Parte I
A Ciência do Espírito tem por objetivo a Investigação
e o estudo do Fenômeno Espírita
O Espiritismo, revelando a existência do mundo dos Espíritos,
e, conseqüentemente, a pré-existência e a sobrevivência
do Ser; que a morte não existe ou que esta é, simplesmente,
a destruição do corpo material; a possibilidade da intercomunicabilidade
entre o mundo material e o mundo espiritual, isto é, a comunicabilidade
entre os chamados vivos e os chamados mortos, dimensionou o campo do
Conhecimento.
A Epistemologia Espírita traz novas luzes. À
noção imprecisa, vaga, pouco clara, que herdamos acerca
da vida futura, e que nos deixava não poucas dúvidas,
com o Espiritismo desapareceu. A vida futura, para nós, espíritas,
hoje é uma realidade.
Identificando o Espírito como as individualidades
dos seres extra-corpóreos, o Espiritismo no mostra "a vida
da alma, o ser essencial, porque é o ser pensante, remontando
no passado a uma época desconhecida, estendendo-se indefinidamente
pelo futuro, de tal sorte que a vida terrena, mesmo de um século,
não passa de um ponto nesse longo percurso" (RE, ano 1862,
EDICEL, p. 192) e demonstrou a existência do perispírito,
envoltório semi-material e inseparável do Espírito,
que dele se serve para transmissão do seu pensamento.
A Teoria Espírita dos Fenômenos Psíquicos
se funda, pois, nos seguintes princípios: a existência
do Espírito, sua preexistência e sobrevivência ao
corpo físico, suas manifestações e a existência
do perispírito.
E, sendo assim, é válido lembrarmos, porque,
esta verdade, é conhecida de todos os espíritas - que
não há, para o Espiritismo, fenômeno psíquico
sem ALMA ou ESPÍRITO, melhor dizendo. E é, por essa razão,
que fenômeno psíquico, no Espiritismo, é chamado
FENÔMENO ESPÍRITA.
O FENÔMENO ESPÍRITA é abrangente,
global, porque ele é resultante das manifestações
do Espírito, encarnado ou desencarnado. O estudo cuidadoso da
obra espírita, que codifica os ensinos dos Espíritos,
compendiada por Allan Kardec, não nos deixa dúvidas.
O Fenômeno Espírita
O FENÔMENO ESPÍRITA, dissemos atrás,
é abrangente, global e entendemos ser genérico. Ele abrange
os fenômenos que se produzem com a intervenção dos
Espíritos, encarnados ou desencarnados. No primeiro caso, temos
os fenômenos espíritas anímicos ou da emancipação
da alma e, no segundo caso, os fenômenos espíritas da mediunidade
ou mediúnicos. Em ambos os casos o Espírito é sempre
o agente ou a causa.
É uma posição espírita e
não psiquista. De fato, o nosso querido e sempre lembrado João
Teixeira de Paula, muito escolástico, considerando o Fenômeno
Psíquico genérico, considera o Fenômeno Espírita
espécie (Enciclopédia de Parapsicologia, Metapsíquica
e Espiritismo, ed.Cultural Brasil Editora, Ltda., 1973, 3a. ed. V. 1,
p. 117). Para ele o Fenômeno Psíquico abrange o Espírita
ou Espirítico, assim como o Psicológico e o Anímico
(ou Personismo).
Allan Kardec adicionou ao título da "La
Revue Spirite” o subtítulo “Journal d’Études
Psychologiques et de Spiritualisme Experimental", porque o quadro
que ela abrangeria compreenderia "tudo quanto se ligasse ao conhecimento
da parte metafísica do homem, "pois estudar a natureza dos
Espíritos é estudar o homem" (RE, ano 1858, EDICEL,
p. 5).
A classificação que propomos poderá
não ser pacífica nem entre os espíritas, em razão
do cientificismo ou dogmatismo científico. Mas, se "a classificação
dos fenômenos metapsíquicos depende, naturalmente, do ponto
de vista em que nos colocamos, como nota "Flournoy" (Dr. Lobo
VILELA, Revista de Metapsicologia, no. 4, ano 1951, p. 362) o nosso
posicionamento, além de doutrinário, é espiriticamente
didático.
Allan Kardec emprega sempre a denominação
Fenômeno Espírita, defendendo e explicando a hipótese
espírita.
Em "O Livro dos Médiuns", o insigne
Mestre nos dá a explicação teórica dos Fenômenos
Espíritas. Ele não se refere a Fenômeno Psíquico.
Isto é, Kardec não emprega esta denominação.
Para classificar o Fenômeno Espírita, Kardec o divide quanto
aos seus efeitos. Assim, o Fenômeno Espírita, segundo Kardec,
pode ser de efeitos físicos e de efeitos intelectuais. A denominação
Fenômeno Espírita é genérica. Efeitos físicos
e efeitos inteligentes são espécies (O Livro dos Médiuns,
FEB, 1904, 5a. ed. p. 36).
O Fenômeno Espírita de Efeitos Físicos
são todos aqueles decorrentes de efeitos sensíveis, como
os ruídos, o movimento e o deslocamento de corpos sólidos
(o movimento circular das mesas conhecidas sob o nome de "mesas
girantes") e as pancadas.
O Fenômeno Espírita de Efeitos Inteligentes
são todos aqueles que provam "qualquer ato livre e voluntário,
exprimindo intenção, ou respondendo a um pensamento (ob.
cit. p. 69). Mas, é importante observarmos, que Kardec estudou
e aprofundou o seu trabalho com destaque para o Fenômeno Espírita
da Mediunidade ou, se quiserem, o Fenômeno Espírita Mediúnico,
que pode ser de efeitos físicos ou de, efeitos inteligentes,
espontâneos ou provocados. O próprio título da obra
O Livro dos Médiuns ou Guia dos Médiuns ou dos Evocadores,
e o conteúdo dela relativamente ao "ensino especial dos
Espíritos sobre a teoria de todos os gêneros de manifestações,
os meios de comunicar com o mundo invisível, o desenvolvimento
da mediunidade, as dificuldades e os escolhos que se encontram na prática
do Espiritismo" (aqui cabe observar que Espiritismo é expressão
usada em lugar de Mediunismo), situa o seu interesse, pelo menos o mais
imediato.
Mas, não temos dúvidas, que o trabalho
de Kardec e o interesse dos Espíritos Codificadores, necessariamente,
tinha que ser voltado para o Fenômeno Espírita da Mediunidade.
E, também, não foi outra a preocupação de
tantos cientistas que pesquisaram o Fenômeno Espírita.
O Dr. Schrenck-Notzing escreveu uma obra com o título "Les
Phénomènes Pshysiques de Ia Médiumnité"
, Edição Payot, Paris, 1925, com prefácio do Professor
Charles Richet, que se soma a tantos outros trabalhos, tornando numerosa
e rica a bibliografia espírita acerca dos Fenômenos Espíritas
da Mediunidade.
Não obstante, não podemos deixar de considerar,
segundo o próprio Codificador, que o Espiritismo compreendendo,
além da parte Filosófica, relativa às manifestações
inteligentes, compreende uma parte Experimental, e que ela é
relativa às manifestações em geral. E esta parte
Experimental, no que diz respeito aos Fenômenos Espíritas
Anímicos ou da Emancipação da Alma, reclama dos
espíritas estudiosos dos nossos dias um interesse maior objetivando
uma metodologia de pesquisa e uma sistematização de estudo,
com base na alma encarnada, para explicação dos fenômenos
psicológicos. E, sobretudo, para que o Espiritismo reconquiste
as áreas invadidas pela Metapsíquica, Metagnomia, Metapsicologia,
Parapsicologia, Psicotrônica, Metapsicofísica, Biopsíquica,
Parafísica, e outras, e, como ciência espiritologia, dê
claridades à Psicologia, fazendo dela uma verdadeira Espiritologia.
O Espírito
"L’ AME, l’être immaterial et
individuel qui reside em nous et qui survit au corpg" (Le Livre
des Esprits, par Allan Kardec, Paris, E. Dentu, Librairie, 1857, p.
2), traduzindo, "a alma é o ser imaterial e individual que
reside em nós e que sobrevive ao corpo" e que nós,
espíritas, denominamos Espírito.
Aliás, para ficar mais claro, devemos dizer que
foram os próprios Espíritos que assim se declaram: "L’être
mysterieux qui repondait ainsi, interrogué sur sa nature, declara
qu’il était esprit ou génie, se donna um nom, et
fournit divers renseignements surson compte" (ob. cit. p. 6) (O
ser misterioso que respondia, interrogado sobre sua natureza, declarou
que era Espírito ou Genio, deu seu nome e forneceu ainda diversas
informações a seu respeito).
O ser misterioso foi interrogado acerca de sua natureza,
porque era desconhecida a natureza da causa dos fenômenos, das
manifestações, que, então, se produziam.
Assim, se identificou, para nós, espíritas,
a causa e por que não dizermos o agente dos fenômenos psíquicos,
e "comme ayant appartenu, pour quelques-uns du moins, aux hommes
qui ont vécu sur Ia terre” (ob. cit. p. 9) (e se apresentam
como havendo pertencido, alguns deles pelo menos, a homens que viveram
anteriormente na Terra).
No entanto, como o propósito maior deste nosso
trabalho é despertar o interesse dos estudiosos e pesquisadores
espíritas com relação aos fenômenos espíritas
anímicos ou de emancipação da alma, a questão
da existência dos Espíritos se torna secundária,
pois ela não constitui o ponto de partida.
"Sendo os Espíritos as almas dos homens,
o verdadeiro ponto de partida, está na existência da alma".
(O Livro dos Médiuns, Allan Kardec, FEB, 1904, 5a. ed. p. 22).
A Alma
"A Alma", para nós espíritas,
e segundo os Espíritos Codificadores, "é um Espírito
encarnado" (Resposta à questão 81, de "Le Livre
des Esprits", parAllan Kardec, Paris, E. Dentu, Librairie, p. 53).
Parece-nos que, hoje, não se discute a existência
da Alma e que o estudo dos caracteres antagônicos de Alma e do
corpo, resolve a questão da distinção entre um
e outro.
Mas, não é pacífica a idéia
que filósofos e cientistas, desde tempos atrás até
hoje, conceberam e concebem.
"Alma, para os espiritualistas, é uma substância
imaterial, distinta do corpo e capaz de existir por si só; para
os materialistas, é uma simples função do organismo,
do qual faz parte integrante e sem o qual não pode subsistir"
(Noções de Psicologia, de lago Pimentel, Melhoramentos,
S. Paulo, 1953, p. 7).
Para os materialistas, a Alma é efeito; para
os espiritualistas, a Alma é causa.
Wilhelm Wundt, filósofo, psicólogo e fisiologista
alemão (1832-1920), não concorda com o conceito substancialista
da Alma. Ele propõe um conceito atualista: "a Alma é
a diversidade de acontecimentos enlaçados entre si" ("La
Psicologia Contemporânea" , de J. Vicente Viqueira, Barcelona,
Editorial Labor, S/A, 1937, 2a. ed., p. 34).
Para o fenomenismo a Alma é uma série
de fenômenos, como sejam emoções, idéias,
etc.
"O que se chama Alma", diz Littré (Maximiliano
Paulo Emílio Littré, filólogo e filósofo
francês, discípulo de Augusto Conte, 1801-1881) é,
na realidade, o conjunto das funções do cérebro
e da medula espinal. É o materialismo negando o substancialismo.
Como se vê, não é fácil,
para os não espíritas, definirem ou conceituarem a Alma.
É vasta a imaginação. A existência da Alma
para eles é, necessariamente, uma admissão, sem a qual
os fatos da vida psíquica se tornam inexplicáveis. Está
aqui, é óbvio, uma outra razão para que o Espiritismo,
desenvolvendo o seu estudo e a sua pesquisa, posicione o seu ponto de
vista acerca dos fenômenos psicológicos, sejam os chamados
orgânicos -extensos e quantitativos, ou psíquicos - inextensos
e qualitativos. E esse posicionamento demonstrará que esses fenômenos,
embora de naturezas aparentemente diversas e irredutíveis, provêm
de uma mesma "substância": a Alma ou Espírito
encarnado, considerado o corpo etéreo ou perispiritual de que
se reveste.
O Fenômeno Psíquico
O emaranhado vocabularismo da fenomenologia psíquica
e a complexidade da classificação de sua nomenclatura
constituem um sério problema.
No campo das pesquisas psicológicas são
enormes as divergências em torno das hipóteses formuladas.
Nunca se formulou uma hipótese satisfatória.
Os estudantes do Hipnotismo estão, como sempre
estiveram, desde os dias de Mesmer, divididos. A teoria das emanações
fluídicas de Mesmer, por ele chamada de "magnetismo animal"
é contraditada por uns e aceita por outros.
A teoria elétrica de Bove e Dods - pulmões
positivos e sangue negativo - teve seus adeptos (A Lei dos Fenômenos
Psíquicos, por Thonson Jay Hudson, traduzida por D. Santos, São
Paulo, Livraria Liberdade, 1926, p. 5).
A explicação fisiológica de Braid,
de certas classes de fenômenos, "satisfaz aqueles que acreditam
que no homem não existe coisa alguma que não possa ser
pesada na balança ou dissecada com o escalpelo".
A Escola de Salpetrière sustentou que o hipnotismo
era uma moléstia do sistema nervoso, e que seus fenômenos
era explicáveis pelos princípios fisiológicos.
A Escola de Nancy sustentou que a sugestão era
o fator ultra potente na produção de todos os fenômenos
hipnóticos.
Braid, a Escola de Salpetrière e a Escola de
Nancy, contrariando antigos hipnotistas, negam a possibilidade de se
produzirem "os altos fenômenos de hipnotismo, conhecidos
como clarividência, transmissão de pensamento ou leitura
mental' (ob. cit. p. 5).
No entanto, o Fenômeno Psíquico (do gr.
phainómenon, aparição; e psykhikós, alma),
considerando-o genérico, é qualquer manifestação
de ordem psíquica, ou fenômenos da Psique ou da Alma.
Assim, simplificando diremos que a fenomenologia psíquica
é dividida em FENÔMENOS NORMAIS e FENÔMENOS ANORMAIS.
A primeira classe, que são habituais, entra nos quadros da Psicologia
e muitas vezes nos da Psiquiatria. A segunda classe, de fenômenos
inabituais, toma diversos nomes, como "o de Investigação
Psíquica, Metapsíquica, Metapsicologia, Parapsíquica,
Sexto Sentido, Percepção Extrasensorial, Metagnomia, Paranormal,
ou Extra-normal e outros aplicáveis unicamente a determinados
ramos, como Telepatia, Psicometria, Clarividência, Psicografia,
etc." (Dicionário Esotérico, por Zaniah, Buenos Aires,
Editorial Kier, 1962, p. 103).
Parte II
A PSICOLOGIA
A Psicologia, ou, por primeiro, a Pneumatologia, segundo
Leibnitz (Nouveaux Essais, 1704, IV, cap. XXI), que se definia como
a parte da Filosofia que estuda a alma, tinha por objeto, desde os tempos
da civilização grega até o século passado,
a existência da alma, sua essência e natureza, e, posteriormente,
o estudo da percepção, da memória, das paixões,
etc.
Sob a influência de outras ciências, como
a Física, a Biologia, e outras, os psicólogos passaram
a estudar os fenômenos da consciência, deixando de se preocupar
com a Alma, que, "não tendo existência física,
não podia ser estudada em termos científicos" (Psicologia
Geral, de Afro do Amaral Fontoura, Rio de Janeiro, Gr. Aurora, 1966,
12a. ed. p. 25).
Mas não parou aí o objetivo da Psicologia.
Ele evoluiu do Estudo da Alma para o Estudo da Consciência, como
acima nos referimos, e do Estudo da Consciência para o Estudo
do Comportamento e deste para o Estudo da Conduta, considerando-se neste
o conjunto de fenômenos mentais como causa da conduta.
Daí, muitos definirem, hoje, a Psicologia como
a ciência que estuda a conduta.
É enorme o número de definições,
e a idéia da Alma difere, de um psicólogo para outro,
dada a divergência entre eles, quanto à natureza da Alma.
Harald HOFFDING, filósofo dinamarquês,
nascido em Copenhague, em 1863, na sua obra PSYCHOLOGIE (ed. 1900, p.
1), diz que a Psicologia não está obrigada a explicar
o que é a Alma, porque a Física não está
obrigada a começar explicando o que é a matéria.
Os filósofos do passado objetivaram no estudo
da Psicologia os fatos internos do homem.
Sócrates considerava que é preciso que
nós nos conheçamos a nós mesmos para chegarmos
à sabedoria, que se identifica com o conhecimento de Deus. Ele
distinguia, partindo desse princípio, o mundo interno do mundo
externo.
Aristóteles no seu tratado sobre a Alma, no qual
divide a Filosofia em quatro partes: Lógica, Ética, Física
e Metafísica, não incluiu a Psicologia porque, para ele,
esta fazia parte de todas as disciplinas filosóficas. Por sua
vez, Renato DESCARTES, filósofo e matemático francês
(1596-1650), entendia que a Psicologia era uma parte distinta da Filosofia.
Hobbes (Thomaz), filósofo inglês (1588?1679),
partidário do materialismo, e Baruch Espinosa, filósofo
holandês (1830-1677), apoiam-se no princípio da concomitância
dos processos orgânicos e psíquicos. E, dessa forma, é
invocada a lei de associação para reduzir a complexidade
da vida espiritual aos seus elementos componentes. O associanismo, como
doutrina psicológica, explica, então, os fenômenos
psíquicos por meio da associação, rejeitando a
doutrina da faculdade.
Os positivistas do século XIV, por sua vez, consideram
a Psicologia como uma ciência experimental, independente da Filosofia
e sem relações especiais com a Metafísica, a Lógica
e a Moral.
Não se pode negar que a Psicologia Experimental,
como ciência autônoma, é uma conquista dos tempos
modernos, dado o impulso que a Psicofísica ou Psicofisiologia,
a Psicocronometria e outras lhe trouxeram.
Como decorrência das muitas maneiras pelas quais
os fenômenos psíquicos têm sido estudados, surgiram
muitas outras disciplinas psicológicas, dando maior amplitude
ao problema psicológico.
Apenas para referir citamos a Psicodinâmica, que
estuda os efeitos dinâmicos dos fenômenos psíquicos;
a Psicofísica, que, segundo Fechner, é o ramo da Psicologia
que estuda, experimentalmente, as relações entre os fenômenos
psíquicos e os fenômenos fisiológicos (o que hoje
é denominado de Psicologia Experimental), a Psicogênese,
que estuda a origem e o desenvolvimento da psique (termo usado como
sinônimo de Alma ou Espírito) no indivíduo ou na
espécie (esta dita Psicogênese Filética); a Psicografia,
que, conforme Ampère, é a parte da Psicologia que descreve
os fenômenos da consciência, sem explicá-los. E,
assim, seguem-se outros ramos, como a Psicologia Coletiva ou Social;
Psicologia Comparada; Psicologia Etnográfica; Psicologia Pedagógica;
Psicologia Segmental: Psicologia Zoológica; Psicometria; Psicocronometria;
Psicoestática; Psicopatologia; Psicoanálise (doutrina
de Freud, aceita especialmente pelos nevrologistas) e mais outros.
Resumindo, a Psicologia estuda a Alma em suas manifestações
ou fenômenos e em sua natureza essencial. Assim, no primeiro caso,
temos a Psicologia Experimental e, no segundo, a Psicologia Racional.
Para os materialistas a Psicologia é um ramo das ciências
naturais e, para os espiritualistas, um ramo das ciências do Espírito.
É claro que compreendemos que esse volume de
correntes e escolas psicológicas são decorrentes das variadas
intensidades dos fachos luminosos que atingem este ou aquele filósofo
ou psicólogo.
Mas, compreendemos, também, que não alcançando
a Psicologia uma definição mais uniforme e uma conceituação
mais unitária, bem pouco ela pode nos dizer acerca da Alma, entendida
esta como Espírito reencarnado, e a respeito de suas manifestações
ou fenômenos e mesmo em sua natureza essencial, não considerando
as suas vidas anteriores e experiências pregressas, que repercutem
no seu avatar presente, e desconhecendo a existência do seu perispírito
ou corpo fluídico, de que é revestido, e que se faz "intermediário
de todas as sensações que o Espírito recebe, e
por meio do qual transmite a vontade externamente e atua sobre os órgãos"
("O Livro dos Médiuns", por Allan Kardec, Rio de Janeiro,
FEB, 1904, 5a. ed. p. 60) "e a que se não dá muita
atenção nos fenômenos fisiológicos e patológicos"
(ob. e p. cit.) e que constitui "uma causa incessante de ação"
(ob e p. cit.).
À Psicologia, se bem examinarmos, poderemos propor
que seja parte da Espiritologia. O que me parece não podemos
pensar é em uma Psicologia Espírita, por entendermos que
descabe o vocábulo espírita como adjetivação.
E bem considerando, também nos parece ser impossível fazermos
da Psicologia, tão segmentada e conflitante, uma verdadeira Espiritologia,
fundada numa doutrina, que é o Espiritismo, oriundo de um processo
sintético de conhecimento, com uma concepção nova
e de natureza global para o estudo dos problemas humanos, como bem se
refere o nosso nunca esquecido companheiro de tantas jornadas espíritas
Herculano Pires, "in" "Parapsicologia e suas perspectivas"
; obra de cuja primeira edição tivemos a honra de ser
"padrinho".
OS PROCESSOS CIENTÍFICOS OU DISCIPLINAS
CIENTÍFICAS QUE INVESTIGAM OS FENÔMENOS PARANORMAIS
Dissemos atrás que, simplificando, a fenomenologia
psíquica é divida em FENÔMENOS NORMAIS, os que entram
nos quadros da Psicologia e muitas vezes nos da Psiquiatria, e FENÔMENOS
ANORMAIS, os que são objetos da investigação por
inúmeros processos ou disciplinas científicas.
Esclareçamos agora que FENÔMENOS ANORMAIS
não quer dizer que sejam "aqueles que possam ser contrários
às leis naturais, mas aqueles que se nos apresentam de uma maneira
inusitada e inexplicável' (Dicionário Enciclopédico
Ilustrado. - Espiritismo, Metapsíquica e Parapsicologia, de João
Teixeira de Paula, Editora Bels, S.A. ?1976, 3a. ed. p. 166).
Digamos, também, que ANORMAL "é o
mesmo que Abnormal, Hiperfísico, Hipernormal, Hiperpsíqulco,
Metanormal, Metapsicofísico, Metapsicológico, Metapsíquico,
Parafísico, Paranormal, Parapsi-cológico, e seguem muitas
outras denominações.
No II Congresso Internacional de Pesquisas Psíquicas,
realizado em Varsóvia, Polônia, em 1923, em homenagem a
J. Ochorowicz, foi aprovado que a expressão CIÊNCIAS PSÍQUICAS
devia aplicar-se aos fenômenos que em França se conheciam
por METAPSÍQUICOS e na Alemanha por PARAPSICOFÍSICOS.
As ciências psíquicas avolumaram-se com
o surgimento da METAGNOMIA, METAPSICOLOGIA, PARAPSICOLOGIA, PSICOTRÔNICA,
BIOPSÍQUICA, PARAFÍSICA e outras.
Ora, como as ciências psíquicas se conceituaram
com base nos fundamentos, sustentados por Eugéne OSTY, médico
e investigador metapsíquico (1874-1938) e na decisão do
precitado Congresso, objetivando o conjunto dos fenômenos extranormais,
que são tributários do espírito humano, conquanto
pareça irem eles além das possibilidades fisiológicas
do cérebro, excluíram os fenômenos espiríticos.
E, dessa forma, os fenômenos espiríticos ficaram no espaço
(isto sem qualquer alusão ao fato de os fenômenos espíriticos
serem compreendidos no meio científico geral como fenômenos
das almas dos mortos e por isso mesmo não aceitos).
Mas o nosso saudoso João Teixeira de Paula estrilou
contra essa exclusão: "Aí repousa a nossa discordância,
porque, ao nos referirmos a Ciências Psíquicas, incluímos
nela não só o conceito de OSTY e o do Congresso, mas também
o dos fenômenos espiríticos" (ob. cit. p. 21).
O Dr. Hernani Guimarães Andrade, também
um querido amigo que muito admiramos, se fez também lamurioso:
"lamentavelmente, é tendência da Metapsíquica
negar a manifestação dos Espíritos, atribuindo
ao médium as faculdades necessárias e suficientes para
desencadear todos os fenômenos" ("A Teoria Corpuscular
do Espírito", por Hernani Guimarães Andrade, São
Paulo, 1958, 1a. ed.).
No entanto, nós, como os caríssimos confrades
que nos lêem, bem podem ter percebido, não partilhamos
dos lamentos, porque, também, não partilhamos da idéia
desses grandes e respeitáveis companheiros de que o Fenômeno
Espírita seja parte integrante do Fenômeno Psíquico.
Para nós, como nos referimos, o Fenômeno Espírita
é gênero e não espécie, ele é global
e não segmento, e é com base nesta posição
que entendemos que nós espíritas temos que articular a
Espiritologia, a ciência do Espírito.
Não podemos nos distender mais neste capítulo.
Assim, aqueles que quiserem conhecer a Metapsíquica de Charles
RICHET, a Metagnomia de Emile BOIRAC, a Metapsicologia, proposta com
restrições pelo Congresso Internacional de Pesquisas Psíquicas,
realizado em Varsóvia em 1923, a Metapneumática, de MIRVILLE,
a Parapsicologia de J. B. RHINE, a Psicobiofísica, a que tanto
se liga Hernani Guimarães ANDRADE, e outras, respeitosamente
sugiro que lancem mão das respectivas bibliografias.
A ESPIRITOLOGIA
O LIVRO DOS ESPÍRITOS todos
sabem que se compôs, definitivamente, com a sua reimpressão
em 1860. Ele contém quatro livros ou quatro partes:
· LIVRO PRIMEIRO
- As Causas Primárias
· LIVRO SEGUNDO
- O Mundo Espírita ou dos Espíritos
· LIVRO TERCEIRO
- As Leis Morais
· LIVRO QUARTO
- Esperanças E Consolações.
Pois bem, o LIVRO SEGUNDO contém, para nós,
a doutrina da ESPIRITOLOGIA ou melhor a ESPIRITOLOGIA RACIONAL OU TEÓRICA,
e, em O LIVRO DOS MÉDIUNS, que trata do Espiritismo Experimental,
nós encontramos as teorias de todos os gêneros de manifestações,
que podem embasar a ESPIRITOLOGIA EXPERIMENTAL.
Portanto, para nós, a Espiritologia é
a ciência do Espírito que tem por objeto o estudo do Fenômeno
Espírita. Ela se divide em Espiritologia Racional ou Teórica
e em Espiritologia Experimental ou Prática. A primeira se ocupa
do Espírito como ser ou individualidade. A segunda se desdobra
na investigação dos fenômenos espíritas anímicos
ou da emancipação da alma e dos fenômenos espíritas
da mediunidade ou mediúnicos.
A classificação dos fenômenos espiritológicos,
que abrangem os anímicos, os mediúnicos, os físicos
extra-somáticos, os físicos-somáticos, os mentais,
os personísticos e os telepáticos, a sua definição
e a sua conceituação, constituirão, sem dúvida,
um excelente programa de trabalho.
Como todas as demais ciências a Espiritologia
também se relaciona com outras ciências ou disciplinas
científicas, dentre as quais a Biologia, a Fisiologia, a Física,
a Química e outras como oportunamente veremos.
Quanto ao Perispírito, que tem cerca de 70 outras
denominações, entre elas as de Aerossoma, Corpo Fluídico,
Corpo ódico, Corpo Pneumático, Duplo Fluídico,
Ka, Psicossoma, e que presumem se desdobrar no corpo bioplásmico,
que alguns chamam de "modelo organizador biológico",
temos que aprofundar o seu estudo para avaliá-lo como "o
molde fundamental da existência para o homem" ("Roteiro”,
Francisco Cândido Xavier, FEB, Rio de Janeiro, Cap. VI, p. 29).
E quanto ao vocábulo ESPIRITOLOGIA, formado de
espírito mais logia, significa Ciência, tratado de Espiritismo
(Dicionário Enciclopédico Ilustrado - Espiritismo, Metapsíquica
e Parapsicologia, de João Teixeira de Paula, Editora Bels., 1976,
3a. ed. p. 85).
AZEVEDO SILVA, na sua obra FUNDAMENTOS CIENTÍFICOS
DO ESPIRITISMO, editada em 1941, publicou a tese que apresentou ao 1°
Congresso Brasileiro de Jornalista Espíritas, que funcionou de
15 a 24 de Novembro de 1939, no salão da Sociedade de Geografia
do Rio de Janeiro. Nesta sua tese, ele nos reservou valiosa contribuição
acerca da classificação das ciências. Nós
vamos, com a máxima vênia, reproduzi-Ia:
"Assim, estudando a natureza e relação
das ciências, dividiu-as Spencer (Classification des Sciences,
par Herbert Spencer, Paris, Ancienne Librairie Germer Baillière
et Cie., 1893, p. 6) em duas categorias: ciências que têm
por objeto as relações abstratas, pelas quais os fenõmenos
se apresentam, e ciências concretas, que têm por objeto
os próprios fenômenos":
Desse critério resultou esta classificação:
· CIÊNCIAS ABSTRATAS
- Lógica
- Matemática
· CIÊNCIAS ABSTRATO/CONCRETAS
- Mecânica
- Física Química
· CIÊNCIAS CONCRETAS
- Astronomia
- Psicologia
- Sociologia
Não nos parece lógica esta classificação
do notável pensador e filósofo inglês, pois Mecânica
não é ciência-tronco, é uma derivação
da Matemática; não deve, pois figurar na relação.
Psicologia e Sociologia, igualmente, não são duas, uma
é derivada da outra: Sociologia da Psicologia. Ciência-mater
seria, pois, esta última, de vez que não pode haver sociedade
sem que haja o comércio das almas.
Nesta classificação Spencer procurou retificar
a de Augusto Comte, que assim as desdobrou:
· MATEMÁTICA
· FÍSICA
· QUÍMICA
· ASTRONOMIA
· BIOLOGIA
· SOCIOLOGIA
· MORAL
Esta classificação carece, realmente,
de ser retificada, não só porque o Mestre do Positivismo
se esqueceu de sua própria ciência - a Lógica, como
porque a Sociologia e Moral, tal como Psicologia e Sociologia, diferenciadas
por Spencer, também não são duas, mas uma só
ciência, pois que a Sociologia descansa na Moral, como base do
Direito.
Publicado no Boletim GEAE
Número 456 de 27 de maio de 2003 – parte
I
e número 457 de 10 de junho de 2003 –
parte II
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