Há, no corpo da Doutrina, um lastro
de conceitos básicos, de caráter definitivo, e a substituição
destes conceitos seria a desfiguração radical da Doutrina”.
(Deolindo Amorim) (1)
Toda a orientação doutrinária e as verdades da
Doutrina Espírita estão sustentadas pelos seus princípios
básicos e quem os aceita, pode se dizer, vinculado a ela.
“O Espiritismo é uma doutrina espiritualista de características
próprias, e, como toda doutrina, tem princípios básicos,
claramente definidos, pelos quais se norteia e nos quais apóia
as verdades que proclama.” (1)
Neste sentido qualquer discordância,
que não os fira, não se torna uma heresia, pois que, não
temos dogmas e no dizer do eminente e saudoso
cirurgião Edmundo Vasconcelos, “A verdade não tem
rótulo, nem dono a quem prestar obediência e por ser luminosa
é ela eterna, onde quer que possa aparecer, e quem a possuir
no seu imo, deve proclamá-la e defendê-la, mesmo que se
levante contra ela, uma bíblia de verdades intocáveis.”
(2)
Mesmo Kardec referindo-se a possessão, declarava que não
havia possessos, sendo “possessão sinônima de subjugação”,(3)
para mais tarde, evoluindo de verdade em verdade, retificar este conceito,
presenteando-nos com sua sabedoria e sua humildade, ao afirmar: “temos
dito que não havia possessos, no sentido vulgar do vocábulo,
mas subjugados. Voltamos a esta asserção absoluta, porque
agora nos é demonstrado, que pode haver verdadeira possessão
(...)”.(4) (5) O não ficou separado do sim, por um período
de cinco anos.
Lição de modéstia nos dá também Emmanuel,
Espírito, ao declarar: “Quando eu me posicionar contra
Kardec, fiquem com Kardec”.
Assim, pode ser que, às vezes, ao estudarmos uma obra de determinado
autor, não concordemos com certo capítulo ou estudando
todas elas, com definido livro, por acharmos que não esteja de
acordo com a pureza doutrinária; isto não é motivo
para que eliminemos, sumariamente, toda a obra ou todas as obras do
referido autor; reservado, no entanto, é nosso direito, de não
a recomendarmos, sem, porém, deixar de respeitá-las.
O mesmo se dá para as citações bibliográficas;
o fato de mencionarmos determinado trecho, não implica em dizer
que concordemos com todo a obra ou todo o produto de um determinado
autor; significa apenas que o segmento citado nos empolga e porque não
somos plagiadores, o citamos.
Assim, avaliando uma opinião, uma prática ou uma obra,
para se saber se ela está em consonância com a Doutrina
Espírita, é preciso estudar para conhecer; conhecer para
discordar; discordar para confluir.
Apóia-se a Doutrina Espírita
nos pilares de seus princípios básicos que são:
Deus
“Inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas.”
(6)
Não um deus cruel, implacável e vingativo que deserda
seus filhos condenando-os a penas eternas, imobilizando-os no mal e
criando demônios para ajuda-lo nestas tarefas, mas sim um “Deus
eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente,
soberanamente justo e bom”. (7)
Os véus que nos impedem de vê-Lo não estão
perto dEle, mas bem próximos dos nossos olhos.
“Bem-aventurados os puros do coração porque verão
a Deus” (Jesus, Mateus 58)
Sobrevivência do Espírito
“(...) a existência dos Espíritos não tem
fim.” (8)
Deus nos criou Espíritos iguais, simples, ignorantes e imortais,
nos dotando de livre arbítrio para alcançarmos todos,
por nosso merecimento, a perfeição. Este é o paraíso
da felicidade, não como o homem o imagina, o que é uma
alegoria, mas onde se reunirão os Espíritos puros.
Acreditamos, pois, na vida depois da vida, na vida antes da vida e na
vida entre as vidas.
Nos dando uma certeza disso, Jesus assim se pronunciou:
“Em verdade vos digo que hoje estarás comigo no paraíso”.
(Lucas 23: 43)
Comunicação entre os
dois mundos-Mediunidade.
“Resta agora a questão de se o Espírito pode comunicar-se
com o homem, isto é, se pode com este trocar idéias. Por
que não? Que é um homem senão um Espírito
aprisionado num corpo? Por que não há de um Espírito
livre se comunicar com um Espírito cativo, como o homem livre
com o encarcerado?” (9)
Há um intercâmbio contínuo entre o mundo espiritual
e o físico, entre os Espíritos encarnados e desencarnados,
que se manifesta através da mediunidade. Todos os homens a possuem,
embora uns mais ostensivamente que outros e a estes últimos chamamos
médiuns.
Independente disso, no entanto, os Espíritos estão influindo
mediunicamente e constantemente nos nossos pensamentos e ações,
de acordo com a nossa sintonia e “muitas vezes são eles
que nos dirigem.” (10)
Jesus, “médium de Deus”,(11) nosso modelo, nossa
Estrela Guia, nos fez sentir os cintilos de sua mediunidade e nos exortou
a praticá-la, sem nada pedir em troca:
“Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos,
expeli os demônios; daí de graça o que de graça
recebestes”. (Mateus 10: 8)
Reencarnação-Pluralidade
das existências corpóreas.
“Depurando-se, a alma indubitavelmente experimenta uma transformação,
mas para isso necessária lhe é a prova da vida corporal”.
(12)
Para se adequar a um Deus infinitamente bom, justo e misericordioso,
nada pode espelhar melhor a Justiça Divina que a reencarnação.
No entanto, o processo de recorporificação não
é punitivo, mas educativo, quando, depurando-se os Espíritos,
por experiências lapidadoras sucessivas na carne, por condicionamento
a Lei de Ação e Reação, alcançarão,
todos, a felicidade, único objetivo para o qual nos criou nosso
Pai Amoroso, o Senhor da Vida.
Embora possa evoluir no período de intermissão, na espiritualidade,
as experiências na carne são indispensáveis para,
por provas e expiações, purificar-se o Espírito.
Como nos afiançou, Jesus:
“Ninguém pode ver o reino de Deus, se não nascer
de novo”. (João 3:1, 12)
Evolução-Pluralidade
dos mundos habitados.
“Nascer, morrer, renascer ainda, progredir sempre, tal é
a Lei”. (13)
Em toda Criação, nas leis imutáveis divinas, não
existe a inércia; podemos perceber sempre o movimento e a evolução,
tanto no micro, quanto no macro-cosmos.
Deus não seria pródigo a criar esta imensidão de
astros inutilmente. Afinal, só na nossa Via Láctea existem
100 bilhões de estrelas, e no Universo visível, mais de
um septilhão delas, trilhões de planetas, cada um com
suas características de habitabilidade, conforme a evolução
dos Espíritos, que variam ao infinito e evoluindo sempre, eles
jamais serão contemplativos ou preguiçosos.
Como nos asseverou Jesus:
“Há muitas moradas na Casa do Pai”. (João
14:1-3)
Referindo-se ao sistema da alma material, em que o perispírito
seria a própria alma, não havendo distinção
entre ambas e que assim constituída, iria se depurando gradualmente
por meio de transmigrações diversas, Kardec assim se pronunciou:
“Este sistema não infirma qualquer dos princípios
fundamentais da Doutrina Espírita, pois que nada altera em relação
ao destino da alma; as condições de sua felicidade futura
são as mesmas, formando a alma e o perispírito um todo,
sob a denominação de Espírito. (...) a questão
se reduz a tornar homogêneo o todo, em vez de considerá-lo
formado de duas partes distintas”. (14)
Prossegue ainda o mestre lionês, analisando o comportamento e
a inclinação dos discordantes:
“Semelhante opinião, restrita, aliás, mesmo que
se achasse mais generalizada, não constituiria uma cisão
entre os espíritas. Os que se decidissem formar, grupo à
parte, por uma questão assim pueril, provariam, só com
isso, que ligam mais importância ao acessório que ao principal
e que se acham compelidos à desunião por Espíritos
que não podem ser bons, visto que os bons Espíritos jamais
insuflam a acrimônia, nem a cizânia”.
Embora aceitando aquela opinião, Kardec mostra que não
a recomendava, completando, mais adiante, seu pensamento:
“Julgamo-nos, entretanto, na obrigação de dizer
algumas palavras a cerca dos fundamentos em que repousa a opinião
dos que consideram distintos alma e o perispírito. Ela se baseia
no ensino dos Espíritos, que nunca divergiam a este respeito(...)”.
Assim, procuremos pelo menos, repetir
Kardec, seguindo suas instruções.
Ele nos ensina que, cabe a nós espíritas frente a uma
opinião divergente, que não fira os princípios
fundamentais da Doutrina, não só aceitá-la, mas
respeitá-la e acolhê-la, sem nos furtarmos da obrigação
de esclarecer, para almejar confluir. Nos adverte ainda ele que, assim
procedendo, estaremos nos libertando da ação maléfica
de maus Espíritos que insuflam o amargor, a discórdia
e os nossos comportamentos pueris.
Agindo ainda assim, estaremos por certo colaborando com a nossa fidelidade
e com eficiência, para o estabelecimento da pureza doutrinária,
como também, para a alvura dos doutrinadores.
(Artigo publicado no "Reformador",
abril/2004)
BIBLIOGRAFIA
(1) BARBOSA, Pedro Franco. Espiritismo
Básico. 3ª ed., RJ, FEB, 1987, pg. 129.
(2) MOREIRA, Fernando Augusto. Ante o Evangelho, O CLARIM , SP, março/
2000, pg. 5.
(3) KARDEC, Allan. Revista Espírita, 1858, ed. Edicel, pg 278.
(4) KARDEC, Allan. Revista Espírita, 1863, ed. Edicel, pg.373.
(5) MOREIRA, Fernando Augusto. A Possessão segundo Kardec. Revista
Internacional de Espiritismo, SP, setembro/2001.
(6) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 68ª ed. ,RJ, FEB,
1987 perg. 1, pg.51.
(7) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 68ª ed. ,RJ, FEB,
1987, perg. 13, pg. 54
(8) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 68ª ed. ,RJ, FEB,
1987, perg. 83, pg. 82.
(9) KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, 46ª ed. RJ, FEB,
1982, cap. I, item 5, pg.21.
(10) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 68ª ed. ,RJ,
FEB, 1987, perg 459, pg. 246.
(11) KARDEC, Allan. A Gênese. 22ª ed.,RJ, FEB, 1980, Cap.
XV, item2, pg. 311.
(12) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 68ª ed. ,RJ,
FEB, 1987, perg. 166, pg. 171.
(13) Frase esculpida no frontispício do dólmen de Allan
Kardec, no Cemitério de Père–Lachaise, França.
(14) KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, 46ª ed., RJ, FEB,
1982, cap. IV, item 50, pg. 65-66.
topo