Jurídica.
Secretário para a Promoção da Juventude e Delegado da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA)
Presidente da Associação de Divulgadores do Espiritismo de Santa Catarina (ADE-SC)



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