Marcelo Henrique Pereira

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As Cataratas do Iguaçu:

O sinal visível da devastação da Natureza e da poluição humana sobre a Terra


Acabo de receber um conjunto de fotos comparativas, entre imagens atuais e de cerca de três ou quatro anos atrás, das famosas “Cataratas do Iguaçu”. Quem, como eu, teve o privilégio de conhecer o outrora maravilhoso ponto turístico paranaense, é capaz de estarrecer, ao ver a situação atual. Onde havia magistrais corredeiras e quedas d’água, apenas pequenos filetes, onde haviam caudalosos rios, apenas sulcos de terra, ou, em alguns casos, a vegetação cobre o que, antes, era o curso d’água natural. Uma seca sem proporções e uma estiagem recorde na história são, a princípio, as causas imediatas do problema.

Grande parte da imprensa, todavia, está silente! Um silêncio, talvez, proposital, egresso do “sentimento de culpa” coletivo, porque, em verdade, a causa real é o descaso com o meio-ambiente, a poluição sob diversificadas formas, o desmatamento e a utilização de substâncias altamente tóxicas, expelidas para a atmosfera da Terra em quantitativos absurdos e galopantes.

Sim, somos nós os verdadeiros responsáveis!

E, atônitos, assustados, e/ou temerosos, contemplamos os noticiários televisivos e as páginas, de jornais e revistas, que, volta e meia, relatam catástrofes e intempéries, de alcance e constituição variável, muitos dos quais, avassaladores e destruidores ceifam milhares de vidas humanas e animais (como os “Tsunamis”) e destroem o patrimônio material (vendavais e enchentes), com prejuízos incalculáveis.

Num esboço inicial, à luz da filosofia espírita e, particularmente, no cotejo de duas das chamadas Leis Universais, a de conservação e a de destruição, é possível asseverar:

a) A conservação é um atributo instintivo, mas que recebe da inteligência espiritual um anteparo ainda maior, para a condução dos atos humanos, o que infere a lógica de que, desobedecendo a parâmetros naturais, o homem, egoístico, olvida o cuidado para com o ambiente que o recepciona;

b) A Natureza, originariamente, produz o que há de necessário para a vida humana, cabendo ao homem a mantença das condições primárias e o aperfeiçoamento daquelas que possam, com o melhor aproveitamento dos recursos, ser aprimoradas, seja para a redução de barreiras naturais, seja para a correção de dificuldades criadas pelo próprio homem;

c) O homem, em geral, não sabe “regrar o seu viver”, decorrendo, daí, a infinita gama dos atuais e futuros dramas existenciais, mormente aqueles relacionados com a poluição e a degradação ambiental. Obedecendo-se a condição fundamental de causa-efeito, experimentamos a conseqüência dos atos impensados, irrefletidos, propositais ou teimosos, resultantes de nossas escolhas;

d) A preocupação com os recursos naturais exorbita os limites da soberania dos inúmeros Estados existentes na ordem mundial, de vez que todos devem, igualmente, se preocupar, primar pelo bom uso e coibir os abusos de toda a ordem. Todavia, assim como não se pode alegar “propriedade” para, egoisticamente, tratar os recursos naturais dispostos sobre seus domínios como “questão de soberania nacional”, tampouco se pode advogar a idéia de que, estes ou aqueles, governos que não “cuidam daquilo que está situado entre seus limites territoriais” possam “arvorar-se em juízes” ou “donos” daquilo que, geograficamente, estiver situado sob outras bandeiras. Em suma, o patrimônio é mundial, da Humanidade, não havendo donatários (originários nem secundários), pois o uso dos “bens da Terra” é direito de todos (item 711, de O Livro dos Espíritos). Todos devem cuidar e todos, absolutamente, são co-responsáveis;

e) Desgraças ou infortúnios são qualificativos muito “confortáveis” para nos colocarmos em posição de “vítimas” das circunstâncias. Há, ainda, considerável parte do movimento espírita (por seus representantes e veículos de comunicação) que apregoa a questão dos “resgates” (individuais ou coletivos), as provações ou expiações coletivas, e, é claro, a versão tupiniquim da lei oriental do “carma”. Cômoda explicação que desvincula nossas ações atuais – leia-se, preferencialmente, nossas omissões – pois “temos mais o que fazer”, ou “meio-ambiente é assunto para organizações não-governamentais ou ambientalistas”. E, “assim passam os dias”, “a vida segue”, e, volta e meia, nos vemos surpreendidos com os reflexos das “catástrofes”, achando-nos ou “inocentes” em hora e local errados, ou, que estejamos “purgando” faltas pretéritas, por meio da bênção-dor;

f) A Ciência deve contribuir para o bem-estar das pessoas, conforme a judiciosa complementação de Kardec às instruções espirituais (questão 707, de O Livro dos Espíritos). Ora, amigos, a ciência, como todas as coisas, são “neutras” em sua origem, e dela fazemos bom ou mau uso, de acordo com os “objetivos” ou “intenções”. A mesma ciência que, dentro de suas especialidades, condena, aqui ou ali, os abusos cometidos por pessoas e instituições (públicas ou privadas), sobretudo em sede de crimes ambientais, é utilizada, por pessoas inescrupulosas, para “fabricar” documentos, alvarás, autorizações, relatórios de impacto ambiental, e outras figuras jurídico-administrativas de nosso tempo. Noutro diapasão, é imperioso questionar: a contribuição científica ao bem-estar humano, está acessível a todas as pessoas, em todos os lugares, ou, somente, para as nações tidas como potências econômicas e suas populações de alta renda? Reflitamos, para responder;

g) Não temos que ficar “assistindo a banda passar”, pois, mesmo ante numerosas, seqüenciais ou atrozes dificuldades, devemos utilizar nossa inteligência para superar os obstáculos, refazer percursos, recomeçar, reconstruir... Há muita (des)informação nas lides espíritas acerca do que seja “determinado” por Deus, em função dos seus desígnios, para a Terra, ou para os espíritos. Não há, em nenhuma hipótese, “condenação prévia e absoluta” de ninguém, e, mesmo os planos são refeitos, minuto a minuto, por força de nossa (inafastável e inalienável) liberdade de agir;

h) Os crimes de lesa-natureza, felizmente, começam, ainda que timidamente, a receber da Justiça Humana, apenações mais severas, sobretudo quando alcançam, no adágio jurídico, a “parte que mais dói” no ser humano: o bolso. Indenizações, recomposições, penas alternativas que obrigam a destinação, construção e mantença de parques ou reservas ambientais, começam a aparecer em sentenças, sobretudo nas definitivas (“coisa julgada”), o que repercute favorável e pedagogicamente no sentido de que novas agressões sejam, pelo menos, evitadas, em face dos exemplos condenatórios existentes. Quanto à Justiça Divina, a ela “nada escapa”, evidentemente;

i) Há limites – mais ou menos identificáveis pelos homens em diversos graus existenciais – entre o necessário e o supérfluo, ou o uso e o abuso dos bens existentes em a Natureza. O desenvolvimento das faculdades intelectuais repercute na ampliação da responsabilidade e culpabilidade advindas da má utilização (destruição) dos recursos colocados à sua disposição, numa experiência encarnatória;

j) A destruição (natural ou provocada) é lei da natureza, em princípio clássico enunciado por Lavoisier (“nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”). Destruição é, pois, transformação, que opera, paulatinamente, a melhora e a renovação dos seres vivos (quesito 728, de O Livro dos Espíritos). Quando a destruição é “ferramenta” natural, como, por exemplo, na cadeia alimentar, em que uns destroem os outros para saciar sua fome, garantindo sua perpetuidade, diz-se que há a mantença do equilíbrio originário. Em muitas cidades, a devastação e a depredação ou degradação dos ambientes importa o desaparecimento de determinadas espécimes, resultando na proliferação desenfreada daqueles que, antes, eram presas dos primeiros, gerando, por exemplo, no caso de muitos insetos, pestes e epidemias. A cátedra espiritual, também, referencia ser a destruição um item da lei natural de dupla finalidade: evitar a reprodução em demasia, equilibrando-a, e reaproveitar os despojos dos que são destruídos, como alimentos ou adubo, entre outros;

k) A baliza conservatória impele o homem para a luta constante contra os fatores que venham a comprometer a segurança de sua sobrevivência. Há espíritas que explanam horas e horas sobre a não-permissão divina para a destruição completa do Planeta (como, no caso, os efeitos de uma hecatombe nuclear), dizendo, até, que as baratas seriam “as únicas sobreviventes”, no caso de uma guerra deste jaez. Ora, Deus não “permite” nem “proíbe” nada, de modo absoluto, e considerando sua ação efetiva e proposital sobre os mundos. Do contrário, ao conceber um Universo “perfeito”, sob a batuta de suas irrevogáveis, plenas e incontestes Leis Universais, igualmente perfeitas, dá ao homem o atributo da liberdade de escolha. Não fica Ele, Deus, preocupado com o que o homem fará “de Sua obra”, convenhamos. Se, por acaso, chegarmos ao ponto de, por estes ou aqueles instrumentos (poluição, devastação, incêndios, desmatamentos, catástrofes decorrentes do mau uso dos recursos, guerras, etc.), não subsistir a vida (material, sobretudo humana) na Terra, todos os espíritos migrarão para outros planos, em novas encarnações, dando continuidade ao processo evolutivo, sem, é claro, descurar da aplicação dos mecanismos correcionais e delineadores da responsabilidade de ressarcimento ou resgate, proporcional ao grau de discernimento e à autoria, caso a caso; e,

l) Os chamados “flagelos destruidores”, conforme a poética descrição dos Espíritos Superiores, muitos dos quais, obra do próprio homem (O Livro dos Espíritos, perguntas 737 e 741), são como um “aguilhão” para fazer a Humanidade progredir mais depressa. Já vimos que, em situações imprevistas e de efeitos danosos, a solidariedade (espiritual) se manifesta em inúmeras criaturas, desde aquelas que, por vinculação laboral, tenham compromisso com o trabalho de recuperação ou salvamento, como inúmeros voluntários que participam das atividades ou enviam donativos para minorar a dor alheia. Nestes momentos, de adversidade, há um elemento aferidor do progresso que podem experimentar distintos seres, rumo à regeneração: o afeto e a piedade, a abnegação e o desinteresse, que se convertem em ação efetiva. Quanto aos que experimentam, diretamente, os suplícios, seu adiantamento decorrerá da paciência e resignação ante os mesmos. Mesmo assim, os flagelos, por piores que possam parecer ou representar, são, pela dicção kardequiana, “passageiras tempestades no destino do mundo”, ou instrumentos para o real progresso (das individualidades e das coletividades, nestes e em outros planos).

Que aproveitemos, então, o estímulo decorrente da leitura, do estudo e da reflexão, sob a inspiração espírita, para pensarmos nos efeitos danosos de nossas ações e omissões em relação à Natureza. E, que desta reflexão, possa brotar a indignação do “bom combate”, o compromisso de refrear nossas “más tendências”, substituindo-as por práticas valorosas e qualificadas pelo respeito ao meio-ambiente, aos seres que compõem nosso mundo, aos nossos semelhantes e, por conseqüência, a nós mesmos.


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