Marcelo Henrique Pereira

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“Esqueçam os problemas da vida
O trem, o dinheiro e a bronca do patrão
Não pensem em suas marmitas
E no alto preço do feijão
Joguem fora a roupa do dia-a-dia
E tomem banho no chuveiro da ilusão.”

(Samba-enredo da Beija-flor, 1979.)


Textos espíritas sobre o carnaval existem muitos. Quase todos condenam a festa e o comportamento das pessoas, com severas prescrições quanto ao futuro (espiritual) dos que a ele aderem, em face dos exemplos de insanidade daqueles que escolhem a época para, sob máscaras, pinturas ou fantasias – ou não – desfilarem atitudes que seriam impensáveis ou inaceitáveis no resto do ano.

Preferimos, nós, outro rumo. Ao invés de pregarmos e apregoarmos, simplesmente, a abstinência e o distanciamento, enfocaremos algumas justificativas ou explicações para a conduta humana deste início de milênio, apresentando, ainda, algumas variáveis e contingências importantes para entender o porquê dos festejos. De início, há uma certa sobrecarga de tratamento em relação a tal comemoração, e que não é aplicada a outros festejos, como o da passagem de ano e os eventos típicos de regiões/épocas, como, exemplificativamente, em Santa Catarina, nosso Estado, tem-se as tradicionais festas alemãs de outubro. Nunca vi, por exemplo, ninguém se insurgir contra a Oktoberfest, a Marejada ou a Festa do Marreco, que reúnem, anualmente, milhares de pessoas, com grande consumo de bebidas alcoólicas (chopp e cerveja), envolvendo, também, o chamado “sexo livre”, tal qual a farra de Momo.

Em essência, o carnaval é uma das festas mais antigas do planeta, estando presente em quase todos os povos, atraindo pessoas das mais diferentes classes sociais e faixas etárias, como que numa espécie de ritual, verdadeira encenação ou representação teatral de nós mesmos (ou sobre nós mesmos). Diz-se que o folião “perde o juízo”, porque, não raro, dificilmente, pelos efeitos do álcool e dos alucinógenos e, em face da turbulência (ou anestesia) mental derivada do som em alto volume e das luzes em excesso, alguém se lembra (com exatidão) do que (e com quem) fez.

Gregos e sumérios, em tempos imemoriais, celebravam a vida por meio do carnaval, pela chegada da primavera e do tempo das boas colheitas, ao mesmo tempo agradecendo e pedindo (aos deuses) o tempo de fartura ou abundância, renovação e fertilidade. Na festa, um traço comum, destacado pelos diversos historiadores, é o uso de máscaras, a inversão de posições e a isonomia total (aparente), uma espécie de concretização dos ideais (utópicos, para nossos padrões sociais) de fraternidade, liberdade e, é claro, igualdade, a exteriorização dos desejos mais íntimos, as fantasias expressas no ato de fantasiar-se ou travestir-se.

O “vale-tudo” das festas primitivas (no vestir-se, portar-se, as brincadeiras, as músicas, as danças), em face da expressão exterior dos precitados ideais funcionava intimamente como um desabafo, uma desforra, quase uma vingança (sem violência). Estudiosos da psicanálise apontam que, até hoje, a finalidade precípua do envolvimento das pessoas com o evento seria a de descarregar uma quantidade de energias capazes de aliviar o ser ou “lavar-lhe” a alma. Uma “purificação”, então, em que chegam à tona aqueles sentimentos antes represados, uma catarse.

Há quem compare tal desafogo com a vibração de uma torcida inteira, num estádio lotado, comemorando o gol de seu time, emoção que somente quem presenciou ou sentiu pode descrever. Frações de segundo extasiantes, em que o tempo parece parar para contemplar a emoção...

Veja-se, portanto, que, em aspectos emocionais, o carnaval poderia ser, realmente, uma excelente oportunidade para a troca de energias do ser, respeitados, é claro, os limites das contingências físicas do corpo humano, na busca do prazer sem excessos. Sem prescrever, contudo, bulas de orientação moral, o ideal seria “passar” pelo carnaval sem que as seqüelas possíveis e decorrentes dos abusos atingissem a individualidade espiritual. Algo como pensar que a ausência das regras usuais do cotidiano, em face dos festejos, não importasse na abolição de “todas” as “regras”, sobretudo aquelas que nos vinculam às demais pessoas, o respeito ao semelhante e a nós mesmos (nosso corpo e nossa alma).

Economicamente, também e ainda, o carnaval movimenta milhares de recursos, representando o ganha-pão de pessoas e suas famílias, ligados direta ou indiretamente à indústria daquele espetáculo, circunstância que não pode ser desprezada em qualquer diagnose, mormente em função de nossa realidade – a de um país com instabilidade econômica e em face da necessidade constante de promoção da inclusão social pelo trabalho e renda.

O ponto vulnerável, em termos de uma análise espiritual da festa, é o da sexualidade, já que, em sede de liberação dos “desejos e instintos mais primitivos”, a tônica do hoje, como acentuam os especialistas na psique humana, a animalidade do ser espiritual se acentua e desemboca em experiências de relações sexuais com vários parceiros (promiscuidade), com expressão homo ou heterossexual (ou, até, ambos), e, não raro, importando na infidelidade (traição) conjugal, desconhecida ou tolerada pelo(s) cônjuge(s). Neste diapasão, mesmo enaltecendo, em todos os casos, o caráter de livre-escolha dos espíritos, e a decorrente responsabilidade destes em face dos seus procedimentos (ações), direito, pois, inafastável da individualidade espiritual, não é inoportuno nem moralista dizer que “cada um colherá os frutos da semeadura que fizer”. Nossas relações afetivas e sexuais devem ser objeto de profunda e constante reflexão, pois, do contrário, estaríamos retrocedendo para ficar sob os efeitos da mera animalidade, onde a fase do cio e da exacerbação dos instintos seria decorrência e comportamento “natural”. Já deveríamos ter deixado para trás a época das inconseqüências, das loucuras e dos excessos. Há, sem dúvida alguma, consórcios psíquicos entre encarnados e desencarnados e, neste capítulo, é notória a vampirização de energias para a satisfação dos prazeres momentâneos. O divertimento precisa ser direcionado para a elevação do ser, e não para o seu rebaixamento, com indiscutíveis e penosos reflexos para o presente e o futuro.

A espiritualidade, é claro, pode ser alcançada nas dimensões das vivências da vida física, mas, sob nenhum pretexto, deve estar associada ao desrespeito por si mesmo e pelo(s) outro(s). Pensemos nisso e escolhamos o melhor, e que ele seja a diversão sadia e responsável!

(*)

Marcelo Henrique Pereira, Mestre em Ciência Jurídica, Presidente da Associação de Divulgadores do Espiritismo de Santa Catarina e Delegado da Confederação Espírita Pan-Americana para a Grande Florianópolis (SC)



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