Adenáuer Novaes

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psicologicamente,
quando uma pessoa doa muito,
costuma exigir muito.



Testes para alcançarmos a felicidade.

Ela também nos oferece múltiplas possibilidades de fazê-lo. Os desafios, embora se constituam em obstáculos que exigem muita energia, são permeados de alegrias e prazeres naturais. Para vencê-los, ora estamos numa postura de doação, ora estamos noutra de recepção. Quando doamos, corremos o risco de nos alienarmos de nós mesmos. Quando recebemos, corremos idêntico risco de nos ausentarmos do mundo. Doar e receber são atitudes diante da vida que exigem equilíbrio para não resvalarmos pela alienação ao interno ou ao externo. A doação não deve ser um fim em si, mas um meio de conhecer a si próprio e ao mundo. Psicologicamente, quando uma pessoa doa muito, costuma exigir muito. Ela cria expectativas em relação ao seu próprio ato e, muitas vezes, ao comportamento de quem lhe recebe os benefícios. O ato de doar deve ser seguido de uma preocupação em fazer crescer quem recebe o benefício, na mesma medida em que o doador se preocupa com seu autocrescimento.

É comum verem-se pessoas que passaram boa parte de suas vidas em tarefa de doação, entrando em depressão. Às vezes, elas próprias não compreendem a causa, decepcionando-se com a vida. Isolam-se e evitam quem possa ajudá-las. Perdem o apetite ou mesmo passam a comer demais. Têm o sono reduzido, quando não conseguem levantar da cama pelo seu excesso. Lamentam-se na solidão de seus pensamentos, evitando o contato com as pessoas que mais amam. Descuidam-se afetivamente. Entram num sentimento de autopiedade e reclamam de Deus pelo seu estado. Às vezes, reduzem sua mobilidade, evitando sair ou exercitar-se, pois se cansam com facilidade. Noutras oportunidades, para vencer a fase crítica pela qual passam, agitam-se saindo muito ou buscando manter-se em atividade constante. Não observam que perderam o interesse pelas atividades mais simples e cotidianas da vida, ficando indiferentes às ocorrências do dia-a-dia. Por conta disso culpam-se ou se sentem inúteis. Simultaneamente, perdem o interesse pela atividade sexual natural e diminuem a capacidade de se concentrar. Sentem tristeza e angústias profundas. Algumas, porque são mais frágeis psicologicamente ou por influência obsessiva, pensam em suicídio. Em resumo, perderam o amor-próprio e o endereço de Deus.

Viver é uma arte que exige habilidade e flexibilidade. Nenhum ato humano deve ser definitivo e tampouco pode se fazer de uma existência o degrau mais alto para se conquistar a felicidade. A vida deve ser vivida como se caminhássemos por uma longa estrada cujo fim a vista nunca alcança. Quando se quer viver a vida, deve-se viver o presente com o olhar para o futuro, sem esquecer do passado para melhor compreendê-la.

Devemos sempre estar atentos aos sutis mecanismos psicológicos que estão subjacentes às nossas intenções. O que nos parece um ato de livre vontade pode estar encobrindo uma culpa ou um complexo. Um certo senso crítico aos próprios atos é sempre desejável, pois ninguém no mundo tem o completo discernimento da realidade que lhe garanta estar sempre atuando adequadamente na vida. Quando pensamos excessivamente em circuito fechado, sem admitir a entrada de outras opiniões em nosso mundo, podemos cair no egocentrismo doentio. O movimento contrário como forma de resolver o conflito, pode ser outro equívoco. É preciso, antes de qualquer atitude para reverter a situação, entrar em contato com os motivos que levaram a pessoa àquele estado depressivo.

Muitos são os problemas que podem promover a chamada depressão. Dentre eles assinalo alguns que, inevitavelmente, a maioria de nós enfrenta. Viver num mundo extremamente competitivo sentindo-se frágil e impotente; acostumar-se à rotina sem as compensações desejadas; viver em contato com pessoas agressivas sem coragem para enfrentá-las com equilíbrio; viver sem ser amado (a); viver sob pressão profissional sem recompensas satisfatórias; não ter um sentido para a vida nem saber por onde começar; não ter uma religião que lhe responda suas questões mais íntimas; viver sendo inferiorizado por alguém e sem auto-estima para mudar a situação; lidar com doenças persistentes sem diagnóstico específico; viver em condições financeiras no limite ou abaixo dele; não resolver seus problemas e necessidades sexuais; lidar com a morte pessoal e de terceiros; administrar perdas e rejeições naturais na vida; lidar com as ingratidões e incompreensões típicas do ambiente familiar; experimentar as agruras da solidão; não aceitar as transformações e alterações físicas decorrentes da idade; não entrar em contato com suas próprias limitações.

Como é praticamente inevitável atravessar a maioria desses problemas, devemos nos prevenir antes que aconteçam. Um dos antídotos que poderemos utilizar para isso é a vivência do Espiritismo de forma equilibrada e harmônica, sem sectarismo ou rigidez. A consciência da imortalidade da alma e a autodeterminação do próprio destino são fundamentais para que se alcance um estado que evite a depressão.

Nenhum ser humano é uma ilha que possa sozinho resolver sua própria busca. A conexão íntima que fazemos com Deus, com o próximo e conosco, é alavanca para uma vida feliz e harmônica. Nossa vida deve ser vivida com entusiasmo e alegria, mesmo diante de dificuldades múltiplas. Quem olha muito para baixo, isto é, para o negativo, esquece que dentro de si mesmo mora o sol, que é Deus. É preciso mirar o horizonte e acertar nas estrelas. Essas estrelas são o coração do outro que conosco convive. Buscar acertar o coração das pessoas nos leva ao encontro do divino em nós.

Fonte: Revista Literária Espírita.

 

*Adenáuer Marcos Ferraz Novaes é engenheiro, cursou Filosofia na Universidade Católica de Salvador e Psicologia na Universidade Federal da Bahia; é psicólogo clínico e do Centro Espírita da Casa de Redenção Joanna de Angelis. Ministra cursos terapêuticos e com atendimento clínico individual.


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