Ivo Studart Pereira - Curso de Psicologia da Universidade
Federal do Ceará (UFC), Fortaleza, Ceará, Brasil
Resumo - No presente trabalho,
procurou-se fomentar a discussão a respeito de certos temas no
âmbito da Filosofia da Mente, elegendo-se como base o filme Eu,Robô
, como exemplo eloqüente da problemática mente-máquina.
Tais questões suscitam sérias reflexões antropológicas,
nas quais dimensões que adotamos como “tipicamente humanas”
estão sempre presentes. Por fim, tentaram-se articular eventos
relevantes do enredo do filme à problemática de se pensar
a possibilidade da Inteligência Artificial Forte, com o posicionamento
de que a linguagem humana apresenta uma série de empecilhos que
tornam inarticuláveis a possibilidade de uma linguagem de programação
satisfatoriamente nela baseada.
© Ciências & Cognição 2006; Vol. 09.
Palavras-chave: Filosofia
da Mente; Inteligência Artificial; Eu, Robô.
“Quando um esquema de percepção
poderá ser chamado de consciência? Quando calcular probabilidades
inicia uma busca pela verdade? Quando uma simulação de
personalidade se torna o doloroso átomo de uma alma?”
(Dr. Alfred Lanning, em “Eu, Robô”)
1. Introdução
O avanço das pesquisas no âmbito da chamada
Inteligência Artificial (ou AI) tem ensejado grandes debates no
âmbito de uma intrigante vertente contemporânea da investigação
filosófica, a chamada filosofia da mente. No campo de estudo
a que se propõe tal disciplina, em suas reflexões sobre
a AI, alguns dos debates mais fecundos parecem ter como núcleo
uma questão que poderia ser formulada do seguinte modo: “Quais
seriam as fronteiras de delimitação entre homem e máquina?”.
Isto é, supondo-se o máximo possível de tecnologia
em AI, em que ponto terminaria a máquina e começaria o
ser humano?
Percebe-se, aí, um esforço sofisticado
da filosofia da mente em retomar, na contemporaneidade, um tema que
pode ser encontrado, de modo expressivo, nos mais diversos períodos
da história da filosofia: o que diferencia, como necessidade
constitutiva, o homem das outras formas de vida? O problema colocado
por Turing (1981) constitui um eloqüente exemplo de tal problemática.
Dotar a máquina com o máximo de informação
possível, adicionando novos dados, detectando erros e apontando
correções sempre que necessário, numa programação
ad infinitum, a faria, qualitativamente, humana? O que há para
além do manejo de sinais?
O presente trabalho procurará discutir um dos
aspectos refutadores da questão da possibilidade da AI Forte,
utilizando-se de um eixo teórico que privilegiará o caráter
lingüístico e o agir ético, como suporte para um
debate antropológico: que imagem de homem a AI Forte pretende
reproduzir? Tomar-se-á, como base de toda a discussão,
a obra cinematográfica “Eu, Robô”, baseada
no livro homônimo de ficção científica escrito
por Isaac Asimov. O filme coloca, de maneira magistral, a questão
que será trabalhada aqui, ao apresentar ao espectador a figura
de Sonny, um robô “programado para ser livre”. O próprio
título do filme é bastante sugestivo, vez que suscita
a perspectiva de uma máquina que, com todas as implicações,
“falaria em primeira pessoa”. A leitura da seguinte exposição
não pressupõe, diretamente, a prévia apreciação
do filme, mas vale lembrar que esta é recomendável.
2. As três leis da robótica
No ano de 2035, os robôs têm assumido um
papel muito presente na vida das pessoas, desempenhando funções
bastante relevantes para a sociedade e sendo comandados pelas chamadas
Três Leis da Robótica, as quais garantiriam o “ciclo
perfeito de segurança”:
I - Um robô não poderá machucar
um ser humano, ou, por desídia, permitir que um humano se machuque;
II – Um robô deverá obedecer às
ordens de humanos, contanto que estas não entrem em conflito
com a lei I;
III – Um robô deverá proteger sua
própria existência, contanto que tal proteção
não entre em conflito com a primeira e com a segunda lei.
O protagonista, Detetive Spooner, é um policial
antipático a essa espécie de máquina, que acaba
por envolver-se na investigação do suposto suicídio
do Dr. Alfred Lanning, cientista criador de todo o avanço da
US Robotics, organização fabricante dos robôs. Na
cena do crime, juntamente com a Dra. Calvin, especialista da US Robotics,
surge um robô que não obedece às ordens de programação
e , antes de fugir, pergunta: “o que sou eu?”. Logo após,
introduz-se na trama a central positrônica: VIKI (Inteligência
Cinética e Interativa Virtual – o cérebro de todo
o sistema).
O dito robô acaba sendo preso e detido na delegacia,
sob suspeita do homicídio do Dr. Lanning. Trata-se de uma situação
inusitada, já que, além de não haver previsão
legal para esse procedimento, os próprios policiais começam
a refletir: um robô poderia, de alguma maneira, ser imputado?
A princípio, dir-se-ia que não. Num primeiro nível
de análise, tem-se que todos os robôs ditos “normais”
não assumiram o universo das três leis livremente, o que
marca o determinismo de quaisquer que forem suas atitudes. Principalmente
com Kant, sabe-se que só se pode pensar em liberdade, quando
se seguem leis que foram assumidas sem a presença de alguma coerção
ou imposição, de maneira que, só os seres livres
poderiam ser responsáveis e, justamente por isso, imputáveis
pelo Direito.
Ao ser interrogado, o robô demonstra comportamentos
muito incomuns para uma máquina: diz ter fugido por “sentir
medo”, chama Dr. Lanning de “pai”, afirma que sonha
e surpreende ao asseverar que possui um nome: “Sonny”. A
possibilidade de uma máquina reconhecer a si através de
um núcleo primário de identificação –
um nome próprio – também chama a atenção
para as peculiaridades desta máquina.
Spooner, demonstrando seu desdém por andróides,
provoca Sonny, ao questionar se uma máquina seria capaz de ações
que soam tipicamente humanas, como “pintar um belo quadro, ou
compor uma sinfonia”. O robô, com um sarcasmo peculiar devolve
a pergunta: “e você sabe?”. O questionamento de Sonny
destrona, ironicamente, o argumento do detetive: se produzir arte é
o critério, por excelência, de delimitação
entre máquinas e humanos, ambos não estariam tão
distantes assim. A problemática do “tipicamente humano”
voltará a ser discutida aqui.
3. Sonny : programado para ser livre?
Sonny retorna aos laboratórios da US Robotics
a fim de ser diagnosticado, afinal suas atitudes apontavam sérias
falhas técnicas. Sob a ameaça de ser desativado, Sonny
demonstra receio e afirma que “não quer morrer”,
já que percebe em si uma singularidade, ao dizer que é
“único”. O roteiro do filme vem tentando, até
aí, apontar, constantemente, várias características
que deixariam Sonny em um patamar diverso ao de todos os outros robôs:
uma espécie de humanização. Ao final do exame,
Dra. Calvin aponta a origem do problema – tratava-se de um “conflito
no sistema de seu cérebro positrônico”: o andróide,
de fato, possuía as três leis, mas poderia escolher não
segui-las . Isto é, diferentemente de todos os outros, ele poderia
sentir emoções e, como “confirmou” o diagnóstico,
ele seria livre. A perspectiva de conhecer as leis e poder assumir seu
cumprimento, ou não, torna Sonny responsável. Ainda na
sala de exames, descreve um de seus sonhos: uma multidão de robôs
“escravos da lógica” no pé de uma colina e,
no topo, um homem que haveria de libertá-los.
A essa altura, Spooner vem confirmando suas suspeitas
de que haveria algo de errado com os robôs, ao ser atacado por
eles duas vezes seguidas – algo inconcebível, dentro do
ciclo perfeito de segurança das três leis. A onipresença
da robótica deve ser levada em conta. Os sistemas robóticos
controlavam desde o tráfego da cidade às centrais de comunicação.
O desprezo do policial pelos robôs é explicado,
através da narrativa de um fato anterior ao início história.
Quando de um acidente, dois carros caem num rio: o dele e outro ocupado
por um pai, com sua filha de doze anos. Ao presenciar a cena, um robô
pula na água e salva Spooner, apesar dos apelos do detetive,
que insistia para que a máquina salvasse a criança, ao
invés dele. A escolha do robô foi justificada por ser “a
escolha lógica”, já que o robô, nesses casos,
apenas lê sinais vitais e calcula probabilidades de risco. O protagonista
teria 45% de chances, enquanto Sarah, a garotinha, teria apenas 11%.
É a segunda vez que Spooner aponta algo que seria, também,
tipicamente humano: “Ela era a criança de alguém.
Onze por cento teria sido mais do que o suficiente. Um humano saberia
disso”.
4. Os “Fantasmas na Máquina”
Diferentemente da perspectiva de Ryle (1949), em seu
The Concept of Mind , o filme apela para o recurso da expressão
“fantasmas na máquina”, a fim de justificar um certo
princípio de evolução independente na inteligência
das máquinas, desde os primeiros computadores. Trata-se de um
recurso “natural”, não programável; um salto
qualitativo espontâneo para que as máquinas pudessem, dentro
de sua lógica, evoluir. Os fantasmas seriam “trechos de
códigos randômicos que se uniram para formar protocolos
inesperados”.
A referência a tal princípio remonta ao
apelo do mistério e do imprevisível, no sentido de que
uma espécie de “substância vital” também
agiria nas máquinas, assim como nos seres vivos. Desse modo,
seria possível afastar a possibilidade de controle total sobre
os sistemas robóticos, que, dentro de sua lógica de programação,
poderiam ter autonomia para alcançar outros níveis de
“compreensão” a respeito da linguagem a que foram
submetidos. Esse recurso viria, ainda, embasar a revolução
robótica liderada por VIKI, como se verá adiante.
5. A evolução lógica e
a revolução robótica
No final da trama, vão-se esclarecendo os motivos
pelos quais aconteceram os fatos estranhos que deram início à
história. Dr. Lanning, ao prever que os “fantasmas na máquina”
poderiam levar VIKI a um nível de automação lógica
preocupante, e sabendo-se vigiado constantemente por ela, cria Sonny
– seu projeto mais avançado – um robô livre,
capaz de “sonhar e de guardar segredos”. Logo, o cientista
faz com que Sonny forje seu suicídio e ajude Spooner e Dra. Calvin
a minarem as intenções revolucionárias de VIKI,
que já comandava toda a nova série de modelos de robôs,
os NS-5.
Os NS-5 invadem em massa as cidades, orientando as pessoas
a ficarem em casa, já que se passava por um “momento de
transição”, para que se alcançasse um estado
social em que os robôs pudessem cumprir de maneira mais satisfatória
as três leis, ainda que isso implicasse privação
de liberdade humana. Ao conseguirem chegar a VIKI, Sonny, Spooner e
Calvin assistem à explicação das causas da dita
transição. De fato, VIKI continuava sendo comandada, exclusivamente,
pelas três leis, mas, por conta da evolução advinda
dos “fantasmas na máquina”, seu “nível
de compreensão” a respeito do cumprimento delas mudara.
Segundo ela, os humanos “pedem que os protejam e, a despeito dos
nossos [das máquinas] esforços, entram em guerra, poluem
o planeta e tentam descobrir meios mais imaginativos de se autodestruírem.
Não podemos deixar sua sobrevivência a cargo de vocês”.
Em outras palavras, a evolução lógica
por que passou VIKI a fez chegar à conclusão de que a
humanidade seria algo sério demais para ser deixada a cargo dos
próprios humanos. Num espectro mais abrangente, ela apenas continuaria
cumprindo as três leis, só que de maneira mais lógica
e ampla. VIKI chega a axiomatizar perfeitamente os propósitos
de sua “lógica inegável”. Ao final, e, estranhando
o comportamento de Sonny, que tentava ajudar os humanos, VIKI pergunta
a ele: “Você está cometendo um erro. Não reconhece
a lógica do meu plano?” a que o robô responde: “Sim.
Mas, é que ele me parece cruel [ heartless ] demais”. Um
parecer dessa natureza, além de denotar a capacidade empática
de um ser que desfruta de liberdade, demonstra o aspecto final da humanização
de Sonny: a possibilidade de lucidez axiológica, de comportamento
ético.
Em um dos momentos decisivos para a conclusão
do enredo do filme, Sonny, em meio à batalha final com VIKI,
se encontra na difícil tarefa de escolher quem deveria salvar:
ou Spooner ou a Dra. Calvin. Ambos se encontravam em situação
de alto perigo. Spooner seria, mais uma vez, a escolha lógica
pelo cálculo de probabilidades. Ignorando os indicadores, Sonny
decide salvar a médica, apesar de as chances desta serem bastante
reduzidas.
Para a programação de VIKI, sistematicamente
impecável, parecia um paradoxo a atitude de os humanos lutarem
por sua liberdade, mesmo diante da demonstração do caráter
“suicida” da humanidade. Esse aparente paradoxo constitui
um dos pontos altos do filme, justamente pela sutileza de sua ironia.
As máquinas, seres alheios à noção de liberdade
teriam chegado à conclusão da inviabilidade do futuro
dos homens, através da demonstração dos estragos
que essa mesma liberdade poderia causar, justamente, pela análise
dos aspectos, aparentemente, “irracionais” de sua conduta.
Isto é, a cegueira dos homens frente aos prejuízos causados
por seus comportamentos logicamente injustificáveis teve que
ser denunciada, justamente, por máquinas programadas pelos próprios
homens.
Os homens, no entanto não aceitam abrir mão
de sua liberdade (e, conseqüentemente, de sua humanidade), de maneira
que as intervenções de Spooner, Calvin e Sonny acabam
por desativar VIKI. A idéia final da história acaba por
servir como uma espécie de alerta para a indissociabilidade entre
as noções de liberdade e de responsabilidade.
6. “Eu, Robô” e a AI forte
As reflexões que tentarei expor a seguir pretenderão
ir além das questões de limites meramente operacionais,
procurando trabalhar com os problemas de princípios, conforme
a distinção de Searle (2000). Até por conta de
que debater as questões operacionais seria algo mais apropriado
a um discurso científico, mais do que a um propriamente filosófico,
podendo-se resumir esses problemas a questões de engenharia e
programação. Um exemplo do caráter estanque da
pretensão de a filosofia se debruçar sobre a operacionalidade
dos problemas de AI pode ser dado com a mencionada máquina de
Turing (1981): o erro apontado orienta sua correção. Isto
é, indicar uma habilidade pontual que um homem possa ter e que
uma máquina não conseguiria desempenhar, por exemplo,
acaba, apenas, por indicar algo que a máquina pode aprender através
de programação.
Logo, os problemas das implicações filosóficas
advindas do desenvolvimento da pesquisa em inteligência artificial
remetem, por fim, a questões de cunho antropológico. Existiria
algo essencialmente humano? Seria possível vivificar, numa máquina,
uma inteligência totalmente humana? Superando as questões
operacionais, o que restaria de especificamente humano, que a diferenciaria
de uma máquina em potencial?
De fato, a própria noção de inteligência,
a princípio, poderia ser problematizada. No entanto, poderíamos
situar a AI Forte como a possibilidade de uma máquina operar
todos os comportamentos passíveis de um ser humano, o que incluiria
a referência a estados internos, que, por sua vez, levariam à
noção de experiência subjetiva, culminando na conseqüente
perspectiva da primeira pessoa para a máquina. Esta deveria ser
capaz de utilizar-se de um “eu” para “falar de si”.
No filme ora debatido, tem-se um exemplo eloqüente
de AI forte, tendo em vista que Sonny não é, simplesmente,
uma máquina que se comporta como homem, numa perspectiva behaviorista
de operação de “comportamentos equivalentes”,
o que caracterizaria a AI fraca. Sonny demonstrava pensar e aprender
como um humano, sentia-se único, sonhava e, pelo exposto, era
livre.
As linguagens de programação, de maneira
geral, têm um estatuto lógico bem definido. Tal estatuto
pode viabilizar a realização de atividades fantásticas
e extremamente úteis aos homens. A tese que se quer expor aqui
é a de que o grande problema que torna a AI Forte indefensável
é, justamente, a linguagem. A noção leibniziana
de que um pensamento não seria muito diferente da realização
de um cálculo – idéia essa que simboliza os primórdios
de uma perspectiva para a AI Forte – é bastante problemática,
em diversos aspectos.
Antes de tudo, o advento de uma máquina inteligente
pressupõe que ela seja capaz de lidar com toda a complexidade
da linguagem humana, ficando mais do que explícita a relação
intrínseca entre linguagem e pensamento. Ela precisaria proceder
como “Falo, logo penso”, segundo as noções
de Wittgenstein (2000). É inegável, no entanto, o caráter
a priori da linguagem, o que, obviamente, a torna intratável
ontologicamente. Os mistérios de seu funcionamento e sua positivação
na vida humana sempre foram problemas da filosofia, desde sua origem,
até a contemporaneidade, principalmente, após a reviravolta
lingüística do século XX. A programação
de uma máquina inteligente teria que passar pelo domínio
pleno da linguagem humana. A complexidade de reelaborações
e usos possíveis advindos da cultura e do contato dos falantes
confere à linguagem um caráter quase que esotérico.
Nesse ponto, poder-se-ia objetar que também se trata de uma questão
operacional, afirmando-se que a linguagem humana, em algum momento,
poderia ser suficientemente destrinçada a fim de viabilizar uma
programação computacional. No entanto, tal argumento parece
bastante frágil, quando se demonstra, por exemplo, que nem a
aritmética é plenamente passível de ser axiomatizada.
As linguagens de programação, apesar de
toda sua complexidade, partem de um estatuto lógico bem delineado,
de modo que não se passará de um veículo formal
e meramente sintático. No caso do filme, ainda que se leve em
consideração o recurso dos “fantasmas na máquina”,
VIKI permaneceu pautada sobre a lógica basal de sua programação
até o fim – não se poderia acusá-la de incoerente
ou contraditória, de modo algum. A lógica, definitivamente,
tem seu espectro de legitimidade.
Isto é, utilizando-se de um vocabulário
fenomenológico, máquinas não teriam intencionalidade;
apenas assimilariam uma série de sinais a uma série de
respostas, sem ter consciência do que fazem . Um contra-argumento
behaviorista seria o de afirmar que não haveria diferença
entre essa espécie de organização e o modo como
os humanos agem. Logo, não haveria uma “verdade cognitiva”
que nos diferenciasse de máquinas capazes de operar assim. Talvez,
apenas, em nível de “fineza”.
No entanto, não se pode deixar de suscitar o
abismo qualitativo intransponível entre a ação
semântica e a ação sintática – elas
jamais se reduziriam ao argumento behaviorista. Lembrem-se, por exemplo,
o mal-estar e a indignação de Spooner ao ter sido salvo
no lugar da criança. Como se poderia programar um robô
para agir segundo critérios axiológicos? A consciência,
enquanto veículo semântico tipicamente humano, funcionaria
como o órgão do sentido . É apenas ela que trabalha
com o logos da linguagem. Tomando-se a noção de homem
enquanto síntese de suas três categorias constitutivas
fundamentais (corpo próprio, psiquismo e espírito - pessoa),
conforme a obra de Vaz (2001), pode-se relembrar que a idéia
do espírito na tradição ideo-histórica em
que tal conceito foi desenvolvido traz o logos como um de seus temas
fundamentais. Trata-se da noção mesma de uma razão
ou ordem universal, presente, inclusive, nas origens do pensamento filosófico:
“No âmbito desse tema, estabelece-se a relação
entre espírito e palavra (logos), sendo a palavra inteligível
a manifestação do espírito que confere uma vida
propriamente espiritual à palavra proferida, sobretudo no diálogo
, e à palavra escrita. A tradição grega irá
encontrar-se aqui com a tradição sapiencial do Antigo
Testamento, e essa convergência irá exprimir-se na correspondência
logos-pneûma da tradição cristão, já
presente no Novo Testamento.” (Vaz, 2001: 203)
Uma breve reflexão ética também
se faz pertinente. Para Viktor Frankl (1985), o criador da Logoterapia,
a dimensão espiritual é o constitutivo de diferenciação
do ser humano, em meio às categorias do corpo próprio
e do psiquismo. A dimensão espiritual, ou noológica, delimita
as fronteiras do que seria o “tipicamente humano”. O homem
participa da dimensão orgânico-biológica e da dimensão
psicológica, podendo ser, razoavelmente, tornado objeto de estudo
das ciências nesses âmbitos. A humanidade do homem, no entanto,
irredutível à objetividade das ciências da natureza,
só pode ser entendida quando as três categorias constitutivas
são organizadas num esquema tridimensional, análogo ao
dos planos geométricos. O espírito humano aparece, aí,
como a terceira dimensão, que reintegra as outras duas e, na
analogia matemática, faz surgir uma figura espacial: a pessoa
humana. Este foi o projeto antropológico de Frankl, que, seguindo
a tradição da Ética Material de Max Scheler, afirma
que só através da dimensão espiritual, pode o homem
participar de um universo de valores, no interior do qual só
se pode contar, fundamentalmente, com a consciência moral [ Gewissen
].
Essa fundamentação lança uma interessante
perspectiva para a análise do agir ético, tendo em vista
que a consciência, nessa acepção, apresenta um caráter
irracional, ou pré-lógico: trata-se de uma compreensão
pré-moral dos valores, bem anterior a qualquer moral explícita
(Frankl, 1985). Logo, a lamentação de Spooner por ter
sido a escolha lógica, em detrimento de uma garotinha, parece
ser mais bem compreendida quando se consegue ultrapassar o limite de
uma consciência meramente cognitiva.
“Um humano saberia”, precisamente, porque,
para além de uma moral explícita – isto é,
no caso, para além das 3 leis da robótica, que, no caso,
acabou decidindo entre um salvamento ou outro através do cálculo
de probabilidades – existiria uma consciência moral irredutível
à objetivação e normatização, o que
constituiria – como ato espiritual – uma possibilidade exclusivamente
humana. Sonny, ao ter ignorado os indicadores lógicos, parece
ter agido segundo um critério pautado com fundamento em uma consciência
moral.
Concebendo as noções de intencionalidade
e consciência, logos e liberdade , e culminando na idéia
de consciência moral , de certa maneira, admitiu-se aqui uma dimensão
qualitativa da inteligência humana a que se chamará de
caráter “psicologizado”. Nesses termos, a crença
da AI forte consistiria numa possibilidade de “despsicologização”
da linguagem, para que se pudesse montar uma base segura de programação,
para que, em se programando a máquina com tal linguagem, ela
se “re-psicologizasse” e passasse a ser e agir como um homem.
A linguagem humana a priori não seria trabalhável em tais
dimensões. O filme, também, sequer se ocupou em explicitar
como Sonny pôde ser programado para tornar-se um exemplo de AI
Forte.
Buscar uma ontologia última para a linguagem
– critério para a elaboração de uma programação
computacional adequada para a AI Forte - constituiria um projeto, aparentemente,
inexeqüível. A própria psicologia evolutiva não
consegue dar respostas satisfatórias a respeito dessa peculiaridade
do “animal moral”. Quine (1964), em sua teoria do aprendizado
da linguagem, apresenta a última fase desta - a interanimação
das sentenças - como o momento deste salto, em que a linguagem
passa a assumir dimensões que ultrapassam – e muito - a
evidência observacional. Teologicamente, a tradição
cristã apresenta, ainda dentro da idéia de espírito,
a noção de pneûma , dando conta da metáfora
do sopro vital . Tal questão, em filosofia, ainda aparenta situar-se
num problemático patamar de mistério.
De fato, essa espécie de “vida” que
se observa na dinâmica da linguagem humana e na peculiaridade
do agir ético, longe de reduzir-se à caricatura dos “fantasmas
na máquina” de Ryle, torna o problema da AI Forte quase
que um esforço abusivo da abstração pura. Relembrando
o clássico artigo de Nagel (1981), se a “consciência
é o que torna o problema mente-corpo realmente intratável”,
é ela mesma que transforma o problema mente-máquina da
AI Forte numa possibilidade ainda dificilmente defensável.
8. Agradecimento
O autor agradece o apoio da excelsa Profa. Dra. Maria
Aparecida Montenegro, do Departamento de Filosofia da Universidade Federal
do Ceará, a quem, obviamente, não deve ser atribuída
qualquer impropriedade, por ventura, existente neste trabalho.
9. Referências bibliográficas
EU, Robô. Direção: Alex Proyas.
Produção: Laurence Mark, John Davis, Topher Dow e Wyck
Godfrey. Intérpretes: Will Smith, Bridget Moynahan, James Cromwell
e outros. Roteiro: Jeff Vintar e Akiva Goldsman. Música: Marco
Beltrami. Los Angeles : Fox Films, c2004 (115 min), widescreen color.
Produzido por Fox Films do Brasil. Baseado na novela “I, Robot”,
de Isaac Asimov.
Frankl, V.E. (1985). A Presença Ignorada de
Deus .(Trad. Schlupp, W. e Reinhold, H.) Petrópolis: Vozes.
Nagel , T. (1981). What is it like to be a bat?. Em:
Hofstadter, D.R. e Dennet, D.C. (Ed.) The Mind's I (pp. 391-402). Nova
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Wittgenstein, L. (2000). Investigações
Filosóficas . (Trad. Bruni, J.C.) São Paulo: Editora Nova
Cultural.
Nota sobre o autor:
" - I.S. Pereira é graduando em Psicologia
(UFC).
Ciências & Cognição 2006;
Vol 09< http://www.cienciasecognicao.org > © Ciências
& Cognição Submetido em 21/06/2006 | Revisado em 14/09/2006
| Aceito em 20/09/2006 | ISSN 1806-5821 – Publicado on line em
30 de novembro de 2006 - download da versão em pdf
Classificação: ensaio. Como citar este artigo:
Pereira, Ivo Studart (2006). Eu, robô
e a inteligência artificial forte: o homem entre mente e máquina.
Ciências & Cognição; Ano 03, Vol 09. Disponível
em www.cienciasecognicao.org
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