Espiritualidade e Sociedade





Lamartine Palhano Jr.

>    Mediunidade e comunicação

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Lamartine Palhano Jr.
>   Mediunidade e comunicação

 

Comunicação vem do latim “comunis”, que significa comum. Quando há comunicação é porque se estabeleceu um “ponto comum” entre as partes intercomunicantes, isto é, houve troca de informações, idéias ou atitudes. A comunicação no sentido mais amplo, qual seja o da transmissão de conhecimentos, de opiniões e instruções, visa a compreensão, a fixação e a aceitação dos mesmos por parte do público. Nesse sentido a comunicação se faz, tanto de indivíduo para indivíduo, chefe para empregado, professor para aluno, quanto de indivíduo para grupo, como em palestras, aulas ou então do indivíduo para a massa, para uma coletividade, como é o exemplo do escritor, radialista ou jornalista. Comunicação, no sentido também amplo, abrangendo desde as formas mais complexas, como o telégrafo, o rádio, a televisão, até o simples gesto e a expressão fisionômica que, por vezes, alteram completamente o significado das palavras.

Deste modo o conceito de comunicação está intimamente ligado ao de sociedade. Para existir um sistema ou grupo social é indispensável que seus componentes se comuniquem entre si a fim de trocarem idéias, analisar problemas, definir soluções, pleitear colaboração. Esta necessidade já era sentida pelos homens das cavernas, quando através de grunhidos e gestos procuravam estabelecer a primeira forma de comunicação consciente. Por essa época o homem penetrava na faixa do pensamento contínuo e ampliava mais e mais a sua fotosfera psíquica com possibilidades cada vez mais dilatadas de emitir e receber ondas mentais, iniciando-se assim em todas as atividades de intercâmbio com o mundo espiritual. Exteriorizando o reflexo de si mesmo através de sua aura é que o homem começou todos os serviços da mediunidade da Terra, considerando-se a mediunidade como atributo do homem encarnado para corresponder-se com os homens desencarnados. O entrelaçamento das ondas mentais que se acasalam segundo a combinação por afinidade, determinou a intuição como o sistema inicial de intercâmbio mediúnico.(1)

Posteriormente, saindo de sua infância histórica, o homem procurou eternizar a comunicação de modo que pessoas de outros lugares e de outras gerações pudessem saber o que pensava e conhecia a seu tempo. Surgiram os primeiros desenhos e escritas. Gradativamente, as formas de comunicação escrita foram tornando-se populares, acentuando cada vez mais o interesse do povo pelas idéias, informações e notícias. E a mediunidade, por sua vez, mediante o crescimento do entendimento humano, teve, automaticamente, os seus potenciais alargados, pois o homem aumentou a sua capacidade mental, potencializando seu poder emissor e receptor de ondas mentais. Na sua corrida evolutiva, à medida que o homem animalizado avança para o homem espiritualizado, a sua mediunidade se sublima em infinitos graus de inter-relacionamento com as ondas supra-ultracurtas da freqüência mental dos seres angélicos.

A mediunidade, mediante a freqüência mental do homem de hoje, já constitui um magnífico sistema de comunicação, não muito fácil de definir, já que transcende de muito os meios de comunicação tão definidos, tão catalogados, existentes no mundo formal. Não obstante todos os recursos do mundo contemporâneo, ainda persiste o problema da comunicação de idéias e de conhecimentos. Considere-se agora as dificuldades de um sistema com a mediunidade, que abrange necessariamente dois planos de vida não identificados.

Na tentativa de explicar a complexidade do intercâmbio mediúnico, em suas nuances mais dificultosas, talvez para conseguir apenas salientar que a mensagem espiritual quando chega ao mundo material sofre desde a sua emissão até a recepção, uma gama de interferências que se impõem de modo lamentável à pureza do teor codificado.

André Luiz, espírito, ao escrever sobre a linguagem dos espíritos(2) esclareceu que a linguagem utilizada por um espírito é, acima de tudo, a imagem que exterioriza de si próprio. Muitas vezes os espíritos operam sobre o médium à base de imagens positivas que o envolvem no transe, compelindo-o a lhes expelir os conceitos:

“Nessas circunstâncias, diz ele, expressa-se a mensagem pelo sistema de reflexão, em que o médium, embora guardando o córtex encefálico anestesiado por ação magnética do comunicante, lhe recebe os ideogramas e os transmite com as palavras que lhe são próprias. “Reconhece, também, que apesar da imagem estar na base de todo o intercâmbio, a linguagem articulada” ainda possui fundamental importância nas regiões a que o homem comum será transferido imediatamente após desligar-se do corpo físico”.

Em seu mecanismo, o sistema mediúnico de comunicação mostra: um comunicador (espírito, mente emissora) que através de um código mental todo peculiar, codifica uma mensagem (imagens, palavras, idéias, etc.) que gostaria de transmitir a um público (os homens), mas, para isso, necessita de um canal especialíssimo, o veículo mediúnico (o médium).

Um espírito (codificador) consciente de sua função e que compreende a importância do trabalho que executa, só transmite mensagens adequadas, úteis e oportunas ao meio onde atua. Estuda as características do canal (médium) a ser utilizado e analisa os interesses, necessidades predominantes e o nível intelectual do público (grupo de pessoas que pretende atingir com sua mensagem). A mensagem deve estar preparada de acordo com as características do médium, e em função das possibilidades de compreensão e aceitação do público. Em se tratando de comunicação, Emery & Cols(3) têm considerado que as limitações do público e do canal são talvez os dados mais importantes a serem levados em conta na elaboração de uma mensagem. Por outro lado, um espírito, não tão responsável, usará, quando lhe for possível, qualquer canal que lhe esteja ao alcance para manifestar-se, criando várias barreiras (ruídos), tornando a sua mensagem inadequada, inoportuna e indesejável.

Ruído mediúnico – pode ser definido como tudo aquilo que perturba um processo de comunicação mediúnica, dificultando a compreensão da mensagem. O próprio meio de comunicação, ou seja, o médium, pode ser a causa desse ruído, por se apresentar inadequado, despreparado, indisciplinado, doente, de má vontade, sem lastro cultural ou moral, embora o comunicador tenha todos os quesitos para produzir e emitir uma boa mensagem. Neste caso os canais possíveis como, por exemplo, as modalidades mediúnicas como telepáticas, psicosensoriais ou ectoplásmicas, poderiam estar em algum ponto deficientes, impedindo que a mensagem chegue ao público na íntegra.

Outros ruídos não menos importantes estão no grau de interferência da mente do médium e na vontade firme do público sobre a comunicação através de exigências mentais egoísticas.

Outro problema a ser enfrentado pelo espírito comunicador é o ruído mediúnico semântico, que consiste na má interpretação da mensagem, embora ela tenha chegado ao destinatário exatamente como foi transmitida. Existem vários fatores no público que podem concorrer para isso:

A) fatores de ordem cultural – níveis de escolaridade, educação e moral;
B) psicológicos – resistência a mudanças e a influências estranhas ao seu ambiente;
C) sociais – tabus e preconceitos;
D) fisiológicos – fome, sede, calor, frio, doenças; e biológicos – capacidade de percepção, sexo, idade. Esse ruído pode acontecer bem visivelmente quando as palavras têm um significado para o comunicador e outro para o receptor, lembrando que o aspecto cultural é muito importante tanto para um como para o outro.

Os espíritos superiores, conhecedores profundos da psicologia humana e das condições de receptividade que irão encontrar, utilizam, para cada público, o vocabulário compatível com os respectivos repertórios (conjuntos de elementos que possuem significado para os usuários de um sistema de comunicação), isto é, eles ajustam o vocabulário da mensagem ao repertório do destinatário.

Em se tratando de espíritos malfazejos e enganadores, classificados entre os obsessores coletivos ou individuais, não se preocupam com os termos a serem empregados, inspirando geralmente palavreados de aparência lógica, mas de conotação dúbia e sempre contraditórias, que conseguem enganar a um público, neste caso, mais crédulo do que lógico.

Ainda sobre esse aspecto, urge lembrar que cada pessoa possui um estoque de experiência, que consiste, de um lado em suas crenças e valores individuais e, de outro lado, em crenças e valores do grupo a que pertence (família, trabalho, atividades sociais). A mensagem que desafia essas crenças e valores poderá ser rejeitada, deturpada ou mal interpretada, o que constitui um outro problema a ser enfrentado pelo comunicador referente à recepção da mensagem. Há que se anotar aqui o fenômeno de dissonância. Ocorre quando o receptor age de modo relativamente incompatível com o que sabe ou crê; ou age depois de considerar duas ou mais alternativas igualmente sugestivas.

Entretanto, o certo é que a mensagem mediúnica, alcança um público grande ou pequeno, culto ou não, dependendo do interesse do médium e de seus acessores na sua divulgação. A partir desse interesse, a mensagem será transmitida pelos diversos meios como o rádio, jornal, revista, livros, impressos ou televisão. Existem mensagens espirituais para todo o tipo de público, pois, os espíritos comunicadores, são os mesmos que como homens habitaram a terra no passado e portanto têm, cada um deles, o seu campo de interesse porque continuam sendo repórteres, religiosos, médicos, redatores, escritores, desenhistas, atores, músicos, poetas, professores, segundo a própria personalidade.

Parodiando, ainda, os estudos já existentes sobre a comunicação, é fácil extrapolar e verificar pela lógica o modo pelo qual a humanidade tem sido orientada através dos tempos pela Inteligência Divina:

Jesus e Deus mantêm-se em perfeita sintonia em se tratando de comunicação. Os dois têm uma só idéia, Eles se compreendem, são dois em um: “Eu e o Pai somos um” (Jo, 10 : 22 a 42) teria dito Jesus, e os seus ensinamentos representam a Verdade. Jesus centraliza a Verdade, representa o próprio Deus diante dos homens: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo, 14 : 6). É considerado pelos espíritas como a Fonte de orientação espiritual, cujas mensagens têm sido enviadas pelos espíritos (uma vez por Ele Mesmo) que são neste caso os comunicadores que sempre utilizaram o Sistema (*) da Mediunidade, através das diferentes possibilidades mediúnicas (canais), logicamente sob a editoria dos médiuns. Os homens, que constituem o público, recebem essas informações de modo diverso, segundo a capacidade receptiva e interpretativa de cada um.

O comunicador e o indivíduo R do público têm o mesmo repertório; o indivíduo R1 é apenas parcialmente receptivo; o indivíduo R2 não está apto para compreender a mensagem, e o indivíduo R3 é dissonante, compreende a mensagem e age de modo incompatível.

Sabe-se que a verdadeira comunicação se realiza em dois sentidos, é o fenômeno de feedback, como se diz em linguagem técnica. Seu nome é mais popularmente conhecido como resposta ou reação. Através do processo de feedback que o comunicador pode verificar se foi ouvido ou se foi entendido como desejava. E o que tem feito o Mestre, senão repetir e repetir os seus ensinamentos através dos tempos? Se o faz é porque percebe a resposta da humanidade, sob todos os ângulos psicológicos. Acompanha atento a evolução do pensamento humano, as lições trazidas por três Revelações aí estão para atestar esse fato. Como um comunicador experiente, Jesus está sempre atento ao processo de volta e modifica o nível de sua mensagem sempre que necessário, de acordo com o que observa ou ouve do indivíduo, grupo ou comunidade – “Chamais-me Mestre, dizeis bem, porque Eu o sou...” (Jo, 13 : 13).

Esquema de comunicação de massa para uma dada mensagem num instante t do tempo: Jesus (a fonte) tem a sua mensagem transmitida pelos espíritos (comunicadores), num canal controlado pelo médium (editor); alguns elementos do público (H) recebem a mensagem diretamente, outros indiretamente, porém alguns não estão atentos; os efeitos de realimentação podem ocorrer durante o processo de comunicação.

Houve, desde o seu início, seqüência evolutiva no sistema de intercâmbio espirítico. Inicialmente, para se conseguir comunicações sistemáticas dos espíritos, ditava-se as letras do alfabeto em voz alta e os espíritos indicavam por raps, as que deveriam ser anotadas, formando-se assim palavras, frases e textos inteiros (1848-1850). Este processo era muito rudimentar e moroso, tanto que, por volta de 1850, os espíritos, eles próprios, indicaram um novo método, o das mesas girantes. Os participantes perfilavam-se ao redor de uma mesa em cima da qual eram colocadas as mãos. Os espíritos, levantando um dos pés da mesa, davam com ele uma pancada quando a letra desejada fosse proferida. Evidentemente o processo continuou muito lento, embora fossem obtidos resultados excelentes. Já em 1853, os espíritos começaram a usar um processo de escrita, introduzido por eles mesmos – um lápis amarrado a uma cesta na qual o médium encostava o seu dedo. A cesta movia-se fazendo o lápis escrever em círculo sobre uma folha de papel. Pouco a pouco, esse método foi sendo aceito pelos observadores e logo outras alternativas foram sendo utilizadas, empregando-se mesinhas e pranchetas. Esse processo era mais fácil e muito mais rápido. Outro método era o da agulha, que girava num quadrante com letras. Processos mediúnicos como a vidência e clarividência continuavam em pleno desenvolvimento, inclusive a psicografia. Os médiuns, sob a ação dos espíritos apontavam as letras dispostas à frente em círculo. Daí para a psicografia propriamente foi um pulo, sem nenhum obstáculo. A escrita direta, mais esporadicamente, era obtida e bem mais tarde os espíritos materializados deixavam seus recados diretamente.

Hoje, a psicografia, principalmente no Brasil, é o método de preferência dos espíritos superiores. É um meio rápido, eficaz e preciso, com a vantagem de deixar grafada a mensagem, para que possa ser lida e analisada posteriormente. Estão aí as obras psicografadas por Francisco C. Xavier, Zilda Gama, Ivonne A. Pereira, Fernando Lacerda, Divaldo P. Franco, formando um acervo de conteúdo doutrinário como nunca se viu no mundo.

Esta evolução no processo de comunicação mediúnica, foi surgindo à medida que os próprios espíritos conseguiram um campo de sintonia mais favorável com os homens, que, pouco a pouco, se adequavam com as idéias e métodos sugeridos. As variedades das potencialidades mediúnicas sempre existiram nas civilizações de todos os tempos, o que facilmente pode ser observado na história.

(1) André Luiz. Evolução em Dois Mundos. 1ª edição – FEB - Cap. XVII - pp. 130-131.
(2) Idem – pp. 171-172.
(3) Emery, E.; Ault, P. H. & Agee, W. K. Introdução à Comunicação de Massa. São Paulo – Atlas – 1973.
(*) Conjunto complexo, grupo de coisas ou partes conexas, corpo organizado de coisas materiais ou imateriais.





L. Palhano Jr.

(15.12.1946 - 14.11.2000)

Lamartine Palhano Júnior foi um dos mais brilhantes pesquisadores do espiritismo no Brasil. Natural de Coronel Fabriciano, MG, ainda criança mudou-se para a cidade de Vitória, ES. Adotou o espiritismo, na juventude, a partir de uma decisão consciente, nascida da reflexão e da convicção pessoal. Graduou-se em farmácia, realizou seu mestrado na área de bacteriologia e doutorou-se em ciências, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, desenvolvendo intensa atividade acadêmica.

Como cientista, realizou pesquisas em diferentes áreas, onde podemos destacar os seus estudos sobre a tuberculose, para cujo diagnóstico desenvolveu diversas técnicas. Fruto dessas pesquisas, publicou inúmeros artigos em revistas científicas internacionais e apresentou-se em alguns congressos internacionais. Lecionou microbiologia na Universidade do Estado do Espírito Santo e patologia na Universidade Federal do Espírito Santo.

Do movimento espírita Palhano foi ativo participante, sendo inúmeras as instituições em que atuou, não apenas em Vitória, mas também em Niterói, cidade em que residiu durante seus cursos de mestrado e doutorado. Palhano deu inestimável contribuição em diversas áreas: pesquisa científica de cunho espírita: publicação de livros, apresentação em palestras, cursos e treinamentos que realizava com grande freqüência. Como pesquisador, fundou e dirigiu a FESPE (Fundação Espírito-Santense de Pesquisa Espírita) e o CIPES (Círculo de Pesquisa Espírita de Vitória), instituições que se tornaram marco da pesquisa espírita no Brasil. É conhecida e aplicada por diversos grupos mediúnicos a técnica por ele desenvolvida que denominou "varredura psíquica".

É notável a versatilidade da sua produção editorial espírita. Escreveu inúmeros livros infantis, outros na área da teologia espírita, diversas biografias de vultos espíritas (Palhano dava extrema importância à preservação da memória espírita, tendo, inclusive apoiado e incentivado o trabalho de diversos pesquisadores nessa área) e mesmo a literatura foi brindada com um excelente romance sobre José de Anchieta, que nos surpreendeu por suas excelentes qualidades literárias. Publicou alguns ensaios de cunho doutrinário e obras que se destinavam à divulgação do espiritismo junto ao público em geral. Sua grande contribuição foi na área da pesquisa mediúnica, cujas obras são fruto das pesquisas realizadas inicialmente na Federação Espírita do Espírito Santo, onde foi Diretor de Doutrina, posteriormente na Casa Espírita Cristã, em Vila Velha, e finalmente na FESPE e no CIPES.

Obras de Lamartine Palhano Jr.
(As obras em destaque podem ser parcialmente lidas na homepage da lachatre
(http://www.lachatre.com.br/autores.php?autid=64):


• A verdade de Nostradamus
• Aos efésios
• Aos gálatas, a carta da redenção
• As chaves do reino
• Dossiê Peixotinho
• Evocando os espíritos
• João Batista, o profeta do Cristo
• Laudos espíritas da loucura
• O livro da prece
• O significado oculto dos sonhos
• Reuniões mediúnicas
• Transe e mediunidade

 



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* lembrete - obras psicografadas entram pelo nome do autor espiritual