Resumo
Neste trabalho, fazemos uma reflexão sobre um corpus de seis
programas/sermões transmitidos por diferentes emissoras, procurando
analisar como o discurso religioso veiculado nos meios de comunicação
de massa, em especial na televisão, legitima-se ao produzir sentidos
e significações no processo desencadeado pela memória
discursiva. No presente artigo, utilizamos como aparato teórico
os postulados da Análise do Discurso de linha francesa, visando
estabelecer uma análise interdisciplinar ao usarmos o discurso
como base para a percepção dos processos cognitivos, em
especial no que se refere à memória, a sua relação
com a lingüística e a materialidade da linguagem religiosa.
© Ciências & Cognição
2004; Vol. 01: 13-21.
Palavras-chave:
mídia; religião ; memória discursiva; análise
do discurso.
1. Introdução e Metodologia
Quando trabalhamos com os postulados metodológicos
da Análise do Discurso (AD) Francesa não
podemos ignorar que nesta Escola dos estudos da linguagem toda a estruturação
teórica é totalmente interdisciplinar, abrangendo a materialidade
da linguagem, os conceitos da psicanálise e as diversas ciências
sociais.Portanto, neste trabalho procuramos estabelecer uma análise
interdisciplinar usando o discurso como base para a percepção
da relação existente entre os processos cognitivos, em
especial no que se refere à memória discursiva e a sua
relação com a lingüística.
Dessa forma, entendemos que fazer análise do
discurso em um corpus específico, não se resumirá
na aplicação da lingüística sobre as ciências
cognitivas, nem muito menos na mera aplicação das ciências
cognitivas à lingüística. Esse entrelaçamento
entre cognição e linguagem possibilitará que, na
nossa análise, o discurso e o sujeito analisados sejam desnudados
a partir do conceito de memória discursiva.
Para desenvolver a análise, utilizamos um corpus
constituído por seis programas religiosos veiculados nos meses
de dezembro de 2003 e janeiro de 2004 em seis emissoras diferentes.
Durante esse período, os programas foram gravados, assistidos
e analisados.
Abaixo a relação dos programas que constituem o corpus:
| Programa/Emissora
de TV |
Igreja
|
| Show da
Fé/ Rede Bandeirantes |
Igreja
Internacional da Graça de Deus |
| Despertar
da Fé/ Rede Record |
Igreja
Universal do Reino de Deus |
| Celebração
da Família/ Rede Gospel |
Igreja
Apostólica Renascer em Cristo |
| Santo Culto
em seu Lar/ Rede Mulher |
Igreja
Universal do Reino de Deus |
| Está Escrito/
Rede TV! |
Igreja
Adventista do Sétimo Dia |
|
Santa Missa/
Rede Globo |
Igreja
Católica Apostólica Romana |
Tabela 1 – Corpus
Apesar de pertencerem a diferentes igrejas e serem veiculados
em emissoras distintas, os programas selecionados apresentam alguns
aspectos semelhantes entre si, não apenas na linguagem, mas também
na própria formatação da produção.
1.1. Análise do Discurso
É válido ressaltar que na Análise
do Discurso o texto é tocado e abordado num contexto bastante
amplo, incluindo todos os interlocutores e suas respectivas bagagens:
a história pessoal, a situação da produção
textual e a própria ideologia dos sujeitos. Assim, o texto dentro
da AD não é de forma alguma tido por transparente. Ele
é entendido e aceito como opaco, principalmente a partir da compreensão
da multiplicidade de sentidos que cada texto pode gerar.
Nesta hora, é importante lembrar a proposta de
Pêcheux (1999) de que nos discursos não vamos achar transparência,
mas opacidade e um certo mutismo. Portanto, o caminho é o de
marginalizar as significações e procurar sentidos em construção
na opacidade do discurso. Assim fazendo, não estaríamos
promovendo a re-significância da significação, já
que isso não diz respeito simplesmente a uma rejeição
ao abandono do “semântico”, contudo é concebida
e pensada no contexto teórico-metodológico da AD –
“traduzindo” a língua em seus termos, a ideologia
, o discurso , e ainda o inconsciente .
Em outras palavras, é possível afirmar
que as “significações”, assim marginalizadas
(como também ocorre a marginalização da noção
de “sentido literal”), constituem, por sua formatação
em termos temporais e situacionais, parte componente da memória
discursiva; estas significações não são
eternas, nem sem movimentos. Elas se fragmentam, se desconstroem, se
rompem e mudam por “fermentação”. Mas são
imprescindíveis como fundação; como memória,
são verdadeiramente as condições de legibilidade.
Dessa forma, dentro dos postulados da AD Francesa, cada
sujeito, na produção de um discurso, promove uma relação
deste discurso em formulação com o interdiscurso ou memória
discursiva, ou seja, com todos os dizeres que já foram, de fato,
ditos. Pêcheux (1999:52) afirma que:
“A memória discursiva seria aquilo que,
face a um texto que surge como acontecimento a ser lido, vem restabelecer
os ‘implícitos' (quer dizer, mais tecnicamente, os pré-construídos,
elementos citados e relatados, discursos-transversos, etc.) de que sua
leitura necessita: a condição do legível em relação
ao próprio legível.”
Isso ocorre naturalmente, mesmo que o falante não
tenha sequer consciência dessa operação discursiva.
Sendo assim, em seu discurso o sujeito fala uma voz sem nome, consideravelmente
atravessada e levada ao sabor da ideologia e do inconsciente. Por este
motivo, a AD postula que esse “saber”, que não é
ensinado (nem pode ser), produz significativos e importantes efeitos
nos discursos produzidos.
Assim sendo, essa leitura discursiva acaba por considerar
o que é dito em um discurso e o que é dito em outro, o
que é dito de uma maneira e o que é dito de outra maneira,
procurando entender e escutar o não-dito, exatamente na materialidade
do que foi dito, considerando esta ausência como algo significativo.
1.2. Memória Discursiva
A compreensão desse processo se dá quando
lançamos mão do conceito de memória discursiva.
Tal conceito diz respeito à recorrência de enunciados,
separando e elegendo aquilo que, de fato, dentro de uma contingência
histórica específica, pode surgir sendo atualizado no
discurso ou rejeitado em um novo contexto discursivo – essa ocorrência
é capaz de produzir peculiares efeitos. A esse respeito Melo
(1999:100) comenta: “A noção de memória discursiva
exerce, portanto, uma função ambígua no discurso,
na medida em que recupera o passado e, ao mesmo tempo, o elimina com
os apagamentos que opera ”.
É justamente na memória discursiva que
nasce a possibilidade de toda formação discursiva produzir
e operar formulações anteriores, que já foram feitas,
que já foram enunciadas. Em outras palavras, a memória
discursiva permitirá na infinita rede de formulações
(existente no intradiscurso de uma formação discursiva)
o aparecimento, a rejeição ou a transformação
de enunciados que pertencem a formações discursivas posicionadas
historicamente. Dessa forma, os sentidos são condicionados pelo
modo com que os discursos se inscrevem na língua e na história,
conseguindo assim, significar. Ou seja, o discurso significa por sua
inscrição e pertencimento a uma dada formação
discursiva historicamente constituída e não pela vontade
do enunciador. Prova disso, é o fato de que ao nascermos, o discurso
já está em processo, sendo nós que entramos e nos
ajustamos nesse processo. Portanto, podemos entender que a própria
“incompletude” é condição e característica
da linguagem. Os sujeitos, os sentidos e os discursos nunca estão
prontos, nem muito menos, acabados.
Nesse mecanismo de funcionamento, o discurso repousa
em formações imaginárias. Estas formações
de imagens permitem a passagem de situações empíricas
para as posições ocupadas pelos sujeitos no discurso.
O que significa no discurso são exatamente essas posições.
E elas, necessariamente, significam em relação ao contexto
sócio-histórico e à memória, ao já
dito (ao saber discursivo). Assim, o sujeito falante compõe a
imagem de seu interlocutor para dizer-lhe o que diz, podendo até
mesmo antecipar o que ele pensará diante do que é dito.
Dessa forma, ele organiza o seu discurso, antecipando contra-argumentações
a seu favor. Neste jogo de dizeres se manifesta o discurso, enquadrando-se
em um outro característico jogo: o de forças. Forças
estas, presentes em toda e qualquer sociedade hierarquizada que promove
contínuas antecipações de imagens.
Como pontuamos anteriormente, de forma genérica
entendemos que memória discursiva se define, aproximadamente
como uma espécie de “interdiscurso”, ou seja, trata-se
de um saber discursivo que possibilita que as nossas palavras façam
sentido. Isto ocorre porque algo fala antes, em outro lugar, de forma
independente do discurso que é proferido na atualidade. O saber
a que nos referimos acima, corresponde a palavras já ditas e
esquecidas, mas que continuam presentes e nos afetam em sua qualidade
de “esquecimento”.
O mecanismo que regula a argumentação
presente nos discursos, quando procedemos à análise a
partir dos postulados de memória discursiva, nos remete a compreensão
que os sentidos são escolhidos e presumidos por antecipação
de interpretação, são produzidos por relações
parafrásticas e disponibilizados para discursos futuros. Portanto,
encontramos um sujeito capaz de deslocar-se, tornar-se observador, ao
mesmo tempo em que diz (de uma forma ou de outra) conforme intenciona
na produção de efeitos no interlocutor.
Já que um discurso é sustentado por outros
e aponta para o futuro, os sentidos são produzidos a partir de
posições. Neste contexto, a memória discursiva
é presumida a partir de um momento sócio-histórico,
fazendo que o sujeito “migre” de uma situação
empírica para uma posição discursiva.
Na relação discursiva é que as
imagens constituem as diferentes posições e assim fazem
de fato, algum sentido. Vale ressaltar que este sentido não está
nas palavras, mas antes delas e depois delas, simplesmente porque palavras
remetem a palavras. Além do que, os sentidos não estão
irrevogavelmente dependentes das intenções, mas permeados
e atravessados pelas suas próprias relações com
uma formação discursiva peculiar e com uma memória.
Portanto, não existe sentido em si, ele nasce de colocações
de caráter ideológico fazendo com que as palavras mudem
de sentido de acordo com as posições em que são
enunciadas, apreendidas a partir do exterior do discurso.
Nesta compreensão, trabalhamos aqui com o conceito
de memória discursiva. Por memória discursiva
se entende, segundo Ferreira (2001:20):
“A memória discursiva faz parte de um processo
histórico resultante de uma disputa de interpretações
para os acontecimentos presentes ou já ocorridos (Mariani, 1996).
Coutine e Haroche (1994) afirmam que a linguagem e os processos discursivos
são responsáveis por fazer emergir o que em uma memória
coletiva, é característico de um determinado processo
histórico. Orlandi (1993) diz que o sujeito toma como suas as
palavras de uma voz anônima que se produz no interdiscurso , apropriando-se
da memória que se manifestará de diferentes formas em
discursos distintos.”
2. Discussão Teórica
Este artigo trabalha, como pontuamos anteriormente,
refletindo sobre discursos específicos: os discursos
religiosos veiculados na mídia, através de sermões.
Queremos enfatizar que o sermão é o típico discurso
que trabalha inevitavelmente com o conceito de memória discursiva.
Assim, quando o utilizamos para a análise do nosso corpus , temos
o entendimento que ele diz respeito à recorrência de enunciados
dentro do discurso. Dessa forma, a memória discursiva pauta-se
na possibilidade dos dizeres que se renovam e se atualizam no momento
de sua enunciação.
Assim, presentes em cada discurso, há alguns
elementos que não podem surgir na superfície discursiva,
tão somente porque se eles aparecerem representarão um
perigo real e um considerável desequilíbrio para o discurso
em questão.
Nos sermões que analisamos, vemos que os seus
locutores não abrem espaço para a questão do sofrimento
humano como parte do processo que o discurso religioso sempre se preocupou
em trabalhar. Na atualidade, tal sofrimento continua incomodando e fazendo
o homem retornar constantemente à busca religiosa. Entretanto,
hoje esta busca não se dá mais nos moldes do passado,
como apresenta Geertz (1978), segundo ele, a religião mostrava
ao homem como sofrer: “(...), como fazer da dor física,
da perda pessoal, da derrota frente ao mundo ou da impotente contemplação
da agonia alheia algo tolerável, suportável – sofrível,
se assim podemos dizer.” (Geertz, 1978:119).
Ou seja, a religião se preocupava prioritariamente
em prover, através das suas argumentações, a resignação
ante ao sofrimento, como a “ponte” para o desfrutar de uma
vida sem estes mesmos sofrimentos em um futuro vindouro (na vida eterna).
Imbricada com esta idéia pode caminhar uma outra:
a de que a religião é um sistema cultural
(Geertz, 1978) e, assim sendo, ela não se esgota em si mesma,
já que sofre mudanças, inovações e continua
a estar presente tanto no ethos quanto na visão de mundo (Geertz,
1978) das sociedades, mesmo sem ocupar um lugar central nas sociedades
modernas. “ A religião sobrevive: suas funções
é que se redefinem no curso da história” (Machado,
1996:17).
Todavia, nos discursos analisados verificamos uma ruptura
explícita com a forma de encarar a religião como um meio
de resignação ante o sofrimento.
O discurso religioso veiculado na mídia, e em
especial nos programas que selecionamos, demonstra a capacidade de incorporar
novos valores e ressignificar os valores preexistentes. Tais sermões
apresentam na sua argumentação uma eficaz estratégia
ideológica. Em clima de intimidade, solidariedade e conquista
de vitórias simplesmente apagam a resignação ou
a necessidade de se suportar o sofrimento, constituindo assim, uma prática
totalitária, na medida em que opera na substituição
de um determinado modo de pensar e leva os indivíduos à
perda da memória do significado que anteriormente o discurso
religioso possuía . Como exemplo, temos o trecho abaixo:
“A miséria, a pobreza, as cadeias financeiras,
a habilitação do devorador, do destruidor, esse principado
'tá quebrado. Não tem mais autoridade nenhuma na igreja
de Jesus Cristo, nos servos do Deus vivo.” (Igreja Universal do
Reino de Deus)
Ao falarem da pobreza e das dificuldades da vida, os
pregadores midiáticos trabalham discursivamente para negativar
tais circunstâncias. A estratégia que esse discurso
utiliza é a de propor soluções espirituais ou sobrenaturais
para as dificuldades dos que vivem atualmente numa sociedade desigual,
mergulhada em profundos problemas materiais e existenciais.
Tais problemas de tão prementes e intensos, fazem com que as
pessoas já não agüentem mais esperar por uma vida
melhor, em um futuro vindouro (na vida após a morte, por exemplo).
Assim, o discurso religioso midiático
funciona de forma adequada para aqueles que rejeitam soluções
que exigem tempo e planejamento. Um cenário perfeito
para os dias atuais, onde se vive sob o reinado do imediato. Todavia,
nos discursos religiosos veiculados na TV não basta a existência
do caráter imediatista na satisfação dos desejos
e necessidades das pessoas, os sermões vão além
e funcionam discursivamente impregnados do que os estudiosos das ciências
da religião chamam de “Teologia da Prosperidade”
ou “Confissão Positiva”. Segundo Romeiro (1996:35),
esta corrente teológica ensina que: “(...) todo crente
deve viver endinheirado, morar em mansão, desfilar em carrões,
ficar livre de qualquer tipo de enfermidade durante todo o tempo de
sua vida e possuir a natureza divina”.
Portanto, ao operarem discursivamente dentro dos parâmetros
da teologia da prosperidade, os pregadores midiáticos oferecem
a possibilidade de uma troca simbólica que ocupa indubitavelmente
um lugar de destaque como meio de realização pessoal e
social. Nessa hora, a legitimidade dada pelo texto fonte (Bíblia)
atrela-se a fé que deve entrar como um genuíno investimento
no reino de Deus, investimento este pautado na certeza de um retorno
seguro:
“As tuas finanças são dirigidas
pelo Senhor, então não deixe teu emocional entrar... Faça
o que o Espírito Santo está falando no seu coração!
Tira da sua casa! E dá! Eu te garanto que esse é um investimento
mais bendito que alguém pode fazer na terra... Não é
que não vai fazer falta, não. Não é só
isso. Não vai fazer falta, não vai mesmo, mas o desejo
do teu coração, Deus vai te dar.” (Igreja Apostólica
Renascer em Cristo).
Quando o discurso religioso na mídia se apresenta
mesclado pela Teologia da Prosperidade, ele desprende o presente do
passado apresentando um contradiscurso que parece querer apagar as raízes
históricas de uma religião que era pautada em ensinar
ao homem como enfrentar a dor e o sofrimento. Vemos tal postura no seguinte
trecho:
“Quando você sair lá fora e você
vê o tamanho da guerra, o tamanho da luta, o tamanho da dificuldade
o que todo mundo ´tá falando, o que todo mundo ´tá
comentando, você não vai deixar isso entrar no seu coração.
Isso não é com você. É com quem não
tem Deus. Você tem Deus e você tem a benção
Dele na sua cabeça, sobre você. Usa a benção
do Senhor.” (Igreja Internacional da Graça de Deus).
Em manobras lingüísticas, atravessadas por
forte teor emocional, a fala religiosa na TV assume ares de convencimento
ao defender que as promessas de Deus e seus desejos para a vida dos
crentes são de abundância material, de prosperidade e de
bênçãos. Assim, jogam com as palavras para que a
garantia do compromisso de prosperidade divina entre como um elo na
cadeia discursiva, ou seja, todas as coisas boas são dos servos
de Deus, tão somente porque Deus fez uma aliança com eles
e firmou um compromisso.
A aliança é proposta nos sermões
respaldada pelas alianças estabelecidas nas narrativas bíblicas.
Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a Bíblia fala da aliança
que Deus estabeleceu com o seu povo para libertá-lo e salvá-lo
do julgo da escravidão, unicamente através de um Messias.
Na atualização da dêixis bíblica, esse procedimento
discursivo gera uma nova contextualização dessa aliança
com Deus. Assim, admite a relevância da tomada de posicionamentos
para se avaliar a suficiência deste tipo de experiência
religiosa como uma experiência religiosa fundamental. Deste modo,
o discurso religioso na mídia apresenta uma “teologia de
resultados”, os quais podem ser experimentados no mais evidente
processo de troca e comercialização do sagrado em variadas
formas simbólicas:
“Pode ser que aos olhos humanos não tem
jeito mesmo! Pode ser que aos olhos humanos, a hora já tenha
passado... Pode ser que aos olhos humanos, já acabou de vez,
encerrou, lacrou... Tem um Deus que chega na hora que só ele
pode chegar. Não é para ressuscitar. É pra fazer
nova coisa! Não tem nem o que ressuscitar, ´tá tudo
morto, enterrado. Deus chega faz novo e cumpre as promessas da sua vida!
Fortalece o teu coração! A vitória é tua
em nome de Jesus! Pode ser grande, impossível, improvável,
do jeito que não tem jeito, mas Deus tem uma aliança com
você e Ele ´tá operando milagres e maravilhas e honrando
a sua palavra ainda hoje!” (Igreja Apostólica Renascer
em Cristo).
Quando através dos sermões se desencadeia
um processo de concepção e legitimação do
discurso televisivo, observamos a construção de um falar
que objetiva estabelecer com o sagrado uma troca na forma mercadoria
e cuja relação com o mesmo se firma através da
possibilidade de um retorno imediato. Se os fiéis experimentaram
perdas, sejam elas de qualquer espécie, o discurso religioso
midiático oferece uma lógica discursiva capaz de motivá-los
a estabelecerem uma nova aliança com Deus e receberem de volta
tudo que perderam.
Nesse sentido, pode-se enxergar o discurso religioso
nos meios de comunicação de massa como estando permeado
de uma prática conveniente aos interesses dos grupos que os divulgam.
Com um discurso envolvente e que propõe soluções
imediatas, a fala dos pregadores midiáticos apresenta signos
específicos, respondendo aos questionamentos existenciais do
grupo social composto pelos telespectadores. Este necessariamente passa
a ser o principio gerador de sentidos.
Nas falas religiosas da TV, especificamente nos programas
analisados, vemos ser estabelecida uma coerência discursiva entre
o discurso e a necessidade existencial através de uma linguagem
valorativa e motivadora, abundante em promessas de vitórias.
Este falar “profético” fornece as condições
imprescindíveis para a experiência religiosa como nexo
entre a realidade e as necessidades dos fieis. Como no trecho do sermão
transcrito abaixo:
“Deus quer te dar prosperidade! Deus quer te dar
honra nesta terra e Deus quer que você viva a palavra de Isaías
1:19: ´Se me ouvirdes e credes comereis o melhor desta terra!´.
O Senhor, Ele ordena a benção e você vai viver isso,
em nome do Senhor Jesus! Porque ao ser movido pelo Espírito Santo,
o que vai acontecer com o teu suprimento? O que vai acontecer no teu
trabalho? Na tua vida profissional? Ninguém vai entender, nem
você! Sabe por que? Porque é a obra sobrenatural do Espírito
Santo de Deus!” (Igreja Universal do Reino de Deus).
Vemos na maioria dos programas analisados, a pregação
e o incentivo à prosperidade financeira, mesmo que outros grupos
religiosos a partir do texto bíblico em questão usem um
parafraseamento totalmente antagônico. Isso ocorre pela inexistência
de sentidos literais, muito embora a bíblia seja usada para dizer
o contrário, afinal, sabe-se que não há “o
sentido” guardado em algum lugar, seja no cérebro, na língua
ou nas páginas das Escrituras Sagradas, e que aprendemos sistematicamente
a usar.
Os sentidos e os sujeitos se constituem em processo;
nele há transferências, jogos simbólicos, dos quais
não temos controle e nos quais o equívoco – o trabalho
da ideologia e do inconsciente – está muito presente. Portanto,
a ideologia do discurso religioso pode até mesmo desencadear
a sua função de dominação e de deformação
presentes numa linguagem de representação de valores selecionados
pela percepção do fiel ou inculcados pela ideologia do
próprio sistema religioso que acaba por determinar tais valores
como fundantes e legitimadores da experiência religiosa.
Nesse caso, a apregoada consciência de prosperidade
enuncia que os fiéis recebam, com facilidade e sem esforço
algum, as coisas do mundo material. O discurso da prosperidade, presente
nos sermões veiculados na TV, apresenta o mundo material como
o mundo de Deus e os “servos” de Deus como detentores do
direito a este mundo, afinal eles são seus próprios filhos.
A constante reafirmação das promessas
e das vitórias para os servos de Deus permeia, praticamente,
todos os sermões que analisamos. Essa reafirmação
tende a direcionar e reforçar a escolha dos valores que os fiéis
realizam em sua experiência histórico-religiosa, manifestada
pela crença no poder de Deus. Neste contexto, o discurso religioso
na mídia, promove uma antecipação aos fiéis,
apresentando aos seus ouvintes a possibilidade de escolherem o que determinará
a postura que terão de seguir para objetivarem a fé em
Deus. Obviamente, como temos verificado nos sermões midiáticos,
tais posturas sempre acarretarão nas “bênçãos”
de saúde física e prosperidade financeira que, uma vez
obtidas, resultarão conseqüentemente na conquista de espaço
e no pleno reconhecimento sócio-religioso da vitória dada
por Deus, além de marca de verdadeira espiritualidade pela presença
da fé:
“Não vai te faltar na tua família!
Nem coisa pequena e nem coisa grande! Nada! Nada! Nada! Nada! O Senhor
vai entregar a família, a benção da família
nas tuas mãos! E ainda vai te acrescentar aumentar, enriquecer!
Porque esta é a benção que Deus tem para nós!
Que somos lavados com o sangue de Jesus! Amém!” (Igreja
Apostólica Renascer em Cristo).
Um outro aspecto interessante nos discursos analisados
é a sua semelhança com a linguagem presente nos manuais
de auto-ajuda, inclusive uma das fórmulas mais usadas pelos pregadores
é a indução da repetição das suas
falas pelos seus ouvintes e a repetição dos seus próprios
enunciados.
Ao induzirem a repetição de suas falas,
os pregadores desencadeiam um processo de ação. O falar
é agir e esse agir implica em poder. O ato de repetir, tão
presente no discurso de auto-ajuda quanto na maioria dos discursos religiosos
veiculados pela TV, é importante porque possibilita o agir visto
na transformação de um estado de inércia em um
estado de mobilização.
Esta repetição ocorre essencialmente na
negação do sofrimento que mencionamos anteriormente. Portanto,
devemos considerar que uma mesma palavra, na mesma língua, dependendo
da posição do sujeito e da inscrição do
que diz em uma ou outra formação discursiva, significa
diferentemente. Isto é facilmente observado numa análise
paralela dos livros de auto-ajuda e dos sermões. Todavia, tal
repetição também se reveste, de igual forma, de
um caráter essencialmente ideológico a qual pode ser comparada
com um elo entre o espaço vazio e a realidade vivida pelo fiel
e suas necessidades mais latentes.
Estas necessidades se revestem das possibilidades de
realização a partir da esperança dos fiéis.
Percebendo esta potencialidade, uma boa parte dos pregadores televisivos
absolutizam seus discursos, transformando-os em um instrumento indutor
ao imporem uma ordem estabelecida para o modo dos fiéis crerem,
pensarem e agirem, através do claro poder de convencimento dos
pregadores e do exaustivo uso de repetições bíblicas
sob uma ótica literalista:
“Diga comigo: Eu sou filho de Deus! Filho de Deus!
Filho do Deus vivo! E glória a Deus! Deus habita na minha vida!
Habita no meu casamento! Deus habita nos meus caminhos! E a manifestação
dEle trará cura! Trará cura para a humanidade! Trará
cura para o meu coração! Trará cura para todas
as enfermidades! A manifestação d´Ele me trará
a vida eterna!” (Igreja Internacional da Graça de Deus)
Ao serem, pelo discurso religioso divulgado pela TV,
guiados ao consenso de que são filhos de Deus e que, por isto,
têm direito e acesso irrestrito às suas bênçãos,
os fiéis constroem uma visão crédula sobre as possibilidades
de mudanças nas suas próprias realidades, enxergando o
discurso recebido como adequado àquilo que está proposto.
Vemos nas falas dos “pregadores eletrônicos”
o surgimento de uma espiritualidade mensurável em termos de resultados
materiais na vida dos crentes. Pela prosperidade econômica, por
exemplo, avalia-se o progresso e o tamanho da fé de alguém.
Alguém que conseguiu obter os favores divinos no caso, representará
a dimensão prática e eclesial da fé, afinal teve
a coragem de investir no reino de Deus, tendo a igreja como intermediária.
Isto é constantemente apresentado através dos testemunhos
lidos ou proferidos antes ou depois dos sermões veiculados.
Percebemos que a ênfase nos depoimentos pessoais
dos pregadores e nos testemunhos dos membros das igrejas midiáticas
é constante, pois se trata de um processo cuja recorrência
faz com que os crentes migrem continuamente entre os pólos da
experiência de fé teológica (a partir da teologia
cristã bíblica) e da experiência de fé antropológica
(através dos fortes apelos emocionais e dos momentos de catarse
coletiva). Essa recorrência, presente não só em
testemunhos, possibilita a manutenção de um tênue
equilíbrio existencial, ao mesmo tempo em que promove a própria
experiência do fiel, por meio da linguagem do discurso religioso.
Ao promover tal experiência, as igrejas televisivas apenas assumem
o papel de mediadoras, pois na essência do discurso, deixa-se
claro que só pela fé é possível alcançar
as bênçãos divinas, ou seja, os pregadores ao afirmarem
tal condicionalidade se eximem, automaticamente, de qualquer responsabilidade
por um possível fracasso.
Claro que estas manobras discursivas se apresentam de
forma bastante sutil. No jogo de dizeres dos discursos religiosos da
TV, há elementos de solidariedade, de carisma e de envolvimentos
emocionais que induzem os fiéis ao uso daqueles discursos como
ferramenta para a legitimação de suas pré-disposições.
A lém do que os envolvidos se amparam nas suas próprias
buscas, necessidades e desejos, alimentando o processo interativo do
discurso. Assim, os crentes assumem voluntariamente a responsabilidade
pelo fracasso ou pelo sucesso, só que este último, sempre
é estimulado a ser compartilhado com as demais pessoas, através
dos já mencionados “testemunhos”.
Neste conjunto de manobras discursivas, entendemos que
a repetição se constitui como um conceito extremamente
importante, a partir do princípio básico que ela atua
na recuperação do passado. Foucault (1971) afirma que
a repetição se inscreve no interior da ordem discursiva,
fazendo com que os discursos se repitam tanto no seu desenrolar “sincronicamente”,
quanto na medida em que se repetem apresentando os mesmos temas, as
mesmas formulações, “diacronicamente”.
Quando a AD aborda a interdiscursividade (1) , apresenta-a
como o processo em que se incorporam os percursos temáticos e/ou
os percursos figurativos, temas e/ou figuras de um discurso em outro.
Esta interdiscursividade é composta dos processos que acarretam
a busca na nossa memória discursiva. Assim, são necessariamente,
os elementos ideológicos e culturais que possibilitam a compreensão
da “mensagem” subliminar. Como aqui analisamos o discurso
religioso, não podemos nos furtar de esclarecer que os enunciados
do discurso midiático não são enunciados quaisquer,
pois ao mesmo tempo em que ela fala, toca no centro da fragilidade humana,
estruturando um discurso fácil de ser circunscrito, um discurso
hermético e repetido à exaustão.
Vale ressaltar ainda que este processo se desencadeia
a partir da argumentação dos pregadores que intencionam
produzir confiança no seu discurso, se tal confiança for
firmada, embora não haja como testá-la a priori , os fiéis
estarão aptos para efetuarem suas trocas simbólicas, entregando
a Deus o “seu melhor” (2) , em troca da prosperidade que
provém do Criador de todas as coisas e “dono do ouro e
da prata”, conforme escrito na Bíblia.
Portanto, o discurso de prosperidade presente em muitas
das falas religiosas da TV ocupa um lugar de destaque na visão
religiosa dos fiéis que, ao contemplarem a realidade, vêem-na
como algo que deve ser mudado, pois além de não apresentar
o caráter da prosperidade ainda contradiz a possibilidade de
se nutrir esperanças.
3. Conclusão
Ao estudar o discurso religioso na mídia, temos
que observar quem diz, como se diz e em que circunstância diz,
pois estamos tocando na linguagem religiosa das igrejas como um mecanismo
devidamente adequado ao processo de construção do sagrado
e do transcendente para os fiéis. É certo que encontramos
um discurso envolvente e que com a sua lógica discursiva oferece
aos seus fiéis respostas imediatas. Todavia, o discurso também
é entendido como um instrumento social que, ao ser mediado pelos
pregadores na TV, utiliza-se de uma simbologia religiosa adequada através
de signos específicos.
É exatamente na articulação do
real com o imaginário que o discurso funciona, na relação
necessária entre discurso e texto, sujeito e autor. Portanto,
não podemos fugir da compreensão de que, ao ouvirmos os
pregadores falarem, levamos em conta suas posições sociais,
suas formações ideológicas e as imagens que eles
fazem de seus interlocutores, como também os argumentos empregados
para atingir as metas propostas. Nesta análise, percebemos a
escolha de uns termos, em vez de outros e até o silenciamento
em alguns aspectos, para que de fato cumpra-se a função
de produção de sentidos nos sermões.
Referências Bibliográficas
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do discurso . Porto Alegre: Instituto de Letras UFRGS.
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e Intr.). Campinas : Pontes.
Romeiro, P. (1996). Evangélicos em crise. São
Paulo: Mundo Cristão.
Notas sobre as autoras
" – K. R. M. P. Patriota é Mestre em Comunicação
(UFPE), Doutoranda em Sociologia (UFPE) e Professora do Curso de Comunicação
Social da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) e da Faculdade
Pernambucana (FAPE). E-mail : kpatriota@hotmail.com ; A. N. Turton é
Bacharel em Psicologia e Pesquisadora na área de linguagem e
afetividade na Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE). Endereço
para contato: A. N. Turton, Rua das Pernambucanas 407/304, Graças,
Recife, PE 52.011-011, Brasil. Telefone: +55 (81) 3221-7737 E-mails
: alessandraturton@hotmail.com .
Notas
(1) Segundo Maingueneau (1993), “a unidade de
análise pertinente da AD não é o discurso, mas
o interdiscurso, o espaço de trocas entre vários discursos
convenientemente escolhidos”.
(2) Dízimos e ofertas.
Ciências & Cognição 2004;
Vol 01:< http://www.cienciasecognicao.org >
© Ciências & Cognição Submetido em 30 de
Janeiro de 2004 | Revisado em 08 de Março de 2004 | Aceito em
15 de Março de 2004 | ISSN 1806-5821 – Publicado on line
em 31 de Março de 2004- download da versão em pdf
Classificação: artigo científico. Como citar este
artigo:
Patriota, Regina M. P. e Turton, Alessamdra N. (2004).
Memória discursiva: sentidos e significações nos
discursos religiosos da TV. Ciências & Cognição;
Vol 01: 13-21. Disponível em www.cienciasecognicao.org
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