Uma das grandes polêmicas no meio espiritualista, durante o século
XX, e que prossegue até hoje, é se a Umbanda é
uma prática religiosa espírita ou não.
A Umbanda surgiu com o médium Zélio de Moraes, no início
do século passado, após incorporar o caboclo que se denominou
sete encruzilhadas. Atualmente, não há ainda uma uniformização
ou uma padronização no seio umbandístico brasileiro.
Há agrupamentos que sincretizaram a Umbanda com os cultos afro-brasileiros
aqui já existentes; há aqueles mais próximos do
kardecismo, sem rituais, congas etc., há os que buscam na Índia
a origem da Umbanda, entre tantas outras modalidades de trabalho mediúnico
chamado de “Umbanda”. Em suma, cada casa umbandista possui
sua “metodologia”.
Mas o que pretendo ressaltar neste pequeno
artigo é como a Federação Espírita Brasileira
se relacionou com a Umbanda no último século.
O primeiro pronunciamento oficial parece ter sido feito na década
de 1920, mais especificamente em 1926. Tal pronunciamento não
foi direcionado à Umbanda em si, mas aos espíritos que
se manifestavam como “índios” e “pretos-velhos”.
Segundo a Federação, esses espíritos não
se pautavam pela doutrina de Allan Kardec. Porém, em 1953, A
FEB publica na revista Reformador um parecer bem significativo sobre
o espiritismo e a umbanda, em minha opinião, bem representativo
do que Kardec pensaria se estivesse encarnado:
“todo aquele que crê nas manifestações
dos espíritos é espírita; ora, o umbandista nelas
crê, logo o umbandista é espírita”. E adiante:
“os que aceitam o fenômeno espírita como manifestação
de ‘satanás’, ou como ocasionado somente por forças
desconhecidas, esses não são espíritas; mas aqueles
que o têm como produzido por espíritos, esses devem ser
considerados como adeptos do espiritismo, isto é, espiritistas,
admitam ou não a reencarnação e pratiquem ou não
rituais que nós não adotamos”. (revista Reformador,
julho de 1953).
Curiosamente, em 1978, quando a abertura política
dava seus primeiros passos no Brasil, na contra-mão da história
a FEB revoga sua opinião anterior, altamente universalista e
ecumênica, para publicar o seguinte:
“é imprópria, ilegítima
e abusiva a designação de espíritas adotadas por
pessoas, tendas, núcleos, terreiros, centros, grupos, associações
e outras entidades que, mesmo quando legalmente autorizados a usar o
título, não praticam a doutrina espírita, tal como
foi clara e formalmente definida no editorial de Reformador de setembro
de 1977.”
Porém, lendo o editorial acima, o que se encontra
é a afirmação de que os princípios básicos
da doutrina espírita estão contidos nas obras fundamentais
de Kardec e que, todas as demais obras são complementares.
Apesar disso, será que se encontra nas obras
fundamentais argumentos para se dizer que a Umbanda não é
uma manifestação espírita? Vejamos o que os textos
kardequianos, nos quais os princípios básicos da doutrina
estão contidos, afirmam:
O Espiritismo é, pois,
a doutrina fundada sobre a existência, as manifestações
e o ensinamento dos Espíritos. (O que é Espiritismo, p.186)
Kardec não está afirmando que índios ou ex-escravos
não tenham nada para ensinar ou que não se pautam em sua
doutrina, aliás, a doutrina é dos espíritos. Além
disso, não afirma que eles não podem se manifestar em
trabalhos mediúnicos. Mas Kardec vai ainda mais longe:
Ela (a ciência espírita) exige um estudo
assíduo e, freqüentemente, longo demais; não podendo
provocar os fatos, é preciso esperar que eles se apresentem e,
no geral, eles são conduzidos por circunstâncias das quais
nem ao mesmo se sonha. Para o observador atento e paciente, os fatos
se produzem em quantidade, porque ele descobre milhares de nuanças
características que são, para ele, rasgos de luz. Assim
o é nas ciências vulgares; enquanto que o homem superficial
não vê numa flor senão uma forma elegante, o sábio
nela descobre tesouros pelo pensamento. (...) Portanto, não nos
enganemos, o estudo do Espiritismo é imenso, toca em todas as
questões da metafísica e da ordem social, e é todo
um mundo que se abre diante e nós (Livro dos Espíritos,
p. 32 e 33).
Parece evidente que o espiritismo para Kardec é
uma ciência. Obviamente, e isso Kardec também afirma, deriva
em uma filosofia de cunho moral e não em uma religião.
Em suma, o espiritismo é uma ciência para estudar os “fatos
espíritas”, ou seja, aqueles causados pela manifestação
dos espíritos.
Kardec não define quais os fatos que podem e
os que não podem ser estudados; os que são “doutrinários”
e os que não são “doutrinários”. E
continua em outra obra:
Os Espíritos não estão encarregados
de nos trazerem a ciência pronta. Seria, com efeito, muito cômodo
se nos bastasse perguntar para sermos esclarecidos, poupando-nos assim
o trabalho de pesquisa. (...) Os espíritos não vêm
nos livrar dessa necessidade: eles são o que são e o Espiritismo
tem por objeto estudá-los, a fim de saber, por analogia, o que
seremos um dia e não de nos fazer conhecer o que nos deve estar
oculto, ou nos revelar as coisas antes do tempo (O Evangelho segundo
..., p. 68).
Um leitor atento da obra de Kardec pode argumentar
que a Umbanda, como manifestação de espíritos,
pode muito bem ser objeto de estudo do espiritismo, da ciência
espírita. Em outras palavras, como ciência, o espiritismo
pode estudar como as entidades se manifestam, o motivo para optarem
pela forma de índios, pretos-velhos ou crianças, como
se processam as curas espirituais etc. E isso fica ainda mais claro
na passagem abaixo:
O Espiritismo está fundado sobre a existência
de um mundo invisível, formado de seres incorpóreos que
povoam o espaço, e que não são outros senão
as almas daqueles que viveram sobre a Terra, ou em outros globos, onde
deixaram seu invólucro material. São a esses seres que
damos o nome de Espíritos. Eles nos rodeiam permanentemente,
exercendo sobre os homens, com o seu desconhecimento, uma grande influência;
eles desempenham um papel muito ativo no mundo moral, e, até
um certo ponto, no mundo físico. O Espiritismo, pois, está
na Natureza e pode-se dizer que, em uma certa ordem de idéias,
é uma potência, como a eletricidade o é em outro
ponto de vista, como a gravitação o é em outro.
Os fenômenos, dos quais o mundo invisível é a fonte,
são efeitos produzidos em todos os tempos; eis porque a história
de todos os povos deles faz menção. Somente que, em sua
ignorância, como para a eletricidade, os homens atribuíram
esses fenômenos a causas mais ou menos racionais, e deram a esse
respeito livre curso à imaginação.
O Espiritismo, melhor observado depois que se vulgarizou,
veio lançar luz sobre uma multidão de questões
até aqui insolúveis ou mal compreendidas. Seu verdadeiro
caráter, pois, é o de uma ciência, e não
de uma religião; e a prova disso é que conta entre seus
adeptos homens de todas as crenças, que não renunciaram
por isso às suas convicções: católicos fervorosos
que não praticam menos todos os deveres de seus cultos, quando
não são repelidos pela igreja, protestantes de todas as
seitas, israelitas, muçulmanos, e até budistas e brâmanes.
Ele repousa, pois, sobre princípios independentes de toda questão
dogmática. (o que é espiritismo, p. 89)
E no mesmo livro, mais adiante, kardec afirma:
... Uma vez que, por toda parte que haja homens,
há almas ou Espíritos, que as manifestações
são de todos os tempos, e que o relato se encontra em todas as
religiões, sem exceções. Pode-se, pois, ser católico,
grego ou romano, protestante, judeu ou muçulmano, e crer nas
manifestações dos Espíritos, e por conseqüência,
ser Espírita; a prova é que o Espiritismo tem adeptos
em todas as seitas. (O que é Espiritismo, p. 189).
É claro que Kardec não poderia ter incluído
a Umbanda, pois está surgiu no Brasil apenas no século
XX. Mas pelo contexto da frase acima, não resta dúvida
de que o adepto da religião chamada Umbanda também é
espírita. Aliás, muito mais espírita do que o católico,
o protestante e o muçulmano citado por Kardec, uma vez que, para
se ser umbandista, é necessário crer nas manifestações
dos espíritos.
Outras passagens das obras fundamentais poderiam
ser pinceladas para mostrar que a Federação, em 1953,
esteve mais perto de defender os ideais kardequianos, nos quais, não
resta dúvida, a Umbanda faz parte da fenomenologia espírita
surgida no século XX e que merece ser estudada com muito respeito
pelos que apreciam o pensamento de Kardec e pensam o espiritismo como
uma ciência experimental que deriva em uma filosofia de cunho
moral, mas que não é religião.
Adilson Marques. É sócio-presidente
da ONG Círculo de São Francisco, na cidade de São
Carlos e autor, entre outros, dos livros Educação após
a morte: princípios de animagogia com seres incorpóreos;
o reiki segundo o espiritismo e Nas trilhas indeléveis de Hermes:
memória, topofilia e ação cultural.
http://www.apologiaespirita.org
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