Espiritualidade e Sociedade





Marcos Paterra

>    Educação na perspectiva espírita

Artigos, teses e publicações

Compartilhar

Marcos Paterra
> Educação na perspectiva espírita

 

A educação é a arte de formar os homens, isto é, a arte de neles fazer surgir os germes das virtudes e reprimir os do vício.


Ao falarmos em educação na perspectiva espírita, muitos se baseiam na “pedagogia espírita”, tão bem questionada e difundida por J. Herculano Pires (1) e Dora Incontri (2), todavia este artigo visa ir muito além da educação sob a ótica espírita. Temos aqui a pretensão e extrapolar os muros dos centros espíritas, avaliando a educação em um sentido mais amplo e de maneira mais plena.

São muitos os mestres que nos dão referências para a metodologia da pedagogia na educação espírita. Entre eles, temos: Jean Jacques Rousseau, Immanuel Kant, Ovide Decroly, Victor Hugo, Bezerra de Menezes etc., e é impossível comentá-los como se deve neste artigo, porém vamos abordar, de maneira dinâmica, autores espíritas e não espíritas que convergem em suas linhas de pensamento no quesito de fazer da educação um ato de amor e desenvolvimento da crítica e desejo do aprender.

Hippolyte Léon Denizard Rivail, antes de usar o pseudônimo de Allan Kardec(3), foi um dos maiores pedagogos na França e até hoje seus artigos são referências naquele país na arte de educar. Ele afirmava:

“A educação é a arte de formar os homens, isto é, a arte de neles fazer surgir os germes das virtudes e reprimir os do vício; de desenvolver sua inteligência e dar-lhes a instrução adequada às suas necessidades; enfim, de formar o corpo e de lhe dar a força e a saúde. Em uma palavra, o objetivo da educação consiste no desenvolvimento simultâneo das faculdades morais, físicas e intelectuais. Eis aí o que todos repetem, mas o que não se pratica nunca.”(i) (KARDEC, 2002. p. 594)


Visionário em sua época, Kardec alertava que a educação é muito mais que ensinar o alfabeto ou construir o conhecimento acadêmico; é preparar as crianças a conviverem com outros seres humanos, para que aprendam a interagir e progredir socialmente.

Nessa linha de pensamento enfatizamos a frase de Paulo Freire (4):

“saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção; (...) a capacidade de aprender é não apenas para nos adaptar, mas, sobretudo para transformar a realidade, para nela intervir, recriando-a”. (FREIRE, 1996. P. 47 e 68)  (ii)

Sob esse prisma não poderíamos deixar de comentar sobre Pestalozzi (5), que projetou suas ideias em ação de amor, socorrendo crianças órfãs, educando pobres e ricos, ajudando a erguer um novo conceito de educação e teorizando e praticando a Pedagogia do Amor.

Pestalozzi afirmava que:

“Confiante nas faculdades da natureza humana, que Deus colocou também nas crianças mais pobres e mais desprezadas, eu não tinha apenas aprendido em experiências anteriores que essa natureza desdobra as mais formosas potencialidades e capacidades em meio ao lodo da rudeza, do embrutecimento e da ruína, mas via, nas minhas próprias crianças, irromper essa força viva, mesmo em meio a toda a sua brutalidade”.

E complementa:

“Educar é desenvolver progressivamente as faculdades espirituais do homem”. (PESTALOZZI, 1997. p. 90)  (iii)

Léon Denis (6) na sua fabulosa obra Depois da Morte, no item 54, “Educação”, alerta-nos:

“É pela educação que as gerações se transformam e aperfeiçoam. Para uma sociedade nova é necessário homens novos. Por isso, a educação desde a infância é de importância capital. Não basta à criança os elementos da Ciência. Aprender a governar-se, a conduzir-se como ser consciente e racional, é tão necessário como saber ler, escrever e contar: é entrar na vida armado não só para a luta material, mas, principalmente, para a luta moral. É nisso em que menos se tem cuidado. Presta-se mais atenção em desenvolver as faculdades e os lados brilhantes da criança, do que as suas virtudes. Na escola, como na família, há muita negligência em esclarecê-la sobre os seus deveres e sobre o seu destino. Portanto, desprovida de princípios elevados, ignorando o alvo da existência, ela, no dia em que entra na vida pública, entrega-se a todas as ciladas, a todos os arrebatamentos da paixão, num meio sensual e corrompido”.

Denis ainda enfatiza sobre a educação religiosa:

“(...) Mas pueril ainda é o ensino dado pelos estabelecimentos religiosos, onde a criança é apossada pelo fanatismo e pela superstição, não adquirindo senão ideias falsas sobre a vida presente e a futura. Uma boa educação é, raras vezes, obra de um mestre. Para despertar na criança as primeiras aspirações ao bem, para corrigir um caráter difícil, é preciso às vezes a perseverança, a firmeza, uma ternura de que somente o coração de um pai ou de uma mãe pode ser suscetível. Se os pais não conseguem corrigir os filhos, como é que poderia fazê-lo o mestre que tem um grande número de discípulos a dirigir?
“Essa tarefa, entretanto, não é tão difícil quanto se pensa, pois não exige uma ciência profunda. Pequenos e grandes podem preenchê-la, desde que se compenetrem do alvo elevado e das consequências da educação. Sobretudo, é preciso nos lembrarmos de que esses Espíritos vêm coabitar conosco para que os ajudemos a vencer os seus defeitos e os preparemos para os deveres da vida (...).”

E no final nos brinda com a frase:

“(...) Todas as chagas morais são provenientes da má educação. Reformá-la, colocá-la sobre novas bases traria à Humanidade consequências inestimáveis. Instruamos a juventude, esclareçamos sua inteligência, mas, antes de tudo, falemos ao seu coração, ensinemos-lhe a despojar-se das suas imperfeições. Lembremo-nos de que a sabedoria por excelência consiste em nos tornarmos melhores”. (DENIS, 1999. p. 191)  (iv)

Pestalozzi mais uma vez nos presenteia com a afirmação:

“Devemos nos convencer de que o objetivo final da educação não é o de aperfeiçoar as noções escolares, mas sim o de preparar para a vida; não de dar o hábito da obediência cega e da diligência comandada, mas de preparar para o agir autônomo”. (PESTALOZZI, 1997. p .96)

Adenáuer Novaes (7), em seu livro Mito Pessoal e destino humano (v), sabiamente nos informa como nós, espíritas, devemos lidar com a educação:

“Ser espírita não significa apenas adotar uma postura cordata diante da vida, acomodando-se a pequenas conquistas, muito embora importantes, no campo da educação doméstica. A insatisfação quanto à injustiça, a ignorância e a miséria humanas devem permanecer na consciência de todos que adentrem o Espiritismo. O processo de transformação assinalado pelo Espiritismo como fundamental a todo espírita, inclui, além de seu próprio mundo interno, sua participação na construção de uma sociedade mais equilibrada e harmônica. Não basta ele sozinho se transformar interiormente, sem uma efetiva participação nas mudanças que a sociedade requer. Sua consciência de cidadão, pertencente ao mundo, deve alertá-lo quanto ao seu papel social.” (NOVAES, 2005. P. 144)  (8)


Em resumo, a VERDADEIRA educação não está apenas na escola, ou na família, está na sociedade que gera o conhecimento, dando para a criança um leque infinito de aprendizagem, e cabe a nós fazermos nossa parte e educarmos bem as crianças, sejam nossos filhos ou não.

“(...) a verdadeira educação consiste menos em preceitos do que em exercícios. Começamos a nos instruir, começando a viver.

(…) Viver não é respirar, é agir; é fazer uso de nossos órgãos, de nossos sentidos, de nossas faculdades, de todas as partes de nós mesmos, que nos dão o sentimento de nossa existência.” (ROUSSEAU. 2004.p.15)  (vi)

Todos nós somos educadores por excelência, e fazemos parte fundamental nesse processo de aprendizagem do homem (como ser integral), e é claro contribuímos para a evolução do Espírito.

________

 

i. LORICCHIO, João Demétrio. Allan Kardec – O Codificador da Luz. Revista Internacional de Espiritismo, Ano LXXVII – n. 11 – Matão/SP, dezembro de 2002.

ii. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática educativa. Ed. Paz e Terra. São Paulo. 1996.

iii. PESTALOZZI in INCONTRI, Dora. Livro: Pestalozzi: Educação e Ética. São Paulo: Editora Scipione, 1997.

iv. DENIS, Léon. Depois da morte. Ed, FEB. Rio de Janeiro. 1999.

v. NOVAES, Adenáuer Marcos Ferraz. Mito Pessoal e Destino Humano. Ed. Fundação Harmonia. Salvador/BA 1999.

vi. ROUSSEAU, J. J. Emílio ou da educação. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. Trad. Roberto Leal Ferreira.


____________

 

1. José Herculano Pires (1914- 1979), jornalista, filósofo, poeta, tradutor e pensador espírita paulista. É considerado como o maior pensador espírita do Brasil e um dos maiores intérpretes do pensamento kardecista. Chamado de “O Guarda Noturno do Espiritismo”, foi um dos grandes defensores do caráter cultural e filosófico do Espiritismo, tendo travado memoráveis polêmicas com detratores da Doutrina Espírita. Fundador da União Social Espírita (atual USE), entusiasta da educação espírita, Herculano escreveu mais de 80 obras sobre inúmeros temas. Foi presidente do Sindicato Estadual dos Jornalistas de São Paulo.

2. Jornalista e escritora Dora Incontri autora de vários livros, entre eles: Pestalozzi, Educação e Ética, Educação na Nova Era e Estação Terra, além de livros de poesias. Dora também ministra o curso de Pedagogia Espírita, na Fees.

3. Allan Kardec era pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804/1869) notabilizou-se como o codificador do espiritismo.

4. Paulo Reglus Neves Freire (1921/1997) - autor de muitas obras. Foi reconhecido mundialmente pela sua práxis educativa através de numerosas homenagens.

5. J. Heinrich Pestalozzi, Educador suíço. Grande inovador, estabeleceu as bases da pedagogia moderna com seu sistema de ensino prático e flexível.

6. Léon Denis (1846 – 1927) Um sucessor e propagador da Doutrina codificada por Kardec.

7. Adenáuer Marcos Ferraz de Novaes - Filósofo (Universidade Católica de Salvador) e Psicólogo (Universidade Federal da Bahia) autor De vários livros.

8 . Cap. “O Espiritismo e o sentido da vida”.




Fonte:
http://www.oclarim.org/site/_pages/ler.php?idartigo=3701

 


topo