AUTO-DE-FÉ DE BARCELONA
– 150 ANOS
Milton R. Medran Moreira
Aconteceu em 9 de outubro de 1861.
Há 150 anos, portanto. O espiritismo era uma novidade, recém
lançada em Paris. Os livros de Allan Kardec faziam sucesso na
França. Por isso, uma livraria de Barcelona resolveu importá-los
para que os espanhóis pudessem conhecer as novas teorias sobre
o “a natureza, origem e destino dos espíritos e suas relações
com o mundo material”, que era como Kardec definia a ciência
e filosofia que acabara de sistematizar. A França, na época,
mesmo vivendo sob o regime autoritário de Napoleão III,
respirava ares de liberdade intelectual. Diferentemente da Espanha,
ainda dominada por resquícios teocráticos medievais.

Pois mal os livros desembarcaram no
porto de Barcelona, o bispo da cidade, Manuel Joaquín Tarancón
y Morón, ordenou sua apreensão e incineração
na esplanada da cidade. O decreto episcopal rezava: “A Igreja
Católica é universal, e sendo os livros contrários
à fé católica, o governo não pode consentir
que eles venham a perverter a moral e a religião de outros países”.
Foi dessa forma que, na mencionada data,
segundo consignaria uma testemunha, “às dez horas e meia
da manhã, sobre a esplanada da cidade de Barcelona, no lugar
onde são executados os criminosos condenados ao último
suplício, e por ordem do bispo desta cidade, foram queimados
trezentos volumes e brochuras sobre o espiritismo”. O relato registrou
a presença das seguintes pessoas: “Um padre revestido das
roupas sacerdotais, trazendo a cruz numa mão e a tocha na outra
mão; um notário encarregado de redigir a ata do auto-de-fé;
o escrevente do notário; um empregado superior da administração
da alfândega; três moços (serventes) da alfândega,
encarregados de manter o fogo; um agente da alfândega representando
o proprietário das obras condenadas pelo bispo”. Acrescentou
a testemunha: “Uma multidão inumerável encobria
os passeios e cobria a imensa esplanada onde se elevava a fogueira”.
O relato concluiu assim: “Quando o fogo consumiu os trezentos
volumes ou brochuras espíritas, o padre e seus ajudantes se retiraram,
cobertos pelas vaias e as maldições dos numerosos assistentes
que gritavam: Abaixo a Inquisição! Numerosas pessoas,
em seguida, se aproximaram da fogueira e recolheram suas cinzas”.
O testemunho, estampado na “Revista
Espírita”, então editada por Allan Kardec, mereceu
vigoroso comentário do editor, estranhando que, em pleno Século
19, ainda se censurassem livros na Espanha e que essa tarefa fosse atribuída
a autoridades eclesiásticas. Allan Kardec chamou isso de um “resto
da Idade Média” e juntou a seu comentário a comunicação
de um Espírito, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas,
que assim se manifestara: “Hoje a retaguarda da inquisição
fez seu último auto-de-fé”. Mesmo condenando-o,
previa Kardec que o acontecimento seria proveitoso ao espiritismo, pois
“a perseguição sempre foi aproveitável à
ideia que se quis proscrever”, já que “por aí
se lhe exalta a importância, se lhe desperta a atenção,
fazendo-o conhecer por aqueles que o ignoram”. De fato, nas décadas
seguintes, o espiritismo teria na Espanha um extraordinário incremento,
sendo um dos países onde mais se cultivaram suas ideias, até
a eclosão de novos eventos tirânicos, como a 1ª e
2ª Guerras Mundiais e, especialmente, a ditadura franquista do
Século 20, quando, novamente em colaboração com
a Igreja Católica, o espiritismo foi reprimido e sua prática
punida pelo Estado.
Claro que já não se queimam
livros e, tampouco, autoridades religiosas de hoje, seja na Europa ou
na América, se arrogariam o direito de lhes impor a censura civil.
Mas, decorridos 150 anos, perdura a dicotomia crença x liberdade
de pensamento. Essa aparente inconciliabilidade só será
dissipada quando se entender que não existe aquilo que o bispo
de Barcelona classificou como uma fé “universal”.
O mais rico patrimônio do espírito humano é sua
capacidade de raciocinar e sua liberdade de agir de acordo com o pensamento,
o que leva, necessariamente, ao pluralismo de ideias e crenças.
Razão e liberdade. Estão
aí os dois grandes atributos do espírito. Daí a
lapidar afirmativa de Allan Kardec: “Fé inabalável
só é aquela que pode encarar a razão, face a face,
em qualquer época da Humanidade”.
Artigo publicado no jornal “O Sul”, de Porto
Alegre, em 28/10/2011