Adenáuer Novaes

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Uma encarnação é mais um período para o espírito viver novas experiências. Durante sua curta ocorrência, atualizam-se relações, aprimoram-se habilidades e novos conhecimentos são adquiridos. Ódios são aplacados, amigos se revêem e amores são alimentados. Por mais que se queira pensar que se trata de uma repetição, é, em realidade, uma nova vivência, no tempo e no espaço.

O retorno a um novo corpo é sempre algo de inusitado, bom e útil ao espírito. Seu aproveitamento pode ser melhor, na medida em que o espírito se apercebe da linha mestra que conduz sua vida, a qual ele e Deus tecem concomitantemente. Tal linha mestra pode ser chamada de mito pessoal. É o roteiro de um filme que contém aquilo que decorre do livre arbítrio, do planejamento reencarnatório e das tendências supra-arquetípicas coletivas. São aspectos da vida e da individualidade que, quando percebidos, permitem maior capacidade de modificação do destino e de assimilação do aprendizado ao espírito. Identifico dez aspectos a serem percebidos para a consciência do mito pessoal: anseios ocultos, buscas arquetípicas, polarizações típicas, repetições de experiências, eventos em sincronicidade, eventos mediúnicos, sinais/símbolos da vida, direção da energia psíquica, sonhos e complexos.

Anseios ocultos são as fantasias e desejos recônditos que influenciam deterministicamente a vida, direcionando-a para um fim. Geralmente surgem entre a puberdade e a adolescência como ideais de transformação pessoal e coletiva. São propostas internas de adquirir poder suficiente para a realização de ideais imaginários externos e, às vezes, utópicos. Tais propostas acompanham o querer e o desejo do indivíduo por toda a encarnação, sem que ele necessariamente se dê conta. Descobrir os anseios ocultos e deles se conscientizar, rememorar idéias, adquirir o hábito de auto-análise e enxergar os próprios desejos é um importante passo para a transformação pretendida.

Buscas arquetípicas se constituem na realização de tendências básicas do ser humano. A palavra arquetípica deriva de arquétipo, que quer dizer tendência coletiva a agir de determinada forma padronizada. Algumas dessas tendências são muito conhecidas e básicas, tais como: abrigar-se sob a proteção do amor materno, relacionar-se afetivamente com alguém, apresentar aos outros uma imagem idealizada de si mesmo, evitar enxergar o lado negado ou oculto da própria personalidade, perceber os conselhos de uma voz interior sábia, reconhecer e adotar uma certa ordem na vida, não assumir uma postura de inocência e de ingenuidade diante de problemas, dentre outras. Tais tendências devem e precisam ser atualizadas nas várias fases da vida. Não se deve submeter-se a elas ou fugir das experiências que as constituem. Aperceber-se das que não foram vividas e daquelas que foram repetidamente e intensamente atualizadas contribui para a análise do mito pessoal.

Polarizações típicas são tendências superlativas nos comportamentos adotados na vida. São preferências individuais nas várias atividades que acabam por enviesar a vida da pessoa. Elas podem ser notadas no lazer, nos hobbys, nos hábitos tradicionais de muitos anos, nas atividades costumeiramente realizadas nos finais de semana, nas tradições familiares escolhidas, bem como nas obstinações desenvolvidas ao longo da vida. Tais polarizações acabam por conduzir a vida da pessoa para finalidades específicas e perceptíveis após alguns anos. Muitas vezes, pelo envolvimento intenso numa atividade profissional, aliado à constante permanência num mesmo meio profissional, inclusive na participação de lazer típico do grupo social correspondente, consolida-se uma polarização na vida, limitando-a. A busca por atividades múltiplas, bem como o envolvimento em atividades sociais ligadas ao seu meio residencial tornarão menos restrita a vida do indivíduo.

Repetição de experiências é um aspecto que pode ser percebido quando uma pessoa enfrenta, repetidamente, situações de difícil solução. A reincidência das experiências em determinadas épocas da vida, leva a pessoa a se questionar sobre o porquê de estar vivendo aquilo de novo, como se não o merecesse. Geralmente são experiências difíceis e dolorosas, que requerem intenso envolvimento emocional, e que se repetem, geralmente porque o indivíduo não extraiu da primeira vez o suficiente aprendizado que dela se esperava. Dentre elas podemos encontrar: repetidas demissões em vários empregos, nova separação conjugal, outra traição amorosa, distanciamentos de amigos, constantes desilusões amorosas, perdas financeiras cíclicas, mudanças de endereço obrigatórias, relacionamentos com pessoas complicadas, recidivas de doenças, ou outras ocorrências para as quais a pessoa não concorreu voluntariamente.

Eventos em sincronicidade são aqueles que ocorrem, simultaneamente ou não, sem um nexo causal entre eles, sendo um interno e outro externo ao indivíduo que os percebe. Quando a pessoa percebe que algo em que tinha pensado ou percebido em si mesmo, sendo de sua exclusiva e íntima consciência, assemelha-se a um acontecimento externo ou com ele encontre uma correlação, sem que tenha havido para esta sua participação, estará diante de dois eventos em sincronicidade. A sincronicidade não é uma explicação, mas uma palavra utilizada para identificar um fenômeno sem explicação plausível ou que obedeça a uma causalidade conhecida. Um exemplo pode ilustrar melhor: alguém está assistindo a um filme qualquer num cinema e lembra-se de um episódio de sua infância, ocorrido há muitos anos, no qual brincava com um amiguinho, que não vê desde aquela época, e, ao sair do cinema encontra esse amigo. Ocorrências como essa podem trazer pistas sobre o significado da vida e servir de orientação para conduzi-la adequadamente.

Eventos mediúnicos são experiências numinosas na vida de uma pessoa que a remetem ao sagrado, ao sobrenatural e ou ao espiritual. São experiências que evocam pensamentos, idéias, emoções e imagens relacionadas ao misterioso e oculto no ser humano. Ao vivenciá-las a pessoa é tomada por emoções controvertidas e, por vezes, assustadoras. Tais experiências parecerão sem objetivos ou casuais, porém trazem em si propósitos de iniciação e transcendência que não devem ser desprezados. A percepção de vultos que furtivamente passam por nós, vozes interiores que nos avisam de algum perigo, sonhos de encontros com pessoas já falecidas, emoções vividas durantes rituais religiosos, bem como uma gama imensa de fenômenos inexplicáveis, mas interiormente vividos, compõem o mosaico dos eventos mediúnicos. Eles fazem parte do que a vida propõe ao indivíduo para que ele a entenda adequadamente e seja feliz.

Sinais e símbolos da vida podem ser vistos nas diversas fases da existência terrena do indivíduo: na infância, na puberdade, na adolescência, na iniciação sexual, na vida profissional, na relação com dinheiro, nas doenças vividas, nas companhias que atrai, nas atividades de lazer preferidas. As fortes e específicas experiências em cada uma dessas fases e momentos da vida e os eventos que as marcaram, mereceram adequada e compreensiva leitura. Durante e principalmente após essas fases, podem ser observados caminhos ou percursos que denunciam uma certa ordem implícita ou supra-humana, propondo algo além do que a consciência deseja e percebe. Saber decodificar os sinais e símbolos da vida pode se tornar importante recurso para o encontro consigo mesmo e com o sentido desta existência.

Direção da energia psíquica é o movimento característico da vida da pessoa, quanto a sua utilização, no que diz respeito à introversão e à extroversão. A vida impõe mais extroversão da energia de viver do que introversão. Extroversão é movimento para fora, é disposição para se lançar ao mundo aceitando se influenciar pelos objetos externos. Introversão é alquimia interna, na qual pensamentos e emoções se misturam internamente mobilizando a atuação do indivíduo no mundo, com primazia em relação aos objetos externos. Introversão e extroversão são movimentos da energia psíquica a favor do indivíduo para seu encontro consigo mesmo. A supremacia de um desses movimentos sobre o outro em diferentes fases da vida dará também pistas sobre o mito pessoal.

Sonhos são mensagens que vêm do inconsciente a serviço da realização do indivíduo de forma consciente. Os sonhos trazem imagens representativas, como símbolos que apontam para algo aparentemente indecifrável. Carecem de compreensão adequada para uma melhor percepção do indivíduo a respeito de sua vida inconsciente. Eles apresentam uma outra face da personalidade do sonhador que necessita ser integrada à consciência. Sua compreensão permite uma visibilidade maior ao estado psíquico do sonhador para sua individuação. Quando se toma uma série de sonhos para análise, pode se perceber um certo direcionamento, como se eles apontassem para uma direção só perceptível após a vida ter acontecido.

Complexos é o conjunto de experiências nucleadas no inconsciente, sustentadas por uma emoção comum. São motivadores da consciência, que contaminam atitudes e idéias, muitas vezes sem a percepção da pessoa. Sua influência no senso íntimo provoca mal estar e a impressão de ter sido tomado por algo estranho a si mesmo. Os complexos conseguem alterar a disposição do ego, levando-o a atitudes nem sempre conscientes que dirigem a ação para uma finalidade relacionada à sombra do indivíduo.

Reunir as experiências relacionadas à totalidade dos aspectos, conectando-as a si mesmo, como se fossem contas de um mesmo colar, extraindo do conjunto um sentido único, é encontrar o mito pessoal. Sua percepção facilita a condução da vida, bem como a correção do direcionamento que ela tem tomado. A consciência do mito pessoal, após a reunião das emoções e reflexões geradas nas experiências da vida, requer a firme decisão de se conectar ao que há de mais profundo em si mesmo, bem como se colocar como autor do próprio destino.

Fonte: Revista Delfos


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