Espiritualidade e Sociedade



Eliseu Mota Júnior

>   Seis Gigantes da Alma

Artigos, teses e publicações

Compartilhar

Eliseu Mota Júnior
>   Seis Gigantes da Alma

O eminente professor de psicologia e psiquiatria Emilio Mira Y López afirmou que o medo, a ira, o amor e o dever são os quatro gigantes da alma, estudando cada um deles com rigor científico impressionante, valendo-se de sólidos estudos psicológicos, psicanalíticos e psiquiátricos para embasar e construir o seu admirável livro sobre o assunto, modificando inclusive diversos dogmas freudianos até então vigentes, além de municiar o leitor com vários segredos de sua estratégia bélica, descrevendo algumas de suas batalhas mais freqüentes.[1]

 

Lamenta-se apenas que tanto Freud quanto Mira Y López, embora escrevendo suas obras após o advento do Espiritismo, não se dignaram a examiná-lo com a devida atenção, porque então saberiam que existem mais dois gigantes, o egoísmo e o orgulho. Desse modo, em vez de quatro, na verdade temos seis gigantes da alma: o medo, a ira, o amor, o dever, o egoísmo e o orgulho.

 

Mas tal lacuna não desmerece de todo a obra de Mira Y López. Com efeito, dela podemos tirar enorme proveito, sobretudo porque ele também admite que a máxima conhece-te a ti mesmo, gravada no frontispício do oráculo de Delfos e recomendada por Sócrates, é uma poderosa arma para enfrentar todos aqueles gigantes do Espírito.

 

Também é dele a seguinte advertência: “Dois grandes obstáculos, entretanto, dificultam este autoconhecimento, que Sócrates já reclamava como princípio de toda atuação: o primeiro deles consiste na própria proximidade, que dificulta enormemente todo intento introspectivo (do mesmo modo que quanto mais aproximamos um objeto de nossa vista pior o vemos); o segundo deriva das modificações constantes de nosso tonus vital — refletidas em nosso humor e em nossa autoconfiança — que nos levam a tingir sempre o autojuízo estimativo, dando-lhe uma exagerada coloração rósea ou um injustificado tom de obscuro pessimismo. De fato, o homem, depois de considerar-se o ‘Rei da Criação’, passa, quase que sem meio-termo, a julgar-se ‘simples barro’; umas vezes se considera como espírito ‘próximo de Deus’ e outras como ‘máquina de reflexos.”[2] Dessa forma, prosseguindo com a nossa meta de pesquisar assuntos de interesse geral nas obras de Allan Kardec, encontramos em Obras Póstumas[3] e na Revista Espírita[4] farto material sobre orgulho e egoísmo - suas causas, seus efeitos e os meios de destruí-los. Vejamos a seguir algumas considerações que dali extraímos, usando o método de perguntas e respostas:

 

P. Qual a causa  do orgulho? De onde se origina o egoísmo?

R. “A causa do orgulho está na crença, em que o homem se firma, da sua superioridade individual. Ainda aí se faz sentir a influência da concentração dos pensamentos sobre a vida corpórea. Naquele que nada vê adiante de si, atrás de si, nem acima de si, o sentimento da personalidade sobrepuja e o orgulho fica sem contrapeso.

 “O egoísmo, por sua vez, se origina do orgulho. A exaltação da personalidade leva o homem a considerar-se acima dos outros. Julgando-se com direitos superiores, melindra-se com o que quer que, a seu ver, constitua ofensa a seus direitos. A importância que, por orgulho, atribui à sua pessoa, naturalmente o torna egoísta.”

 

P. E de onde nascem esses escolhos?

R. “O egoísmo e o orgulho nascem de um sentimento natural: o instinto de conservação. Todos os instintos têm sua razão de ser e sua utilidade, porquanto Deus nada pode ter feito de inútil. Ele não criou o mal; o homem é quem o produz, abusando dos dons de Deus, em virtude do seu livre-arbítrio. Contido em justos limites, aquele sentimento é bom em si mesmo. A exageração é que o torna mau e pernicioso. O mesmo acontece com todas as paixões que o homem freqüentemente desvia do seu objetivo providencial. Ele não foi criado egoísta, nem orgulhoso por Deus, que o criou simples e ignorante; o homem é que se fez egoísta e orgulhoso, exagerando o instinto que Deus lhe outorgou para sua conservação.”

 

P. O orgulho pode atrapalhar um médium?

R. “Muitas vezes o orgulho se desenvolve no médium à medida que cresce a sua faculdade. Esta lhe dá importância. Procuram-no e ele acaba por sentir-se indispensável. Daí, muitas vezes, um tom de jactância e de pretensão ou uns ares de suficiência e de desdém, incompatíveis com a influência de um bom Espírito. Aquele que cai em tal engano está perdido, porque Deus lhe deu sua faculdade para o bem e não para satisfazer sua vaidade ou transformá-la em escada para a sua ambição. Esquece que esse poder, de que se orgulha, pode ser retirado e que, muitas vezes, só lhe foi dado como prova, assim como a fortuna para certas pessoas. Se dele abusa, os bons Espíritos pouco a pouco o abandonam e o médium se torna um joguete de Espíritos levianos, que o embalam com suas ilusões, satisfeitos por terem vencido aquele que se julgava forte. Foi assim que vimos o aniquilamento e a perda das mais preciosas faculdades que, sem isso, se teriam tornado os mais poderosos e os mais úteis auxiliares.”

 

P. Quais são as principais conseqüências sociais do orgulho e do egoísmo?

R. “Eles serão sempre os vermes roedores de todas as instituições progressistas; enquanto dominarem, ruirão aos seus golpes os mais generosos sistemas sociais, os mais sabiamente combinados. É belo, sem dúvida, proclamar-se o reinado da fraternidade, mas, para que fazê-lo se uma causa destrutiva existe? É edificar em terreno movediço; o mesmo fora decretar a saúde numa região malsã. Em tal região, para que os homens passem bem, não bastará se mandem médicos, pois que estes morrerão como os outros; insta destruir as causas da insalubridade. Para que os homens vivam na Terra como irmãos, não basta se lhes dêem lições de moral; importa destruir as causas de antagonismo, atacar a raiz do mal: o orgulho e o egoísmo.

 

P. O Espiritismo pode possibilitar a destruição desses males?

R. “O Espiritismo é, sem contradita, o mais poderoso elemento de moralização, porque mina pela base o egoísmo e o orgulho, facultando um ponto de apoio à moral. Há feito milagres de conversão; é certo que ainda são curas individuais e não raro parciais. O que, porém, ele há produzido com relação a indivíduos constitui penhor do que produzirá um dia sobre as massas. Não lhe é possível arrancar de um só golpe as ervas daninhas. Ele dá a fé e a fé é a boa semente, mas mister se faz que ela tenha tempo de germinar e de frutificar, razão por que nem todos os espíritas já são perfeitos.

 

P. Por que o Espiritismo ainda não logrou fazer perfeitos todos os espíritas?

R. “Ele tomou o homem em meio da vida, no fogo das paixões, em plena força dos preconceitos e se, em tais circunstâncias, operou prodígios, que não será quando o tomar ao nascer, ainda virgem de todas as impressões malsãs; quando a criatura sugar com o leite a caridade e tiver a fraternidade a embalá-lo; quando, enfim, toda uma geração for educada e alimentada com idéias que a razão, desenvolvendo-se, fortalecerá, em vez de falsear? Sob o domínio destas idéias, a cimentarem a fé comum a todos, não mais esbarrando o progresso no egoísmo e no orgulho, as instituições se reformarão por si mesmas e a Humanidade avançará rapidamente para os destinos que lhe estão prometidos na Terra, aguardando os do céu.”

 

P. E como Espiritismo poderá auxiliar os pais na educação moral dos filhos?

R. “Por um novo ponto de vista, do qual faz observar a missão e a responsabilidade dos pais; fazendo conhecer a fonte das qualidades inatas, boas ou más; mostrando a ação que se pode exercer sobre os Espíritos, encarnados e desencarnados; dando a fé inquebrantável, que sanciona os deveres; enfim, moralizando os próprios pais. Ele já prova sua eficácia pela maneira mais racional por que são educadas as crianças nas famílias verdadeiramente espíritas. Os novos horizontes que abre o Espiritismo fazem ver as coisas de outra maneira; sendo o seu objetivo o progresso moral da Humanidade, forçosamente deverá iluminar o grave problema da educação moral, primeira fonte da moralização das massas. Um dia compreender-se-á que este ramo da educação tem seus princípios, suas regras, como a educação intelectual, numa palavra, que é uma verdadeira ciência; talvez um dia, também, será imposta a toda mãe de família a obrigação de possuir esses conhecimentos, como se impõe ao advogado a de conhecer o Direito.”

 

 

Coluna originalmente publicada na Revista Internacional do Espiritismo em Março de 1998



[1] MIRA Y LÓPEZ, Emilio. Quatro gigantes da alma: trad., ver. e pref. Por Cláudio de Araújo Lima.- 16ª ed., Rio, José Olympio, 1994, 224 p.

[2] Idem, pp. 2/3.

[3] KARDEC, Allan. Obras póstumas: trad. Guillon Ribeiro, 22ª ed., Rio, FEB, p. 225-232.

[4] KARDEC, Allan. Revista Espírita: trad. Júlio Abreu Filho, Sobradinho, EDICEL, 1859, p. 36-37,

 

 


topo

 

Acessem os Artigos, teses e publicações: ordem pelo sobrenome dos autores :
- A - B - C - D - E - F - G - H - I - J - K - L - M - N - O
- P - Q - R - S - T - U - V - W - X - Y - Z - Allan Kardec
* lembrete - obras psicografadas entram pelo nome do autor espiritual