Espiritualidade e Sociedade



Milton R. Medran Moreira

>  O mundo pede mudanças

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Milton R. Medran Moreira
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Um dos bordões mais utilizados na cobertura das eleições presidenciais norte-americanas foi o de que se estava escolhendo, ali, o homem mais poderoso do planeta. Talvez não seja exatamente isso. O mundo vive hoje uma crise política sem igual. O avassalador crescimento da economia global, movida pela mão invisível do mercado, acabou por gerar uma situação sui generis: o poder político, teoricamente motor da gestão estatal, nunca esteve, como hoje, tão dependente do mercado. Este, com métodos próprios e sem a necessidade de prestar contas a ninguém, assumiu o efetivo comando do destino de povos e nações.

A crise política que acaba de se abater sobre a economia mundial comprova essa realidade. Tão logo deram sinal de enfrentar dificuldades, instituições financeiras passaram a exercer forte pressão sobre o erário do mais rico país do planeta. Rapidamente, injetaram-se nas veias do capitalismo mundial pesados recursos advindos dos impostos pagos por seus cidadãos. Era preciso salvar a economia para que o país saísse da crise que os próprios gestores do mercado haviam produzido com seus fortes apelos ao consumo.

A economia de mercado gerou no mundo uma equação de difícil solução. A sofisticada tecnologia de nosso tempo é capaz de produzir bens de consumo cada vez mais fascinantes. A abundância desses bens, aliada ao crédito fácil, traz a concorrência desenfreada e o consumismo exacerbado. Consome-se por consumir, extrapolando-se as reais necessidades e as próprias capacidades de endividamento dos consumidores. Keneth Serbin, professor de História na Universidade de San Diego, Califórnia, em artigo na Folha de S. Paulo (19/10/08), sobre o atual momento vivido por seu país, registra: “Em termos morais, os norte-americanos substituíram o cristianismo por uma nova religião do sucesso. Essa religião não tem vida após a morte nem consideração pelas gerações futuras, pois seu credo consiste em consumir o máximo possível aqui e agora”.

Especialistas debitam justamente ao consumismo exagerado as causas da crise econômica que se abateu sobre o mundo, empobrecendo milhões de pessoas e comprometendo a saúde financeira de grandes ícones do capitalismo mundial. A estes últimos, o Estado, pressionado, termina por socorrer. Já os infelizes consumidores, vítimas da especulação e de sua própria invigilância, terão que amargar as conseqüências de seus desatinos.

Ao novo futuro dirigente da maior nação do planeta caberá enfrentar essas contradições que o mundo moderno gerou. Seu poder, embora politicamente imenso, está, no entanto, seriamente comprometido pelas concessões que a política foi fazendo à economia de mercado, cuja mão, por invisível e, por isso, inimputável, seguirá engendrando fórmulas capazes de produzir mais e mais lucros com menores riscos.

Pelo menos enquanto o ser humano não atentar para alguns valores essenciais da vida, o quadro seguirá sendo este. Na raiz dessa situação está justamente a desmedida ambição que contamina pobres e ricos. Os primeiros escravizam-se, facilmente, ao pouco que têm e, freqüentemente, àquilo que sequer possuem, obcecados pelo desejo de, um dia, possuírem. Os segundos valem-se do real poder que as riquezas lhes concedem para inculcarem na mente dos demais a ilusória idéia de que toda a felicidade consiste no ter.

A opção agora feita pelos eleitores do país mais rico do mundo, em meio a uma séria crise, elegendo um homem de origem humilde e de etnia até hoje praticamente alijada do poder político, indica desejos de mudança. Oxalá, no entanto, se dêem conta de que, muito mais que câmbios políticos, os novos tempos exigem mudanças de atitudes perante a vida. É preciso resgatar alguns valores culturais e espirituais que estão, por natureza, fora do mercado. Mesmo temporariamente anestesiados por este, eles subsistem na consciência íntima do ser humano e, em tempos de crise, explodem tentando inaugurar novos paradigmas de pensamento e ação. E isso depende de governantes e governados.



* Advogado e jornalista


Revista Espírita
HARMONIA

 

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