Carlos Augusto Parchen

>   Educação e Evolução Societária

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Carlos Augusto Parchen
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A evolução societária, sem sombra de dúvida, depende da evolução individual, pois o "edifício social" é construído pelos "tijolos", que são cada um de seus componentes ou indivíduos. A qualidade dos tijolos é que pode garantir estabilidade e durabilidade ao edifício.

A sociedade, com sua estrutura e com seus atributos, representa exatamente a somatória do estado evolutivo dos indivíduos que a compõe. Tem-se uma sociedade conturbada, desumana, injusta e desequilibrada, exatamente por ser essa a resultante da somatória das tendências, percepções, comportamentos, sentimentos, vivências e conhecimentos dos indivíduos componentes.

Evoluir é ter uma melhor compreensão e, em decorrência, uma melhor interação com o ambiente natural e com o ambiente social em que se vive. Mas isso só ocorre se o indivíduo é educado para entender as Leis Naturais, como interfere nelas e então transforma essa compreensão em uma prática constante, de forma que o conhecimento evolua para aprendizado efetivo.

Decorre pois, que para evoluir, a educação do indivíduo é indispensável, sendo mesmo o único instrumento ativo capaz de propiciar essa transformação. Nesse campo, a educação pode ser subdividida em três sub-grupos: a educação familiar, a educação formal (a escola) e a auto-educação.

A educação familiar, aquela propiciada pelos pais aos filhos, teoricamente encarregada de estabelecer os parâmetros da convivência societária, de determinar os limites do comportamento ético e moral, bem como de reforçar as qualidades e virtudes intrínsecas do ser humano, na sociedade de hoje, infelizmente, está sendo abandonada, como decorrência da falta de preparo dos pais, pela pressão econômica e de sobrevivência, que mantém os pais longe dos filhos e principalmente, pela exemplificação inadequada de hábitos, comportamentos e atitudes. Na sua grande maioria, os pais "perderam o controle" sobre os filhos, e com isso deixam de educá-los de forma adequada, gerando toda uma geração sem limites de comportamento e sem amparo nas suas dificuldades.

A educação formal, a escola, em decorrência, se vê as voltas com uma "missão quase impossível": suprir as lacunas deixadas pela educação familiar. Para piorar, uma interpretação equivocada e distorcida da Legislação de proteção à criança e ao adolescente, gerada por pessoas despreparadas e desconhecedoras da realidade das Escolas Públicas, que estão presentes e atuantes nos diversos órgãos encarregados de proteção a essa faixa etária (incluindo o Judiciário, os Conselhos Tutelares, o Executivo e o Legislativo), reforça e estimula a indisciplina e o descontrole nos alunos, levando a predominância da indisciplina nas Escolas Públicas, onde alguns jovens desajustados, sob a proteção e beneplácito das entidades e pessoas intervenientes, aterrorizam professores e desmoralizam diretores, contaminando e influenciando os colegas, impedindo o processo de aprendizado. Tem-se como decorrência, professores desmotivados, doentes, incapacitados na sua ação educadora, bem como os resultados pífios que o país vem colhendo em todos os últimos exames internacionais de conhecimento e aprendizado de crianças e jovens, que nos colocam nas últimas posições, atrás de países muito mais pobres e considerados como sub-desenvolvidos.

Por certo, muitos tentarão negar os fatos descritos acima. Por certo também, essas pessoas nunca vivenciaram o dia-a-dia de uma sala de aula da Escola Pública, onde a certeza da impunidade leva a agressão moral e até física dos Educadores e Diretores, onde todos os instrumentos de ordem e de disciplina foram removidos ou desautorizados, tais como a suspensão disciplinar, as medidas pedagógicas, a transferência compulsória, a obrigação de respeitar e obedecer aos professores e diretores, pois cada atitude e tentativa de restabelecer a disciplina, leva a interferências e ingerências extemporâneas dos ditos "protetores" da infância e adolescência, que impedem qualquer punição ou medida disciplinadora a alunos sabidamente indisciplinados, desordeiros e até violentos, mesmo que tenham agredido professores fisicamente ou destruído patrimônio público (basta ver as notícias recentes na imprensa para saber que isso é verdade), sem tomar nenhuma medida sócio-educativa que responsabilize os pais e o próprio indivíduo em formação pelos seus atos, mostrando-lhe, educativamente, o que é responsabilidade, direitos e deveres.

No contexto descrito anteriormente, a auto-educação do indivíduo fica muito comprometida. Como a pessoa pode estabelecer um comportamento auto-educativo, se não recebe as diretrizes para tal da educação familiar e da educação formal? E para piorar, a grande mídia repercute apenas os aspectos mais negativos da sociedade e dos indivíduos que a compõe, reforçando o erro e o mau exemplo. Não há a valorização das atitudes positivas, éticas e corretas.

É preciso lançar uma revolução pela Educação, para que se possa mudar esse estado de coisas. Para começar é preciso educar legisladores e fiscalizadores da proteção à infância e adolescência sobre o que é o processo de aprendizagem e suas exigências e particularidades, inclusive em termos de disciplina, que é exigência no mundo inteiro onde a educação tem sucesso. Espera-se como retorno, uma legislação mais eficiente, eficaz, sábia e equilibrada. E uma atuação educadora, construtiva e disciplinadora dos organismos envolvidos, em especial do Judiciário, do Ministério Público e dos Conselhos Tutelares.

Para essa revolução, basilarmente, os pais devem assumir o lugar de pais, encarregando-se efetivamente da educação e da exemplificação ética-moral, aprendendo a moldar o caráter e a definir limites e responsabilidade dos filhos, pois isso a educação formal nunca poderá substituir com êxito.

Para os pais, atuais e futuros, existe uma tarefa árdua. Terão que fazer sua auto-educação, independentemente da base sobre a qual se assentem. Terão que fazer um esforço muito grande para isso, pois o círculo vicioso da falta de educação terá que ser rompido pela geração que está no poder (paterno, econômico, social, político), e essa geração, sem sombra de dívida, é a dos pais. Terão que aprender a ser melhores, mais humanos, solidários e tolerantes. Terão que exercitar mais a justiça e a eqüidade, o equilíbrio e a serenidade. Terão que falar mais, ouvir mais, exemplificar mais e melhor. Terão que ter inteligência e bom senso para o disciplinar e para o delegar, para o pedir e para o determinar, para o decidir e para o negociar, para o dar e para o negar. Melhorar-se aqui, tornando-se pais melhores, mais presentes e efetivos na educação familiar dos filhos, é romper o círculo da estagnação educacional, passando a uma espiral crescente de aprendizado e vivências cada vez mais positivas.

Se isso ocorrer, e apenas se, poder-se-á investir com sucesso no processo educacional formal, reestruturando-o e requalificando os Educadores, resgatando a auto-estima dos Professores, restabelecendo-lhes a saúde psíquica e mental, recolocando-os no rumo correto dos processos de aprendizagem.

Como efeito conseqüente, numa espiral virtuosa, a auto-educação passará a ser facilitada, principalmente se, concomitantemente, passar-se a exercitar o espírito crítico, que cobre e exija da mídia a divulgação do bem, do correto, do positivo, do construtivo e do educativo. Se o ser "bom caráter" for valorizado, se for "vendido" como uma "exigência da moda", como algo característico das pessoas que se destacam e são vencedoras, isso será imitado e reproduzido como comportamento socialmente desejado e valorizado.

Claro que não se pode ser simplista, pois se sabe que nenhum processo intervencionista na sociedade pode ocorrer de maneira isolada, que é preciso vencer as mazelas, injustiças e desequilíbrios sociais gritantes de nossa sociedade. Mas, de novo, tem-se o círculo vicioso, que necessita ser rompido. Uma revolução pela educação, fatalmente levará a melhoria do meio societário. Uma população mais educada e participativa, fará com que o Governo use melhor o dinheiro público, exigirá que as Empresas tenham mais responsabilidade social, efetuará maior controle sobre sua própria gestão. E investirá mais em si mesma, passando a eleger melhor e a cobrar mais dos poderes constituídos, entendendo que os Governantes e Legisladores representam exatamente o "status quo" societário, que deve sair da inércia para a evolução constante.

Independente de qualquer outra coisa, cada um é responsável por fazer a sua parte. Aqui e agora. Como disse o poeta (1), "...quem sabe faz a hora, não espera acontecer...".

(1) poema de Geraldo Vandré, na música: "Pra não dizer que não falei de flores".

 

Fonte: Publicado originalmente na Revista Espírita Harmonia




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