Do G1, em São Paulo
27/04/2007
http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL27781-6174,00.html
http://tecnocientista.info/noticia_detalhe.asp?cod=5345
Pesquisa brasileira
relata fenômeno que levaria à perda de dados.
Estudo mostra barreiras à construção de computador
baseado na física quântica.
O sonho da construção de computadores
quânticos -- capazes de fazer cálculos hoje inalcançáveis
por máquinas convencionais -- acaba de ficar um pouco mais distante,
pelas mãos de um grupo brasileiro de pesquisadores.
Por meio de um inteligente arranjo experimental, a equipe
do físico Luiz Davidovich, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, acaba de demonstrar que uma propriedade crucial para o processamento
de dados pelo caminho quântico -- algo que os cientistas chamam
de e ntrelaçamento -- pode sumir de repente, algo que os próprios
pesquisadores se referem como uma "morte súbita".
Ainda assim, o grupo destaca que é apenas o início
de um longo trabalho experimental e não desencoraja a busca por
soluções para tornar a computação quântica
uma realidade -- por mais difícil que seja entender como operaria
uma máquina baseada nos princípios malucos e contra-intuitivos
dessa parte da física.
Absurdos do muito pequeno
A chamada mecânica quântica diz respeito
às leis naturais que explicam o funcionamento das menores coisas
do Universo -- as partículas elementares. Diferentemente da física
clássica, que parece fazer mais sentido para nós porque
é na nossa escala que ela se manifesta (ninguém questiona
frases como "dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar
no espaço ao mesmo tempo"), a física quântica
permite uma série de fenômenos aparentemente bizarros,
como a possibilidade de uma dada partícula estar ao mesmo tempo
em mais de um lugar e guardar em si mesma características conflitantes.
Embora as leis quânticas sigam uma lógica
própria, não-intuitiva, a ciência conseguiu, através
da matemática, descobrir muito sobre como elas operam. Dentre
essas descobertas está o entrelaçamento quântico,
uma coisa tão estranha que até mesmo o famoso físico
Albert Einstein (1879-1955) achava que não passasse de um absurdo
teórico, uma "ação fantasmagórica a
distância". Hoje sabemos que o entrelaçamento existe
mesmo, e é graças a ele que muitos cientistas podem sonhar
com computadores quânticos.
Uma das coisas mais estranhas da mecânica quântica
é que uma partícula vive numa sobreposição
de estados -- como se ela tivesse várias características
contrastantes ao mesmo tempo. Veja como é absurdo. Na física
clássica, cada objeto tem um conjunto de propriedades definidas.
Por exemplo, um automóvel pode ser azul ou vermelho, mas ele
não pode ser azul e vermelho simultaneamente. Já uma partícula
pode ter vários estados ao mesmo tempo -- contanto que ninguém
a observe.
Por conta disso, os cientistas da computação
estão loucos para usá-las como elementos para a realização
de cálculos: se uma partícula pode carregar várias
informações (bits) simultaneamente, o processamento que
ela pode executar acaba sendo muito maior. É com essas versões
"turbinadas" de bits, os quantum bits (ou qubits), que os
computadores quânticos terão de trabalhar.
E o entrelaçamento deve ser parte integrante
desse processo. Duas partículas são ditas entrelaçadas
quando ambas estão em sobreposição de estado, mas
de alguma maneira a condição de uma depende da condição
de outra. Então, se uma partícula pode ser azul ou vermelha
e, ao ser observada, ela se mostra azul, é certo que seu par
entrelaçado se converte automaticamente em vermelho -- a situação
de uma partícula define a da outra.
Não é difícil imaginar como essa
combinação poderia ajudar na computação.
Se um computador tivesse um conjunto de partículas e outro tivesse
outro conjunto, com ambos entrelaçados, seria possível
transferir informação de um a outro sem chance de interceptações
e de forma praticamente instantânea.
Pequenas grandes dificuldades
É aí que entra a pesquisa de Davidovich
e seus colegas. Eles mostraram que esse entrelaçamento é
muito difícil de manter, porque, dependendo do ambiente em que
estão as partículas, pode acontecer a chamada "morte
súbita do entrelaçamento" -- ou seja, sem aviso prévio,
as partículas perdem essa ligação uma com a outra,
e com isso o processo de computação ficaria comprometido.
O grupo sabe muito bem o tamanho do problema. "O
sucesso no mundo real da comunicação e computação
quânticas depende da longevidade do entrelaçamento em estados
quânticos multipartículas", escrevem os pesquisadores,
em um artigo publicado na edição desta sexta-feira (27)
da revista científica americana "Science".
Os resultados, entretanto, não é razão
para desistir do conceito dos computadores quânticos -- muito
pelo contrário, é conhecendo melhor as dificuldades que
se poderá projetar sistemas que contornem os problemas. E é
certo que ainda há muito o que estudar.
"Esse relato não é a palavra final
em estudos desse tipo, e, dado o papel central do entrelaçamento
de sistemas pequenos em qualquer rede de informações quânticas,
é provável que outras investigações experimentais
sigam a trilha desse trabalho", diagnosticam Joseph Eberly e Ting
Yu, da Universidade de Rochester (EUA), em comentário publicado
na mesma edição da "Science".
O grupo brasileiro reconhece que é só
o início de uma longa aventura pelo mundo quântico em busca
de respostas e indica, ao final de seu artigo, que "a configuração
experimental [deles] representa um método simples e confiável
para seguir estudando a dinâmica de sistemas entrelaçados
que interagem com ambientes controlados".
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