VISÃO ESPÍRITA DA ASSISTÊNCIA
SOCIAL
Questões para debate
1. Discute-se tanto, sobretudo na América Latina,
que o Espiritismo não pode ser evangélico, mas laico.
A ênfase ao Espiritismo evangélico dada pela obra mediúnica
de Chico Xavier, sobretudo através de Emmanuel, tem algum apoio
na obra de Allan Kardec? (Veja itens 1 a 3 do estudo “Visão
Espírita da Assistência Social”.)
2. Com base no que os escritores desencarnados têm-nos
revelado, podemos dizer que existe também um Serviço Social
espírita na erraticidade? (Veja itens 4 e 5 do estudo citado.)
3. Qual é a metodologia do trabalho realizado
pelos assistentes sociais no plano espiritual? (Veja itens 6 a 10 do
estudo citado.)
4. Considerando os ensinamentos contidos nas obras
espíritas, que pontos fundamentais devem nortear o Serviço
Social nas instituições que se autodenominam espíritas?
(Veja itens 11 a 13 do estudo citado.)
5. Qual deve ser a meta primacial de uma instituição
espírita na tarefa de assistência social? (Veja itens 13
e 14 do estudo citado.)
6. Diante de tudo o que foi anteriormente debatido,
como podemos resumir as diretrizes emanadas dos instrutores espirituais
para a realização da tarefa de assistência social
espírita? (Ver itens 14 e 15 do estudo citado.)
VISÃO ESPÍRITA DA ASSISTÊNCIA
SOCIAL
Astolfo Olegário de Oliveira Filho
De Londrina - PR
Espiritismo e Evangelho
1. Diz-nos Emmanuel: "O Espiritismo, sem Evangelho,
pode alcançar as melhores expressões de nobreza, mas não
passará de atividade destinada a modificar-se ou desaparecer,
como todos os elementos transitórios do mundo. E o espírita,
que não cogitou da sua iluminação com Jesus Cristo,
pode ser um cientista e um filósofo, com as mais elevadas aquisições
intelectuais, mas estará sem leme e sem roteiro no instante da
tempestade inevitável da provação e da experiência,
porque só o sentimento divino da fé pode arrebatar o homem
das preocupações inferiores da Terra para os caminhos
supremos dos páramos espirituais" (O Consolador, item 236).
2. Aludindo ao ensino moral contido no Evangelho, Allan
Kardec pondera: "Diante desse código divino, a própria
incredulidade se curva. É o terreno em que todos os cultos podem
encontrar-se, a bandeira sob a qual todos podem abrigar-se, por mais
diferentes que sejam as suas crenças. Porque nunca foi objeto
de disputas religiosas, sempre e por toda parte provocadas pelos dogmas.
Se o discutissem, as seitas teriam, aliás, encontrado nele a
sua própria condenação, porque a maioria delas
se apegou mais à parte mística do que à parte moral,
que exige a reforma de cada um. Para os homens, em particular, é
uma regra de conduta, que abrange todas as circunstâncias da vida
privada e pública, o princípio de todas as relações
sociais fundadas na mais rigorosa justiça. É, por fim,
e acima de tudo, o caminho infalível da felicidade a conquistar,
uma ponta do véu erguida sobre a vida futura" (O Evangelho
segundo o Espiritismo, Introdução, item I).
3. Diante de tais ensinamentos, não se concebe
falar em assistência social espírita sem evangelização,
porquanto ensinar a Doutrina Espírita direcionando o indivíduo
para a prática dos ensinos do Cristo é favorecer-lhe o
caminho da felicidade. Existe objetivo mais nobre do que esse? O objetivo
da assistência social espírita não é, portanto,
como muitos pensam, tão-somente saciar corpos perecíveis,
mas iluminar consciências, formar indivíduos saudáveis
do ponto de vista físico, psicológico e espiritual, fazer
homens de bem, porque "o homem que se ilumina conquista a ordem
e a harmonia para si mesmo" (O Consolador, item 234).
O Serviço Social no plano espiritual
4. A assistência social espírita, que
constitui, na história do movimento espírita brasileiro,
um dos capítulos mais fecundos, não se limita ao plano
dos encarnados, porque essa preocupação é freqüente
também nas províncias espirituais adjacentes à
Crosta. Diz Lúcia Loureiro (in "Colônias Espirituais",
pág. 43): "Nas Colônias Espirituais, o Serviço
Social possui um vasto campo de ação no desenvolvimento
das atividades. Desde as entrevistas iniciais até o encaminhamento
em excursões para estudo e observação. Os Espíritos
instrutores empregam fórmulas variadas com os recém-desencarnados
a depender de suas características e reações.
O Amor e a Tolerância são fundamentais, e o Espírito
que recepciona o que chega emprega toda a habilidade psicológica
para que este se sinta seguro e aceito, apesar de suas imperfeições.
O Espírito recepcionista tem muita precaução nos
contatos com o recém-desencarnado, atentando para a sua sensibilidade
ao comentar erros passados, estimulando-o sem pressão".
5. Lúcia Loureiro acrescenta: "Esses Assistentes
Sociais do Espaço integram as Caravanas Socorristas e são
elementos preparados para fazer a aproximação daqueles
que já se acham em condições razoáveis para
recebimento de socorro. Outros há que fazem as visitas periódicas
ao `enfermo', a fim de estimulá-lo a elevar o padrão vibratório,
a esclarecê-lo... Eles acompanham os assistidos por toda
a sua estada nas Colônias, observado o progresso espiritual de
cada um".
6. As tarefas auxiliares do Serviço Social são
o socorro espiritual e a reabilitação:
Socorro espiritual: "Por ocasião das visitas
das Caravanas Socorristas às zonas inferiores, a primeira ajuda
oferecida aos Espíritos carentes é a sua retirada do local
e o transporte para as instituições hospitalares das Colônias.
Após a fase de perturbação, os Espíritos,
ainda exauridos, não têm forças para se locomover
nem o senso da direção, daí a necessidade
de transportá-los em macas, da mesma forma que os nossos doentes
terrestres." Essa providência equivaleria, em nosso meio,
a dar o peixe a quem tem fome.
Reabilitação: "Nas Colônias,
o valioso instrumento de reabilitação do Espírito
é o trabalho, utilizado, também, como terapia ocupacional.
À medida que o Espírito convalescente se interessa pelo
serviço da comunidade, dedicando-se a qualquer tarefa, ainda
que a mais simples, vai, da mesma forma, concretizando a sua cura. Os
Espíritos comunicantes são unânimes quanto a essas
declarações".
7. Em "A Vida Além do Véu”,
o Rev. G. Vale Owen fala dessas atividades, e André Luiz
descreve em "Nosso Lar" a sua própria experiência:
"Narcisa fazia o possível por atender prontamente à
tarefa de limpeza, mas debalde. Grande número deles deixava escapar
a mesma substância negra e fétida. Foi então que,
instintivamente, me agarrei aos petrechos de higiene e lancei-me
ao trabalho com ardor. A servidora parecia contente com o auxílio
humilde do novo irmão, ao passo que Tobias me dispensava olhares
satisfeitos e agradecidos. O serviço continuou por todo o dia,
custando-se abençoado suor, e nenhum amigo do mundo poderia avaliar
a alegria sublime do médico que recomeçava a educação
de si mesmo, na enfermagem rudimentar" ("Nosso Lar",
cap. 27, pág. 151).
8. Otília Gonçalves (Espírito),
em "Além da Morte", relata: “Aclimatada, na Terra,
aos labores humildes de limpeza e asseio, ofereci-me à irmã
Zélia, em dia de grande movimento, para contribuir de algum modo
com os deveres de manutenção da Enfermaria onde me encontrava,
experimentando, com a sua aquiescência, indizível júbilo.
À medida que era atraída para esse serviço singelo,
estranho revigoramento tomava corpo dentro de mim, entusiasmando-me
e fazendo-me esquecer as preocupações e angústias
lancinantes que ficaram no espírito, com a distância colocada
pela morte”. Adrião lhe disse então que "o
trabalho é o poderoso elixir de longa vida que fortifica todas
as esperanças e esponja que apaga todas as preocupações.
A alma que labora não é colhida pelas malhas das tentações
da dúvida e do medo, ficando distante do barco fraco dos receios".
As organizações socorristas da
erraticidade
9. Verifica-se, assim, que no Além a ociosidade
e a inércia não têm lugar para aqueles que sentem
a necessidade de progredir. Só a dedicação abnegada
ao bem-estar geral faz com que se ascenda aos Planos Superiores. Os
demais lá chegarão também, mas apenas pela dor.
10. A série "Nosso Lar", escrita por
André Luiz, nos permitiu conhecer inúmeras dessas organizações
socorristas existentes nos planos espirituais imediatos à Crosta
da Terra, de que fala Lúcia Loureiro:
O "Samaritanos" é uma delas, com notável
atividade junto ao Umbral ("Nosso Lar", cap. 28, pág.
152).
O Posto de Socorro vinculado à colônia
"Campo da Paz", administrado por Alfredo, com cerca de 500
cooperadores, é outra ("Os Mensageiros", cap. 15 e
16).
Em "Obreiros da Vida Eterna" (cap. IV), André
alude à Casa Transitória de Fabiano e às suas congêneres
Oratório de Anatilde e Fundação Cristo.
Em "No Mundo Maior" (cap. 20) fala-nos do
Lar de Cipriana e dos inúmeros Postos de Socorro e Escolas (cap.
17) que atendem às entidades sofredoras situadas numa várzea
de extensão imensa localizada no limiar das cavernas, onde "vastos
cardumes de desventurados jaziam chumbados ao solo, quais aves desditosas,
de asas partidas".
No livro "Entre a Terra e o Céu" (cap.
XI) descreve o Lar da Bênção, onde mais de 2.000
crianças desencarnadas são assistidas por mães
substitutas, a maioria à espera de uma nova oportunidade no plano
terrestre.
E em "Ação e Reação"
(cap. 1) André nos apresenta a "Mansão Paz",
instituição socorrista vinculada à colônia
Nosso Lar, fundada há mais de três séculos para
atendimento a entidades infelizes e enfermas que se preparam para nova
incursão na experiência terrestre.
Cinco pontos fundamentais do Serviço
Social espírita
11. Das experiências e relatos constantes da
série Nosso Lar, de André Luiz, podemos extrair os seguintes
pontos, que nos parecem fundamentais a um trabalho de assistência
social espírita:
1o) A prática do bem é mero dever: "O
Evangelho de Jesus (disse a André aquela que foi sua mãe
terrena) lembra-nos que há maior alegria em dar que em receber.
(...) Dá sempre, filho meu. Sobretudo, jamais esqueças
dar de ti mesmo, em tolerância construtiva, em amor fraternal
e divina compreensão. A prática do bem exterior é
um ensinamento e um apelo, para que cheguemos à prática
do bem interior. Jesus deu mais de si, para o engrandecimento dos homens,
que todos os milionários da Terra congregados no serviço,
sublime embora, da caridade material. Não te envergonhes de amparar
os chaguentos e esclarecer os loucos que penetrem as Câmaras de
Retificação (...). Trabalha, meu filho, fazendo o bem.
Sempre que possas, olvida o entretenimento e busca o serviço
útil" (Nosso Lar, cap. 36, pág. 198).
2o) O bem que fazemos jamais fica esquecido: "Nos
círculos inferiores, meu filho (disse-lhe sua mãe), o
prato de sopa ao faminto, o bálsamo ao leproso, o gesto de amor
ao desiludido, são serviços divinos que nunca ficarão
deslembrados na Casa de Nosso Pai" (Idem, pág. 197).
3o) Não se concebe o trabalho de ajuda ao próximo
sem o espírito de fraternidade: "Ainda há pouco tempo
(disse-lhe Laura, mãe de Lísias) ouvi um grande instrutor
no Ministério da Elevação assegurar que, se pudesse,
iria materializar-se nos planos carnais, a fim de dizer aos religiosos,
em geral, que toda caridade, para ser divina, precisa apoiar-se na fraternidade"
(Nosso Lar, cap. 39, pág. 218).
4o) O padrão da obra socorrista no mundo será
sempre Jesus: "Jesus (disse-lhe Vicente, que também fora
médico na Terra) não foi somente o Mestre, foi Médico
também. Deixou no mundo o padrão da cura para o Reino
de Deus. Ele proporcionava socorro ao corpo e ministrava fé à
alma. Nós, porém, meu caro André, em muitos casos
terrestres, nem sempre aliviamos o corpo e quase sempre matamos a fé"
(Os Mensageiros, cap. 13, pág. 74).
5o) Devemos dar o pão que alimente o corpo,
sem esquecer a luz que ilumine o espírito: "Nos primórdios
do Cristianismo (disse-lhe Irene), a maioria dos necessitados entraria
em contacto com Jesus através da sopa humilde ou do teto acolhedor.
Lavando leprosos, tratando loucos, assistindo órfãos e
velhinhos desamparados, os continuadores do Cristo davam trabalho a
si próprios, dedicavam-se aos infelizes, esclarecendo-lhes a
mente, e ofereciam lições de substancial interesse aos
leigos da fé viva. Como não ignoram, estamos fazendo no
Espiritismo evangélico a recapitulação do Cristianismo"
(Obreiros da Vida Eterna, cap. XII, pág. 190).
A recomendação de São
Francisco Xavier
12. Conta-nos Manoel Philomeno de Miranda (in "Tramas
do Destino", cap. 21, págs. 196 a 199, obra psicografada
por Divaldo P. Franco) que, quando o Centro Espírita "Francisco
Xavier", de Salvador (BA), teve a sua edificação
planejada, o dirigente espiritual Natércio, profundo admirador
e discípulo de São Francisco Xavier, que fora na Terra
incansável propagandista da fé cristã, tendo-a
levado ao Japão, China e Índia, nos idos do séc.
XVI, recorreu ao fiel Apóstolo de Jesus, suplicando seu patrocínio
espiritual para a Casa que seria erguida. Recebido pelo Mensageiro
do Senhor, Natércio expôs-lhe o programa que objetivava
realizar. Sua grande meta era incrementar entre os homens o ardor da
fé e a pureza dos princípios morais, conforme as regras
simples dos "seguidores do Caminho", sem os atavios do dogmatismo,
da aparência e dos formalismos.
13. Terminado seu relato, o instrutor recebeu o aval
do insigne Missionário, com uma condição: que se
preservasse ali o Evangelho em suas linhas puras e simples, num clima
de austeridade moral e serviços iluminativos disciplinados, com
os resultantes dispositivos para a caridade na suas múltiplas
expressões, tendo-se, porém, em vista que os socorros
materiais seriam decorrência natural do serviço espiritual,
prioritário, imediato, e não os preferenciais..."
"Não deveriam esquecer-se de que a maior carência
ainda é a do pão de luz da consolação moral,
que o Livro da Vida propicia fartamente..."
14. Comentando o episódio, assevera Manoel Philomeno
de Miranda (obra citada, págs. 198 e 199):
"Pensa-se muito em estômagos a saciar,
corpos a cobrir, doenças a curar... Sem menosprezar-lhes a urgência,
o Consolador tem por meta primacial o espírito, o ser em sua
realidade imortal, donde procedem todas as conjunturas e situações,
que se exteriorizam pelo corpo e mediante os contingentes humanos, sociais,
terrenos, portanto...
"A assistência social no Espiritismo
é valiosa, no entanto, se precatem os `trabalhadores da última
hora' contra os excessos, a fim de que a exaustão com os labores
externos não exaura as forças do entusiasmo nem derrube
as fortalezas da fé, ao peso da extenuação e do
desencanto nos serviços de fora.
"Evangelizar, instruir, guiar, colocando
o azeite na lâmpada do coração, para que a claridade
do espírito luza na noite do sofrimento, são tarefas urgentes,
basilares na reconstrução do Cristianismo".
Não basta dar o pão que alimente apenas
o corpo
15. É por isso que Joanna de Ângelis nos
propõe (in "Dimensões da Verdade", pág.
123):
"A caridade tem regime de urgência,
mas também o esclarecimento ao seu lado tem tarefa prioritária,
funcionando como combustível de sustentação.
"Pão ao esfaimado como dever imediato,
e luz do ensino espírita, para que a angústia da fome
seja dirimida pelo serviço dignificante.
"Tecidos ao corpo entanguido como tarefa
inadiável; no entanto, orientação espírita
para agasalhar a alma na esperança, livrando-a, em definitivo,
do frio.
"Medicamento ao corpo doente como recurso
urgente; todavia, diretriz espírita para que o espírito
compreenda as razões profundas da dor e possa revitalizar-se.
"Socorro ao aflito nos braços do
desespero como obrigação irresistível; mas roteiro
espírita para que o conhecimento o liberte de toda treva e agitação.
"Amparo ao órfão, no próprio
lar, como lição viva de amor; porém, conduta espírita
diante dele, como linha de segurança para o seu engrandecimento.
"Assistência à mulher viúva
e auxílio à miséria como impositivo da ação
cristã; todavia, oferta da Doutrina Espírita a fim de
que a revolução da verdade conceda luz e vida, para que
novos enganos sejam evitados, libertando as mentes das ligações
poderosas com o mal.
E a nobre mártir do Cristianismo nascente, hoje
orientadora espiritual do trabalho de Divaldo P. Franco, arremata (obra
citada, pág. 50):
"Nem Espiritismo sem assistência social,
nem assistência social sem Espiritismo, para nós espiritistas
encarnados e desencarnados.
"E guardemos a certeza de que, ao lado da
assistência material que possamos doar, a assistência moral
e espiritual deve ter primazia."
Londrina, 19/9/98
Astolfo Olegário de Oliveira
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