As questões éticas sempre permeiam os debates espíritas.
Em vários ramos do conhecimento humano, a contribuição
da ética espírita pode ser uma importante ferramenta para
a discussão e a solução das cruciais questões
de nosso tempo. Recentemente, a designação de um representante
da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA) para
compor o Conselho Nacional de Saúde, órgão plural
que é responsável pela fixação de diretrizes
que norteiam a política de saúde em nosso país,
ilustra a necessidade sempre premente da inserção dos
espíritas na Sociedade, participando ativamente de políticas
públicas, contribuindo efetivamente para a construção
de um mundo melhor, materializando a evolução espiritual
no âmbito da vida planetária.
Há poucos dias, o Conselho Federal de Medicina editou norma específica
(Resolução) delimitando a possibilidade clínica
da ortotanásia, isto é, a permissão para que o
médico interrompa os tratamentos que prolongam a vida dos doentes
em estado terminal e sem chance de cura, desde que essa seja a vontade
do paciente ou de seus familiares. Não se trata, pois, da decantada
eutanásia, quando a ação ou omissão do profissional
médico (ou de outras pessoas) importa, deliberadamente, na provocação
da morte. Do contrário, a hipótese envolve um elevado
grau de humanismo, porque permite que o indivíduo possa ter,
em seus últimos momentos de vida física, uma condição
de dignidade. Isto porque a medida se fundamenta na perspectiva de redução
do sofrimento aos portadores de doenças terminais ou incuráveis,
concebendo procedimentos científicos que podem ser adotados,
caso a caso, permitindo que a morte possa "chegar" de modo
natural (o chamado "livre curso da vida"), sem recorrer a
recursos de prolongamento artificial da vida.
O princípio básico para a adoção deste procedimento
é o da anuência do paciente ou de seus familiares próximos.
Ao ato clínico deve preceder a informação circunstanciada
(ao paciente e/ou seus familiares) de que a cura (segundo os parâmetros
e recursos médicos disponíveis) é impossível.
Havendo concordância, os procedimentos artificiais de preservação
da vida são interrompidos.
Evidentemente, a matéria possui um requisito de polêmica,
envolvendo a eterna dicotomia entre ciência e religião.
Há, como se sabe, filosofias e crenças que adotam a ortodoxia
de conceitos e regras dogmáticas que impedem qualquer discussão
racional. Por isto, é fundamental a promoção de
debates - tanto no âmbito da comunidade médico-científica,
quanto no ambiente social - que sejam fundamentais para o esclarecimento
desta e de outras questões pertinentes ao divisor vida/morte.
Se a medicina alcançou sofisticado nível de complexidade
tecnológica, prolongando a vida de pacientes, verificam-se inúmeros
casos em que a ciência é impotente para a recuperação
total dos enfermos, resultando em quadros irreversíveis. A ortotanásia,
assim, pode ser uma alternativa para reduzir o sofrimento, tanto do
paciente quanto de familiares, desembocando no resultado de uma vida
- ainda que em tempo reduzido - com dignidade.
O ponto crucial, entendemos, é o fomento ao debate em torno da
bioética - a ética da vida.
(*)Marcelo Henrique Pereira
Mestre em Ciência Jurídica.
Secretário para a Promoção da Juventude e Delegado
da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA)
Presidente da Associação de Divulgadores do Espiritismo
de Santa Catarina (ADE-SC)
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