Nesta entrevista concedida
ao PENSE, o advogado e jornalista Milton Rubens Medran Moreira, 70 anos,
abre seu coração e sua mente para abordar temas atuais
e complexos como a questão da ética e utopia espíritas,
do espiritismo pós-cristão, do casamento homossexual,
da contribuição da doutrina espírita à juventude
e à Terceira Idade, dentre outras questões. De formação
católica, Medran tomou contato com o espiritismo na maturidade
e identificou nesta filosofia espiritualista a resposta para suas inquietações
filosóficas e questionamentos, desde o tempo do internato em
seminário capuchinho. Antes de frequentar algum centro espírita,
já havia lido toda a obra kardequiana e, convicto dos ideais
espíritas, passou a atuar no movimento espírita gaúcho,
onde teve destacada participação no final da década
de 1980. Foi o primeiro espírita brasileiro a presidir a Confederação
Espírita Pan-Americana, por oito anos, de 2000 a 2008. Articulista,
orador, autor de vários livros espíritas, Medran é
membro atuante do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre e
mantém uma coluna semanal no jornal Diário Gaúcho,
onde aborda temas atuais sob a ótica espírita.
Pense (P) - Quando
e onde nasceu? Tem filhos, netos? Torce para o Inter ou para o Grêmio?
Milton Medran (MM) - Sou natural de Dom
Pedrito-RS, uma pequena cidade situada na fronteira com o Uruguai, onde
nasci em 11 de janeiro de 1941. Casado, já há 48 anos,
com Sílvia, geramos uma filha, Lucianne. Mas, temos, de fato,
duas: A outra é a Bianca, nossa neta, que nos oportunizou essa
segunda e gratificante “paternidade”, experienciada em uma
outra época, com padrões e desafios bem diferentes da
primeira. O mundo está mudando rapidamente. De uma geração
à outra tudo se transforma. Quem chega aos 70 anos, como acabo
de chegar, passa a ser testemunha privilegiada de um mundo em fantástico
processo de transformação.
Da mesma forma que minhas filhas, e diferentemente da
Sílvia, que é gremista, torço pelo Sport Clube
Internacional, “glória do desporto nacional”, como
canta seu hino, composto, aliás, por um antigo companheiro meu
de rádio, o Nelson Silva.
P - Desde quando você é
espírita? Faça um breve resumo de sua trajetória
no movimento espírita.
MM - Minha trajetória espírita?
Ela é bastante curiosa, pois nasci em uma família muito
católica e, eu próprio, guardava, penso eu, uma forte
impregnação católica, vinda de encarnações
passadas. Tanto assim que, na tenra infância, fui fortemente atraído
pela vontade de ser padre. Não apenas padre, mas frade, da ordem
dos capuchinhos, que sequer existiam em minha cidade. Com nove anos
de idade, depois de muita insistência junto a meus pais, terminei
me internando em um seminário capuchinho, em região bem
distante da minha e de cultura totalmente diferente daquela de minha
família. O seminário situava-se em uma região de
colonização italiana. Assim, de repente, passei a conviver
com meninos que, na época, mal sabiam falar português.
Eram filhos de colonos, agricultores de baixíssima ou nenhuma
escolaridade e que, em casa, só se comunicavam no dialeto vêneto.
Eu, de ascendência luso/espanhola, urbano e de tez morena, me
via num mundo absolutamente estranho e que, não raras vezes,
me era até hostil.
Ali fiquei até meus 15 anos, quando os questionamentos
e os impulsos da adolescência terminaram me impondo a saída
para buscar novas formas de ver e sentir a vida. Mergulhei, então,
num profundo estado de negação, de dúvidas e de
interrogações conflituosas que fui administrando na medida
em que amadurecia. Fui, em busca de minha formação, para
a Capital do Estado, aos 18 anos de idade. Trabalhava no rádio
e, já maduro e casado, consegui cursar Direito, numa faculdade
pública, única que poderia frequentar, em razão
de minha carência de recursos. Ao me bacharelar, em 1973, comecei
a advogar.
Certo dia, em meu escritório, recebi uma cliente
que mudaria a minha história. Ela queria uma consulta jurídica,
mas durante a conversa, disse-me que colaborava num centro espírita
situado naquela mesma rua (a Sociedade Espírita Allan Kardec,
na rua Andrade Neves, em Porto Alegre). Eu pouco ou nada sabia de espiritismo
e, por isso mesmo, comecei a questioná-la sobre o assunto. Essa
senhora, cujo nome era Clementina Benso, no outro dia voltou ao meu
escritório levando-me um livro. Aí, um detalhe muito curioso:
o livro que ela me levou, com uma dedicatória já escrita,
era “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, mas, o que ela
pensava estar me dando era o “O Céu e o Inferno”,
pois, na dedicatória, se referia expressamente a esta obra de
Allan Kardec, que seria, segundo ela, a mais adequada à minha
leitura, já que tratava da justiça divina segundo o espiritismo.
Até hoje tenho comigo esse exemplar, cuja dedicatória
data de 12 de maio de 1974.
O engano de dona Clementina foi providencial e, quiçá,
engendrado por amigos espirituais. Como ex-católico e ex-seminarista,
eu, naturalmente, tinha um bom conhecimento dos evangelhos. Mas, percebi
que as abordagens de Kardec em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”
traziam interpretações inteiramente novas para mim. Interessei-me
pelo livro e, a partir daí, mergulhei fundo em toda a obra de
Allan Kardec.
Nesse meio tempo, prestei concurso para o Ministério
Público, assumi como Promotor de Justiça (dezembro de
1975) e passei a trabalhar em cidades do interior gaúcho. Ao
lado de minhas leituras jurídicas, passei a dedicar tempo para
melhor conhecer a obra de Allan Kardec. Li todos os seus livros. Curiosamente,
quando entrei pela primeira vez em um centro espírita, eu já
conhecia toda a obra kardequiana. Minha primeira experiência concreta
num centro espírita aconteceu na cidade de Bagé, onde
fui promotor de 1978 a 1982. Lá, eu tinha um companheiro de loja
maçônica que era espírita, dirigente da Cruzada
dos Militares Espíritas. Percebendo meu interesse intelectual
pelo espiritismo, ele me convidou a fazer uma palestra no núcleo
espírita por ele dirigido. Essa foi minha primeira palestra espírita,
versava sobre “Justiça Divina e Justiça Humana”,
tema mais que óbvio para alguém das lides jurídicas
que se interessava por espiritismo. Logo, ele me convidou para frequentar
o centro espírita dele e dirigir um grupo de estudos. Eu, que
não tinha vivência alguma em centro espírita, entrei
lá como dirigente de grupo de estudos.
Naquele justo momento, a Federação Espírita
do Rio Grande do Sul (Fergs), onde já estavam Maurice Herbert
Jones e Salomão Jacob Benchaya, implementava sua histórica
Campanha de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, que marcaria
época no cenário do espiritismo brasileiro. Foi assim
que comecei minha atividade espírita, ligando-me a um projeto
concebido e executado por aquelas figuras que eu sequer conhecia, mas
que, em seguida, seriam meus companheiros na Fergs e exerceriam enorme
influência em minhas ideias e caminhada espírita.
Logo, fui promovido para Porto Alegre e resolvi, aqui,
me engajar no movimento espírita. Passei a colaborar com a Fergs
e com a Sociedade Espírita Luz e Caridade, hoje Centro Cultural
Espírita de Porto Alegre (CCEPA), estabelecendo essa relação
mais próxima com Salomão, Jones e outros companheiros.
Basicamente, é o mesmo grupo que segue junto até hoje
e que se ligaria, posteriormente, à CEPA – Confederação
Espírita Pan-Americana, à qual o CCEPA é filiado.
P - Que livros já publicou e
quais pretende publicar?
MM - Tenho algumas obras publicadas.
Meu primeiro livro (1999) é uma coletânea de pequenas crônicas
que por mim foram apresentadas diariamente em um programa de muita audiência,
aqui em Porto Alegre, conduzido pelo jornalista e político Jorge
Alberto Mendes Ribeiro (já desencarnado). O livro se chama “Se
Todos Fossem Iguais”, que é o título de uma das
crônicas. Três anos depois, publiquei “Direito e Justiça,
um Olhar Espírita”, enfocando alguns temas jurídicos
à luz do espiritismo. E, mais recentemente, lancei “O Espírito
de um Novo Tempo ou Um Novo Tempo para o Espírito” que
é composto de 100 crônicas, todas publicadas em importantes
órgãos de imprensa do Rio Grande do Sul e de outros estados,
sobre fatos relevantes dos primeiros 10 anos deste século. Afora
isso, colaborei em livros como “A CEPA e a Atualização
do Espiritismo” e “O Pensamento Atual da CEPA”, juntamente
com outros autores. Agora, estou sendo pressionado em casa para me dedicar
a uma nova publicação.
P - Em sua experiência como advogado,
houve algum momento crucial em termos de decisão jurídica
em que a sua formação espírita falou mais alto
do que a legalidade, do que o simples cumprimento da lei?
MM - Em toda minha atuação
como operador do Direito, busquei sempre a realização
da Justiça, muito mais do que do Direito. Tenho um compromisso
de consciência com o humanismo e penso que o Direito que se esgota
no formalismo não serve à Justiça. Mesmo na qualidade
de promotor, função que exige um certo rigor legal, notadamente
na área penal, nunca esqueci a frase dos romanos segundo a qual
“reus res sacra est” (o réu é coisa sagrada).
Recordo um episódio em que fiz um júri
em uma cidade próxima àquela em que eu era titular. Era
um caso de homicídio, no qual a culpabilidade do réu mostrava-se
evidente. Fiz minha obrigação, lutando pela condenação,
que, ao final, foi obtida. Eu não morava na cidade e ali fui
apenas para fazer o júri. A prefeitura da cidade me buscava em
casa uma vez por semana para atender a promotoria local que estava vaga.
Depois, o motorista do município me levava de volta para minha
cidade. Terminado o júri, tarde da noite, e determinado pelo
juiz o recolhimento do réu ao presídio, que se situava
na cidade onde eu morava, o juiz viu-se diante de um problema: não
havia como enviá-lo, àquela hora da noite, para o presídio.
Não tive dúvidas, ofereci que ele fosse comigo no veículo
da Prefeitura que me levaria de volta. O juiz argumentou que seria desconfortável
para mim viajar com o réu que eu acusara. Disse-lhe que não
haveria problema. Tratara-o durante todo o processo com o respeito e
a dignidade que todo o ser humano merece, portanto não sentiria
qualquer desconforto com a sua presença. Assim, viajamos juntos.
E acabou que conversamos muito durante a viagem. Pedi ao motorista que
o deixasse no presídio, onde o entreguei ao administrador. Depois
disso, nos falamos diversas vezes, durante as visitas regulares que
eu fazia ao presídio como promotor. Ele, inclusive, foi um preso
bem comportado e logo obteve os benefícios legais que reduziram
o tempo de sua reclusão.
P - Como advogado e espírita,
o que pensa a respeito da desobediência civil? Há momentos
em que fatores éticos possam suplantar o espírito da lei,
quanto ela estiver defasada em relação à realidade?
MM - Muitas vezes, a desobediência
civil implica, justamente, em atos de inteira justiça, embora
cometidos contra a lei. É um dos instrumentos de que se vale
a sociedade para que a lei possa se adequar aos ideais nobres da justiça.
As revoluções são sempre movimentos de rebeldia
ao status legal vigente. Buscam a quebra da ordem jurídica. Mas
o fazem em nome da justiça. Frequentemente são episódios
históricos tecidos de atitudes corajosas por parte de pessoas
ou grupos capazes de transformar a sociedade, mesmo que, no momento,
não sejam entendidas e até fracassem em suas tentativas
pioneiras, sofrendo as consequências legais advindas de sua desobediência.
Sem mártires desobedientes e transgressores, a História
não teria avançado. Muitas conquistas, hoje consensualizadas,
não teriam sido alcançadas. O progresso, em grande parte,
se dá justamente pela transgressão. Por de trás
do mito de Adão e Eva no Paraíso, comendo da “árvore
do conhecimento do bem e do mal” está um subliminar convite
à transgressão. A chamada desobediência civil, especialmente
quando qualificada pela não-violência, é um poderoso
instrumento de progresso da sociedade. Estão aí os históricos
exemplos de Gandhi, Martin Luther King, Dorothy Stang e tantos outros.
P - Que relação você
vê entre o direito natural e o direito sob a ótica espírita?
MM - Toda a moral espírita, exposta
notadamente na 3ª parte de “O Livro dos Espíritos”
é um tratado de Direito Natural. Tanto assim que, via de regra,
a primeira pergunta formulada por Allan Kardec, na análise de
cada uma das 10 leis morais, busca a inserção das mesmas
na Natureza:
– A adoração é um sentimento inato?
– A necessidade do trabalho está na Natureza?
– O progresso é uma lei natural? E a liberdade? E a igualdade?
... e assim por diante. Ao invés de buscar na revelação
o fundamento de cada lei moral, Kardec iniciava sua discussão
com os espíritos acerca de cada uma delas provocando-os a reconhecerem
seus fundamentos na própria natureza, na razão. Isso é
Direito Natural, ou seja, aqueles valores universais de onde promanam
as normas que devem reger uma sociedade e aos quais deve o Direito Positivo
manter-se fiel. O Direito Positivo, a partir dessas ideias, só
é legítimo se estiver em conformidade com esse Direito
Natural. Como dizia Hugo Grócio, o mais importante vulto da escola
do Direito Natural, este existiria mesmo que Deus não existisse
ou, existindo, não se importasse com as questões humanas.
O Direito Natural, assim, preexiste a qualquer ordem
jurídica ou a qualquer regramento. Os espíritos confirmaram
este conceito, ao dizerem que a lei natural está gravada na consciência
do homem. Não é uma revelação. Esta existe
para confirmá-lo e não para criá-lo. A lei natural,
assim, não é um produto do voluntarismo de Deus ou dos
deuses, mas uma imposição racional. A verdadeira “razão
divina” reflete-se na “razão humana”, gerando
uma concepção que rejeita qualquer sobrenaturalismo para
repousar inteiramente na própria natureza. Assim, não
caberá mais fazer a distinção entre “justiça
divina e justiça humana”, como, ingenuamente, eu fiz na
minha primeira palestra espírita, em Bagé. A justiça
é um valor em si, que independe de lei, de crenças e que
vigora no Universo, por mais que queiramos desrespeitá-la. É,
por isso, uma força cogente. A “pena” pelo seu descumprimento
é o sofrimento, dá-se no âmbito da própria
consciência do agente. Nesse sentido, também desaparecem
as distinções, normalmente feitas no âmbito jurídico,
entre Direito e Moral. Dizem os tratadistas que aquele é coercitivo,
pois sua transgressão gera uma pena, civil ou criminal. E que
a Moral não tem essa coercitividade. Mas, nessa visão
mais ampla, cósmica, a transgressão moral também
gera uma penalidade, que é o próprio sofrimento do agente.
P - Você considera, então,
que há uma ética universal, aplicável a todas as
latitudes, a todos os povos ou a ética deve ser relativa, conveniente
à realidade de determinada nação?
MM - Penso que há valores fundamentais
de validade universal. Kant, melhor do que ninguém, expressou-os
em seu conhecido “imperativo categórico”, verbalizado
desta forma:
“Age de tal sorte que a norma de tua ação
possa ser tomada como lei universal”.
Com esse enunciado, ele identifica, tal qual o faria
a filosofia espírita, que essas normas de ação,
de validade universal, estão na consciência humana. Aliás,
é também do famoso filósofo alemão esta
inspirada confissão:
“Duas coisas me enchem a alma de respeito e emoção:
o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim”.
A ética universal seria a própria lei
natural, capaz de reger todo o universo inteligente. Os espíritos
disseram a Kardec que todos podemos conhecê-la, mas nem sempre
nos é possível compreendê-la. Parece haver aí
uma contradição, mas interpreto que não compreendê-la
significa não termos desenvolvido ainda a capacidade intelectual,
racional, de avaliar os resultados negativos necessariamente trazidos
por sua violação. A revelação pode fazê-la
conhecida, mas só a razão permite sua compreensão.
A grande questão humana reside na aplicação
dessas normas no tempo e no espaço. Voltando às teorias
do Direito Natural, que partem, exatamente, do pressuposto da existência
de normas de validade universal, é forçoso reconhecer
que esses imperativos racionais não podem ser aplicados em todo
o tempo e lugar, diante da diversidade cultural dos povos. Por isso,
um jusnaturalista alemão do século 19, Rudolf Stammler,
propôs o que chamou de “Direito Natural de Conteúdo
Variável”. Sempre admitindo a existência de valores
universais, defendia que as regras positivas inspiradas nesses mesmos
valores fossem se modificando de acordo com as transformações
da vida social, política e econômica. Já no século
20, o francês Gabriel Renard aprimoraria esse conceito de Direito
Natural chamando-o não mais de “de conteúdo variável”
e sim, “de conteúdo progressivo”, pois a própria
razão humana está em contínuo evoluir.
A filosofia espírita admite, teoricamente, a
existência de uma ética universal. De tal forma que Allan
Kardec chegou a questionar os espíritos sobre a possibilidade
de as sociedades se regerem por essa “lei natural”, sem
o concurso de leis humanas (questão 794 L.E.). Os espíritos
responderam que até poderiam, se todos fossem capazes de bem
assimilar essa ética universal. Mas, aduziram, “a sociedade
tem suas exigências e precisa de leis especiais”.
P - A ética espírita
é universal ou deve ser compreendida e aplicada de acordo com
o contexto cultural e evolutivo? A ética evolui? Se evolui, isto
se dá em que direção, em que sentido?
MM - A ética espírita é
a própria lei natural, aquela que, segundo a questão 614
de O Livro dos Espíritos, indica o que devemos fazer ou deixar
de fazer. Nesse sentido, ela não é uma ética própria
de uma filosofia particular, ela não é espírita,
não é cristã, não é budista, ela
é universal, válida para toda a humanidade. As doutrinas,
as culturas, os ordenamentos religiosos e legais são imperativos
mais ou menos fiéis a essa ética universal. Na medida
em que dela se aproximam experimentam um processo evolutivo. Mas, especialmente
as religiões, funcionam frequentemente como forças de
contenção desse processo evolutivo que busca a plenitude
da ética universal. Adotando como definitivos alguns regramentos
próprios de uma época e que visavam o atingimento de alguma
etapa já superada, as religiões são forças
contrárias à evolução. Retardam a “compreensão”
da lei natural, embora esta já seja “conhecida” pelo
espírito imortal. Esse “conhecimento” de que fala
“O Livro dos Espíritos” às vezes é
meramente intuitivo, está na consciência, mas não
se transforma em norma de ação, por falta de condições
subjetivas ou mesmo, objetivas, culturais, religiosas ou sociais.
P - Considerando a sua vivência
como jornalista profissional e em sua atuação na área
da comunicação espírita, que avaliação
você faz hoje do chamado jornalismo espírita? A comunicação
espírita parou no tempo ou tem acompanhado as mudanças
tecnológicas e culturais?
MM - Os avanços têm sido
tímidos. Até se observa, de algum tempo para cá,
uma melhor adequação tecnológica. Há revistas
tradicionais que se renovaram graficamente. Já se utiliza melhor
a televisão, a internet. Mas, o conteúdo, a forma de comunicação,
realmente, parou no tempo. Os espíritas precisam entender que
a linguagem evangélica não mais comunica. Crianças,
no meu tempo, estudavam catecismo, história sagrada, na escola,
na igreja e em casa. Hoje a ética é inteiramente laica.
A linguagem religiosa ficou adstrita às igrejas, notadamente
às evangélicas. É preciso mudar a linguagem, fazer
a interlocução com a cultura, com o pensamento filosófico,
social, político. Isso que este site PENSE faz com admirável
propriedade. Sem isso, o espiritismo só será visto como
mais uma das seitas cristãs, e, justamente, a que menos aparece
e a que mais é escorraçada por todas as demais, como sendo
o “patinho feio” do cristianismo. Os espíritas, nesse
contexto, só são lembrados pelos comunicadores quando
acontece algum fenômeno paranormal, “sobrenatural”,
que possa ser explicado pela ótica da fé, a fé
espírita, com nuanças que a diferem das demais crenças,
porque pretensamente explica esses fenômenos. À imprensa
espírita e à atuação dos espíritas,
através dos meios de comunicação não-espíritas,
cabe o desafio de mudar isso, mostrando o espiritismo como uma proposta
moderna, capaz de fazer essa interlocução com todas as
áreas do conhecimento contemporâneo, sem essa aura de sobrenaturalidade.
P - A grande exposição
do espiritismo na mídia, no cinema, televisão, na internet
tem contribuído para o esclarecimento do que seja realmente seu
conteúdo filosófico e ético ou, ao contrário,
tem servido para descaracterizá-lo ainda mais? Gostou do filme
Nosso Lar? O que achou das homenagens que foram prestadas ao médium
mineiro Chico Xavier pelas escolas de samba nos desfiles de carnaval
deste ano? Por que a reação de boa parte dos espíritas
foi contrária a essa homenagem?
MM - Definitivamente, ou não,
o espiritismo que se conhece é esse. Não é o de
Allan Kardec, mas o de Chico Xavier e de seus mentores André
Luiz, Emmanuel, Irmão X etc. O carisma e a “santidade”
de Chico, de alguma forma, contam para o espiritismo. Mas, de igual
forma, o carisma de Irmã Dulce, de Frei Galvão e de suas
reconhecidas santidades, contam para a Igreja Católica. Neste
sentido, estamos todos irmanados e a grande massa não faz as
necessárias distinções.
Os filmes sobre Chico e sua obra, bem feitos e que emocionam
a todos os que assistem, contribuem bastante para essa miscigenação
de crenças, para esse ecumenismo à moda brasileira. Se
o espiritismo quer ser uma grande religião, a todos irmanando,
isso basta. Já cumpriu sua grande tarefa, no Brasil. Chico, merecidamente
homenageado inclusive por Escolas de Samba, foi o grande consolidador
dessa fé capaz de unir, com amor, tolerância e muitas obras
de caridade, todas as pessoas de fé.
Uma vez, conversando com um taxista, na Bahia, sobre
a religiosidade local, ele me disse que era católico e cultuava
Iemanjá e todos os orixás do candomblé. Quando
lhe revelei que era espírita, ele simplesmente disse: “católico
e espírita é a mesma coisa”. Nessa “mesma
coisa” ele se incluía, como católico que não
dispensava os grandes cultos aos orixás.
Agora, a grande proposta de Allan Kardec, evidentemente,
vai bem além disso. Esta até pode ser uma etapa, apropriada
a essa cultura que tem influências europeias, africanas, indígenas
e algumas outras menos votadas. Mas, temos que romper rapidamente com
isso se quisermos, efetivamente, contribuir para a adoção
de um novo paradigma científico/filosófico que tenha por
premissa a existência do espírito imortal, como essencialidade
humana, gerando uma nova consciência e uma nova postura perante
a vida. Que, afinal isso é o que busca o espiritismo. E esse
espiritismo ainda não chegou à maioria das pessoas que
se dizem espíritas e, muito menos, aos meios de comunicação.
Os filmes sobre Chico e sua obra retratam bem a etapa da caminhada em
que está o espiritismo no Brasil. Oxalá não contribuam
para que esta seja a última e definitiva.
P - O que você pensa a respeito
do projeto do pensador e escritor espírita Jaci Regis ao propor
o que denominou de espiritismo pós-cristão? É possível
pensar o espiritismo sem a presença do cristianismo, da moral
cristã ou essa corrente de pensamento está enraizada a
tal ponto que se torna quase impossível pensar o espiritismo
de uma forma não-cristã?
MM - Temos de reconhecer que o próprio
Allan Kardec estruturou toda sua proposta a partir da doutrina cristã.
O espiritismo é uma proposta científico/filosófica/moral
com pretensões de universalidade, mas com sólidas bases
cristãs. Sistematizado na França do século 19,
seis décadas depois da Revolução Francesa, está
impregnado do eurocentrismo cristão que marcara a formação
de seu fundador, dos pensadores em que se inspirou e da maioria dos
espíritos que acorreram a seu chamado para a grande interlocução
da qual resultaria a doutrina espírita. Até então,
o mundo que se entendia civilizado era o ocidental, cristão.
A Europa ainda se mantinha de costas para toda e qualquer outra civilização.
Olhava para a América como sua extensão, em processo ainda
de colonização. Outras culturas, praticamente, não
existiam para os europeus. A modernidade ali eclodira e as demais culturas
não haviam sido por ela atingidas, segundo os europeus.
Apesar disso, os pressupostos científico/filosóficos
em que se baseia o espiritismo são universais. A ideia do espírito,
de sua imortalidade, de sua comunicabilidade, está em todas as
culturas, em qualquer latitude e em todos os tempos. As consequências
éticas deduzíveis desses pressupostos também são
universais, no sentido da liberdade, da igualdade, da tolerância,
da justiça e do amor.
O mundo, no século 21, é totalmente diferente
daquele contemplado e sentido pelos europeus e pelo próprio Allan
Kardec, há 150 anos atrás. O fenômeno da globalização,
estimulado por essa verdadeira revolução da comunicação,
exige de todos os setores a adoção de uma linguagem comunicacionalmente
eficiente. A própria religião se adaptou a isso, no que
pode. Uma missa celebrada no Vaticano não é igual àquela
rezada na Igreja do Senhor do Bonfim, na Bahia, ou a que celebram os
padres cantores de São Paulo ou do Rio de Janeiro, que transformam
aquele rito em shows religiosos transmitidos pela televisão.
A ideia do espiritismo pós-cristão, tão
ardorosamente defendida por Jaci Regis, tem um fundamento digno de ser
examinado e que não pode deixar de ser aceito, a partir desta
interrogação: Afinal, o que é o cristianismo hoje?
O que ele é na sua base conceitual?
Quem pode responder a essa pergunta são os próprios
cristãos, como tais considerados pela cultura contemporânea.
Desde meados do século passado, cresceu no mundo ocidental um
movimento denominado “ecumenismo cristão”. Talvez
tenha sido um dos mais importantes movimentos da história do
cristianismo e que marcou profundamente as relações internas
entre os seguidores do cristianismo. Depois de séculos de graves
desentendimentos, de guerras santas e de intolerância, as igrejas
cristãs passaram a dialogar entre si. Não com o fim –
pelo menos numa primeira etapa – de promover sua unificação
(muito embora a mais importante dessas igrejas, a Romana, reivindique
essa condição unificadora, por se dizer a única
fundada por Jesus Cristo). O objetivo seria encontrar o que há
de comum entre elas e, com isso, recriar a identidade cristã,
que começara a se fragmentar com o cisma da Igreja Oriental Ortodoxa
e se aprofundara muito mais com a Reforma Protestante, a partir de Martinho
Lutero, no século 16. Pois bem, durante todo esse tempo, cada
um desses movimentos que se haviam fragmentado em milhares de igrejas
arrogava-se a prerrogativa de representar o verdadeiro cristianismo.
Para os católicos, os protestantes não eram cristãos.
Para os evangélicos, eles, e só eles, representavam o
autêntico cristianismo, reformado a partir de suas origens. O
movimento ecumênico do século 20 promoveu um grande acordo
entre todas essas igrejas, definindo o que é ser cristão.
Mesmo que nem todos adotassem exatamente os mesmos dogmas, muito menos
os mesmos ritos ou dispensassem os mesmos sacramentos, todos eles passaram
a se considerar mutuamente cristãos, a partir de algumas poucas
crenças fundamentais, quais fossem: A crença em Deus,
representado por três pessoas: Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito
Santo; o nascimento humano com o pecado original, resultado da desobediência
de Adão e Eva e só removível pelo batismo; e, especialmente,
a crença em Jesus Cristo como único Senhor e Salvador.
Todas as igrejas que guardassem e difundissem esses dogmas seriam cristãs.
Refundiu-se a grande comunidade cristã e, com surpresa para quem
acompanhara a história dos últimos séculos, começaram
a ocorrer cultos ecumênicos, celebração de casamentos
simultaneamente feitos por pastores e padres. Afinal, todos eram cristãos
e assim deviam se tratar entre si. Foi a forma que os cristãos
encontraram para não sucumbirem ante o secularismo e a indiferença
religiosa que avançava no século 20. Unidas naquilo que
lhes formava a base, sobreviveriam.
No tempo em que surgiu o espiritismo o panorama era
completamente diferente. O Ocidente, em cuja cultura nascera a doutrina
espírita ou era laico, agnóstico e materialista, ou era
religioso e cristão (católico ou evangélico), mas
essa palavra “CRISTÂO” ainda guardava uma acepção
eminentemente moral. Cristão era quem fizesse o bem, quem praticasse
a caridade. Foi nesse sentido que Allan Kardec usou, algumas vezes,
o adjetivo cristão. Hoje não é assim. Por força
dessa grande concordata feita pelas igrejas, cristãos são
os que pertencem às igrejas cristãs, os que estão
compromissados com elas pela fé. Há um consenso entre
as igrejas cristãs, respeitado e homologado pela cultura pós-moderna,
no sentido de reservar o adjetivo cristão como designativo de
uma fé, fundamentada justamente naqueles dogmas essenciais que
as reaproximaram.
Ora, esse novo conceito nada tem a ver com moral, com
ética. Esta, hoje, é totalmente laica, exigência
social, política, administrativa, reclamo popular relativamente
a seus governantes aos seus fornecedores, compradores, funcionários
do governo etc. Ser correto, solidário, responsável, honesto,
deixou de ser uma exigência religiosa, muito menos cristã.
Em alguns aspectos a ética cristã vai inteiramente contra
alguns consensos da sociedade moderna, como sejam, a liberdade sexual,
a igualdade entre homens e mulheres, a dissolubilidade do casamento;
e práticas como o uso de preservativo, o planejamento familiar,
a pesquisa científica com células-tronco e tantas outras
questões que estão na agenda de nosso tempo. Há
40 anos atrás, em nome da moral cristã se promoveu uma
formidável campanha visando a não introdução
do divórcio no Brasil. Também com o beneplácito
cristão, se instaurou um golpe de estado, dando lugar a uma ditadura
cruel que se justificava, no entendimento cristão, ante a iminência
do fantasma do comunismo ateu. Os militares que derrubaram Jango, naquele
1º de abril de 1964, tiveram seus brios insuflados pelas rezas
das beatas mineiras, em procissão pelas ruas de Belo Horizonte.
Bem, e o espiritismo? Este, em primeiro lugar não
é, não foi e nunca será aceito pelos cristãos
como um de seus ramos. A menos que aceitemos a Santíssima Trindade,
façamos batizados nos centros espíritas e celebremos casamentos
sem esquecer de declarar que deve ser para toda a vida, pois “o
que Deus uniu o homem não pode separar” (aí está
uma forte expressão da moral cristã).
E tem mais: não sendo nada disso, o espiritismo
ainda se propõe a ser um conhecimento capaz de rever seus posicionamentos,
de tempos em tempos, acompanhando a marcha do progresso. Coisa muito
diferente do cristianismo que repousa sobre dogmas inamovíveis
e cujo chefe supremo, inspirado pelo Espírito Santo, quando fala
em questões de fé, faze-o sob o selo da infalibilidade.
Então, assim como somos espiritualistas, sem
sermos uma religião, também aceitamos as magníficas
lições de Jesus de Nazaré, sem sermos cristãos.
Até porque Jesus de Nazaré nada tem a ver com o Jesus
Cristo, esse formidável mito dos cristãos.
O adjetivo “pós-cristão” para
designar essa forma de pensar parece adequado. Mas, apenas para adjetivar
um segmento, não para, com esse ou outro nome, se promover uma
ruptura radical com o espiritismo. A CEPA já nasceu com essa
postura laica, “pós-cristã”, progressista.
Mesmo deixando claras nossas divergências com as impregnações
cristãs do espiritismo religioso e reconhecendo as distorções
que isso impôs à compreensão da proposta original
de Allan Kardec, preferimos sempre manter a designação
original: ESPIRITISMO, termo cunhado por Allan Kardec e que nos parece
o mais adequado para essa ciência fundada na realidade do espírito
da qual defluem, naturalmente, consequências éticas aplicáveis
a todas as culturas do planeta. Mas, não há como deixar
de reconhecer que somos, de fato, um movimento pós-cristão.
E que, por outro lado, nossas raízes e conceitos eminentemente
kardecistas também autorizam que usemos essa expressão
– kardecistas – como uma forma de nos identificar, de marcar
nossa identidade própria, nesse grande mosaico que se tornou
o espiritismo. Isso, porém, no nosso sentir, não implica
em criar um novo movimento, com a denominação “kardecista”,
em contraposição ao espiritismo. Pensamos que há
muito espaço para o crescimento do espiritismo, dentro de uma
visão racional, moderna, progressista e livre-pensadora, efetivamente
“pós-cristã”. Nunca houve, como hoje, esse
espaço. É nessa senda que devemos avançar.
Jaci foi um homem admirável. Mesmo que o movimento
espírita hegemônico fizesse de conta que não o escutava
e de que ele sequer existia, sua influência foi e, principalmente,
será enorme nos próximos anos. Da verdadeira assunção
dessa identidade “pós-cristã” está
a depender a própria sobrevivência do espiritismo na cultura
pós-moderna. Mas, Jaci, como todo o homem que está a frente
de seu tempo, tinha pressa. Já não aguentava a perpetuação
desse atrelamento espírita à cultura judaico-cristã,
quando sua principal missão é, justamente, superá-la
e criar um novo paradigma. Daí sua inquietação,
sua inconformidade, sua proposta de ruptura e, até, sua renomeação.
P - Como advogado e espírita,
você é a favor do casamento homossexual? É a favor
ou contra a adoção de filhos por casais homossexuais?
O homossexualismo para você é um desvio sexual ou uma forma
de comportamento sexual natural, legítima e que deve ser respeitada
e tolerada? O fato de o espírito não ter sexo, de possuir
em si a polaridade sexual masculina e feminina pode servir para legitimar
o comportamento homossexual? O que acha da mudança de sexo: é
contra ou a favor?
MM - Bem, para falar sobre o chamado
“casamento homossexual”, eu preciso, antes, esclarecer o
que penso sobre a própria instituição do casamento,
sob o aspecto jurídico. Há uma velha e clássica
discussão acerca da natureza jurídica do casamento. Ele
é apenas contratual ou tem algum outro caráter que vai
além desse contratualismo? Penso, em primeiro lugar, que ele
acontece por uma lei natural de afinidade entre pessoas que se amam
e se completam, que necessitam uma da outra e que resolvem viver juntas,
pelo resto da vida, ou até que lhes seja conveniente e os faça
mais felizes. O casamento existe, fundamentalmente, porque as pessoas
se amam, porque nutrem sentimentos especiais uma pela outra. Todo o
resto são firulas. São simbolismos religiosos, sociais,
convencionais ou legais para celebrar um rito de passagem.
Na verdade, o casamento que, como diria Kardec (e o
disse expressamente na questão 695 de “O Livro dos Espíritos”)
“está na natureza” terminou por ser sacralizado pelas
religiões. Adornou-se-o como sendo um “chamado de Deus”,
uma predestinação divina, transformou-se-o em um sacramento,
solenizando-se-o de tal forma que perdeu quase toda sua naturalidade
para se fazer uma grande instituição. Daí a natureza
institucional que lhe foi conferida, primeiro pela religião e,
depois, pelo próprio Estado. Ainda hoje o casamento é
o mais solene dos atos jurídicos, e o próprio Código
Civil prescreve até as palavras que o presidente do ato deve
pronunciar ao celebrar esse verdadeiro ritual laico que é o matrimônio
civil.
Mas, os costumes, bem antes da lei, terminam por quebrar
esses excessos formalísticos, tornando as coisas mais simples,
funcionais e práticas, devolvendo-lhes a naturalidade que lhes
fora roubada. Por isso, de algumas décadas para cá, a
jurisprudência, e, depois dela, a própria lei, têm
valorizado e conferido à chamada “união estável”
os mesmos efeitos do casamento, solenemente celebrado e institucionalizado.
Quando ainda não existiam essas manifestações jurídicas
e o casamento era somente aquele que houvesse sido celebrado perante
o padre e o juiz, o povo simples do interior já se rebelava contra
isso e dizia: “casado é quem bem vive” (na minha
pequena cidade, havia quem dissesse: “casado é quem bem
veve”). Hoje é a própria lei quem diz isso. É
comum, agora, e perfeitamente jurídico, se fazerem contratos
particulares de união entre pessoas que pretendem conviver, regulando
as obrigações de um para com o outro e dispondo, inclusive,
sobre a partilha de bens entre eles, em caso de separação
ou de morte de um dos contratantes. Isso, ao tempo em que fiz minha
faculdade e me formei em Direito era tido como uma afronta à
lei. O advogado que fizesse um “contrato de casamento”,
como era popularmente chamado, em assistência a clientes que estavam
impedidos legalmente de casar (na época ainda não existia
o divórcio), corria o risco de ser punido pela OAB.
O que eu quero dizer com isso? Que, pouco a pouco, o
casamento vai perdendo o seu caráter sacral para se reduzir ao
que, efetivamente é: um acordo contratual, regulando aspectos
da vida a dois de pessoas que se atraíram mutuamente, por questões
de afinidade ou sentimento. O Estado pode e deve intervir nisso, não
como celebrante e nem como instituidor, mas como regulador dessas relações,
preservando os direitos de um e de outro e, evidentemente, da prole,
se dessa união resultarem filhos. Cada vez mais o casamento ou
aquilo que lhe é quase sinônimo, a união estável,
assume seu verdadeiro caráter, que é o de ser um contrato.
Contrato, aliás, que pode ser desfeito, de forma cada vez menos
solene. Legislação recente permite aos cônjuges,
quando estão de acordo com todas as cláusulas, promoverem
seu divórcio através de mero comparecimento a um tabelionato,
dispensando a solenidade da audiência judicial.
Agora, então, a pergunta: por que isso não
pode ser feito entre duas pessoas do mesmo sexo? A sociedade, pouco
a pouco, vai se acostumando a respeitar os legítimos sentimentos
de duas pessoas de igual sexo que resolvem estabelecer vida em comum.
E, mais uma vez, essa conquista social, essa mudança de costumes,
é fruto de uma luta feita contra a religião, eis que nesta
seguem enraizados os preconceitos que autorizaram no passado —
e ainda infelizmente estimulam no presente —, todo o tipo de violência
e discriminação contra os homossexuais. É o direito
de eles serem felizes que está em jogo. É questão
totalmente de foro íntimo que nem Estado, nem sociedade, nem
religião têm o direito de impedir. Vale aqui a pergunta:
e se fosse eu o homossexual, como gostaria que os outros me tratassem,
diante de uma circunstância dessa natureza e de uma decisão
pessoal minha no sentido de conviver com alguém de mesmo sexo?
Colocar-se no lugar do outro é a premissa da chamada regra de
ouro apontada como síntese dos ensinos de Jesus: empatia.
Há aqueles que, diante dos impulsos homossexuais,
optam por reprimi-los, impondo-se uma vida casta, por questões
de crença ou de cultura. É um direito que me parece respeitável,
na medida em que essas pessoas, em suas subjetividades, entendem aquele
impulso como “anormal”. Pessoalmente, no entanto, respeito
e admiro mais a coragem daqueles que se assumem, mesmo contra os preconceitos
ainda existentes, e buscam a vida de forma digna. Não tenho teoria
alguma para explicar as causas do homossexualismo. Estaria ligado a
vidas anteriores? Uma sequência longa de encarnações
em um sexo dificulta a adaptação psíquica do espírito
aos papéis desempenhados pelo outro sexo no qual venha a encarnar?
A experiência tem demonstrado que os homossexuais já nascem
com o psiquismo do outro sexo que não o biológico. Não
é uma questão de educação, mas fundamentalmente
de psiquismo, algo, podemos dizer, impregnado no espírito do
reencarnante. É preciso que se respeite essa realidade que os
faz diferentes, mas não menos dignos.
Quanto à adoção por casais homossexuais,
penso que quem é levado a esse objetivo o faz, via de regra,
por razões nobres. Há, no Brasil, milhões de crianças
abandonadas por seus pais, jogadas em cestas de lixo ou recolhidas de
ambientes onde lhes falta tudo e, notadamente, lhes falta o afeto. Estarão
bem melhor na companhia de duas pessoas que, sendo ou não do
mesmo sexo, se disponham a amá-las, educá-las e contribuir,
se for o caso, para a superação dos preconceitos que essa
situação possa despertar. Aí, mais uma vez, caberá
ao Estado examinar com cuidado o ambiente do casal homoafetivo que se
dispuser a fazer essa adoção. Hoje em dia, o mais comum
é que apenas um adote. Os costumes poderão avançar,
como já reconhecido por uma ou outra decisão judicial
e determinar ao legislador que reconheça, expressamente em lei,
esse direito-dever assumido por “casais” homossexuais.
O Estado, hoje, pelo menos em tese, se organiza muito
bem no que diz respeito ao controle de adoções. Antes
de se conceder uma criança à adoção, devem-se
fazer estudos sociais e psicológicos aprofundados. Isso, evidentemente,
há de ser feito também na eventual hipótese de
aceitação legal da adoção por pretendentes
homossexuais. E os supostos adotantes deverão estar muito cientes
de que, diante do preconceito social — inegavelmente presente
nos dias de hoje — novidades dessa natureza, que mexem profundamente
com costumes e normas morais arraigadas na sociedade, poderão
expor o adotado a situações desconfortantes e difíceis
de administrar. É provável que crianças nessas
circunstâncias necessitem de especial atendimento psicológico
e social que melhor os habilite a vivenciar suas relações,
principalmente com outras crianças, na fase escolar.
Tudo isso, entretanto, parece-me, em princípio,
administrável e, acima de tudo, superável, através
do carinho, do afeto e da firme disposição de acolher
e dar um lar a uma criança que não o tem.
Quanto à mudança de sexo. Penso que para
muitos homossexuais e transexuais deve ser bastante difícil conviver
com o paradoxo que a vida lhes interpôs: o fato de terem todo
o psiquismo de um sexo e o corpo de outro. Se os avanços científicos
podem corrigir isso, por que não se valer dos mesmos? Mais uma
vez, trata-se de questão inteiramente de foro íntimo.
A prática tem mostrado que muitas pessoas que têm se submetido
à mudança de sexo experimentam, após a cirurgia,
um grande bem-estar, equilibrando-se emocional e psiquicamente. Começam
nova vida, aceitando-se melhor e, por isso mesmo, sendo melhor aceitas
pelos outros. Também a doutrina e a jurisprudência têm
se mostrado bastante sensíveis a esses recursos que a ciência
médica é capaz, hoje, de disponibilizar. Decisões
judiciais, cada vez mais, vêm autorizando sua realização
e, uma vez operada a mudança de sexo, os registros públicos
alteram os dados e até o nome do paciente, mesmo que a lei declare
que o prenome é imutável, regra que cede ante a realidade
determinada pelo novo sexo obtido por via cirúrgica.
P - Que contribuição
pode dar o espiritismo à chamada Terceira Idade?
MM - O espetacular aumento da expectativa
de vida em todo o mundo está mudando a face da sociedade. É
sinal de progresso que o espiritismo tem o dever de acompanhar. Acho
que a melhor contribuição que o espiritismo pode dar a
esse novo fenômeno é o de aprofundar o conceito de que
uma encarnação, toda ela, deve representar oportunidade
de crescimento e aprendizado para o espírito. Se estamos vivendo
mais tempo no plano físico, e geralmente com mais qualidade de
vida, é importante que redimensionemos nossos hábitos,
prolongando o tempo de nossa contribuição efetiva e eficiente
à sociedade onde estamos inseridos. Se mais recebemos, mais temos
de dar. Já não faz nenhum sentido que pessoas aposentadas
aos 50 anos, como foi meu caso pessoal, ou aos 60 e mais, mas na plenitude
de sua saúde e na integridade de suas condições
mentais, se julgue isento de continuar oferecendo seus préstimos
sociais.
A questão 679 de “O Livro dos Espíritos”
ocupa-se da hipótese daqueles que possuem o suficiente para viver
e que, no entanto, não devem, só por isso, se considerarem
isentos do trabalho. Subsiste-lhes, desde que o possam, a obrigação
de se fazerem úteis. Dizem ali, os espíritos, que a obrigação
de sermos úteis aos semelhantes é tanto maior quanto maior
seja a cota de tempo livre de que dispomos. Penso que essa é
uma reflexão importante que o espiritismo pode oferecer aos integrantes
da hoje chamada “terceira idade”.
P - Que interesse poderia ter hoje
a juventude pelo espiritismo? O discurso doutrinário tem atingido
a mentalidade do jovem atual? Por que as mocidades e juventudes espíritas
não têm a mesma quantidade de jovens em suas fileiras,
como ocorria entre as décadas de 1950 e 1980?
MM - Suponho que, naquele tempo, o que
mais atraía o jovem ao centro espírita eram as tantas
atividades lúdicas que os centros ofereciam. Era a oportunidade
da convivência de uns com os outros, estimulada pelos pais espíritas
ou simpatizantes do espiritismo, que viam no centro espírita
um lugar saudável para abrigar seus filhos. Havia, então,
um maior e mais rígido controle por parte dos pais sobre a vida
dos adolescentes. Hoje, se multiplicam as formas de lazer, disponíveis
aos jovens desde muito cedo. A questão doutrinária lhes
vinha como acréscimo e a convivência os unia. Essa união,
não raro, os acompanharia para o resto da vida, resultando, muitas
vezes, em namoro e casamento. Nasciam, ali, famílias espíritas.
O interesse comum era, dessa forma, alimentado por essa convivência
que sedimentaria a vivência espírita pelo resto da vida.
Parece-me, entretanto, que via de regra, as questões
mais essenciais do espiritismo, como a visão de vida, os conceitos
que dizem com a imortalidade, com a essencialidade do espírito
e suas consequências filosóficas, não são
do tipo a atrair o interesse do ser humano, nas etapas iniciais de sua
vida, a não ser como imposições religiosas, de
que buscarão se libertar, logo ali adiante. A encarnação
implica em desafios materiais e de formação intelectual
e profissional que, ao lado das questões amorosas e lúdicas,
tomam quase que inteiramente o interesse dos jovens. Esse desafio, num
mundo competitivo como o que vivemos hoje, se faz cada vez mais absorvente.
Vencida a etapa universitária, há que entrar no mercado
de trabalho. Este exige especializações, aprimoramentos,
quase que necessariamente impõe a busca de pós-graduações,
de mestrados, doutorados, cursos no exterior etc. Esse quadro todo empurra
o jovem para uma postura pragmática perante a vida. Não
favorece questionamentos filosóficos daqueles que se constituem
na essência doutrinária do espiritismo. As grandes questões
da vida e da morte, da sobrevivência do espírito, da espiritualidade,
enfim, são postergadas para o futuro. A ideia de imortalidade
que povoa a mente dos jovens não é a do espírito,
é a da vida física mesmo. Ao que parece, questionamentos
e perquirições de espiritualidade se fazem mais concretos
na maturidade.
O espiritismo, então como filosofia, que é
sua característica essencial, seria um convite ao qual estão
mais suscetíveis aqueles que já encaminharam convenientemente
sua vida material, intelectual, amorosa, familiar, social e econômica.
Talvez seja exatamente por essa razão que, dentre aquelas correntes
tidas como religiosas, o espiritismo é o que mais adeptos tem
na classe média e nas pessoas com melhor escolaridade.
Penso que esse breve retrato de nosso tempo pode oferecer
algum caminho para explicar o desinteresse dos jovens pelo espiritismo,
diferentemente de outros tempos. Mas, essa é apenas uma opinião
subjetiva, que pode ser oferecida como hipótese de trabalho.
Apesar de tudo isso, entretanto, é necessário
descobrir formas de atrair. Os eventos espíritas que fazem a
interlocução da proposta espírita com áreas
específicas do conhecimento, como o direito, a medicina, a literatura,
a política, as ciências sociais e psicológicas,
as artes em geral etc., podem ser estímulos à participação
dos jovens, filhos de espíritas ou simpatizantes. Mesmo que eles
não participem regularmente dos centros espíritas. Os
conceitos que somos capazes de lhes transmitir na educação
familiar, na formação de seus caracteres, são muito
mais importantes que a frequência a um centro espírita.
E essa conexão com áreas específicas que talvez
sejam do interesse deles, pode qualificar sua participação
em eventos especiais. No âmbito da CEPA, temos tido algumas experiências
com esse tipo de atividade, com eventual, mas sempre qualificada participação
de jovens, filhos de espíritas.
P - A Confederação Espírita
Pan-Americana tem algum projeto de divulgação doutrinária
voltada para os jovens, crianças e idosos? Como você acha
que deveria ser estruturado esse projeto?
MM - Já há três anos
deixei a presidência da CEPA, entregando-a a um jovem e dinâmico
empresário argentino, Dante López, que tem toda uma história
de vivência pessoal num importante núcleo espírita,
que é a Sociedad Espiritismo Verdadero, de Rafaela, na Província
de Santa Fé. Lá, o movimento jovem espírita sempre
foi e continua sendo muito forte. A cidade, certamente a mais espírita
da Argentina, abriga enorme comunidade espírita que desenvolve,
em seu âmbito, um relacionamento familiar e afetivo muito intenso.
O espiritismo, lá, é um fenômeno social que tem
por bases muito firmes a família e a educação,
mantendo, inclusive, uma escola espírita, além de uma
fundação com objetivos sociais.
Essa experiência qualifica esta gestão
da CEPA para, a partir dela, multiplicar ações semelhantes.
Sei que os educadores e um grupo de jovens espíritas daquela
localidade trabalham em um importante projeto nessa área. Como,
entretanto, desde que deixei a presidência por mim ocupada por
oito anos, tenho me dedicado especificamente, no âmbito da CEPA,
à área de comunicação, não sou a
pessoa mais indicada para tratar do assunto. Gostaria, entretanto, de
acrescentar que a esse esforço e a esse projeto dos espíritas
de Rafaela junta-se também a experiência histórica,
ainda muito significativa, do movimento de mocidade existente em Santos-SP,
notadamente do Centro Espírita Allan Kardec.
Penso que, vencida e consolidada uma etapa importante
de reorganização da Confederação Espírita
Pan-Americana, a partir da gestão de Jon Aizpúrua, que
me antecedeu na presidência e que, em nossas respectivas gestões,
teve como escopo primordial a definição de um perfil laico,
progressista e livre-pensador da entidade, esses projetos mais específicos
terão, agora, melhor curso. A questão da juventude há
de ser, pelo que conheço do perfil de Dante López e seus
assessores mais próximos, uma das mais importantes prioridades.
P - Nos anos 60 o filósofo portenho
Humberto Mariotti usou a expressão “esquerda kardequiana”
para se referir a setores do movimento espírita brasileiro de
mentalidade mais progressista, especialmente o Movimento Universitário
Espírita (MUE). E hoje? Existe essa “esquerda kardequiana”
ou essa rotulação já faz parte do passado? O socialismo,
bandeira de muitos espíritas nas décadas anteriores à
queda do Muro de Berlim e do poderio soviético, é um ideal
ultrapassado?
MM - Penso que o primeiro questionamento
que devemos fazer aí é se ainda existe uma “esquerda”
na sociedade pós-moderna. Não estou falando no plano das
ideias, mas, especificamente, na práxis política.
A globalização e as leis econômicas
do capitalismo levaram o mundo de roldão. Empurraram-no para
um comportamento pragmático, onde já não há
lugar para as ideologias.
Humberto Mariotti, Manuel Porteiro e os destemidos impulsionadores
do MUE, no Brasil, viveram o tempo mais explosivo da polaridade direita/esquerda.
Na medida em que, diferentemente da maior parte da esquerda, foram capazes
de vislumbrar algo além do materialismo, aplicando as leis da
dialética à realidade do espírito, vislumbraram
no espiritismo o campo ideal para a aplicação de uma teoria
e de uma prática socialistas.
Penso que seus pressupostos teóricos continuam
válidos e com um riquíssimo conteúdo filosófico
e sociológico. Mas, talvez, seja preciso esperar um pouco até
baixar a febre que tomou conta desse mundo competitivo, gerador de um
capitalismo desumano e também que se esgote a teoria materialista,
para que a mensagem deles possa ser minimamente entendida. O movimento
espírita, como já se disse, é um genuíno
movimento de classe média, razoavelmente letrada, mas que se
contrapõe a essa onda materialista que tomou conta do mundo.
Esse materialismo, como aliás antecipou algumas vezes Kardec,
foi em grande parte gerado pelo comportamento estático, anticientífico
e antiprogressista das religiões. Enquanto o espiritismo for
definido, vivido e difundido como mais uma religião, estará
afastando do exame de seus pressupostos teóricos muitas pessoas
que teriam chance de compreendê-lo como filosofia progressista
e com um rico conteúdo social. Seria uma forma de romper com
o preconceito que o socialismo alimenta contra toda a forma de espiritualidade,
porque a confunde com religião.
P - Você vê no espiritismo
características sócio-políticas que o aproximam
do anarquismo, de propostas libertárias? O espiritismo é
liberal, socialista ou anarquista? Ou seria ele neutro em relação
às tendências políticas existentes?
MM - Allan Kardec estava longe de se
enquadrar no perfil de um anarquista.Também não tinha
muita afinidade com o socialismo. Seu perfil era o de um liberal, de
seu tempo. Prezava muito os modelos organizacionais e o sentido de autoridade,
especialmente aquela que defluia da superioridade moral do agente.
Desejava um movimento espírita bem organizado,
estruturado em bases firmes, mas, como livre-pensador que era, via nas
propostas espíritas um poderoso instrumento de libertação
do espírito. Nada mais libertador do que o pressuposto filosófico
espírita de que doutrina alguma “salva” alguém.
A introdução do conceito de evolução moral
como conquista individual do espírito, em contrapartida às
doutrinas religiosas salvacionistas, confere ao espiritismo uma característica
eminentemente libertadora de consciências.
Ora, uma doutrina com essas características não
pode eleger “chefias”, não se compatibiliza com “unificação”
organizacional ou de práticas doutrinárias. Nisso ele
tem um pouco de anarquismo e muito de libertário.
Não sei se o espiritismo tem o condão
de encaminhar todos os seus simpatizantes e aderentes a uma visão
socialista. Mas, pessoalmente, identifico nele propostas muito próximas
do socialismo e, até mesmo, do anarquismo. Quando Kardec provoca
os espíritos a se manifestarem sobre a desigualdade das riquezas,
estes não as atribuem exclusivamente à diversidade de
aptidões, mas chamam a atenção para “a astúcia
e o roubo”, cujo emprego estaria na origem da aquisição
de muitas fortunas (L.E. q.808). Quase estão a lembrar Proudhon,
famoso anarquista francês, contemporâneo de Kardec, para
quem “toda a propriedade é um roubo”. Vão
fundo na própria questão das riquezas herdadas, atribuindo
a quem as recebeu, sem as produzir, enorme responsabilidade no sentido
de sua socialização ou, pelo menos, de seu emprego em
favor dos outros (questões 809 e 810). Mesmo assim, rejeitam,
Kardec e os espíritos, a hipótese da igualdade absoluta
das riquezas (q.811).
Já a questão 885, admitindo a legitimidade
da propriedade, no início da resposta, parece querer antecipar,
lá no seu final, que esta um dia será banida das legislações
humanas, porque “o que num século parece perfeito afigura-se
bárbaro no século seguinte”.
Como síntese da análise desses posicionamentos,
é de se destacar que Allan Kardec demonstrava um perfil levemente
liberal. Mas tinha preocupações, e as expôs aos
espíritos, sobre as grandes propostas socialistas de seu tempo.
Como liberal, entretanto, prezava a organização social,
via no Estado um fiador do progresso através de regras que levassem
à ordem, ao respeito às liberdades no campo da consciência,
do pensamento, de sua manifestação e também no
setor econômico e social.
Pessoalmente, entretanto, inclino-me a ver no espiritismo
um caminho a conduzir a um socialismo pacífico, sem lugar para
lutas de classes, mais nos moldes do “socialismo utópico”
que antecedeu os movimentos armados e violentos dos séculos 19
e 20. Para o atingimento desse estágio, entretanto – e
isso está muito claro na proposta espírita, sendo sua
verdadeira base moral – o ser humano precisa conquistar um adiantamento
ético ainda incompatível com os costumes vigentes.
O socialismo verdadeiro, visualizado pelo espiritismo,
não se compatibiliza com o egoísmo, com o orgulho, com
a ganância material, com a injusta distribuição
de renda, com a espoliação do mais fraco pelo mais forte.
Muito menos com a formação de castas dirigentes de um
Estado ateu, materialista e privilegiador de grupos ideológicos
ou de classes. Exige, fundamentalmente, muita renúncia pessoal,
colocando-se acima dos interesses individuais os anseios coletivos.
Sem um significativo avanço nesse campo da ética individual,
não se instaurará a ética coletiva capaz de sustentar
uma sociedade justa, feliz e igualitária.
P - Existe uma utopia espírita?
MM - Utopia, etimologicamente, significa
lugar nenhum. Ora, uma doutrina que privilegia o espírito como
realidade essencial do ser humano; que, praticamente, vê na matéria
nada mais do que um provisório instrumento de evolução
do espírito, ou da consciência, considerados esses conceitos
como a própria superação de qualquer referencial
de tempo e lugar, é, conceitualmente, uma UTOPIA.
Não temos, os seres humanos, ainda a menor condição
de entendermos o PROJETO humano. Aonde nos levará esse projeto
que já foi capaz de feitos e avanços tão significativos?
Mas, o espiritismo nos aponta um rumo. A clássica afirmação
de Allan Kardec, tomada como referência do site PENSE, diz, com
muita propriedade:
“A aspiração por uma ordem superior de coisas é
indício da possibilidade de atingi-la. Cabe aos homens progressistas
ativar esse movimento pelo estudo e aplicação dos meios
mais eficazes."
É justamente essa “aspiração”,
que grita no âmago da alma humana mais atrasada, o indício
mais certo de que podemos atingir uma ordem mais elevada: aquela que
somos capazes de sonhar, mas, que, às vezes, reputamos inatingível.
Para termos uma pálida ideia do potencial
criativo do espírito humano, basta olhar para trás. Confrontar
o passado com o presente. Esse confronto possibilita ajuizar algo do
que seremos. Mas, nem tudo. A utopia do espírito não cabe
nas dimensões do perceptível. A do espiritismo também.
Entrevista concedida ao site PENSE, em agosto/2011
Fonte: http://www.viasantos.com/pense/arquivo/1347.html